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El Temizliği

Belgede Çocuklarda Öz bakım (sayfa 12-0)

1.1. Önemi ve Temizlik Araç Gereçleri

1.1.3. El Temizliği

Garantir o direito à sobrevivência é fundamental, mas é só o primeiro passo. Ninguém quer apenas sobreviver.

(Pedro Demo, 2000) E, dessa forma, Apurinã finalmente consegue chegar à CMM no dia 2 de novembro de 2002, para iniciar uma nova fase da sua vida. E ela observa com muita convicção:

A aí começa a minha história de abrigada, que, comparado com a minha infância, eu acho que foi o melhor período da minha vida. Porque lá eu tive o que realmente queria, que era estudar. Em todo momento da minha infância, eu tive que trabalhar, que cuidar das minhas irmãs, eu tinha que fazer tudo, menos estudar mesmo, o pouco que eu conseguia era porque eu era teimosa. Então lá na casa eu realmente tive a oportunidade de estudar. (Pesquisa de campo,

2012).

Apurinã chegou à casa, foi bem recebida, finalizou o ano letivo, passou a estudar perto da CMM, e começou a viver de verdade. Agora, ela possuía casa, comida, proteção e várias oportunidades.

E na CMM foi outra história mesmo, de verdade, começaram assim as oportunidades de inserção nos movimentos sociais, no teatro, na escola, eu já me envolvia na dança, no canto, no teatro, eu não era boa em nada disso, mas eu me envolvia com tudo, isso me deixa conhecida, até o porteiro da escola me conhecia. A diretora da escola que eu estudava foi me visitar na CMM, ela falou muito bem de mim para a irmã Liliana, eu também cheguei a ganhar o terceiro lugar de um concurso de redação com tema sobre drogas. (Pesquisa

No final do ano de 2003, a moça foi chamada pela irmã e ficou sabendo que teria uma bolsa de estudo para fazer o ensino médio na Escola Santa Terezinha, uma das melhores escolas particular de Manaus. Quando recebeu a notícia, sentiu um caleidoscópio de emoção, chegou à luz que ela tanto buscava, mas logo veio o medo do fracasso e ela disse: “Não! Eu não quero! Vou reprovar, eu tenho medo”, e a irmã disse: “Você vai”.

No ano de 2004, ela inicia o ensino médio no Colégio Santa Terezinha, como bolsista integral. A CMM também oferecia teatro, acompanhamento psicológico, pedagógico, etc., além de participação nos movimentos sociais, nos quais Apurinã sempre se destacou. E assim consegue aproveitar as oportunidades oferecidas pela CMM.

Eu passei seis anos na CMM, dos 13 aos quase 19 anos, mesmo depois da maior idade eu fiquei na CMM, lá as meninas só ficam até os 18 anos, mas como eu não tinha nenhuma possibilidade de retorno para a família, fiquei na casa até quase 19 anos. Eu passei quatro anos sem convívio com a minha família, ficava só na CMM, porque lá, todos os fins de semana, as meninas abrigadas vão para suas casas, mas eu não tinha para onde ir. Até que, um dia, minha tia foi me visitar na casa, fizemos as pazes ela fez um aniversário surpresa para mim, levou um monte de coisas, então fizemos a experiência de tentar retornar, mas não deu certo, não deu certo, porque já era outro mundo para mim. Na CMM, as coisas foram abrindo para mim, através do teatro, através dos projetos que a gente era inserida, o trabalho realizado com a questão da cidadania, dos direitos, e aí eu fui estudar o ECA, entender o que era, e me apaixonei por esse mundo social. Com 15 anos eu decidi que eu queria ser assistente social.

Foi essa inserção e participação no movimento social, o conhecimento para além da sua vivência histórica que fazia aquela garota, tão marcada pela violência, vislumbrar a possibilidade de mudar a sua vida, fazer essa história menos sofrida.

Durante o período de abrigamento, ela viveu a adolescência, compartilhou com as outras abrigadas sua história, conheceu outras mais intensas, fez do abrigo a sua casa, viveu intensamente esses anos, que lhe deram um acúmulo de experiência e vivências. Mas o conhecimento também pode revoltar e ela destaca que:

Não é só pela minha história de vida, mas pela história das outras meninas, perceber o quanto é importante conhecer os nossos direitos, não só do conhecimento, mas de ser protegida pelo que a

gente tem, porém, esse conhecimento adquirido na casa também me fazia ficar revoltada, pois eu pensava: Se é a minha família que me bate, me espanca, são os violadores do meu direito, por que eu tenho que sair de casa? Me sentia presa, queria ser livre. Comecei a participar das conferências municipais dos direitos da criança e do adolescente e nos debates eu dizia mesmo que a lei tinha que mudar, porque ela transforma a vítima em agressor, é a vítima que é punida, ela que fica presa, olha aí, não aconteceu nada com a minha tia, eu não queria que acontecesse, mas e as outras meninas, que eram estupradas pelo próprio pai ou tio? Elas tinham que sair de casa, o cara continuava na boa, não era preso, não acontecia nada. Então, aí, o teatro ajudou muito no meu crescimento como pessoa, porque esse fato, que aconteceu em Porto Velho, para mim era uma situação. Mas eu não sabia o que era, quando as peças teatrais eram sobre violência sexual contra criança e adolescente, teve um dia que eu simplesmente travei, saí da sala espancando a professora chutando todo mundo, eu empurrava as pessoas, eu sentia um ódio tão grande porque eu tinha me dado conta do que tinha acontecido com a minha irmã e comigo, isso foi logo nas primeiras aulas de teatro, eu fiquei uma semana para conseguir falar sobre o assunto e dizer o que tinha acontecido. (Pesquisa de campo, 2012).

O conhecimento e o entendimento da violência vivida causava revolta digna dos cidadãos, é essa capacidade de revolta tão necessária que impulsionava a jovem a buscar mais conhecimento e se instrumentalizar para lutar pelos direitos socialmente conquistados. Mas ela ainda era apenas uma garota, com um intenso histórico de agressão, que poderia refletir para sempre em sua vida e em suas escolhas, como ela mesma informa:

Apesar de estar no abrigo, a Assistente Social não sabia da minha história de vida por completo, sabia de alguns detalhes. Então, assim, para superar, para hoje chegar aqui e conseguir falar, foi muito difícil, mesmo com apoio psicológico, pedagógico, etc. que eu tive na casa, porque eu fiz acompanhamento psicológico nos últimos dois anos que passei na casa, não fiz mais porque me recusei. Eu não acreditava na terapia, eu ia para lá, falava, falava, e ela me dizia coisas que eu já sabia, então eu achava que eu mesma podia ser a minha psicóloga. (Pesquisa de campo, 2012).

As meninas abrigada na CMM tem sua festa tradicional de debutantes, e Apurinã também teve a sua festa. Nesse mesmo período, sua mãe sai do presídio em liberdade condicional e retorna a Manaus.

Quando eu completei 15 anos, minha mãe saiu da prisão, minhas irmãs foram morar com ela, em uma situação complicada, porque meu atual padrasto abusou sexualmente da minha irmã do meio.

Como a mãe estava residindo em Manaus, Apurinã tenta conviver com ela nos fins de semana, mas não se sentia parte daquela realidade, além de não concordar com as atitudes da mãe, como informa:

Com 15 anos, eu já namorava escondido das irmãs, eu me envolvi com o motorista da instituição, ele não tinha estudo, e depois que a irmã descobriu, perdeu a graça, mas acredito que o que me desencantou mesmo foi a interferência da minha mãe, ela tentava me vender para ele. Ela pedia as coisas para ele. Ela criava situações pra me deixar sozinha com ele. Ele ajudou a construir a casa dela. Ela deixava ele dormir na casa e me deixava sozinha em casa com ele. Então eu não quis mais. Eu me sentia vendida.

(Pesquisa de campo, 2012).

Mesmo tentando conviver com a mãe, Apurinã continua no abrigo. Lá, a moça tinha casa e não sofria mais violência, e seus direitos estavam garantidos. Mas ela sofria com muitas faltas, como suprir essas necessidades, onde estaria o remédio para a cura interna? Como esquecer tanto abandono e entender as suas próprias fraquezas, às vezes expressas na mais simples ação?

São tantas as perguntas que as respostas poderiam estar em um rapaz por quem Apurinã se apaixonou. Foi ele que lhe apresentou o amor, o carinho e a atenção que também lhe fazia muita falta. Ele foi seu grande amor.

Mas aquele sonho tão lindo foi se transformando em um pesadelo. O rapaz era dependente químico, tinha vários processos por assassinatos e assaltos. Ela sofreu muito para conseguir acreditar que aquele homem tão maravilhoso fizera tudo aquilo que a polícia lhe mostrou na ficha criminal dele. E depois de muito sofrimento ela decidiu esquecê-lo para sempre, porém, não era fácil fazer o coração obedecer à razão:

Foi uma grande confusão na CMM, a irmã pensava que eu estava levando drogas para dentro da casa. Colocou até polícia atrás de mim, teve investigação, levaram fotos minhas para a polícia, aí, assim, foi um período muito complicado, porque eu me apaixonei muito por ele, de verdade mesmo. Porque tudo o que eu tinha na CMM, na verdade, é que a gente não tem a atenção que a gente quer ter, eu não tinha tempo para mim, eu tinha tempo para o teatro, para a aula, para o projeto, eu tinha tempo para tudo quanto era coisa, mas, de verdade, parecia que ninguém me ouvia, entendeu? E eu encontrei um ser humano que era extremamente inteligente, te dá aulas de história, do que você quiser, mas a verdade é que ele fazia assaltos, era um dependente químico, assassino. Mas comigo ele

não era nada disso, comigo ele era amigo, namorado sensível, que fazia café e me levava na cama, uma coisa de outro mundo. Aquele cara que eu li o processo que falava friamente que matou, torturou e etc. e que olhava dentro dos meus olhos. Sabe, quando tu sentes que essa pessoa não tem coragem de triscar um dedo em você? Eu passei mais de um ano com ele, mas eu tive que romper, porque a minha razão sabia que não era correto, eu já era maior de idade, se a polícia me pegasse com ele, não ia querer saber se eu era cúmplice ou não. Apesar de que, quando estava comigo, ele não usava drogas, quando ele estava comigo parecia que vivia outro mundo, entendeu? Eu faltava ao trabalho na casa para ficar com ele. Eu percebi que era perigoso, quando um vigilante nos viu juntos e contou para uma moça da casa, aí ele mandou três caras ameaçarem o vigilante de morte. Então, eu fiquei com medo dele. Depois disso, ele foi armado na CMM. Então, eu deixei para lá, mas o encontrei ainda algumas vezes, e sei que eu o amei de verdade.

(Pesquisa de campo, 2012).

Então, Apurinã manda um e-mail para o rapaz terminando tudo, pois não teve mais coragem de encontrá-lo pessoalmente; ela sofreu muito para conseguir sobreviver e continuar sem aquele amor. Ela estava frágil e carente, queria colo de uma mãe de verdade. E assim ela relata: “Passei uma semana na maior depressão,

fiquei trancada numa sala, precisando de atenção e de carinho, aí foi a primeira vez que a irmã me deu colo de verdade”.

Então, ela termina o ensino médio, presta vestibular para Ciências Sociais na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), consegue passar; fez também boa pontuação, mais de 60 pontos, no normal superior na Universidade Estadual do Amazonas (UEA); não passou por causa do sistema de cotas, visto que tinha feito o ensino médio em escola particular.

Ela fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)27 e conseguiu boa pontuação sendo beneficiada integral pelo Programa Universidade para Todos (Prouni)28 para fazer o curso de Serviço Social no Centro Universitário do Norte, curso sonhado desde os 15 anos de idade. E a vida estava realmente mudando.

27 O Enem avalia conhecimentos obtidos até o término do Ensino Médio. É usado como parte do

processo seletivo de centenas de Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e privadas.

28 É um programa do Ministério da Educação, criado pelo governo federal em 2004, que oferece

bolsas de estudos em instituições de educação superior privadas, em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, a estudantes brasileiros de baixa renda, sem diploma de nível superior, foi criado pela MP 213/2004 e institucionalizado pela Lei 11.096, de 13 de janeiro de 2005. Oferecendo, em contrapartida, isenção de alguns tributos àquelas que aderirem ao programa.

Belgede Çocuklarda Öz bakım (sayfa 12-0)

Benzer Belgeler