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Erken Çocukluk Eğitim Standartlarıyla İlgili Yapılan Araştırmalar

A atual configuração dos Xakriabá caracteriza-se por transformações rápidas e intensas na realidade sociocultural, decorrentes, dentre outras questões, do processo de implantação e construção da escola indígena específica e diferenciada e do sistema de saúde, da instituição do trabalho fixo assalariado, da criação e efetivação das associações comunitárias e dos projetos sociais, da parceria com instituições públicas e privadas. Durante os trabalhos de campo, pude observar

como a participação das mulheres é importante na implementação dessas transformações.

No que diz respeito especificamente ao campo político, a participação feminina em instâncias públicas é uma realidade muito recente que merece ser analisada cuidadosamente. Atualmente, elas participam do processo de construção da escola indígena, das funções públicas, das decisões políticas, das reuniões e assembléias comunitárias, do processo de construção e efetivação de projetos sociais. Compreender a inter-relação entre as divisões sexuais do saber e do poder nessa dinâmica de intensas transformações sociais e culturais exige uma definição cuidadosa do conceito de participação. Por isso, lanço mão às proposições de Lave & Wenger (1999) e Duranti (2000), cujas perspectivas serão essenciais para as análises a serem desenvolvidas.

O conceito de participação desenvolvido por Lave & Wenger (1999) está intrinsecamente relacionado à aprendizagem. Para essas autoras, a aprendizagem deve ser vista como uma dimensão da prática social, uma atividade situada, concretizada através da participação periférica legitimada, ou seja, do processo de pertencimento em uma comunidade de prática23. Na participação periférica

legitimada, a intenção para aprender está engajada no processo de participação e o significado do aprender está configurado através do tornar-se participante pleno de uma prática sociocultural. Nesse sentido, a aprendizagem como participação periférica legitimada não é somente uma condição para ser membro, mas é, ela mesma, uma forma de pertencimento que evolui no tempo (p.53). Uma vez que os contextos de aprendizagem constituem também contextos de convivência, os participantes são definidos tanto quanto definem as relações. De acordo com Lave & Wenger (1999, p. 53) “Ignorar esse aspecto é fechar os olhos para o fato de que aprendizagem envolve a construção de identidades” 24

.

23 Lave & Wenger (1999) definem comunidade de prática como “a set of relations among persons,

activity, and world, over time and relation with other tangential and overlapping communities of practice. A community of practice is an intrinsic condition for the existence of knowledge, not least because it provides the interpretive support necessary for making sense of its heritage. Thus, participation in the cultural practice in which any knowledge exists in an epistemological principle of learning. The social structure of this practice, its power of relations, and its conditions for legitimacy define possibilities for learning ( i. e., for legitimate peripheral participation) (Lave & Wenger, 1999, p. 98).

Duranti (2000)25 define participação a partir das relações sociais estabelecidas

por meio da fala, numa abordagem que ele nomeia Antropologia Lingüística. Para esse autor, o estudo da conduta humana e, mais especificamente da fala, demandaria uma investigação detalhada e sistemática dos recursos semióticos e materiais que intervêm na constituição de atividades normalmente conjuntas e com múltiplos participantes. Pensar nos falantes como participantes significa considerar a fala como ação e incorporar a totalidade da experiência do que significa ser membro de uma comunidade de fala. Para usar os termos utilizados pelo autor:

“Comprender el sentido de lo que hacen las personas como miembros de grupos particulares – y ser miembros de dichos grupos – significa comprender no solo lo que una persona dice a otra, sino cómo los participantes que hablan y los que no hablan coordinan sus acciones, incluyendo los actos verbales, para constituirse a si mismos y a otros en particulares fuidos espacio-temporales, aunque vinculados en unidades” (Duranti, 2000, p. 438-439).

Para definir participação, Duranti (2000) revisa os conceitos de estrutura de participação (Philips, 1972, 1983, apud Duranti, 2000), marco de participação (Goffman, 1979; 1981, apud Duranti, 2000) e marco participante (Goodwin, 1990). Estrutura de participação (Philips, 1972, 1983, apud Duranti, 2000) corresponde aos tipos particulares de encontro ou às disposições estruturais das interações, com o objetivo de definir que tipo de formato requer mais participação de determinados sujeitos num momento específico de interação.

Marco de participação (Goffman, 1979; 1981 apud Duranti, 2000) diz respeito à configuração total do status do que é dito em um momento determinado. Goffman (1979; 1981 apud Duranti, 2000) aplica a metáfora dramatúrgica à interação humana e equipara os falantes a atores em cena. Assim como os atores adotam diversas personalidades e se comportam de acordo com o papel que assumem na obra, os falantes na vida real interpretam diversos papéis sociais e representam diversos pontos de vista. As pessoas dizem certas coisas, de determinadas maneiras de acordo com os ouvintes em curso e com a forma com a qual eles reagem ao que está sendo dito. Certas expressões só adquirem sentido no grupo de referência em que são criadas. O autor utiliza o termo ‘status de participação’ para denominar a relação de qualquer pessoa com o que está sendo dito e ‘marco de participação’

para denominar a configuração total do status dos ditos em um momento determinado.

O conceito de marco participante (Goodwin, 1990 apud Duranti, 2000) parte da idéia de que o modo como se estrutura uma conversação é em si mesmo, um tipo de organização social. Em outras palavras, “a organização da conversação, definida por um tipo particular de marco participante que se estabelece na interação é, portanto, um instrumento eficaz para a construção de unidades sociais, relacionais e identidades” (Duranti, 2000, p. 415, tradução minha).

Duranti (2000) demonstra como o enfoque do marco participante é útil nos estudos sobre relações de gênero. A noção de participação constitui uma ferramenta analítica importante para a investigação empírica de como os grupos, bem como as relações entre os sujeitos, se constituem por meio da fala. Por isso, falar em participação também implica em falar em identidade e diferenciação:

Atraves de los diferentes modos en los que se permite a los diferentes individuos (en las familias, centros de trabajo o tareas de servicio) formar parte de determinados tipos de actividades se crean y reproducen las identidades sociales (incluyendo las identidades de género). Por medio de marcos participantes, específicos y reproducibles, se constituye la autoridad, la jerarquía y la subordinación. Si se expresa o no la voz de un individuo, si se rechaza o acepta una acusación, si se reconoce o no el punto de alguien, dependerá en parte de las disposiciones interacciónales que sean posibles y las elecciones que se vean favorecidas por esas disposiciones (...)(Duranti, 2000, p. 419).

As perspectivas apresentadas por Lave & Wenger (1999) e por Duranti (2000) permitem pensar duas importantes dimensões do conceito de participação – a aprendizagem e a linguagem – e como estas estão relacionadas à construção de identidades e de relações sociais. Analisar a experiência das mulheres no cenário político dos Xakriabá, tendo em vista o conceito de participação, portanto, será fundamental para a presente pesquisa porque possibilitará pensar que relações sociais são estabelecidas em contextos – comunidades de prática, para Lave & Wenger (1999), e comunidades de fala, para Duranti (2000) – em que a participação delas é predominante.

1.4 – GÊNERO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE NO ESTUDO DE POVOS