O Estado brasileiro se organizou, a partir da Constituição da República de 1988, sob a estrutura de um Estado Social Democrático de Direito, conjugando preceitos liberais e sociais na busca pela promoção de uma sociedade mais justa e igualitária, em que se efetivem parâmetros mínimos necessários à efetiva observância dos valores informadores da dignidade humana.
O texto constitucional trouxe diversos preceitos reconhecendo a obrigação do Estado em proporcionar à sociedade condições materiais indispensáveis à consecução dos fundamentos e objetivos da República, do exercício da “cidadania”, garantia da “dignidade da pessoa humana”, construção de uma “sociedade livre, justa e solidária”.
Fundamental o papel exercido pelos direitos sociais, cuja característica marcante está na sua qualidade de direitos prestacionais que determinam ao Estado deveres no sentido de elaborar e implementar políticas públicas suficientes para a realização de uma maior igualdade social.
Sua essencialidade é reconhecida universalmente, perfilhada por diversos dispositivos normativos da ordem jurídica internacional, como no Pacto Internacional sobre direitos econômicos, socais e culturais e no Protocolo adicional à Convenção Americana em matéria de direitos econômicos, sociais e culturais, ambos os textos incorporados pelo ordenamento jurídico pátrio.
A Constituinte de 1988 inovou com relação aos textos anteriores mediante a previsão de um extenso rol de direitos sociais, vários dos quais foram minuciosamente regulados ainda no texto constitucional. Reconheceu, ainda, a obrigatoriedade da prestação desses direitos pelo Estado, reconhecendo à sociedade o direito de exigir da administração pública o fiel cumprimento de suas obrigações, ainda que mediante pleito judicial.
Reconhecemos assim a justiciabilidade dos direitos sociais constitucionalmente positivados, conforme posicionamento já consolidado em nossos tribunais superiores que, em exame de questões relacionadas à efetividade da prestação do direito à saúde, assistência social e educação, por exemplo, reconhece a necessidade de que a administração pública atue em estrita conformidade com os ditames constitucionais, reconhecendo a vinculação de sua atividade aos limites constitucionalmente estabelecidos.
Na busca pela construção de uma sociedade em que os cidadãos conscientemente participem da construção de sua própria história, a educação aparece como elemento indispensável a essa habilitação. Consciência essa que corresponde, no sentido empregado por ROUSSEAU, ao guia seguro de um ser inteligente e livre, a um princípio inato de justiça e verdade de acordo com o qual, apesar de nossas máximas particulares, somos capazes de julgar boas ou más nossas ações e as alheias 315.
O processo educativo, de que devem participar todos os membros da sociedade, é responsável pela construção da consciência do papel do homem na história. Educando e educador se apresentam como agentes da estruturação do conhecimento das habilidades e capacitações necessárias à capacitação do homem para atuar como sujeito da história.
Para tanto, a educação deve se desenvolver no sentido de proporcionar ao homem o exercício de sua liberdade, por meio de sua capacitação para o pensar e decidir de acordo com a bagagem que a humanidade construiu ao longo dos anos, integrando-o a seu contexto e tradição sócio cultural.
Assim, torna-se imperiosa a adoção e o exercício de uma concepção crítica de educação, que reconhece a autonomia e a liberdade dos sujeitos desse processo, educando e educador, que numa reflexão conjunta, crítica e autêntica da relação homem-mundo, é
responsável pela apreensão do arcabouço cultural historicamente acumulado, permitindo o desenvolvimento das potencialidades humanas e possibilitando a evolução, o desenvolvimento da sociedade.
Valemo-nos dos ensinamentos de Paulo FREIRE, que reconhece na educação um mecanismo de ‘humanização do homem’, tornando-os compromissados com o mundo, habilitando-os a atuar e refletir, modificando sua “percepção da realidade, que antes era vista como algo imutável, significa para os indivíduos vê-la como realmente é: uma realidade histórico-cultural, humana, criada pelos homens e que pode ser transformada por eles” 316.
Reconhecido o papel do Estado, de preservar a vida social e promover o bem comum, a ele cabe a oferta da educação, gratuita e obrigatória ao menos em seus níveis essenciais, conforme reconhecido pela comunidade internacional, e adotado pela ordem constitucional brasileira.
Pela Constituição de 1988, é reconhecido ao Estado o dever de prestar o serviço educacional, de forma obrigatória e gratuita em seu nível essencial: educação fundamental.
Esse dever do Estado corresponde a um direito, público e subjetivo, dos membros da sociedade. Temos consolidada a seguinte situação jurídica: a educação, em seu nível fundamental, deve ser prestada pelo Estado “visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” 317, garantida
igualdade de condições de acesso e permanência e de um padrão de qualidade.
Mais que um direito do indivíduo, o direito à educação se qualifica como o interesse da sociedade, de relevância pública e social com vistas ao bem comum, de capacitação dos membros da sociedade ao exercício de sua cidadania.
Pelo reconhecimento no texto original da constituição da obrigatoriedade e gratuidade de seu oferecimento pelo Estado ao ensino fundamental sem restrições, o constituinte
316 Educação e mudança, pp. 18 e 50.
317 CF, art. 205 Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho
originário realizou a opção de dirigir essa proteção a todos aqueles a que possa se direcionar o ensino fundamental, crianças e jovens em ‘idade escolar’ bem como jovens e adultos que, embora superada essa idade adequada, não tenham cursado e concluído com êxito essa modalidade de ensino.
Concretamente, podemos averiguar que a educação em nosso país não se concretiza em harmonia com os ditames constitucionais. Em termos de oferta, o ensino fundamental direcionado a crianças e jovens em idade escolar alcança quase que a totalidade do público alvo.
Entretanto, em razão do déficit qualitativo em sua prestação, seja por questões objetivas como número excessivo de alunos em sala de aula, por não capacitação adequada dos educadores, seja por questões subjetivas como a adoção de uma cultura educacional inadequada, verifica-se um uma taxa elevada de evasão escolar, de abandono anterior a conclusão desse ciclo educacional.
Como conseqüência, mantemos índices elevados de analfabetismo, absoluto ou funcional, de nossa população. Hoje, mais de 25% da população economicamente ativa do país encontra-se nessa situação.
Temos, assim, a coexistência de duas situações problemáticas a que deve ser direcionada a atuação do Estado, nos termos de suas obrigações constitucionais, com relação ao sistema de ensino: promover uma educação fundamental de qualidade, tanto para o ciclo regular (crianças e jovens em idade escolar) quanto para a educação de jovens e adultos, assim impedindo novos egressos do sistema educacional em situação de analfabetismo e promovendo a alfabetização daqueles que já se enquadram nessa situação.
A esse dever do Estado, de prestar de forma efetiva a educação fundamental, corresponde um direito dos cidadãos e da sociedade. Razão pela qual é imperativa a necessidade da atuação da sociedade civil e das entidades legitimadas a exigir do Estado o estrito cumprimento de seu dever legal.
Destacamos, nesse sentido o papel do Ministério Público e da Defensoria Pública que, legitimados à propositura da ação civil pública têm o dever institucional de buscar a plena realização desse direito.
Podemos concluir pela existência dos instrumentos, materiais e processuais, necessários à erradicação do analfabetismo em nosso país em razão do reconhecimento do direito à educação fundamental como um direito público e subjetivo passível de exigibilidade em juízo, individual e coletivamente, conforme demonstrado no desenvolver dessa dissertação.