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O Haiti, por ser um país pobre e marcado por crises econômicas e políticas, historicamente, foi assinalado pela emigração de seus cidadãos, que saíam do seu país em busca de melhores condições de vida. Todavia, em 2010, o terremoto que atingiu a região do Haiti, destruiu o país, acentuando as desigualdades sociais, já bastante presentes na sociedade haitiana, deixando sua população em um estado de calamidade e miséria, sem condições e recursos de manter uma vida digna.

O Brasil, mesmo antes desse desastre natural, já mantinha uma relação externa amigável com o Haiti, prestando ajuda humanitária a esse Estado, pois, desde 2004, comandava a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. O Governo Brasileiro, inclusive, perdoou uma dívida estimada em US$ 1,3 bilhão de dólares, assim como realizou uma doação de US$ 15 milhões de reais e 14 toneladas de alimentos para a população haitiana.41

Em virtude dessa imagem do Brasil de nação amiga, o País tornou-se um dos principais receptores de haitianos que fugiam da miséria vivenciada em sua terra natal. De acordo com um estudo realizado pela OIM e pelo Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH) do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), o Brasil é o país com o maior número de haitianos. Até o final de 2016, foram concedidas 67 mil residências, temporárias e permanentes, a migrantes haitianos.42

Ressalta-se que muitas são as dificuldades e intempéries enfrentadas pelos migrantes haitianos até chegarem ao Brasil:

Do Haiti ao Brasil, os imigrantes pagavam, em média, de US$ 2 mil a US$ 5 mil pela viagem em grupos até o Acre. O trecho da viagem pelo território peruano, além de ser o mais longo, também aparece indicado pelos entrevistados como o mais perigoso, em razão das práticas de extorsão contra os imigrantes. De acordo com inúmeros relatos e denúncias, agentes da polícia peruana, associados a informantes, coiotes e motoristas, integravam essa rede de contrabando e corrupção, assegurando

41 NASCIMENTO, João Pedro Rodrigues; OLIVEIRA, Pedro Henrique Ferreira de; FÉLIX, Ynes da Silva. A

regulamentação de entrada e permanência de imigrantes venezuelanos no território nacional;

Florianópolis: FEPODI, 2017. Disponível em: < https://www.conpedi.org.br/publicacoes/696vp84u/bloco- unico/G13h1I4LB0forv6s.pdf>. Acesso em: 14 out. 2017, p. 602. Ademais, recomenda-se a leitura da obra de Wladimir Valler Filho sobre a crise no Haiti e a resposta brasileira à estabilização e reconstrução do País haitiano: VALLER FILHO, Wladimir. O Brasil e a crise haitiana: a cooperação técnica como instrumento de

solidariedade e de ação diplomática. Brasília: FUNAG, 2007. Disponível em:

<http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=466&search=Haiti>. Acesso em: 03 dez. 2017.

42 Fonte: (OIM), Organização Internacional para as Migrações. Organização . Disponível em:

<https://www.iom.int/news/un-migration-agency-launches-regional-research-haitian-migration>. Acesso em: 14 out. 2017.

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a dinâmica migratória pela região. Em relatos mais pontuais sobre a viagem, imigrantes lembraram que nesse trecho muitos se tornam vítima de roubo, cárcere, espancamentos, estupros e até mortes, situação que era agravada pelo desconhecimento da rota, do idioma local e especialmente pela condição de indocumentados. Assim, ao chegarem ao Acre, muitos apresentavam problemas de saúde decorrentes da longa viagem e estavam psicologicamente transtornados pela violência sofrida no caminho.43

Por conseguinte, muitos haitianos ultrapassaram e ainda ingressam pelas fronteiras brasileiras sem documentação e por meio de redes de aliciamento e tráfico humano, sofrendo diversos tipos de violações aos seus direitos já durante o trânsito, o que demonstra a extrema vulnerabilidade que se encontram ao chegarem no território brasileiro.

Diante da crise humanitária haitiana e do intenso fluxo migratório desse grupo de indivíduos no Brasil, tendo em vista, ainda, que esses haitianos não se enquadravam no conceito de refúgio, o Governo brasileiro adotou algumas medidas visando regulamentar a situação desses estrangeiros. Assim, em 2012, o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) aprovou a Resolução Normativa nº 97/2012, que permitiu a concessão de visto especial permanente, por razões humanitárias, aos nacionais do Haiti. Além disso, em 2015, o Ministério da Justiça e o Ministério do Trabalho e Previdência Social, através de um despacho conjunto, possibilitaram a permanência de aproximadamente 43 mil haitianos que haviam solicitado refúgio ao Brasil no período de 2010 a outubro de 201544.

Não obstante a prática de tais medidas ter visado regularizar a situação de milhares de haitianos no Brasil e ter sido uma reação positiva das autoridades brasileiras à essa crise humanitária, não foi suficiente para impedir que esses migrantes sofram violações e para proporcionar o acesso deles aos seus direitos, especialmente perante a política migratória brasileira, que até recentemente era regida pelo Estatuto do Estrangeiro, que não oferecia instrumentos necessários para tanto.

Esses não nacionais, por serem vulneráveis, vítimas de preconceito e discriminação, dentre outros fatores, não conseguem acesso ao mercado formal de trabalho e, muitas vezes, aceitam laborar sob condições degradantes em troca de salários ínfimos, até mesmo para enviar dinheiro aos seus familiares que permaneceram no seu país de origem.

Nesse ínterim, vários foram os casos de resgate de haitianos trabalhando sob circunstâncias análogas ao trabalho escravo. Exemplificando-se, em 2014, durante duas

43 MAMED, Letícia Helena. Haitianos na Amazônia: A morfologia da imigração haitiana pelo Acre e o horizonte

de inserção precarizada no Brasil. Ruris: Revista do Centro de Estudos Rurais - UNICAMP, Campinas, v. 10,

n. 1, p.73-111, mar. 2016, p. 84-85. Disponível em:

<https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/ruris/article/download/2636/2047>. Acesso em: 14 out. 2017.

44 (DPU), Defensoria Pública da União. Concurso de casos de litigância estratégica em Direitos Humanos.

31 operações da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de São Paulo (STRE-SP), foram resgatados doze haitianos e dois bolivianos, que se encontravam em condições análogas à de escravo. Eles foram achados trabalhando e morando em uma oficina pertencente a uma empresa do ramo vestuário.45

Consoante a Superintendência, a carga horária de trabalho chegava a 15 horas diárias e não era pago salário. Nos últimos dois meses, havia sido pago, apenas, cem reais para cada um desses indivíduos. Além do mais, o local onde se encontrava o grupo resgatado, não possuía mínimas condições de higiene, moradia e alimentação. Os indivíduos foram achados amontoados e em situação degradante.46

Portanto, em respeito à Constituição pátria e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, é fundamental a adoção de uma política migratória brasileira que garanta a proteção da dignidade humana dos migrantes que chegam ao país, assegurando-lhes o acesso a direitos, a fim de permitir que eles sejam devidamente integrados à sociedade e de impedir que sejam vítimas de explorações e violações, diante de sua condição de vulnerabilidade.

Aqui surge a importância de analisar-se o papel conferido pela Constituição Federal de 1988 para a promoção da tutela desses migrantes pela Defensoria Pública da União, órgão este constitucionalmente incumbido de garantir a proteção das pessoas em situação de vulnerabilidade e viabilizar a efetividade dos princípios e valores constitucionais preconizados.

Benzer Belgeler