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EMPATİK EĞİLİM ÖLÇEĞİ
Uma das imagens do Brasil no exterior que se mantém atual, desde a época colonial até hoje, é certamente a de um lugar encantador, a do paraíso terrestre. Brasil, o Éden, cortado por rios de leite e mel. A terra do ouro e pedras preciosas abundantes, do povo diferente, manso. A terra de difícil mão-de-obra, lugar de fauna e flora exótica, belezas e riquezas naturais exuberantes. Uma terra misteriosa, e ao mesmo tempo tão cheia de preciosidades, fez surgir diversos mitos relacionados ao seu ainda desconhecido potencial.
É certo que ao longo dos séculos essa imagem foi acrescida de tantas outras. Porém, estudos sobre a visão do estrangeiro acerca da nação brasileira comprovam que representações do Brasil como um lugar paradisíaco continuam atuais (BURKE, 2006; HUGON, 2006; LOPES, 2010; MOTTA, 2004; PAGANOTTI, 2007, 2009; PRATT, 1999; SCHEYREL E SIQUEIRA, 2008; VIANA, 2010).
Para Marilena Chauí (2010), vive-se no Brasil uma narrativa de origem que nunca cessa. Ela se refere ao chamado “mito fundacional”, que em um sentido antropológico seria uma solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram soluções para serem resolvidos na realidade. “Um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo” (CHAUÍ, 2000, p. 9).
Já para Stuart Hall (2002), a narrativa do mito fundador é uma das estratégias utilizadas para representar a nação e a cultura nacional. O autor traz um diferente conceito para o termo, não discordando de Chauí, porém apresentando uma nova perspectiva, já que para Hall a origem
da nação se mede em um tempo mítico. Assim, para ele, o mito fundador é “[...] uma estória que localiza a origem da nação, do povo e de seu caráter nacional num passado tão distante que eles se perdem nas brumas do tempo, não do tempo ‘real’, mas de um tempo ‘mítico’.” (HALL, 2002, p. 54).
A partir da premissa posta por Hall, podemos situar que, no caso brasileiro, há sim, um tempo e espaço específicos para o surgimento do mito fundacional. Levando em conta o plano histórico, seria o momento do descobrimento do país e sua subsequente colonização (SILVA, 2006). Pode-se, a partir de tais conceitos, concluir que as atuais representações identitárias do Brasil passam pelo mito fundador, ou seja, pela imagem edênica da nação como um paraíso terrestre.
Chauí (2000) e Holanda (2010) completam tal ideia, compartilhando da posição que também deriva do mito fundador a representação do Brasil como um lugar de convivência harmoniosa, de um povo alegre e sensual. Muitos teólogos europeus, entre eles, São Tomás de Aquino, acreditavam que abaixo da linha do Equador estaria localizado o Éden Terrestre, mais precisamente nas terras do Brasil. A obsessão de alguns europeus por esse paraíso se enlaça estreitamente aos motivos edênicos, tão populares durante o período das grandes navegações. Segundo Sérgio Buarque de Holanda (2010), os portugueses não seriam menos crentes na existência de tais motivos do que outros povos.
De qualquer modo, não se poderá dizer que a sedução do tema paradisíaco tivesse sido menor para os portugueses, durante a Idade Média e a era dos grandes descobrimentos marítimos, do que fora para outros povos cristãos de toda a Europa ou mesmo para judeus e muçulmanos (HOLANDA, 2010, p. 226).
DaMatta (1993) acredita que a própria carta oficial de Pero Vaz de Caminha, sobre o Brasil, traz a representação das novas terras a partir de uma narrativa de contornos épicos, com sentidos convergindo para uma imagem de local paradisíaco. É posta uma natureza repleta de riquezas, na qual as dificuldades pesam menos que os atrativos. Para Holanda (2009, p. 28), na carta exalta-se “[...] tanto a inocência e a beleza dos nativos quanto as potencialidades da natureza”, e afirma que os portugueses “[...] se deixavam atrair pela esperança de achar em suas conquistas um paraíso feito de riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles se ofereceria sem reclamar labor maior, mas sim como dom gratuito”.
Sobre a colonização portuguesa, Chauí (2000) afirma que o Brasil é uma invenção histórica e uma construção cultural. Ou seja, “[...] a América foi sendo desenhada e descrita por pensadores, artistas, navegadores e autores, durante um longo processo de conhecimento e
estabelecimento de identidades”. (BIGNAMI, 2002, p. 79). Chauí (2000, p. 57, grifo da autora) ainda completa que “o Brasil foi instituído como colônia de Portugal e inventado como ‘terra abençoada por Deus’, à qual, se dermos crédito a Pero Vaz de Caminha, ‘Nosso Senhor não nos trouxe sem causa [...]”.
Ao discutir a afirmativa de Chauí, Silva (2006) dá destaque para o elemento divino na elaboração do mito fundador do Brasil, no qual a natureza é vista como uma obra de Deus. E é assim que surge um mito fundador, a Visão do Paraíso – clássica abordagem de Sérgio Buarque de Holanda –, uma ideia de Brasil que está presente na história e que atualiza-se a cada momento. Essa atualização do mito se dá quando os novos discursos retomam discursos preexistentes. O mito está presente nos símbolos cívicos como a bandeira e o hino nacionais, na cultura e na própria maneira como os brasileiros se veem e são vistos (SILVA, 2006).
A respeito da construção da identidade do povo brasileiro e sua representação, é importante destacar a posição de Hall, para o qual o imaginário sobre uma identidade cultural e nacional é construído com base na “narrativa da nação”. Hall (2001, p. 52) explica que para “imaginar uma cultura” é necessário construir narrativas sobre a representação dessas identidades como as tradições e os mitos fundacionais – os founding fathers e o “destino manifesto” norte-americanos ou a tríade “indígenas, europeus e negros” da formação do povo brasileiro (PAGANOTTI, 2007).
Essa “narrativa da nação” é a própria expressão das identidades que compõem um povo ou nação, sendo contada e recontada nas histórias, literaturas nacionais, na cultura popular e na mídia. É interessante observar que uma cultura nacional não é composta apenas por instituições, mas também por símbolos e representações, ou seja, ela é um discurso que produz significados, com os quais os indivíduos irão se identificar – ou não – e assim construir suas próprias identidades. A partir dessa premissa, Lopes (2010) reflete que é a partir da cultura que se edificará a imagem da nação, ou seja, a própria identidade nacional. Por sua vez, essa identidade provoca reflexos em um outro tipo de narrativa – aquela que as nações fazem uma das outras, e que é o objeto de estudo deste trabalho: a imagem do Brasil na mídia impressa portuguesa, tomando como base o estudo de caso dos jornais Diário de Notícias e Público.
É preciso esclarecer que tipo de conceito Hall (2001) utiliza para se referir à identidade. Para ele, a identidade no pós-modernismo é o que melhor representa as sociedades atuais. Em sua obra A Identidade cultural na pós-modernidade, Hall aponta que o conceito do termo sofreu modificações ao longo do tempo, tendo três interpretações distintas: a identidade centrada no indivíduo, presente no Iluminismo; a formada e modificada pelas interações entre o indivíduo
e o meio; e a identidade no pós-modernismo. Para Lopes (2010), esta última opõe-se à ideia de que o indivíduo é formado por uma identidade única, sendo, portanto, formado por múltiplas identidades, que se modificam no decorrer do tempo. “A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2001, p. 13).
A partir dessa concepção, observa-se que os indivíduos são fragmentados por diversas identidades. Lopes (2010) cita como exemplo dessa fragmentação, a identidade cultural (traços culturais que possibilitam indicar a que grupo o indivíduo pertence) e a nacional (identificação de um povo com uma nação). A partir das posições de Hall e Lopes, podemos acrescentar a de Azevedo (1963), em seu livro A cultura brasileira, que já desde os anos 1960 afirma que o caráter coletivo de um povo seria uma síntese de elementos os mais diversos, concordantes e resistentes, que se combinariam ou tenderiam a combinar-se, marcando a “fisionomia original” de uma nação. A construção dessa configuração identitária poderia ser explicada na sua formação, pois seria produto de grande variedade de fatores geográficos, étnicos, econômicos e sociais, dos quais os dois primeiros têm um papel importante, mas não preponderante (SCHEYERL & SIQUEIRA, 2008).