Jirikurun men on men ji la, a te ke bama ye
(Um tronco pode ficar na água por longo tempo, mas não se transforma em crocodilo)
Provérbio Bambara (Mali)
O dualismo da ordem colonial não começou por ser um ato de teorização por parte dos colonialistas. Ela é estrutural ao sistema e foi tomando forma ideológica pelo “senso comum” dos ocupantes, como resultado de dois fatores principais:a correlação de forças favorável ao grupo (“racial”, econômico, cultural) numericamente minoritário, que ditava os destinos do território, e a necessidade de essa minoria sobreviver e impor a sua agenda européia. Por isso, quando a colonização da África se concretizou, na seqüência da Conferência de Berlim, os germes da desigualdade se assumiram como sistema e ideologia.
A expansão marítima, iniciada por países católicos e conservadores, buscara legitimidade e apoios na tradição das cruzadas e associara, aos interesses comerciais, a motivação e a justificação da sua “missão evangelizadora”. Logo após os iniciais contatos se verificariam profundos desajustamentos entre os ideais anunciados e a prática dos navegadores- guerreiros nas relações estabelecidas com os povos do ultramar, mas o maniqueísmo que caracterizara o espírito das cruzadas permaneceu presente. Os relatos acerca das sociedades africanas enfatizavam os seus aspectos exóticos, as características que as distinguiam da norma européia. O encontro de culturas e civilizações se pautava pelo desconhecimento
recíproco, pela incompreensão e, freqüentemente, pela intolerância em relação a essas diferenças.
A ação missionária definiu categoricamente o modelo de civilização a impor e, identificando os africanos como pagãos, introduziu a primeira classificação binária na relação com os povos colonizados: o europeu era o sujeito do processo civilizador e o africano seu objeto. A relação estabelecida era, pois, uma relação antitética que só se poderia resolver pela supressão da condição de selvagem: era preciso desestruturar uma cosmogonia para a substituir por outra. Lycops ressalta que a introdução da idéia de “pecado”, fundamento da “salvação das almas”, “revelou-se muito eficaz na destruição do equilíbrio moral e cultural africano”(Lycops, 1976, p.24)
A passagem, nos fins do século XVIII, da economia fisiocrática ao capitalismo industrial e financeiro ocorreu como conseqüência das transformações ocorridas na Europa pelo triunfo das burguesias e do pensamento burguês na Europa, herdeiros da Reforma e da Revolução Francesa, bem como do pensamento iluminista que acompanhou a ascensão dessa classe social. As relações econômicas de tipo capitalista determinaram novo entendimento das relações sociais e da percepção da diferença. O “bom selvagem” de Rousseau foi violentamente atacado numa carta que lhe dirigiu Voltaire, defendendo o conhecimento e a erudição como a estrada a percorrer para o bem da humanidade. O caminho da salvação passava pela civilização ocidental.
Em meados do século XIX, em coincidência com as transformações econômicas e políticas que marcaram a implantação do colonialismo, surgiram as primeiras abordagens antropológicas à questão das “sociedades
primitivas” dos territórios objeto da expansão européia. A Origem das Espécies de Darwin e Wallace, publicado em 1859, revolucionara a visão da vida e do homem e o conhecimento científico em geral e foi sob o signo do evolucionismo unilinear que se desenvolveu o vibrante pensamento europeu. As análises antropológicas se colocavam ainda bem distantes da ideologia colonial e alguns autores tomaram posição contra ela. Lewis Morgan inicia o seu livro A Sociedade Primitiva, em 1877, referindo-se a uma única “família humana”que abre “caminho do estado selvagem até à civilização” (Morgan, vol.I,1976, p.13), para em seguida censurar o pensamento dominante na época:
“Não podemos continuar a invocar a teoria da degradação humana para explicar a existência de selvagens e de bárbaros. Ela apareceu a princípio como corolário da cosmogonia mosaica e foi admitida como expressão de uma pretensa necessidade que já não existe” (Morgan, vol.I, 1976, p.18)
Os colonizados são vistos, pelos evolucionistas, como a presença dos antepassados dos colonizadores. Essa formulação implica uma abordagem historicista que todos os grandes pensadores da época, de Comte a Weber, de Durkheim a Marx, perfilharam, mesmo se com abordagens diferentes. A evolução do Homem procederia por fases históricas de que a civilização européia seria o modelo superior de progresso e, portanto, o ponto de referência classificatório.
As leituras polarizadas da sociedade colonial feita pela razão econômica e pela razão política se recompunham também ao nível das ciências humanas. À medida que as economias capitalistas se afirmavam na sociedade colonial, acentuava-se sua natureza dual. Os interesses da economia e da política se apropriaram dessa cobertura teórica, e a “missão evangelizadora” deu lugar à “missão civilizadora”, expressão que, de forma particularmente enfática, remonta a Napoleão III” (Balandier, 1977, p.29). As “sociedades primitivas”, representando o passado no presente, tendiam a ser suprimidas, para bem do progresso universal e para benefício dos povos “atrasados”.
A etnologia, buscando e fornecendo os instrumentos para uma aproximação científica da “questão indígena”, antevia com angústia a contaminação, pela economia, pela religião e pela política, do seu campo de estudo privilegiado: a penetração capitalista introduzia hábitos de consumo, exigia mão-de-obra, erodia as tradicionais relações sociais das comunidades; a ação missionária desvirtuava cosmogonias, combatia ritos, alterava estruturas simbólicas; a administração estipulava normas, reprimia práticas sociais, coagia comportamentos, impunha novos valores. As transformações dos povos colonizados eram condicionadas por relações de poder dominadas pela Europa.
A verdade européia, já não apenas religiosa, mas também cultural, científica, técnica e organizacional, “tinha” de ser levada a todos. A nova abordagem ideológica pacificava a consciência do velho continente e conciliava, no plano teórico e teológico, os imperativos da expansão econômica com os princípios éticos defendidos pelo liberalismo. O domínio
de territórios do ultramar representava-se como uma reciprocidade de benefícios: se a Europa se apoderava de “riquezas inexploradas”, os africanos se beneficiariam da “civilização” e do “progresso”. A idéia, de tão forte, ainda hoje circula, semiclandestina, nos areópagos das antigas metrópoles.
O evolucionismo, ao sistematizar a história do homem e da cultura, deu um novo sentido à questão da diferença, distinguindo cultura e biologia, afirmando a unidade do gênero humano e vibrando decisivo golpe no poligenismo reinante. A diversidade cultural sistematizada se tornou objeto de estudo. O ordenamento dos estádios de "civilização" dos povos e culturas do ultramar tinha como referência a Europa, seus modelos, valores e configurações sociais, econômicas e políticas na época.
O interesse fundamental da antropologia não era tanto o de conhecer de forma intensiva uma dada cultura, mas a percepção conjunta da evolução das culturas, na sua identificação espaço-temporal: a precedência histórica dos sistemas de filiação matrilinear em relação aos patrilineares, o processo evolutivo da magia à religião. No esforço sistemático para identificar correlações que abrissem as portas a relações de causalidade universais, Sir Edward Tylor criou o conceito de "sobrevivências" para definir as formas culturais que não haviam acompanhado a linha evolutiva e conciliou, com essa categoria teórica, a constatação de ritmos diferentes de "desenvolvimento" com o princípio da "unidade da espécie humana", que o evolucionismo defendia. A "humanidade" do Outro, do diferente, é reafirmada sem colidir com os princípios fundadores da nova ordem liberté, égalité, fraternité. A hierarquização, consagrada pela visão da História, é
apropriada pela ideologia imperialista para justificar e legitimar a hegemonia das potências mundiais.
Essa percepção planetária tem seus fundamentos num etnocentrismo de que o Euvitoriano, sempre com maiúscula, é a expressão mais saliente. O
Outro seria uma projeção doEu no passado, emfases históricasanteriores e num específico estádio de desenvolvimento. A sua ligação com o Eu, sujeito da "missão civilizadora", permanece assegurada pelo princípio de que as
potencialidades de cada grupo em relação ao progresso são as mesmas, precisamente as da sua comum condição humana.
Gérad Leclerc escreve a esse propósito:
“(...) a antropologia pré-clássica, partindo da homogeneidade da história e da unidade do homem, chega, pela sua concepção estreita e etnocêntrica do saber, a estabelecer um corte entre cultura indígena (englobando as sobrevivências “pré-científicas” da cultura ocidental) e saber científico, de que a nova antropologia é um ramo essencial”
(Leclerc, 1973, p.28). :
O determinismo e o eurocentrismo da visão evolucionista clássica, ligados à noção de origem, assim como as elaborações para a reconstrução dos estádios evolutivos serão postos em causa, no primeiro quartel do século XX, pela escola difusionista americana. Os difusionistas conferem um certo protagonismo à imagem do Outro, no processo do próprio desenvolvimento cultural e civilizacional, ao defender que a transformação é resultado quer de contatos entre culturas, quer da difusão, nos limites de "áreas culturais" e a
partir de "centros difusores", de seus elementos materiais, de seus elementos institucionais e de suas crenças. Quiçá por não ter surgido nas metrópoles imperiais de então ou porque punha em causa fundamentos conservadores do poder colonial, essa linha de pensamento não teve eco na relação entre a antropologia e a política colonial para África. O difusionismo britânico, ancorado na idéia de uma civilização original egípcia, seria marginalizado como dogmático e especulativo.
Malinowski romperia com a primazia da "civilização": não é a partir desta que se olham costumes "exóticos", mas é da vivência dos valores autênticos destas sociedades não contaminadas que se reconhecem as "aberrações" da sociedade "desenvolvida". Com Malinowski, a antropologia é um encontro com culturas diferentes que existem como tal. O funcionalismo, que surge como profundamente inovador do ponto de vista científico, não põe, porém, em causa a existência do colonialismo que continua a ser visto essencialmente como "choque cultural", "mudança cultural". ou "aculturação".
Enquanto a doutrina francesa se mantinha, então, próxima dos administradores coloniais, na tradição britânica os etnólogos, ricos pela experiência do trabalho de campo, reivindicaram uma tomada de posição e um papel ativo na discussão sobre o problema colonial. O choque com os administradores foi uma realidade e produziu resultados: influenciado pela antropologia, um administrador britânico, Lord Frederick Lugard, compilou em seu Dual Mandate in British Tropical Africa (1927) a doutrina da "administração indireta", que ele havia ensaiado na Nigéria. O indirect rule
defendido por Lugard visava delegar amplos poderes de administração aos chefes locais, instaurando novas relações entre colonizadores e colonizados,
conservando a essência das instituições tradicionais africanas e proporcionando-lhes meios para o seu desenvolvimento, teoricamente nos termos por eles definidos. Os chefes de fila do funcionalismo, com Malinowski, se pronunciaram a favor dessa abordagem. Ela, na realidade, tratava de forma diferenciada aquilo a que o pensamento marxista chama de “estrutura” e “superestrutura”. Gerindo de forma direta seus interesses econômicos nas colônias, a Grã-Bretanha cedia a administração das questões “superestruturais” aos autóctones a quem, no equilíbrio da própria cultura, deveria competir, como defendia Malinowski, a gestão do processo de transformação. Por isso os funcionalistas colaboraram ativamente no debate alargando o sentido e o alcance da teoria e participando no treinamento dos funcionários coloniais.
Kabengele Munanga, citando Lucy Mary (1935), refere:
“(...)a razão pela qual os especialistas da Antropologia crêem no sistema do ‘indirect rule’ não é o fato de que este sistema preserva as sociedades indígenas em sua forma original. Para os antropólogos, a questão é permitir que as mudanças que modificam as condições das sociedades africanas possam operar sem deslocação desnecessária da estrutura”(Munanga, 2000, p.367-368).
Mas na passagem à prática da gestão colonial as potências, unidas nos propósitos da empresa expansionista, fizeram opções diferenciadas. Embora, como demonstra Mamdani (1998, p.90-94), todos os sistemas coloniais tenham usado articuladamente formas de administração direta e de
administração indireta, as especificidades de cada colonialismo assentam-se na modalidade dessa articulação e no modelo de governação que foi prioritário.
A Grã-Bretanha privilegiou a distinção jurídica entre governo colonial britânico e asnative authorities31 instituindo sistemas diferenciados de acordo
com a avaliação feita sobre a organização social e política das populações. Os britânicos procuraram, sempre que conveniente, confirmar a legitimidade das instituições e das linhagens reinantes e, mediante a criação de “administrações nativas”, conferiram-lhe consideráveis poderes de governação. O governo britânico se atribuía a responsabilidade da administração dos empreendimentos econômicos dos colonos, a promoção de iniciativas locais de apoio às autoridades tradicionais para melhoria das condições de vida e a repressão dos elementos ou comunidades que não respeitassem as normas por ele estabelecidas. Por outro lado, Munanga enfatiza a importância que podia advir da legitimidade local do poder:
“O reconhecimento dos chefes tradicionais e de seus poderes podia também reforçar a autoridade do Estado colonial, na medida em que utilizava a ascendência que esses chefes possuíam sobre seus administrados e fazê-la repercutir sobre os órgãos administrativos recém-instalados (...). A obediência era facilmente adquirida, porque a pessoa que a exigia era investida de uma autoridade que não era estrangeira e não era somente a mais forte”(Munanga, 2000, p.368).
A descentralização administrativa desse sistema e a preservação dos privilégios de suas elites reinantes eram, pois, as garantias contra manifestações de resistência à ocupação porque, como diz Mamdani, “um dos efeitos do governo indireto através das autoridades nativas foi a fragmentação dos governados de acordo com linhas étnicas” (Mamdani, 1998, p.244).
O colonialismo britânico ficou associado ao indirect ruleainda que nas suas colônias africanas de povoamento, onde a população européia era mais numerosa e o desenvolvimento econômico mais importante32, não tenha
criado “administrações nativas” e tenha mantido um governo bem mais centralizado. A sua “missão civilizadora” consistia essencialmente em apresentar um parâmetro de sociedade eficiente, firme e, simultaneamente, atrativo do setor “moderno” das possessões africanas e na “facilitação” de meios e projetos para acelerar o “progresso” endógeno das native administrations.
É comum contrapor ao modelo britânico o colonialismo francês no qual prevaleceram configurações de governo fortemente centralizado, na tradição da república unitária. Anna Maria Gentili sintetiza a fundamentação dessa opção do governo de Paris:
“(...) a dominação e a exploração das colônias era legítima em nome da lei natural, justificação jurídico-filosófica de uma ordem universal da humanidade que transcende as convenções civis e legais específicas de cada sociedade. De onde o direito-dever da França de impôr, por
meio da submissão colonial, a abolição de guerras e da escravatura e as políticas de ‘mise em valeur’, de valorização dos recursos para fins comerciais, forçando, se necessário, as populações africanas” (Gentili, 1999, p.198).
Em relação à sociedade tradicional, a França criou o regime do “indigenato” (indigénat) e, até à década de 1920, não reconheceu os chefes consuetudinários. O processo de fragmentação dos povos colonizados processou-se, como regra geral, por divisões territoriais arbitrárias e pela nomeação de lideranças fiéis à metrópole.
A “missão civilizadora” deveria realizar-se pela assimilation. Serge Fouck explica a concepção francesa:
“A ideologia do progresso e a teoria da hierarquização das ‘raças’ humanas comandam as práticas da ‘assimilation’, que consistem em levar as populações coloniais ao abandono de suas próprias práticas sociais julgadas inferiores, em benefício de uma ‘elevação’ na escala das ‘raças’” e de ’a civilização’ “(Fouck, 2006, p.10)
Para dizer com Bastide, “(...) os colonizadores [franceses] do século XIX ou do século XX partiram, como os soldados do Ano II em guerra com os Tiranos (o ‘obscurantismo’ da Tradição vem a ser na verdade o inimigo comum, nos dois casos, dos exércitos republicanos, a fim de que a Razão cartesiana triunfe à ponta de baioneta)”(Bastide, 1979,p.17).
Mas a França, como a Inglaterra, não seguiu escrupulosamente o seu modelo teórico de administração direta. Em alguns casos específicos, Paris recorreu a formas de governo indireto33.
Não obstante as formulações políticas, a realidade nas colônias foi sempre diferente dos enunciados teóricos das metrópoles. Todas as administrações se pautaram pelo pragmatismo e recorreram a soluções “excepcionais”, centralizando e descentralizando, quando estavam em causa questões vitais da dominação como os interesses econômicos, a segurança dos colonos, o controle da terra, a disponibilidade de mão-de-obra, etc. O diálogo do poder, mediado pelos administradores coloniais, estabelecia-se entre as capitais imperiais e os interesses da comunidade branca, em torno sempre do problema central: a “questão indígena”.
A distinção mais profunda entre as opções britânica e francesa reside na definição do indígena. Os ingleses enfatizavam a diversidade das diferentes “tribos” e “raças” e não concebiam que um africano pudesse tornar-se “inglês”; o “fardo do homem branco”, no poema que Kipling publicou em 1899, era o custo que comportava para a Grã-Bretanha (e a Europa) a “ajuda” aos povos coloniais para seguirem a sua própria via para o “progresso”. O “desenvolvimento separado”, que se tornaria lei e sistema na África do Sul do apartheid, constituiu o princípio inspirador da filosofia colonial britânica34.
Os franceses pelo contrário, tendo como referência os ideais iluministas, defendiam, com base nas teorias evolucionistas, que la civilisation era o destino dos povos em fases históricas mais “atrasadas”. O
33
No caso da Mauritânia usou exclusivamente uma forma indireta de administração colonial.
seu “fardo” era, mais do que o econômico, o de “impor” aos povos coloniais os valores universais da civilização “superior”.
O colonialismo britânico propunha-se “civilizar a tribo”. A França pretendia “assimilar o indivíduo”.