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As cartas da escritora portuguesa além de notícias literárias como o lançamento da próxima Antologia do Conto fantástico Português, das suas 39 Tisanas, trazem desabafos e ela também escreve de si mesma, de um acidente de carro, das viagens, da volta a Portugal quando esteve na Inglaterra por dois anos, de suas angústias pessoais, da morte e doença de sua única filha, sempre revelando carinho e ternura, preocupação com a saúde de Murilo Rubião.

Ana Hatherly tinha uma doença no olho direito, tremiam-lhe as pálpebras e o globo ocular, chegando mesmo a sentir uma espécie de espasmo ou convulsões, causando paralisia de parte do rosto e do pescoço, como ela escreve em carta. Em muito lutou contra essa doença e muito a ela se referiu nas cartas, pois era impedida de ler e escrever. Em carta de 19 de março de 1969, brinca com a doença, ao enviar texto “Invisibilidade” para o Suplemento comemorativo de terceiro aniversário, acha-o oportuno, pois quase já não enxergava, embora saliente que a visibilidade de que trata

no texto seja outra. E acrescenta que acontecerá em Lisboa na Galeria Quadrante a sua primeira exposição, e como não está enxergando declarará que tem “o complexo de Camões (poeta Barolho)”.

Um cartão e duas cartas datadas de 1967 são as primeiras comunicações escritas de Ana Hatherly a Murilo que encontrei no Acervo de Escritores Mineiros. No cartão timbrado, manuscrito, frente e verso, datado de 19 de maio de 1967, vindo de Lisboa, a poeta agradece por ter recebido exemplar do Suplemento, escreve ter lido com maior interesse e envia-lhe um livro seu. Pergunta sobre o recebimento das revistas de vanguarda

Operação 1 e 2 que ficaram a cargo de E. M. e Castro enviá-las a Murilo Rubião e

Affonso Ávila. Informa acerca da visita de Ubirasçu Carneiro da Cunha e lamenta que a entrevista que lhe concedera, publicada no Suplemento, por falta de informação adequada, tenha dado uma idéia tão desajustada dela e de seu trabalho literário. Escreve ter divulgado o livro de contos de Murilo Rubião, noticia que virá em breve ao Brasil e intenta visitá-lo. Termina o cartão com um cordialmente e assina. Esse cartão já traz marcas que permanecerão durante todo o período em que ela troca correspondências com Murilo Rubião. A missivista sempre se coloca como uma admiradora do contista e de forma muito humilde apresenta-se a ele.

Em 1967, Ana Hatherly escreve ainda várias vezes para Murilo Rubião; datadas de 24 de outubro, chegam de Lisboa duas páginas datilografadas em resposta à carta de Murilo Rubião de setembro que havia sido enviada à poeta para Inglaterra, onde esteve durante os meses de agosto, setembro e outubro. Ela informa que sairá em breve a

Antologia do conto fantástico português séculos XIX e XX a qual enviará ao contista.

Envia junto à carta um texto e pergunta se Murilo Rubião quer publicá-lo no

Suplemento, acrescentando que o texto é divertido. No sexto parágrafo da carta Ana

Hatherly presta uma reverência ao contista ao escrever: “E deixe-me dizer-lhe: eu adorei sempre meus mestres e todos os mestres me adoram. Eu sou o ideal de todos os mestres (...)” (p. 2).

Ao elogiar o mestre, também se auto-elogia, se diz uma discípula ideal que os mestres adoram. Esse será daí para frente o tom com que Murilo Rubião será referenciado nas cartas da poeta. Ela tem para com seu endereçado uma atitude de respeito e admiração e toma-o sempre como o mestre, colocando-se como discípula. E em carta sem data,

escrita de Ouro Preto, em setembro de 1967, Murilo Rubião lhe responde “Tenho a impressão que poderia amar a discípula, eu que já fui professor e nunca mestre” (p. 1).

Na mesma carta de 24 de outubro de 1967, Ana Hatherly pergunta por que Ubirasçu teria vindo para o Brasil sem se despedir dela, escreve ter gostado dele mas suspeita que ele não tenha gostado dos portugueses. Observa que Ubirasçu Carneiro da Cunha é uma pessoa frágil e acrescenta “isto aqui é muito violento e as pessoas rudes”. Acerca de sua estada em Inglaterra gostaria de dividir e contar muito a Murilo, afinal fez muitas experiências e visitou centros avançados de arte, assistiu a filmes e comprou “roupas prodigiosas” que ele certamente gostaria. Finaliza a carta com um “muito obrigado” por ele ser tão simpático com ela e um “Bem haja”.

Em 22 de novembro de 1967 Ana Hatherly envia a Murilo um pequeno cartão manuscrito acompanhando a antologia que prometera enviar-lhe na carta de 24 de outubro. Afirma que em sua opinião “ninguém é compreensível a Murilo” e que continua sempre a falar dele. Pergunta por que o livro de Murilo Rubião não é distribuído em Portugal e informa que muita gente séria o comprou.

O grau de intimidade das cartas vai cada vez mais se intensificando e as entradas das primeiras cartas e cartões passam de “Caro Murilo Rubião”, “Caríssimo Murilo Rubião” a simplesmente “Murilo Rubião” e as despedidas vão desde “Muitas e afetuosas lembranças da sua admiradora e amiga” a “Cuide-se, Murilo, viu? Abraço” ou a um simples e corriqueiro “Até breve”, revelando já o despojamento e o abandono da formalidade presente nas primeiras cartas. Permanece, desde os primeiros cartões até a última carta que li de 27 de outubro de 1973 um tom cordial de amizade e afeto de Ana Hatherly para com Murilo Rubião.

O que há de comum em todas as cartas de Ana Hatherly além do tom são os assuntos nelas tratados: há sempre referência à obra de Murilo Rubião, a artigos em revistas de literatura em Portugal acerca de sua obra, à viagem da poeta ao Brasil. E, como não podia deixar ser referido, o assunto da homenagem que o Suplemento Literário prestou à poesia de vanguarda portuguesa. Esse número especial que causou constrangimentos diplomáticos entre os dois países, foi realizado também através das correspondências.

Já na carta de 22 de fevereiro de 1968, Murilo Rubião informa a poeta que lhe prestará uma homenagem nas páginas do periódico e solicita-lhe uma série de dados, desde foto, dados bibliográficos, poemas, artigos, contos, num total de oito itens, cuidadosamente enumerados. E em 25 de janeiro de 1969, escreve novamente a Ana Hatherly para informar-lhe do atraso que sofreu o número sobre a literatura nova de Portugal, devido ao desaparecimento de todo o material como fotos, desenhos e textos. Como o relacionamento missivista entre Murilo Rubião e Ana Hatherly era baseado numa admiração mútua e num elogio constante que beirava a sedução, quando ele lhe pede textos para publicar no número especial, deixa entender, como se pode ver nas cartas, que esse seria em homenagem a ela “Gostaríamos de lhe prestar (nas páginas do SL) uma pequena homenagem e fazer a sua apresentação ao público mineiro e brasileiro” (Belo Horizonte, 26 fev. 1968, p. 1, grifo acrescentado). E em 5 de julho de 1969 reafirma o que escrevera.

E, em verdade, o número especial era para ser dedicado exclusivamente a você e o motivo seria a sua viagem ao Brasil. Todavia, aceitando uma sugestão do E. M. de Melo e Castro, sugestão para a qual pedi sua aprovação no Hotel Del Rei, em Belo Horizonte, resolvi ampliar o projeto. Como lamento não ter ficado com a idéia original (p. 1).

E em carta de 06 de março de 1968, a poeta escreve se dizendo encantada com o que o

Suplemento irá fazer e agradece o interesse pelo seu trabalho, pois é uma grande honra

para ela. Envia junto o material solicitado para publicação. Entretanto, os números especiais, de primeiro e oito de março de 1969, organizados por Arnaldo Saraiva, E. M. de Melo e Castro, Laís Corrêa de Araújo, Affonso Ávila e outros, fora dedicado à literatura portuguesa então contemporânea e não só a Ana Hatherly, nele comparecendo vários escritores. Como já foi escrito neste trabalho esse periódico foi interpretado como provocação política pelo governo Salazar e vários autores foram à Embaixada Brasileira em Portugal para conversar com o adido cultural Otto Lara Rezende, entre eles Ana Hatherly. Além de provocação política, o periódico causou ciúmes entre escritores portugueses que nele não apareceram ou pouco apareceram. A poeta viu a não aceitação do Suplemento como despeito, ciúme por parte de seus conterrâneos, por ela ter sido uma das escritoras mais destacadas nos números. Sabendo do alarde que o Suplemento dedicado à jovem literatura portuguesa provocou, escreveu ter sido acusada de “ter feito uma auto-promoção descarada obrigando-vos com astúcia e artimanhas a publicarem

tantos textos meus”. E ironiza “De facto, com a vossa generosidade esquecestes o despeito dos menos favorecidos com a vossa preferência...” (Lisboa, 19 març. 1968).

E em carta de 7 de abril de 1969 informa que escreveu a Laís Corrêa de Araújo acerca do escândalo provocado pelo Suplemento especial, sendo acusada de ter obrigado os mineiros dedicarem-no a ela. Sendo assim, a imprensa portuguesa recusa a fazer referência ao periódico, necessitando da intervenção de Otto Lara Rezende, porém sem resultados, ela informa. Atribui a esse fato a dificuldade que estava encontrando em publicar em Portugal seu artigo sobre Murilo Rubião. Além disso, a referida exposição na Galeria Quadrante, segundo escreve, acabou por provocar manifestações contra ela. Sendo assim, por estar em meio a uma guerra intelectual, em meio a “um tiroteio em seu país”, resolveu, juntamente com Manuel Lima e Mario Cesariny fundar um jornal- O

caracol que fuma. Segundo a poeta, este ainda é um projeto confidencial. Além disso,

como arma que tem para usar nessa guerra, conta com o lançamento em breve do seu livro 39 Tisanas e com o fato de seu livro O Mestre, que já fazia parte do currículo da Universidade do Rio, ter sido também incluído no currículo da Universidade de Salvador. Fora também convidada, durante a sua exposição, para visitar algumas universidades inglesas e expor lá seus trabalhos.

Um outro desabafo de Ana Hatherly também se repete na longa carta de 19 de março de 1969. Referindo-se ao episódio do suplemento especial, escreve estar acostumada a críticas desagradáveis por parte de seus colegas, e acrescenta que se vivem momentos difíceis em sua terra, pois “surge um muro invisível da inércia, da indiferença muito mesclada porém de má vontade e desejo de não ajudar” (p. 2). Deseja ir embora, planeja uma viagem para os Estados Unidos e uma volta ao Brasil.

Entre os papéis que fazem parte das correspondências doadas pela poeta há cinco páginas datilografadas, cujo título é Por uma sociologia da Literatura Portuguesa na

segunda metade do século XX, porém sem identificação, sem assinatura explícita, mas,

certamente pelo conteúdo neles escritos são de autoria de Ana Hatherly. Nesses papéis, que sofreram muitas correções, há muitas palavras rabiscadas, manuscritas, há um eu que justifica o fato de o Suplemento Literário ter dado ênfase à obra da portuguesa. Após traçar um breve e elogioso histórico do periódico, Ana Hatherly narra a boa repercussão, no Brasil, do número especial dedicado à Literatura Portuguesa e à má

repercussão que teve na imprensa portuguesa. E chama atenção para o fato que considera sociologicamente notável e interessante, pelo que representa de pequenez e provincianismo, que foi a reação de alguns colegas escritores que não figuraram no número especial ou não estavam destacados como desejavam.

Sabia-se que os organizadores portugueses foram E. M. de Melo e Castro e Arnaldo Saraiva, entretanto, alguns nomes que constam no periódico não foram sugeridos por eles, o que leva a crer, segundo Ana Hatherly, que essa foi atitude dos organizadores brasileiros. E, para servir de documento para a futura sociologia das Letras em Portugal do século XX , procura com o texto enumerar algumas informações, entre elas o desejo do Suplemento Literário em dedicar um número a sua obra mais recente e sua objeção, informando-lhes que havia outros escritores portugueses para divulgar. A consulta da direção do periódico foi a E.M. de Melo e Castro e Arnaldo Saraiva e ela não teve participação nisso. Reflete sobre a atuação de escritores preocupados em divulgar suas obras e promover suas carreiras que procurar desenvolvê-las esteticamente. Compara as querelas intelectuais contemporâneas com as do tempo de Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão, com prejuízo dessas últimas pela falta de brilhantismo, pela deselegância e ineficácia. Exime de si e dos organizadores portugueses a responsabilidade do destaque dado a sua obra no suplemento especial. Faz referência à entrevista realizada por Laís C. Araújo, a qual, por ter sido feita oralmente e publicada sem sua revisão traz lapsos mas, ironicamente e mostrando-se bastante magoada com o que se escrevia acerca desse suplemento em Portugal afirma que:

As palavras que eu então proferi, (ou desejaria ter proferido) e é pena que não tenham sido todas publicadas porque então ficariam alguns dos meus colegas a saber o que realmente penso, das suas obras, assim como é pena que desconheçam porque ficariam amortecidos o impacto das suas intenções e descolorida a suas reputações literárias. Quando falei, não fiz mais do que responder a perguntas que me foram feitas. Além disso, tudo o que eu pudesse dizer nunca poderia (xxxx) um caráter definitivo, pois tratava-se de uma conversa e não de um juízo que não poria jamais em perigo o prestígio da literatura portuguesa nem a reputação de qualquer colega meu. Julgava-o eu. Na verdade, na minha imprudência pus em perigo, pude verificá-lo, a obra de alguns colegas meus cuja importância parece derivar mais do fato de ser citada do que lida (p.4).

No final da página reafirma a gravidade daquilo que denomina fenômeno sociológico e faz uma crítica ao egoísmo e a difícil convivência internacional de escritores

portugueses, porém lamenta que quem está de fora acaba por conhecer apenas as obras e não as pessoas que as produzem.

Benzer Belgeler