5.1 Tartışma
5.1.5 Empati Yapma Becerisine Yönelik Tartışma
André entrou para a escola em Araçuaí, onde cursou o 1º ano, tendo completado o curso primário numa pequena escola estadual do distrito onde mora atualmente. Daí para a frente, isto é, de 5º à 8ª série e todo o 2º grau, estudou na E. E. Imaculada Conceição, o maior estabelecimento escolar do município, situado no centro da cidade de Pedro Leopoldo. Concluiu o 2º grau aos 19 anos, aproximadamente, em 1989. Inicialmente desejara fazer o curso científico, mas, dado que este curso, segundo André, passava por um momento problemático na referida escola, ele optou por fazer o curso de técnico em química, que, ao contrário, gozava de grande aceitação, tendo bons professores. Muitos alunos desse último curso estavam, inclusive, saindo-se bem nos vestibulares que prestavam.
Assim que concluiu o 2º grau, sem fazer cursinho, tentou vestibular para química, na UFMG. Passou na 1ª etapa, mas não foi selecionado na 2ª, resultado que o decepcionou muito e em função do qual resolveu interromper os estudos: “quer saber de uma coisa? Já tenho uma profissão mesmo, vou dar um tempo!” Essa interrupção foi por um período de aproximadamente 4 anos. Tendo enviado seu currículo para diversos lugares, foi chamado para um trabalho de químico, em Porto Trombetas, estado do Pará, num projeto de mineração. Seu objetivo era “ganhar bem lá”, voltar, fazer cursinho e continuar os estudos. No entanto, não conseguiu ficar no norte nem um ano. Ao voltar, ficou uns 10 meses sem estudar e sem trabalhar, quando, então, conseguiu trabalho
numa repartição da Secetaria da Fazenda, em Pedro Leopoldo. Isso possibilitou-lhe retomar os estudos.
Voltou a enfrentar o vestibular no final do ano de 1993, aos 23 anos, na UFMG, mas desta vez para Economia. Para tal, frequentou um ano de cursinho no Pitágoras, pré- vestibular de grande prestígio da rede privada de Belo Horizonte. Novamente ficou retido na 2ª etapa. Esse segundo resultado, que ele viveu como um fracasso, deixou-o extremamente desanimado, principalmente porque investira pesados esforços, em energia e dinheiro, no cursinho. Foi aí que ele decidiu optar por uma faculdade particular. Em meados de 1994, prestou vestibular para economia na PUC-MG e foi aprovado. A mudança de opção para a área de Economia sofreu forte influência de sua experiência como técnico em Química. Descobrira que a área de exatas não era bem o seu campo; o trabalho de técnico lhe parecia pouco favorecedor de criatividade e, nesse sentido, ele estaria, de certa forma, destinado a “estar fazendo a mesma coisa o resto da vida”. Por outro lado, se mantivesse sua opção de estudar Química em nível superior, vislumbrava como muito difícil investir em pesquisa. Daí sua mudança para Economia que, “tinha uma coisa do lado da Matemática e tinha um lado da Sociologia”, área do conhecimento que também lhe despertava interesse.
Na PUC, ele próprio mantém seus estudos, tendo conseguido um desconto de 80% nas mensalidades, através do crédito educativo.
No geral, principalmente em relação ao ensino fundamental e médio, André considera que seu desempenho escolar foi bom; “acho assim, pela facilidade que eu tive, assim... pra mim foi tranquilo... ter levado o 1º e o 2º graus...”, afirma. D. Silvia declara que André não faltava às aulas, fazia religiosa e autônomamente os deveres de casa, e, quando não tinha cadernos, tomava dinheiro emprestado para comprá-los. Ela declara também não ter comparecido a nenhuma das reuniões para as quais foi convocada na escola do filho, justificando, entre outras coisas, que não houve necessidade, uma vez que André não criava problemas, ao contrário do está acontecendo agora com os filhos mais novos. Em relação a esse momento de sua trajetória, sua mãe lembra de uma professora do primário que o admira muito, considerando-o, inclusive, o melhor aluno que tivera. Na 5ª série, chegou a ser aluno de destaque, o que lhe valeu o prêmio de ser transferido do turno da tarde para o da manhã. Naquele momento, o Colégio Imaculada
Conceição organizava suas turmas segundo critérios de homogeneidade de rendimento escolar, e os “melhores” alunos estudavam no turno da manhã.
Mesmo assim, André foi reprovado duas vezes: uma na 6ª série, e outra no 1º ano do 2º grau. Para essas reprovações, ele tem justificativas pontuais, que não apagam, no entanto, sua auto-imagem de bom aluno. A reprovação na 6ª série, quando tinha por volta de 13 anos, justamente no momento em que havia sido premiado pelo seu sucesso na 5ª série, foi explicada por uma fase de muita “malandragem”:
“A dificuldade que eu tive no 1º grau foi com relação a...assim... rebeldia mesmo e tal... não querendo estudar, levando as coisas assim de bobeira... Malandrei mesmo. Quando cheguei no final, dancei, né? (...) Quando cheguei de manhã, seria como se fosse assim... ih! Isso tá tranquilo demais! Então comecei a desbandeirar, né? “
A fala do pai, confirmada enfaticamente pela mãe, ratifica essa explicação de André e contextualiza o fato. Quando estava cursando a 6ª série, ele saiu de casa, do distrito onde morava, e foi morar “na cidade” com uma tia, irmã de Seu Otávio, porque esse não tinha condições de pagar seu transporte diário para a escola. Foi quando, segundo o pai, um colega começou a “tirar ele de cabeça”; ia, com frequência para um boteco, por exemplo, ao invés de ir pra aula. Quando o pai descobriu o que estava acontecendo, trouxe-o de volta para casa. Não ficou claro, no entanto, se os pais “descobriram” tal conduta depois da reprovação consumada, ou se ainda no decorrer do ano letivo, já comprometido.
A reprovação no 1º ano do 2º grau, situa-se, para André, no contexto da época mais difícil de sua vida escolar, quando teve de aprender a conciliar trabalho e estudo. Aos 15 anos, “forçado” pelo pai, começou a trabalhar no setor de produção de uma empresa de pré-moldados de concreto, a PRECON, em Pedro Leopoldo. Em função do cansaço da jornada diária de trabalho, manual, pesado, faltava com frequência às aulas e perdia provas. Nesse ano, foi reprovado em várias matérias. A maior dificuldade, no entanto, foi a de administrar seu tempo de uma forma nova, tempo que passou a ser de adolescente trabalhador e estudante, e não mais só de estudante. Ele explica essa reprovação da seguinte maneira:
“Incompatibilidade mesmo; não conseguia juntar uma coisa com outra. Porque a gente tem que dividir as coisas; geralmente cê tem que abdicar um pouco do tipo de vida que cê leva; se você gosta de sair muito, cê já tem que dividir mais as coisas... Tem que dar um tempo pra estudar, outro tempo pra poder fazer outras coisas, etc. (...) Eu tive que redefinir toda a... o que eu queria”.
André extrai, no entanto, saldo positivo dos embates desse momento. Em primeiro lugar, ele aprendeu “a levar a coisa, a dividir as coisas direitinho”. Ou seja, aprendeu a gerenciar seu tempo de acordo com as novas circunstâncias.
Outro momento particularmente difícil na trajetória escolar de André foi o de sua entrada para a Faculdade. Quando o entrevistamos, ele concluía o 2º período de seu curso; falava, portanto, de uma fase de adaptação à experiência universitária. Aqui, ele levanta a questão do alto nível de exigência do ensino, comparando-o com o do 2º grau. Sobre isso, declara:
“(...) é uma situação completamente diferente de uma escola de 2º grau; é a primeira coisa que a gente vê. Pra mim, a Universidade era como se fosse uma extensão do 2º grau. [No entanto] (...) as coisas abordadas são mais assim... um “teor acadêmico”, como dizem os professores. (...) dificuldade de saber onde é que se busca as coisas ... cê não não sabe nem o que estuda... desorientado!”
Nessa fase difícil de adaptação ao modo de estudo próprio da universidade, André traz também novamente à tona a questão, já colocada, da dificuldade de administrar tempo de estudo, de trabalho e de juventude. Ele fala dessa problemática num tom expressivo de muita luta e angústia: “agora na Faculdade a coisa fica mais complicada, porque eles exigem muito mais da gente. Então... nossa... é uma correria!” No 1º semestre de 1995, ele tinha sido, inclusive, reprovado numa disciplina de economia. Tentando compreender e explicar esse momento, ele afirma que, no início do semestre, já sabia que não ia conseguir ser bem sucedido. Inicialmente culpou o professor, depois a dificuldade específica da matéria; finalmente ponderou que estava, na verdade, era se
sobrecarregando demais. Na busca de encontrar uma solução, estava planejando, então, matricular-se em menos disciplinas a cada semestre. Esta alternativa lhe parecia possibilitar realizar um bom curso, seu objetivo maior, conforme ele próprio declara, mas que refletia também as condições de vida sob as quais realizava um curso superior, numa faculdade privada.
Na entrevista com a família de André, indagamos também sobre os momentos mais difíceis de sua trajetória escolar. Seu Otávio e D. Sílvia, parecendo-nos que, sobre essa questão, não tinham nada a dizer, ficaram absolutamente em silêncio. Clarice, a irmã que participou da entrevista, entende que o período de transição do 2º grau para o curso superior, teria sido o mais difícil para ele: os vestibulares, o cursinho. Ela mostra, por exemplo, sua luta para pagar o curso pré-vestibular: “o dinheiro que ganhava ia todo embora com o pagamento do cursinho, com passagem...”
Dentre os obstáculos que teve que enfrentar em sua passagem pelos diferentes níveis de ensino, no entanto, ele não fala, em momento algum, de problemas oriundos de confrontações culturais no interior da escola. Na PUC, por exemplo, ele declara que não teve problemas de adaptação, nem com os colegas, nem quanto ao ambiente. Se partimos do suposto de que o universo escolar, principalmente em seus níveis mais avançados, é particularmente distinto daquele das famílias das camadas populares, e, porisso, potencialmente perturbador, ficamos com algumas indagações em relação à história escolar de André. Teria ele efetivamente ficado isento desses confrontos? Ou, possíveis conflitos teriam ficado encobertos por outras dificuldades que, por terem sido vividas com maior intensidade, teriam ganho o espaço?