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2.1. Enerji Tüketiminin Belirleyicileri

2.1.2. Enerji Tüketimi İle Enerji Fiyatları İlişkisi

A dificuldade de análise da obra literária mais conhecida de Herculano inicia-se, entretanto, pela indefinição de seus aspectos formais, implicando em uma nomenclatura sempre problemática, a saber: romance histórico, novela, poema em prosa, entre outros. O próprio Alexandre Herculano, na primeira nota colocada em um texto introdutório à narrativa de Eurico, assume a dificuldade classificatória para essa obra:

Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me aflige demasiado. Sem ambicionar para ele a qualificação de poema em prosa – que não o é por certo – também vejo, como todos hão de ver, que não é um romance histórico, ao menos conforme o criou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o imortal Scott.” (HERCULANO, 1996, p.11).

João Gaspar Simões, por outro lado, localiza nessa indefinição exatamente o valor de originalidade da obra, salientando a autonomia do texto em relação aos

modelos preestabelecidos:

Em verdade, ao contrário do que Herculano pensava, a sua ‘crônica- poema’ viria a constituir a prova real de seu talento de ficcionista, ou antes, do seu talento de poeta da história. Ao escrever o Eurico, escrevia uma das páginas mais originais da nossa novelística de todos os tempos. Fora dos moldes do romance histórico? Fora dos moldes do romance tout court. Mais perto da ficção que do poema, realmente, mas ficção-poema ainda, valha a verdade. (SIMÕES, 1969, p.32)

Embora divergindo de muitos críticos, a defesa de João Gaspar Simões da forma ficcional da obra, em detrimento (mas não recusa) da forma poema, nos parece acertada. Ainda que o todo da narrativa apresente um tom poético, os poemas, de fato, são uma parte menor inserida no texto, por isso nos parece bastante adequada a utilização do termo ficção-poema. Outras expressões, entretanto, como narrativa, narrativa-histórica ou texto ficcional, utilizados por outros críticos para referenciar a obra, nos parecem corretos, pois se não evidenciam a forma poética contida em partes do texto, também não excluem aspectos poéticos presentes ao longo de toda a narrativa. Atentamos, finalmente, para as diversas ações e também descrições de caráter historiográfico, que perpassam grande parte da obra e acentuariam também sua feição de prosa. Maria de Fátima Albuquerque, por exemplo, destaca o aspecto excessivamente descritivo do texto de Herculano, dizendo que o autor “atinge a minúcia e, muitas vezes, excesso” (ALBUQUERQUE, 1999, p.70). A autora cita como exemplo o Capítulo I de Eurico, o presbítero, intitulado “Os Visigodos”, em que se faz uma longa apresentação da História visigótica, nos seus aspectos de ascensão e queda”. (ALBUQUERQUE, 1999, p.70).

Mas, retomando a questão referente aos excessos sentimentais do romantismo, que tanto incomodaram a geração de Eça, Antero e Oliveira Martins, podem ser verificadas, de fato, expressões paradigmáticas de tais situações, no seguinte

excerto, que traduz, com bastante precisão, a trama amorosa contida em Eurico, o

presbítero:

A ação, que tem como herói o gardingo-presbítero Eurico, passa-se no crepúsculo da civilização visigoda na Península Ibérica. No fundo, é uma biografia heróica dum cavaleiro apaixonado por Hermengarda, mas cujo amor se não consuma por oposição daquele que não chegaria a ser seu sogro. Eurico, num ato de impulsividade despeitada, fez-se sacerdote católico. Porém nunca conseguiu esquecer aquela que fora o sonho de sua juventude. Acontecimentos funestos para o domínio visigótico na Ibéria puseram Eurico em contato direto com Hermengarda, em circunstancias de todo dramáticas: ela, caída em poder do emir árabe vencedor dos cristãos, é salva in extremis pelo heróico Cavaleiro Negro que era, nem mais nem menos, o próprio Eurico. Naquele fim de mundo, nada nem ninguém poderiam impedir que Eurico casasse com Hermengarda. Contudo, o celibato eclesiástico de Eurico inibia-o de fazê-lo, daí a loucura de Hermengarda e o combate suicida em que Eurico voluntariamente entra. (BEIRANTE; CUSTÓDIO, 1977, p.6)

Conforme afirmamos, o trecho acima descreve a trama de Eurico, privilegiando principalmente o ponto de vista amoroso aí contido, mas há ainda um contexto histórico bastante importante, que retrata a invasão da Península Ibérica pelos muçulmanos vindos da África, no início do VIII século e a consequente queda do império gótico. José-Augusto França destaca nesse âmbito “um fundo de acontecimentos, cortado por batalhas, alianças, traições, vinganças bárbaras [...]” (FRANÇA, 1993, p.133).

De fato, a ação narrativa inclui todos esses elementos ao retratar a disputa territorial entre árabes e godos. No início da trama, Eurico surpreende uma conversa “[...] entre o chefe árabe Táriq e um conde cristão traidor [Juliano] que tinha o governo de Septum. [...] consumava-se aí a traição dos que abriam as portas do Estreito aos inimigos das Espanhas.” (NEMÉSIO, 1979, p.IX). As palavras de Vitorino Nemésio, que mimetizam o tom narrativo da obra herculaniana, ressaltam ainda, nessa mesma cena, a presença do bispo católico Opas que, traiçoeiramente, também, estaria no

comando dos árabes de Híspalis. Eurico, então, escreve a Teodemiro, seu antigo irmão de armas, e atual Duque de Córdoba, contando o ocorrido e alertando para a fragilidade do reinado de Roderico: “Que Teodemiro velasse, Roderico é rei fraco;” (NEMÉSIO, 1979, p.IX).

Conforme esperado, consuma-se, assim, a batalha entre godos e mouros, mas ao lado desses participavam, também, alguns cristãos traidores: Sisebuto, Ebas, Juliano e Opas. Apesar da corajosa e heróica participação do Cavaleiro Negro, que na verdade seria o próprio Eurico, os visigodos são vencidos: “Em vão o Cavaleiro Negro surge como um corisco: só terá tempo de abrir uma grande clareira nas linhas, increpar Roderico, vê-lo morrer, perder-se de Teodemiro e atirar-se à linfa de Chryssus.” [NEMÉSIO, 1979, p.X]. E, com a morte de Roderico, Teodemiro é eleito seu sucessor.

Posteriormente a esses fatos que desencadearam a queda da monarquia visigótica na Espanha, ocorre o rapto de Hermengarda pelos árabes e sua dramática e surpreendente salvação por Eurico, conforme descrito acima. Os dois refugiam-se, juntamente com os outros godos participantes da ação, na caverna de Pelágio, irmão de Hermengarda e duque de Cantábria. Depois de revelado o segredo do sacerdócio de Eurico, o gardingo vai novamente ao encontro dos árabes.

Nesse momento, já ao final da narrativa, é apontado o início da reação cristã contra os muçulmanos: “A ventura das armas muçulmanas tinha chegado ao apogeu, e a sua declinação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os godos parecia estar satisfeita.” (HERCULANO, 1996, p.138). Tem início, então, a batalha de Cangas e Onis, protagonizada por Pelágio e o grupo de godos que junto com ele constituíram a resistência cristã nas Astúrias. O narrador ressalta, abaixo, a importância dessa batalha como ponto inicial para a reconquista cristã da península:

Os que têm lido a história daquela época sabem que a batalha de Cangas de Onis foi o primeiro elo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quase oito séculos, fez recuar o Alcorão para as praias da África e restituir ao evangelho esta boa terra de Espanha, terra mais que nenhuma de mártires. (HERCULANO, 1996, p.138)

Narra-se finalmente a morte de Eurico. Afastando-se do campo de batalha com os dois traidores da causa cristã, Juliano e Opas, e também com mouro Muguite, Amir da cavalaria árabe, o presbítero revela sua identidade e inicia-se um confronto entre eles, conforme descrito a seguir: “Um contra três! – Era um combate calado e temeroso. O cavaleiro da cruz parecia desprezar Muguite: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dois godos. Primeiro o velho Opas, depois Juliano caíram.” (HERCULANO, 1996, p.140). A seguir Eurico se desfaz das próprias armas permitindo ser morto por Muguite:

Muguite, cego de cólera, vibrara a espada: o crânio do seu adversário rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno. Como tomba o abeto solitário da encosta ao passar o furacão, assim o guerreiro misterioso do Críssus caía para não mais se erguer!... (HERCULANO, 1996, p.140)

É interessante como as duas perspectivas, a amorosa e a histórica, ou bélica, tão distintas, descrevem de forma coerente o enredo da obra, mas é exatamente da interseção entre os dois eixos que se pode melhor compreender a pertinência de Eurico ao modelo tipicamente romântico de junção entre indivíduo e nação, conforme assinala abaixo, Ofélia Paiva Monteiro, sobre esse período:

Com nova acuidade se atenta, com efeito, na inter-relação indivíduo/meio, que pressupõe a de indivíduo/nação, e, tanto no plano individual como no plano nacional, luta-se pela conquista da identidade, entendendo-se que o indivíduo só a atingirá no contexto da sua nação e que esta só a alcançará, por sua vez, com indivíduos a quem der condições de realização pessoal [...]. (MONTEIRO in CASTRO, 2003, p.21)

É também Ofélia Monteiro quem, em outro artigo referente à obra herculaniana, chama a atenção para um conto que teria dado origem à trama de Eurico: “Destruição de Áuria”. Também aí, a pesquisadora destaca o paralelismo entre o protagonista e a nação, atentando ainda para outras similaridades determinantes da consistente relação entre as duas obras. No seguinte tópico, abordaremos algumas questões referentes à temática desse conto, cotejando-o com o enredo de Eurico, no que se refere à figuração do mouro e outras questões tangentes a essa. Posteriormente, então, partindo dos subsídios extraídos desse confronto, prosseguiremos a análise relativa à narrativa de Eurico enfatizando o conflito entre cristãos e muçulmanos.