Ante o contexto de defasagem da legislação migratória brasileira, atrelada a uma lei cuja principal preocupação são os interesses nacionais e não a proteção do ser humano, foi publicada em 25 de maio de 2017 a Lei nº 13.44587, com entrada em vigor em 21 de
87 A nova Lei de Migração foi proposta pelo então afastado Senador Aloysio Nunes Ferreira, em 2013. O PLS
288/2013 foi aprovado pelo Senado em agosto de 2015, quando foi encaminhado para a Câmara, tendo sido aprovado pelo Plenário desta em dezembro de 2016. Para mais informações sobre a tramitação, acessar o link
48 novembro de 2017, que revogou o Estatuto do Estrangeiro e institui uma nova regulamentação da matéria migratória.
A nova Lei de Migração resultou do Projeto de Lei do Senado (PLS) nº 288/2013, cuja proposta consistiu em reformar o modelo da Lei nº 6.815/80, no sentido de promover uma visão mais humanista, com base na perspectiva constitucional e internacional, visando assim, a proteção do estrangeiro diante do outro e não sua recepção, como era objetivado pelo revogado Estatuto88.
É inegável que a nova legislação representa um avanço para a política migratória brasileira, já que confere aos migrantes uma série de prerrogativas que eram concedidas apenas aos nacionais, assim como também busca dar um tratamento humanitário a esses indivíduos.
A nova lei tem como destinatário o migrante e o visitante (art. 1º)89, e não mais o estrangeiro, como era no estatuto revogado. Desse modo, o legislador optou por adotar a figura do migrante e do visitante em consonância com a atual política consagrada, pautada nos direitos humanos. Com isso, o novo termo utilizado visa a evitar que o indivíduo não nacional se sinta estranho e preterido no local em que se encontra, sentimento este que remete a ideia de estrangeiro90.
Após definido o destinatário da norma, a lei, considerando o assunto como inserido no contexto internacional da proteção da dignidade humana, determinou os princípios norteadores do tratamento migratório (art. 3º), assinalando, logo de início, a "interdependência, universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos dos imigrantes, decorrentes de tratados dos quais o Brasil seja parte". Dessa forma, ao incorporar esses princípios, a Lei nº 13.445/2017 reconhece a igualdade de dignidade dos migrantes e nacionais, fazendo jus aqueles ao mesmo arcabouço de direitos e deveres pertinentes a estes.
O referido dispositivo elenca um rol de princípios e diretrizes a serem observadas, como o repúdio a quaisquer formas de discriminação, a igualdade de tratamento e de oportunidade ao migrante e a seus familiares, a inclusão social, laboral e produtiva do
disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/113700>. Acesso em: 31 out. 2017.
88(PSDB/SP), Senador Aloysio Nunes Ferreira. Projeto de Lei do Senado n° 288, de 2013. Disponível em:
<http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/113700>. Acesso em: 29 out. 2017, p. 24.
89 Art. 1o Esta Lei dispõe sobre os direitos e os deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada
no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante.
90 GUERRA, Sidney. Alguns aspectos sobre a situação jurídica do não nacional no Brasil: da lei do estrangeiro à
nova Lei de Migração. Revista Direito em Debate, [s.l.], v. 26, n. 47, p. 90-112, 21 set. 2017, p. 97. Disponível em: <https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/revistadireitoemdebate/article/view/7105>. Acesso em: 30 out. 2017.
49 migrante através de políticas públicas, a não criminalização da migração e a promoção de entrada regular e de regularização documental.
Outrossim, confere uma série de garantias ao migrante que se encontra no território nacional, em condição de igualdade com os nacionais (art. 4º), dentre elas, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, à propriedade; a salvaguarda dos direitos e liberdades civis, sociais, culturais e econômicas, do direito à livre circulação em território nacional, bem como do direito ao amplo acesso à justiça e à assistência jurídica integral gratuita aos que comprovarem insuficiência de recurso.
Esse enorme catálogo de princípios e garantias que deve ser respeitado ante a matéria migratória, demonstra a proposta da nova legislação de atender aos ditames constitucionais e concretizar as garantias e os direitos fundamentais conferidos aos estrangeiros pelo art. 5º da Constituição Federal, ao contrário da legislação revogada, que se limitava a dispor que "o estrangeiro residente no Brasil goza de todos os direitos reconhecidos aos brasileiros, nos termos da Constituição e das leis"91.
A afirmação do princípio da não criminalização do migrante e da promoção da regularização documental mostra-se harmoniosa com a ideia de direitos humanos e dentro do contexto de proteção da dignidade humana, tendo em vista que vai de encontro a tais valores a possibilidade de punição, com privação de liberdade, dos "indocumentados" que entram irregularmente no país, ressalvado casos conexos que podem e devem ser punidos criminalmente92.
É bem verdade que a admissão de um indivíduo não nacional é ato, em grande parte, submetido à soberania do Estado. Entretanto, definidos os critérios e os procedimentos de ingresso dos migrantes no território nacional, estes devem ser iguais para todos os estrangeiros, não comportando discriminações. Do mesmo modo, o migrante não é mais visto como um invasor ou uma ameaça aos interesses nacionais, tendo em vista o respeito aos direitos humanos ante a conjuntura histórica atual migratória. Assim, o Estado deve proporcionar os instrumentos simplificados que viabilizem a entrada regular do não nacional, bem como a regularização de quem aqui já se encontra.
Nesse sentindo, a nova Lei de Migração trouxe a acolhida humanitária (art. 3º, VI) como uma interessante inovação, que se mostra um importante avanço para a política migratória brasileira. Esse instituto refere-se à possibilidade de o Estado brasileiro aceitar
91 Art. 95. O estrangeiro residente no Brasil goza de todos os direitos reconhecidos aos brasileiros, nos termos da
Constituição e das leis.
92(PSDB/SP), Senador Aloysio Nunes Ferreira. Projeto de Lei do Senado n° 288, de 2013. Disponível em:
50 migrantes que venham de situação de calamidade ou vítimas de tráfico de pessoas93, como se sucedeu no caso dos haitianos, já exposto no item 2.3.2 do trabalho.
Desta feita, ao contrário do Estatuto do Estrangeiro e consoante a Lei nº 13.445/2017, o migrante vítima de violações dos seus direitos humanos, precisa ser protegido, independentemente da sua situação, devendo, inclusive, ser garantido os meios necessários para sua devida regularização94.
Outra significativa mudança trazida pela Lei de Migração foi a nova visão conferida ao trabalhador migrante. Estabeleceu-se um olhar de incentivo à recepção de mão de obra especializada, essencial ao desenvolvimento econômico, social, cultural, esportivo, científico e tecnológico do Brasil (art. 3º, VII), bem como não há mais a concepção da lei revogada, de uma "imigração dirigida", que busque a proteção do trabalhador nacional e os interesses do país, retirando-se, ademais, os absurdos de local de trabalho determinado e fixo e de residência certa para o migrante. De acordo com a justificativa do PLS 288/201395, tal concepção do Estatuto foi modificada, "por prever igualmente vários tipos de imigração, sem identificar uma primordial, e por não fazer restrição de índole soberana". (grifou-se)
Pelo contrário, a nova legislação migratória estabelece a inclusão laboral e produtiva do migrante, por meio de políticas públicas (art. 3º, X), do acesso igualitário e livre do migrante ao trabalho (art. 3º, XI), assim como da garantia de cumprimento de obrigações legais e contratuais trabalhistas e de aplicação das normas de proteção ao trabalhador, sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória (art. 4º, XI). Ou seja, a Lei nº 13.445/2017 objetiva promover a inclusão social do migrante, especialmente por meio do trabalho, ofertando-lhe as garantias trabalhistas conferidas aos nacionais e não permitindo qualquer forma de discriminação em razão de sua origem ou nacionalidade.
93 (PSDB/SP), Senador Aloysio Nunes Ferreira. Projeto de Lei do Senado n° 288, de 2013. Disponível em:
<http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/113700>. Acesso em: 31 out. 2017, p. 26.
94 Nessa linha vale destacar trecho da justificativa do PLS, elaborada pelo Senador Aloysio Nunes, segundo o
qual "tais providências mostram-se extremamente importantes, sobretudo na medida em que vêm ao encontro do disposto no Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, promulgado pelo Decreto nº 5.017, de 12 de março de 2004, e no Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea (promulgado pelo Decreto nº 5.016, de 12 de março de 2004), que determinam que os Estados Partes deverão tomar medidas de proteção e assistência à vítima do tráfico de pessoas e de migrantes. Assim, o projeto certamente evitaria eventual responsabilização do Estado brasileiro por descumprimento de compromisso assumido no plano internacional". (PSDB/SP), Senador Aloysio Nunes Ferreira. Projeto de Lei do
Senado n° 288, de 2013. Disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/- /materia/113700>. Acesso em: 31 out. 2017, p. 27.
95 (PSDB/SP), Senador Aloysio Nunes Ferreira. Projeto de Lei do Senado n° 288, de 2013. Disponível em:
51 Outra questão que merece destaque é que nenhuma norma anterior abordava a proteção dos apátridas, asilados e brasileiros no exterior, somente os tratados internacionais. Já a nova lei organiza a cooperação jurídica entre países para essa finalidade. Além disso, o Estatuto revogado proibia a participação do estrangeiro em qualquer atividade política, o que foi modificado pela Lei de Migração, a qual garante ao migrante que está no território brasileiro o direito de associação a reuniões políticas e sindicatos96.
Ressalta-se, ainda, que foi reformulada a política de concessão de vistos de trânsito, de turismo e negócios, temporário, permanente, diplomático, oficial e de cortesia, a fim de propiciar esse viés humanitário proposto pela nova lei e não manter mais a ideia de criminalização do estrangeiro, ofensiva à Constituição Federal e aos tratados por ela ancorados. Desse modo, previu-se visto temporário para estudante, trabalhador, tratamento de saúde, acolhimento humanitário e de reunião familiar. Este último também se aplica ao visto permanente, que também é previsto para descendentes, cônjuge ou companheiro, refugiado ou asilado, vítima de tráfico de pessoas, beneficiário de acordo internacional (como os do MERCOSUL), indivíduo de notório conhecimento ou investidor97.
Essas são apenas algumas das mudanças e inovações trazidas pela nova Lei de Migração, a partir das quais já é possível observar a sua proposta humanitária e a colocação de seus ditames em acordo com a atual ordem constitucional, ditames estes que devem ser viabilizados pela atuação da Defensoria Pública, conforme suas incumbências determinadas pela Lei Maior.
Com efeito, diferentemente do Estatuto revogado, a Lei nº 13.445/2017 trata o migrante como um sujeito de direitos e deveres, assegurando a esses indivíduos que se encontram no território brasileiro, em condição de igualdade com os nacionais, um extenso arcabouço de direitos e garantias que antes a eles não eram reconhecidos.98
96 Portal Brasil. Confira as principais mudanças trazidas pela Lei de Migração. 26 maio 2017. Portal Brasil.
Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2017/05/confira-as-principais-mudancas-trazidas- pela-lei-de-migracao>. Acesso em: 31 nov. 2017.
97 (PSDB/SP), Senador Aloysio Nunes Ferreira. Projeto de Lei do Senado n° 288, de 2013. Disponível em:
<http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/113700>. Acesso em: 31 out. 2017, p. 28.
98 Como exemplos, a não discriminação em razão dos critérios ou dos procedimentos pelos quais a pessoa foi
admitida em território nacional; a promoção de entrada regular e de regularização documental; a igualdade de tratamento e de oportunidade; a inclusão social, laboral e produtiva; a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade; os direitos e liberdades civis, sociais, culturais e econômicos; o direito à liberdade de circulação em território nacional; o direito à reunião familiar do migrante com seu cônjuge ou companheiro e seus filhos, familiares e dependentes; o direito de reunião para fins pacíficos; o direito de associação, inclusive sindical, para fins lícitos; o acesso a serviços públicos de saúde e de assistência social e à previdência social, nos termos da lei, sem discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória; o amplo acesso à justiça e à assistência jurídica integral gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos; o direito à educação pública, vedada a discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória; a garantia de cumprimento de obrigações legais e contratuais trabalhistas e de aplicação das normas
52 Portanto, resta claro que a Lei de Migração visa dar concretude aos valores e princípios constitucionais, legitimando os direitos humanos dos migrantes e pugnando, por conseguinte, pelo repúdio ao racismo, à xenofobia e por qualquer outra forma de discriminação. Assim, a nova legislação está em harmonia, especialmente, com o estabelecido pelo art. 5º da CF, que invoca a igualdade entre os nacionais e não nacionais, reconhecendo a igualdade de dignidade dos seres humanos, independentemente de qualquer peculiaridade, como nacionalidade e origem.
Nessa toada, haja vista que a recente lei migratória garante o amplo acesso à justiça e à assistência jurídica integral gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos e o acesso igualitário e livre do migrante à assistência jurídica integral pública, nota-se sua adequação aos ditames constitucionais da promoção do acesso à justiça aos nacionais e não nacionais, bem como com a constitucionalização da Defensoria Pública, órgão essencial à justiça, que deve promover o referido direito e oportunizar a assistência jurídica gratuita a quem dela necessite, bem como objetivar a materialização dos valores constitucionais.
Aliás, não é irrelevante o fato de que a nova legislação previu expressamente a participação da Defensoria Pública da União na defesa do migrante ao longo de alguns institutos, em observância a esses valores. Desta feita, analisa-se no próximo tópico, a pertinência dessas previsões e sua contribuição para o trabalho que já vem sendo exercido pela DPU na proteção desse grupo vulnerável, pois só assim poder-se-á chegar ao entendimento acerca do papel deste órgão para a efetivação dos ditames propostos pela Lei nº 13.445/2017.