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Os percursos metodológicos serão aqui apresentados de maneira descritiva, de forma a desenhar as etapas para a realização desta pesquisa, que assumiram perspectivas quantitativas e qualitativas. Cabe inicialmente, mencionar que a escolha do campo da investigação decorre de minha experiência como servidora da universidade, especificamente no campus Itabira, onde os contatos com estudantes beneficiados pelo Programa de Assistência Estudantil despertaram- me o anseio de compreender a trajetória desses atores, para além das questões específicas de recebimento de bolsas do Programa.

Primeiramente, por meio de análise de documento e em uma tentativa de compreender as especificidades da instituição, objeto desta pesquisa, nos debruçamos sobre alguns dos documentos institucionais, a saber: Plano de Adesão da UNIFEI para o REUNI; Normas de Assistência Estudantil; Projeto Pedagógico Institucional (PPI) e Projeto Político Pedagógico do Curso de Engenharia Elétrica. Acreditamos que a escolha desses documentos atende aos critérios de pertinência, homogeneidade, exaustividade, apontados por Bardin, favorecendo, assim, uma interpretação dos documentos à luz das questões propostas para esta pesquisa.

Os documentos foram lidos e analisados à luz das seguintes questões: como a universidade planejou seu processo de reestruturação acadêmica, proposto pelo REUNI, para atender às diretrizes do programa? Como o Campus Itabira e, especificamente, o curso de

Engenharia Elétrica se insere nessa proposta de reestruturação acadêmica? Existem ações institucionais que favorecem a afiliação dos estudantes à instituição? Quais são elas?

Após essa primeira fase, nos detivemos na análise de dados secundários, obtidos junto ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e ao Departamento de Registro Acadêmico (DRA), da universidade, para a construção do perfil socioeconômico dos estudantes, ingressantes nos anos de 2012 e 2013 no curso em análise e posterior identificação de estudantes de camadas populares.8 Como será discutido no Capítulo 3, a instituição utiliza como sistema de seleção, para o ingresso ao curso, o Exame Nacional de Avaliação do Ensino Médio (ENEM), por meio do Sistema de Seleção Unificada (SiSU) e nesse processo os alunos preenchem um questionário socioeconômico. As informações obtidas foram trabalhadas utilizando análise estatística simples.

Identificados os estudantes de camadas populares, matriculados no curso em estudo,

entramos em contato com os mesmos para a construção dos “retratos sociológicos”. Essa

metodologia de pesquisa, inaugurada por Bernard Lahire, se baseia na realização de entrevistas em profundidade, sobre diferentes domínios de atividades e dimensões da vida do sujeito em estudo (LAHIRE, 2004). Em nosso caso, focalizamos a temática das entrevistas na dimensão da trajetória escolar dos estudantes. Como nos lembra Lahire, devemos considerar o agente como um ser complexo, que é portador de um patrimônio de disposições, por vezes, pouco coerente. Nessa lógica, as entrevistas em profundidade, como se propõe a metodologia dos

“retratos sociológicos” não devem ser rígidas. Entretanto, propomos um esquema prévio para

nortear o trabalho da entrevistadora, embora o mesmo pudesse ser redefinido ao decorrer das entrevistas.9

As entrevistas foram realizadas no primeiro semestre de 2014. Elas foram gravadas em áudio, depois foram transcritas, de forma literal. O conteúdo das entrevistas foi analisado e interpretado como forma de identificar as disposições, tipos de ações e comportamentos desses atores que favorecem, ou não, sua integração acadêmica e social no curso. Ao par das entrevistas, também me vali de um diário de campo para anotações sobre o comportamento dos estudantes dentro do campus, como forma de clarear e facilitar a análise das entrevistas. Foram entrevistados oito sujeitos10, embora tenhamos identificados nove estudantes com os critérios

8 A proposta inicial era acompanhamento das turmas ingressantes nos anos de 2010 e 2011 uma vez que nos permitiria compreender trajetórias de estudantes que estavam em estágios mais avançados no curso, entretanto, os dados dos questionários socioeconômicos relativos a essas turmas não estavam disponíveis.

9 Ver Anexo A.

por nós definidos para o pertencimento às camadas populares, um desses não aceitou nosso convite em participar da pesquisa.

Cada entrevista durou, em média, 90 minutos. Todas elas foram realizadas na universidade. Após transcrição literal do áudio, cada um dos estudantes recebeu uma cópia das mesmas para averiguarem as informações ali colocadas e realizassem correções, caso considerassem necessário. Não houve objeções quanto ao conteúdo transcrito, apenas uma estudante buscou esclarecimentos sobre a forma de divulgação da entrevista, como maneira de preservar a sua identidade, momento em que reforçamos o sigilo e o conteúdo do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme estabelece o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Antes das entrevistas, aplicamos um questionário, breve e objetivo, com vistas a identificar alguns fenômenos de integração e afiliação ao ensino superior. Esse questionário continha questões relativas a11:

 Participação em atividades de pesquisa, extensão, monitorias, estágios, e outras

atividades extracurriculares;

 Desempenho acadêmico dos estudantes, de forma a descrever número de

reprovações e média acadêmica;

 Benefícios recebidos pelo estudante pelo Programa Nacional de Assistência

Estudantil (PNAES).

Embora tenhamos que reconhecer a minha incipiente trajetória enquanto pesquisadora, inspirando-me em Bourdieu, busquei, no ato da entrevista, criar, na medida do possível, uma relação mais horizontal com os entrevistados, uma comunicação não violenta:

Tentar saber o que se faz quando se inicia a relação de entrevista é em primeiro lugar tentar conhecer os efeitos que se podem produzir sem o saber, por essa espécie de intrusão sempre um pouco arbitrária que está no princípio da troca ( especialmente pela maneira de se apresentar a pesquisa, pelos estímulos dados ou recusados, etc.) é tentar esclarecer o sentido que o pesquisado se faz da situação, da pesquisa em geral, da relação particular na qual ela se estabelece, dos fins que ela busca e explicar as razões que o levam a aceitar de participar da troca. É efetivamente sob a condição de medir a amplitude e a natureza da distância entre a finalidade da pesquisa tal como é percebida e interpretada pelo pesquisado, e a finalidade que o pesquisador tem em mente, que este pode tentar reduzir as distorções que dela resultam, ou, pelo menos, de compreender o que pode ser dito e o que não pode, as censuras que os impedem de dizer certas coisas e as incitações que encorajam a acentuar outras (BOURDIEU, 2012b, p. 695).

11 Ver Anexo B.

Assim, de forma a manter coerência com a perspectiva acima descrita, foi preciso criar um ambiente favorável para que os entrevistados pudessem expor seus pensamentos, sem sentir algum tipo de constrangimento. Embora tivéssemos ciência da necessidade em se estabelecer uma comunicação não violenta com nossos entrevistados, consoante ao que nos adverte Bourdieu, havia duas questões que prejudicavam a horizontalidade da comunicação, a saber: a minha condição de servidora da instituição e o lugar da entrevista, situações que reconhecemos serem limitadoras para uma exposição aberta e sem constrangimentos dos nossos interlocutores. Essas questões são importantes serem pontuadas porque expõem aos nossos leitores as condições de produção das entrevistas e construção dos “retratos sociológicos”.

Consciente, por conseguinte, do contexto da realização das entrevistas e reconhecendo a pluralidade de ideias, disposições e formas de agir de cada um dos entrevistados, a última etapa da pesquisa baseou-se na leitura e releitura do material produzido pelas entrevistas, e diante da riqueza e da multiplicidade de interpretações que ali possibilitavam, utilizamos os seguintes parâmetros para a construção dos “retratos sociológicos”:

 Identificação e problematização de práticas socializadoras familiares e, a partir

daí, identificação das condições que possibilitaram o ingresso no ensino superior;

 Como as vivências na instituição permitiram, dificultaram ou facilitaram o

processo de integração e afiliação ao curso e à instituição em análise.

Por fim, como mencionamos na construção do objeto de pesquisa, no Capítulo 1, no decorrer deste trabalho também apresentaremos detalhes dos procedimentos metodológicos como forma de facilitar o entendimento, do leitor, de nossos percursos para a realização desta pesquisa.

CAPÍTULO 2 – O PROCESSO DE EXPANSÃO UNIVERSITÁRIA NA