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Ao iniciar este capítulo, penso que seja esclarecedor abordar os passos da dança usados pelos congos em sua performance. Interrogado sobre este aspecto, mestre Doca deu-me resposta que confirmou o que ele informara a Barroso (1996) por ocasião de sua pesquisa. Quatro passos são assim denominados: dança de

frente, dança de lado, tesoura e ginga. Como não consegui formar uma imagem

mental com base nas descrições que o mestre forneceu, levei, em uma das visitas, um notebook com os vídeos que gravara do grupo em ocasiões anteriores, e ele foi identificando os passos à medida que os filmes iam sendo reproduzidos.

A dança de frente desenrola-se com música em compasso ternário. Os dançadores acentuam e avançam alternadamente, em tropel, pé direito e pé esquerdo no primeiro tempo do compasso131. Este passo foi usado, na performance descrita no capítulo anterior, em peças como Boa noite, Senhora Santana, O

cruzeiro do Pilar caiu e A ingazeira do Norte. Na apresentação de 2011, Cícero – o pifeiro da banda cabaçal, que acompanhou ao zabumba a performance do grupo diante da igreja, executou o seguinte padrão rítmico para este passo:

131 Cf. vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=PTWnTmKJ2hQ&feature=youtu.be ou DVD

Fig. 32 Transcrição musical – Padrão de acompanhamento rítmico do zabumba132

para a dança de frente

Transcrição do autor baseada na performance de Cícero.

A dança de lado desenvolve-se conectada à música em compasso binário. Consiste em dar, alternadamente, dois passos para a esquerda e dois para a direita, numa coreografia que se assemelha ao xote nordestino; contudo, em 2011, quando a apresentação contou com a participação da banda cabaçal, cujos integrantes acompanharam a apresentação feita na calçada da igreja com os instrumentos de percussão, deixando, portanto, o padrão rítmico mais evidente, algumas peças que foram dançadas com este passo tiveram como padrão rítmico o baião e não o xote. É o caso de Reis de Congo anda em pelejar133. Outra peça em que o grupo executa a dança de lado é Pretinho de Congo, com que iniciou a performance na calçada da igreja em 2012 134; contudo, neste ano, a ausência da banda cabaçal no acompanhamento rítmico tornou mais sutil a percepção do padrão rítmico. As características melódicas, entretanto, sugerem sua adequação mais ao padrão rítmico do baião do que ao do xote, o que o leitor talvez possa perceber comparando as estruturações rítmicas de Pretinhos de Congo com o padrão do baião, mais assimétrico que o do xote.

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O zabumba é um tambor de corpo cilíndrico com membrana nas duas extremidades. A pele de cima é tocada com a baqueta, que o músico aciona com a mão direita. Esta baqueta tem a extremidade que percute o couro revestida com tecido e outros materiais de modo a formar uma maçaneta que tem a função de tornar o som mais grave. A pele de baixo é percutida por uma vareta fina de madeira controlada pela mão esquerda e produz um som seco, que, geralmente, produz um repique em relação à baqueta. A transcrição musical acima busca estabelecer uma correspondência com a disposição espacial das mãos do zabumbeiro: mão direita, acima; esquerda, abaixo. A cruz (+) indica o toque abafado e o círculo (º) o toque no qual o músico percute a membrana e suspende a baqueta de modo a deixar o couro vibrar, produzindo um som mais longo.

133 Cf. vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=4lsoEAa68Vc&feature=youtu.be ou DVD faixa

10.

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Fig. 33 Transcrição musical – Padrão de acompanhamento rítmico do zabumba para a dança

de lado

Fig. 34 Transcrição musical – Padrão de acompanhamento rítmico do zabumba para Sentinela, encruza as armas

Transcrições do autor baseada na performance de Cícero. Fig. 35 Transcrição musical – Pretinho de congo

Transcrição do autor baseada na performance de mestre Doca e grupo.

O passo denominado tesoura foi realizado com música em compasso binário e padrão rítmico de arrasta-pé ou marcha nordestina. O passo se inicia com

um leve pulo, após o qual os dançadores apoiam os dois pés no chão mantendo os joelhos um pouco flexionados; no pulo seguinte, apoiam o corpo com um pé enquanto o outro é levemente suspenso na direção do pé de apoio, a perna suspensa ficando oblíqua à apoiada; no pulo subsequente, pé de apoio e pé suspenso se invertem, realizando cada um o movimento que o outro acabara de desenvolver. A alusão à tesoura vem do movimento de cruzar e descruzar as pernas, o que lembra o deslocamento das lâminas do objeto, que, unidos por um eixo, abrem-se em formato de cruz para depois fechar. Este passo esteve presente em No

Rosário construíram uma igreja135 e Eu canto peça.

Fig. 36 Transcrição musical – Padrão de acompanhamento rítmico do zabumba para a

tesoura

Transcrições do autor baseada na performance de Cícero.

A ginga é um passo que não tem sido realizado pelos congos recentemente, de sorte que não o registrei nos vídeos feitos em campo das apresentações do grupo. Nas vezes em que interroguei mestre Doca para tentar conhecê-lo não consegui formar uma imagem mental satisfatória com base em suas descrições da dança. Ele disse que era um tipo de tesoura. Perguntei-lhe por que o grupo não fazia mais a ginga. Ele me respondeu que um dançador de mais idade lhe pedira para não incluir o passo na apresentação, dada a dificuldade de realizá-lo. Mestre Doca asseverou: “É preciso ter corpo!”, ou seja, força física. Na última oportunidade em que estive em Milagres, em agosto de 2013, para registrar a Festa de Nossa Senhora dos Milagres, fui à casa de dona Francisca, uma das embaixadoras, mãe da outra embaixadora, Cícera, com as quais havia agendado uma entrevista. As duas satisfizeram minha curiosidade mostrando como este passo

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Cf. vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=1ReWhW40r54&feature=youtu.be ou DVD faixa 11.

é dançado: o movimento se inicia com um dos pés dando um passo adiante do outro de modo que a perna que deu o passo fique oblíqua e adiante da perna de apoio; quando a perna que iniciou o passo toca o chão com a planta do pé, o dançador transfere o peso do corpo para ela; voltando o peso do corpo para a perna de trás, o dançador torce o pé da frente do modo a tocar o chão com a lateral do pé; em seguida apoia novamente o peso do corpo na perna da frente para que a perna de trás possa ser impulsionada para frente e o mesmo ciclo possa ser repetido começando com o outro pé136. Vi que o que torna cansativo este passo é o tipo de cruzamento ou tesoura que é feito com as pernas, alternando o peso do corpo entre os dois membros inferiores enquanto o pé da frente faz uma torção, apoiando ora a planta ora a lateral, e a acentuada inclinação frontal do tronco.

Outro passo que observei ser comum, mas a respeito do qual não consegui, em minhas entrevistas com mestre Doca, saber se havia para ele alguma denominação autóctone, é aquele no qual, como a dança de lado, há um movimento lateral do corpo; neste caso, porém, o movimento consiste num balançar lateral do corpo, impulsionado por um passo para a esquerda, outro para a direita, não dois, como na dança de lado. Além disto, o padrão rítmico do passo é o arrasta-pé ou marcha nordestina137 e não o xote, como acontece na dança de lado. É o que sucede quando o grupo dança a peça No Rosário construíram uma igreja. Este passo antecede ao tesoura, que é feito na mesma peça138. Vou me referir a ele neste trabalho como “dança de lado simples”.

Tais passos revelam a capacidade perceptiva e motora do corpo do brincante, o qual, tendo apreendido um saber necessário à manutenção da vida, como o equilíbrio, o caminhar, o situar-se e mover-se no espaço, a sincronia, toda ordem, enfim, de sensações experimentadas – fruto de sua potência biológica –, é capaz de captar o esquema do movimento e recompô-lo, transformando o sentido originário de hábitos indispensáveis à sustentação da vida no sentido figurado e estético expressado pelos gestos da dança.

136 Cf. https://www.youtube.com/watch?v=TKAcoj5BROY&feature=youtu.be ou DVD faixa 12. 137

Cf. “Notação musical 24”.

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