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As sociedades têm uma existência espacial, elas adquirem formas territoriais particulares, em função das múltiplas combinações dos agentes que nelas interagem. Isnard (1982) afirma mesmo que a sociedade cria-se, criando o seu espaço, e que sociedade e espaço reproduzem-se ao transformarem-se dialecticamente ao longo das gerações.
De um modo geral, a linguagem comum reconhece esta relação entre formações espaciais e estilos de vida quando utiliza expressões como urbano e suburbano, com um significado que inclui as dimensões comportamental e espacial. Mas o espaço está ligado às formas que a sociedade adquire de um modo mais profundo, isto é, a revolução agrícola, a formação de povoações, a urbanização, a industrialização e até o desenvolvimento e crescimento do Estado moderno intervencionista estão associados a mudanças na morfologia da sociedade.
Nesse sentido, a teoria de Durkheim sobre a divisão social do trabalho tem uma componente espacial. Durkheim admite que variáveis espaciais, como a dimensão e a densidade das populações, estão relacionadas com a existência de diferentes tipos de solidariedade. A solidariedade mecânica, característica das sociedades tradicionais, pressupõe uma integração, através de crenças e estruturas de grupo semelhantes. A solidariedade orgânica pressupõe uma interdependência baseada nas diferenças, ou seja, a que resulta da divisão social do trabalho. Esta última está associada a um espaço denso e integrado, enquanto a primeira baseia-se num espaço segregado e disperso.
No entanto, Durkheim não formaliza uma análise espacial das formações sociais. Para este autor, a sociologia deveria compreender os quotidianos através das acções e opções dos agentes sociais e dos significados partilhados sobre as consequências dessas mesmas acções e opções. Ou seja, o espaço em Durkheim é produzido pelas representações e pela acção dos agentes sociais.
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A importância da análise do espaço emerge também nas novas abordagens do planeamento e ordenamento do território, do urbanismo e até da arquitectura, todavia estas áreas não são privilegiadas nesta análise.
Partindo da análise de outro tipo de sociedades, não industriais, Lévi-Strauss sustenta que a estruturação social está relacionada com a configuração espacial, logo o espaço é uma projecção externa, objectiva e cristalizada dos processos mentais e sociais. No entanto, Lévi-Strauss reconhece que, enquanto em alguns povos a configuração espacial parece quase uma representação projectiva da estrutura social e a relação entre espaço e processos mentais e sociais é evidente, noutros seria pouco clara e até mesmo difícil de descobrir alguma relação54.
Do ponto de vista espacial, as sociedades variam no tipo de configuração física, mas também nos níveis de estruturação. Estas diferenças, que surgem como uma das dimensões da cultura, assumem formas distintas; ou seja, algumas sociedades investem mais que outras no padrão físico do espaço. O resultado é que enquanto umas têm padrões aparentemente informais e “orgânicos”, outras têm formas claramente globais e até geométricas.
Nesse sentido, a antropologia dá um contributo importante ao dizer que os padrões espaciais devem ser descritos e analisados nos seus próprios termos, antes de qualquer assunção de uma subjugação determinista a outras variáveis55. Igualmente, que devem
ser considerados os tipos morfológicos e as suas inúmeras variações, que podem ser muito fechados ou muito abertos, hierárquicos ou não hierárquicos, dispersos ou concentrados.
Apesar do importante contributo da antropologia para o estudo do espaço, os antropólogos analisam-o como uma “projecção externa” de “processos sociais e mentais”, que podem ser descritos independentemente da sua dimensão espacial. Neste sentido, os antropólogos, particularmente os estruturalistas, não consideram o espaço por si só, estando fundamentalmente preocupados com os casos em que a ordem espacial pode ser identificada como uma reprodução da organização da sociedade associada a uma configuração espacial. Assim, o espaço não tem a autonomia descritiva, como por exemplo os sistemas de parentesco e as mitologias.
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Em algumas sociedades, as formas espaciais têm um forte significado social, por exemplo, ligando determinados grupos a locais particulares. Enquanto outras sociedades têm formas espaciais reconhecidas, mas falta-lhes um investimento óbvio de significado social.
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À partida não é possível saber o que irá determinar um padrão espacial ou outro, daí que seja importante ter o cuidado de não reduzir o espaço a um subproduto de acções ou agentes externos causativos.
Já no âmbito da sociologia, em 1974, H. Lefebvre publica um importante contributo teórico sobre o espaço enquanto produto social: La Production de l’Espace56. Mais do
que considerar o espaço social como um “facto da natureza”, ou como simples “factos da cultura”, o espaço social de Lefebvre é sobretudo um produto materializado. A produção do espaço não significa considerá-lo um “objecto” ou uma “coisa”, mas o resultado ou o efeito da acção das sociedades sobre a natureza (entendida aqui como a matéria).
A concepção do espaço como produto social obriga, antes de mais, a clarificar a noção de espaço-produto e de espaço-produtor, defendida pelo autor. Como produto57, o espaço deve ser concebido como algo que muda, se consome e que desaparece, que se vende e compra, tendo um valor de troca e um valor de uso. Como produtor, o espaço intervém, pela interacção ou retroacção, na própria produção58.
O espaço social, por um lado, intervém no modo de produção como causa e efeito e, por outro lado, muda com esse modo de produção. Na sua forma produtiva e produtora, o espaço intervém nas relações de produção e nas forças produtivas59. Não pode por isso
ser isolado e manter-se estático, ele é dinâmico e dialéctico: como produto e produtor é gerador e suporte das relações económicas e sociais.
Para Lefebvre, o estudo do espaço permite compreender o modo de existência das relações sociais, ou seja, as relações sociais de produção têm uma existência social, assim como uma existência espacial. Estas relações projectam-se num espaço e produzem esse espaço. De outra forma, elas mantêm-se na abstracção, isto é, nas representações mentais e nas ideologias.
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Apesar de Marx não considerar as dimensões espaciais das relações sociais, a análise marxista é retomada por Lefebvre na sua reflexão sobre a produção do espaço social.
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O espaço é produto, a partir de uma “matéria-prima”, a natureza, e implica a economia, a técnica, a política e a estratégia.
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Por exemplo, na organização do trabalho produtivo, nos transportes ou no fluxo de matérias-primas e de energia e na rede de distribuição de produtos.
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Na tradição marxista, o espaço social pode ser considerado uma superestrutura, uma vez que resulta das relações produtivas e das relações de propriedade, entre outras. No entanto, Lefebvre destaca que o espaço também intervém nas forças produtivas, na divisão do trabalho e tem relações com a propriedade, com a mudança, com as instituições, com a cultura e com o conhecimento. Deste modo, o conceito de espaço escapa à classificação marxista de “base-estrutura-superestrutura”.
O espaço muda com as sociedades, num processo complexo que a análise sociológica deve reconstituir60. Esta análise deve caracterizar o espaço e a sua génese, mas também
reencontrar a génese da sociedade actual, através do espaço produzido. Deste modo, ganham sentido os estudos locais, com diversas escalas e estudos que devem ser inseridos na análise geral, contribuindo desta forma para a teoria global. O local, o regional, o nacional e o mundial implicam-se e imbricam-se.
Apesar de Lefebvre estabelecer a relação entre os modos de produção e o espaço, ela não é necessariamente imediata ou transparente61. Um determinado modo de produção pode dar origem a diferentes espaços.
Ainda para o autor, se há uma história do espaço, ou uma especificidade em função do tempo então, só se pode compreender o que se passa hoje em função das relações de produção e da estrutura social que marcam as sociedades actuais, nomeadamente o capitalismo dominado pela burguesia (Lefebvre, 2000).
De facto, tal como refere Silva (2006), o actual processo de globalização, assente numa “tecnologia não neutra”, tem vindo a difundir o modo de produção capitalista à escala planetária.
Nas últimas décadas, é visível nos campos e nas cidades um processo duplo: com a ajuda das tecnologias e técnicas recentes, as populações estendem-se dos centros às periferias mais longínquas, enquanto coexistem movimentos de concentração da população em grandes centros urbanos. Um novo espaço tende a formar-se, à escala mundial, integrando e desintegrando o nacional e o local62.
Sem dúvida que todas estas reflexões de Lefebvre são fundamentais para a construção do modelo teórico que orienta esta dissertação. Todavia, a materialização da investigação empírica obriga ainda a um esforço adicional no sentido de construir as variáveis e os indicadores que permitem observar a relação dialéctica e biunívoca entre
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As três fases que integram este processo são descritas por Lefebvre como a descoberta de espaços novos, desconhecidos, dos continentes e do cosmos; a produção de uma organização espacial própria a cada sociedade; e a criação da paisagem e da cidade com os seus monumentos.
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O crescimento das forças produtivas não conduz à constituição de um espaço ou de um tempo segundo um esquema causal (Lefebvre, 2000). As mediações e os mediadores interpõem-se: grupos activos, razões ligadas ao conhecimento, à ideologia, às representações.
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Segundo Lefebvre, este processo comporta contradições e conflitos no modo de produção capitalista, alguns deles assentes na divisão do trabalho à escala planetária.
espaço e sociedade. Para isso é fundamental a aproximação ao conceito de territórios diferenciados.