• Sonuç bulunamadı

No quadro da abordagem clássica da modernização6, as “comunidades indígenas” são

frequentemente consideradas barreiras à difusão da “civilização” e do “progresso”. Na história das sociedades ocidentais e dos processos de colonização protagonizados pelos países economicamente mais desenvolvidos, há vários exemplos de territórios anteriormente desertos ou inóspitos, que passam a estar no limite da exploração de recursos7. Neste processo, as terras e os recursos naturais estão sujeitos à pressão da expansão da economia industrial na sua busca intensa de novos recursos.

O insucesso dos modelos de desenvolvimento dos países do “terceiro mundo” levou a uma descrença de alguns dos seus habitantes relativamente aos programas de “desenvolvimento” (Webster, 1990). A partir dos anos setenta, os países mais pobres começam a tomar consciência que não conseguem acompanhar os mais ricos8 e surgem

formas de manifestação de desilusão com o “progresso e desenvolvimento”9.

A principal causa para o insucesso das políticas que defendem modelos de desenvolvimento para os países do “terceiro mundo”, de acordo com Webster, foi ignorarem as percepções sobre “desenvolvimento” das populações locais. O autor considera ainda diferentes formas de encarar a aquisição de bens materiais. Para alguns, o poder de aquisição pode significar a perda da independência pessoal. Além disso, as

6

Os teóricos da modernização procuram identificar as características básicas do desenvolvimento, construindo um modelo que possa ser usado como medida do estádio de desenvolvimento de qualquer sociedade. Neste sentido muitas das situações de privação no mundo podem ser vistas como estrangulamentos e prisões ao tradicionalismo. Na década de 1950, T. Parsons destaca-se entre os cientistas sociais que desenvolveram esta teoria, principalmente nos EUA. W. Rostow, importante autor da teoria da modernização, define um modelo com vários estádios, as etapas do crescimento económico, que culminavam no arranque económico e no consumo de massa. De acordo com este modelo, estas etapas podem ser identificadas em todas as sociedades, ou seja, cada país, num dado momento, encontra- se numa destas etapas e todos os países que aspiram a crescer têm que passar por estas etapas.

Os cinco estádios de crescimento de Rostow assentavam nos princípios da ética do trabalho e da poupança, associados a uma economia de laissez-faire e a mercados livres.

7

São exemplo, a expulsão dos índios americanos dos seus territórios para reservas ou a exploração de novas terras pelo governo brasileiro para a exploração madeireira, destruindo terras de índios e reservas naturais (Webster, 1990:38).

8

Esta consciência está na origem do surgimento das teorias do subdesenvolvimento, das quais se destaca a teoria da dependência. Segunda esta a sociedade global evoluiu de um modo desigual e o centro principal do mundo industrializado (EUA, Europa, Japão) detém um papel dominante, sendo os países do “terceiro mundo” dependentes desse núcleo. Autores como Celso Furtado ou Fernando Henrique Cardoso apontam para algumas insuficiências do desenvolvimento, nos seus aspectos económico e político. As insuficiências vão contribuir para um crescimento das desigualdades sociais e numa relação de dependência entre países, pelo que os autores procuram reflectir sobre a possibilidade de um desenvolvimento justo e igualitário.

9

Esporadicamente há manifestações das populações locais contra grandes obras que põem em causa valores ambientais, patrimoniais ou culturais.

percepções que têm de desenvolvimento e progresso são por vezes contraditórias10: por

um lado, as pessoas querem viver melhor, por outro lado, querem viver da forma como sempre viveram, o que justifica a resistência à mudança. Por exemplo, os peritos em desenvolvimento podem decidir que as comunidades precisam de crescer para se tornarem viáveis. Mas as pessoas que fazem parte das comunidades podem considerar que tudo está bem e resistir à mudança11.

Esta é uma questão particularmente importante para o objecto de estudo desta dissertação, já que como referiu M. Silva (1987), muitas vezes a racionalidade dos comportamentos das populações locais tem subjacente estratégias de resistência e sobrevivência adaptativa.

Um economista orientado para as questões do crescimento olharia para estas aparentes contradições como uma ausência de racionalidade económica, que se traduziria na dificuldade de saber o tipo de respostas a adoptar perante uma “oportunidade” económica.

Mais recentemente, os sociólogos e os antropólogos têm dado mais atenção às aspirações e aos valores dos actores sociais sujeitos aos processos de desenvolvimento, reconhecendo a importância das percepções de desenvolvimento de “baixo para cima” (Webster, 1990). Neste sentido, o desenvolvimento deve integrar o que as próprias pessoas consideram ser as suas prioridades.

A dimensão cultural do desenvolvimento passou a ser considerada fundamental, uma vez que as condições culturais desempenham um papel determinante na escolha de políticas e métodos de intervenção12. De acordo com Arfwedson (1996), a dimensão

cultural do desenvolvimento obriga a equacionar os projectos de modo a que eles

10

É frequente constatar que as pessoas querem dar mais opções aos filhos do que as que tiveram e, simultaneamente, vê-los escolher o que elas próprias escolheriam.

11

Entre os exemplos de estudos sociológicos que provam estas afirmações está a análise de Ralph Matthews, em 1977 (cit. por Webster, 1990). Este autor analisa um programa, do governo canadiano, de realojamento de pequenas comunidades piscatórias em áreas urbanas mais extensas, partindo do princípio que as aldeias já não eram economicamente viáveis. Esta intervenção nas aldeias foi baseada apenas em critérios económicos, ignorando a forma como as aldeias eram social e culturalmente viáveis para as pessoas. Os habitantes resistiram à mudança porque queriam um desenvolvimento que correspondesse à sua forma de vida sem terem que abandonar a sua comunidade. Esta população tinha um elevado nível de compromisso com a comunidade e com o seu modo de vida, pelo que lhes interessava adoptar uma forma de desenvolvimento relacionado com os seus próprios objectivos e valores. Além de terem a sua própria casa e poucas despesas, podiam ser mais auto-suficientes onde estavam, sendo mais barato viver na comunidade do que noutro local.

12

A Conferência do México organizada pela UNESCO em 1982 foi um marco importante no reconhecimento das dimensões culturais do desenvolvimento.

correspondam às aspirações e às necessidades sentidas pela comunidade, mobilizem e utilizem a experiência e o saber fazer existente na comunidade e produzam efeitos multiplicadores e que se autonomizem da ajuda exterior.

Nas abordagens mais recentes, as questões da participação adquiriram uma grande importância. Todavia, a participação não garante que as opções de desenvolvimento sejam evidentes só por si. Para cada perspectiva de desenvolvimento há um conjunto de opções de mudança, sendo que os objectivos das partes interessadas podem ser muito diferentes dos que são definidos pelos planeadores ou pelos decisores. Acresce que o contexto de incerteza que se vive na actualidade obriga ainda a que as novas soluções sejam adaptativas às contingências e impliquem uma alargada participação pública e a integração do conhecimento científico (Pretty, 1995).

Assim, o conceito de desenvolvimento pode ser definido como um processo complexo, global e multidimensional, que não se pode reduzir ao crescimento económico, e deverá integrar todas as dimensões da vida e todas as energias de uma comunidade, num quadro de acção em que cada actor social é chamado a participar no esforço colectivo e a partilhar os resultados (Arfwedson, 1996).