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Total de homens 879.893 Total de mulheres 922.632 Total da população

urbana 1.793.416

Total da população rural 9.109

Fonte: IBGE, primeiros resultados de censo 2010

A viabilização da infra-estrutura econômica para a região via concessão de incentivos fiscais para o estado do Amazonas, tem mudado consideravelmente a feição das cidades na região, sobretudo Manaus. Um considerável contingente populacional sob a forma migrações tem reconfigurado o espaço da cidade.

São milhares de pessoas vindos de municípios do interior do e principalmente de outros estados em busca de negócios, empregos, melhores oportunidades e condições de vida. Um estudo feito por Babosa (2004) sobre as desigualdades regionais e o sistema de saúde no Amazonas expressa a contraditoriedade entre as riquezas regionais e as precárias condições de vida e de saúde da população que vive em Manaus. Em sua analise sobre a urbanização:

A população manauense, que possuía 1.011.501 habitantes em 1991 atingiu, em 2000, um total de 1.405.835 pessoas, apresentando um incremento de 28 % na década. A taxa média geométrica de crescimento anual da população ilustra a expansão recente da população de Manaus. No período de 1991-2000 foi de aproximadamente 3,9 %, bem superior à taxa do Amazonas (3,3%), igual à da região Norte (3,9%) e bem acima da apresentada pelo país (1,6) no mesmo período. A população urbana era de 99,4% em 2000,

embora tenha apresentado na década uma ligeira redução de 0,15 %. Assim, a quase totalidade da população concentra-se na área urbana e sua expansão tem se dado em direção ao município do Rio Preto da Eva. Para a prevalência da população urbana, concorrem, além do próprio peso da população da capital, os migrantes que buscam residir em áreas de incorporação recente à economia. Apesar disso, a população rural cresceu, na última década, em ritmo mais acelerado que a urbana, passando de 4.916 em 1991 para 9.067 habitantes em 2000, tendo um crescimento relativo de 46 %, bem superior ao da população urbana, de 28 %. (Barbosa: 2004: 51)

A autora analisa ainda como os dados sobre educação, saúde, saneamento básico e habitação e a criação de empregos não acompanha o ritmo do incremento populacional ponderando ainda que apesar da grande distância que a separa Manaus dos grandes centros populacionais de outras regiões, da deficiência no sistema de transportes, deteve com a implantação da Zona Franca de Manaus (ZFM), o maior índice dos movimentos migratórios nas décadas de 1970-1980, o que foi o principal responsável pelo crescimento populacional.

A ZFM pode ser visto como “pólo atrativo” explica em parte, o fluxo migratório, o que provocou uma série de mudanças no espaço urbano que por sua vez repercutiu nas condições sociais da população, o que exige também por parte do estado a reorganização do espaço para diminuir as desigualdades de acesso da população aos serviços urbanos para a produção e reprodução de vida.

Esse quadro é uma realidade das populações indígenas que também migram para o município de Manaus em busca de melhores condições de vida, emprego, estudo dentre outro motivos, porém eles são quase invisíveis para os legisladores e executores das políticas públicas que os vê como parte integrada da população em geral sem a necessidade de um tratamento diferenciado.

Esse quadro tem raízes na lógica integracionista da formação nacional e das políticas desenvolvimentistas para a Amazônia. O fenômeno da migração indígena, especialmente aos eventos de migração dirigidos as cidades exigem maior aprofundamento de análise e ainda são pouco estudado. (Teixeira Et all, 2009).

Os autores alertam que apesar dos dados censitários demográficos constituírem fonte obrigatória de estudo sobre migração indígena, eles apresentam limitações que devem ser levadas em consideração e uma delas é a dificuldade de trabalhar com unidades menores de análise como municípios ou bairros.

Há uma imprecisão e discordância nos dados a cerca da população indígena que vive na cidade. No ano 2.000, o Censo do IBGE apontou cerca de 7.894 índios vivendo em áreas urbanas no Brasil. Um estudo feito para o Conselho Indigenista Missionário – CIMI aponta 8.500 índios. O sociólogo José de Souza Martins calcula que este número chegue em 18 mil, enquanto a COIAB estima cerca de 20.000 índios urbanos.

Segundo levantamento do CIMI, em Manaus/AM os indígenas estão distribuídos em cerca de 40 bairros da cidade, quase todos na periferia. Os Cambeba residem, sobretudo, no bairro da Compensa II; os Sateré-Mawé, no bairro Redenção e no Conjunto Santos Dumont; os Apurinã, no bairro Jorge Teixeira; os Ticuna, na Cidade de Deus; os Kocama, em Grande Vitória e, por fim, há os índios Tukano, Desana, Baniwa e Tariano que vivem em terrenos situados nos bairros da Compensa, Tancredo Neves e Zumbi.

A determinação dos deslocamentos das populações indígenas para as cidades amazônicas devem ser pensadas como reflexo das transformações econômicas e sociais no cotidiano dos povos indígenas que ficaram excluídos dos serviços sociais básicos e das benesses da vida urbana.

Os determinantes da migração têm sido pouco estudados e a falta de informação e dados tem contribuído para o aumento do preconceito e estigma em relação aos índios que vivem em áreas urbanas.

A migração indígena para os centros urbanos ocorre de maneiras muito diversas, desde o traslado de grupos familiares para bairros onde já há um contingente grande de índios organizados politicamente até casos de migração de indivíduos para a cidade em busca de empregos, tratamento de saúde, educação ou um novo estilo de vida. Em outras situações a própria organização social indígena se configurou pra formar grandes aldeias urbanas, como é o caso de alguns grupos Tikuna no Alto Solimões, no estado do Amazonas (Baines, 2001:1).

Entretanto, alguns estudos sobre a presença indígena na cidade têm sido muito importantes na historiografia brasileira, podemos citar o “caboclismo” de Cardoso de Oliveira, 1964 e diversos trabalhos derivados do tema e orientados pelo autor sobre os índios do Alto Rio negro (Fígoli), Sateré Maué (Lazarin).

Mais recentemente podemos destacar os trabalhos que se voltaram ao estudo do acesso da população indígena ao sistema único de saúde (Mainbourn, 2008),

sobre a estigmação dos indígenas (Almeida, 2009) e sobre os indios urbanos (Bernal, 2009), todos realizados sobre a cidade de Manaus.

Em relação á estigmatizacão dos indígenas na cidade, está relacionada com o senso comum em que se acredita que aqueles índios que passaram a viver nas áreas urbanas, deixaram de ser índios posto que ao abandonarem seus espaços tradicionais de moradia, abandonaram, por conseguinte, sua cultura e sua identidade.

Rodrigues e Silva (2009) apoiado em Barth (2000) respondem que a “estigmatizacão produz território étnico” na medida em que a vivencia de relações cotidianas adotam estratégias e ações de caráter identitário e político de maneira a assegurar sua inserção na vida social, ou seja, os indígenas ao aprofundarem suas relações com a sociedade, se reorganizam e reconstroem suas identidades.

O autor ilustra essa assertiva com o caso de Manaus onde identificou mais de 27 associações que atuam com as questões indígenas na cidade, dentre elas a associação comunitária Wotchimaücü (ACW) dos Tikuna na zona Leste de Manaus que se constituiu sua referencia empírica de pesquisa. O objetivo da associação, além de fortalecer a cultura, é fomentar formação política e gerar renda, revitalizar a língua e a identidade na comunidade.

Conclui que ainda que o espaço social construído na cidade de Manaus, não seja exatamente aquele vivido em seu território de origem, a articulação associativa é um exemplo de que os índios que vivem na cidade podem desenvolver um modo de vida diferente, mas preservando sua identidade coletiva.

A presença de indígenas em Manaus não é marcada pela ruptura ou perda das referências de seus espaços anteriores, ao contrário do que se pensa, além de se firmar vínculos, ela garante a reprodução social e cultural do ser índio no espaço urbano. (Pereira, 2009).

O contato com a sociedade envolvente tem levado os indígenas a transformar seus modos de organização mantendo suas formas tradicionais de áreas rurais mesmo vivendo em áreas urbanas, reconstruindo sua própria identidade. (Toledo Et all: 2008).

Teixeira (2009) ao estudar a migração indígena dos Sateré-Mawé em Manaus afirma que o movimento migratório indígena em direção à Manaus já ocorre há

vários séculos, mas se intensificou durante o ciclo da borracha e refere a criação da Zona Franca de Manaus como o marco para movimento contínuo.

No caso dos Sateré-Mawé o motivo principal que impulsionou a migração para Manaus foi a procura de trabalho e não a busca por oportunidade de estudar, entretanto, os autores explicam que há uma diferença se comparado aos indigenas que migram para cidades do interior29, para os quais o motivo principal é a busca pelas melhores oportunidades educacionais.

Bernal (2009) realiza um estudo mais aprofundado sobre os índios urbanos na cidade de Manaus e elenca os motivos mais reconhecidos da migração, quais sejam: A busca de estudos; busca de melhor renda familiar e busca de facilidades que não estão disponíveis nas aldeias como mobilidade, uso do dinheiro e alimentação.

O que chama a atenção é sobre o universo feminino, o papel das mulheres foi bem determinante, pois foram elas que abriram o caminho para a imigração indígena. Elas eram enviadas pelos militares e missionários para servir em casas de família e uma vez na cidade elas acabavam perdendo o contato com a família e a comunidade.

Em geral não recebiam salário, não eram mandadas a escola e perdiam qualquer possibilidade de casar com membros da tribo ou região devido a idade ou por ter perdido o processo de negociação entre famílias e clãs.

Segundo o autor algumas mulheres deixaram de trabalhar em casa de família porque sofriam maus tratos e o estabelecimento de novas relações sociais na cidade faz com que elas passem a morar em casa de parentes ou amigos e até mesmo migrarem para outras cidades como Belém e São Paulo e, ainda que as condições de vida na cidade não sejam boas, pois a maioria se instala em regiões periféricas extremamente pobres em precárias condições de saneamento e segurança, ainda assim é sempre melhor que a vida que eles tinham anteriormente nas regiões interioranas.

Trata-se precisamente disso: uma percepção que os índios urbanizados têm da sua própria vida anterior ou daquela que levam seus parentes no interior. De fato, em razão da abundancia de recursos naturais e da melhoria de determinados serviços (educação e saúde, notamente) e,

29

Os indigenas não migram apenas para Manaus, há algumas cidades como São Gabriel da cachoeira para as quais muitos indigenas se dirigem em busca de continuar os estudos.

antes de tudo, da ausência de certos elementos típicos da situação urbana (perseguição, violência, doenças, agressão, preconceitos, etc), as condições de vida “no interior” podem hoje ser melhores que as encontradas nos bairros periféricos das cidades. No entanto, e sendo as situações extremamente diversas segundo as comunidades e as regiões, um dos principais argumentos para justificar a emigração e a permanência na cidade continua a ser a procura de “melhores condições de vida”. (Bernal, 2009: 180).

A presença indígena nas cidades é um dos fatores que tem “reconfigurado” a feição das cidades ao mesmo tempo tem “transfigurado” as etnias indigenas que já não se enquadram em perfis estereotipados. Esse fato é um dos fatores que tem influenciando e determinando o lugar do indígena nas cidades.

Um levantamento vem sendo realizado pela Secretaria de Saúde do município (SEMSA) mostra alguns dados sobre número de indígenas que residem nos bairros da cidade de Manaus e dependem dos serviços de saúde da prefeitura:

QUADRO VII

Benzer Belgeler