5. TÜRKİYE’DE MİKROKREDİ UYGULAMALARI VE TÜRKİYE
5.9. Mikrokredi Başarısının Değerlendirilmesi
5.9.1. Kalitatif kriterler
5.9.1.1. Ekonomik göstergeler (nitel)
Infância vê o mundo ilustrado, o Mundo com suas cores primeiras, suas cores verdadeiras. O grande outrora que revivemos ao so- nhar nossas lembranças da infância é o mundo da primeira vez. Todos os verões de nossa infância testemunham o eterno verão. As estações das lembranças são eternas porque são fiéis as cores da primeira vez (Gaston Bachelard).
Se para Jung (2000) uma das variáveis do arquétipo da Grande Mãe é a ama-de-de leite, na poética ceciliana sua ama-de-leite, ou pajem, (como ela costumava chamá-la) foi alguém que lhe contava histórias e estava atenta a todos as suas necessidades. A ela dedicou alguns de seus poemas, bem como, destacou-a com ênfase na narrativa de sua infância, Olhinhos de Gato (1983b), que carinhosamente a chamou de Dentinho de Arroz. Além da variável do arquétipo materno em Olhinhos de Gato, estudaremos o poema “Para minha morta” (Baladas para El-Rei - MEIRELES, 2001b).
Na simbologia do arquétipo da Grande Mãe representado por Dentinho de Arroz32 também aparecem muitas imagens literárias criadas nos intensos devaneios infantis. Quem é forte aqui é o feminino.
Subir a ladeira sentada no seu ombro é uma aventura como um passeio por cima do vento, sentindo as pedras diminuírem, e as estrelas e as nuvens aproximarem-se. (MEIRELES, 1983b, p.57).
Este excerto é uma imagem de elevação, ascensão e o verbo “subir” já a indica. Subir significa elevar-se para mais alto. E nesta elevação Olhinhos de Gato se sente como se esti- vesse passeando por cima do vento. E neste passeio sentia as pedras diminuírem, e as estrelas e as nuvens aproximarem-se. Segundo Eliade: “Essa imagem é símbolo da renovação do consciente à partir da regressão ao inconsciente. É a própria renovação da Luz, que enfrentan- do a escuridão pode voltar a brilhar com maior intensidade. É um símbolo da elevação da al- ma para o céu”. Se a ascensão é um símbolo da elevação da alma para o céu, é justamente como Olhinhos de Gato se sente subindo a ladeira nos ombros de Dentinho de Arroz. Somen- te uma Grande Mãe é capaz de fazer uma criança se sentir num mundo como este. Ela deixava a terra (sentia as pedras as pedras diminuírem) e aproximava-se do céu (estrelas e nuvens aproximarem-se).
Também se pode lembrar-se da imagem de São Cristóvão, o barqueiro, que carrega o menino Jesus em seus ombros. Ser carregada por Dentinho de Arroz em seus ombros é uma das grandes maravilhas vivida pela menina. Imagem de segurança.
Brincar ao seu lado é sair invisível, e viajar por países azuis e dourados, onde os peixes conversam com as princesas, os pássaros puxam car- ros festivos, e as palavras, ditas três vezes, formam e desfazem as pes- soas e as coisas mais impossíveis (MEIRELES, 1983b, p.57).
O brincar torna-se uma grande aventura ao lado de Dentinho de Arroz, é sair do invi- sível. Tudo passa a ser real quando a brincadeira é com Dentinho de Arroz. Ela faz a criança viajar de verdade em suas aventuras, em seu encanto. É pura magia. É viajar por países azuis e dourados. Observa-se a sutileza desta imagem. Partindo do princípio de que viajar é sair do lugar onde se encontrava e ir para outro, aqui a menina viajou por países azuis e dou-
32 A babá Pedrina me contava a história do Palácio de Louça Vermelha. Eu achava que devia ser muito fresco viver num palácio assim e, em menina, já estava pronta a transformar um jarro imenso que havia em casa em palácio, quando, querendo escondê-lo de meus sonhos, de tanto procurarem lugar para ocultá-lo, o pa- tiram em mil pedaços. (BLOCH, 1964, p.37)
rados. Para Eliade, o azul significa desapego das coisas deste mundo, viajar por países azuis pode significar total desapego do mundo real para viajar pelo mundo imaginário. E o país do mundo imaginário permite que poeta crie seu próprio colorido. “O azul é a mais profun- da das cores: nele, o olhar mergulha sem encontrar qualquer obstáculo, perdendo-se até o infinito, como diante de uma perpétua fuga da cor” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1990, p.107). Viajar num país azul é perder-se neste infinito que a cor convida. E o dourado é a cor do ouro. Azul e dourado formam a cor da fantasia e este colorido permite viajar por mundos nunca vistos. Somente uma Grande Mãe como Dentinho de Arroz é capaz de fazer Olhinhos de Gato fazer tal viagem. Nestes países é possível um animal conversar com um ser humano: o peixe conversa com a princesa. Ou seja, são mundos onde a linguagem é so- mente uma, todos se entendem. É o mundo dos deuses e das deusas, da Grande Mãe. Para Eliade o peixe:
é considerado um símbolo de Cristo, além de um dos símbolos do SELF. São vistos como símbolos transcendentais de profundidade e podem sim- bolizar um conteúdo emergindo espontaneamente do inconsciente. O peixe tem um duplo aspecto, tanto de redentor como daquilo que deve ser redi- mido. Leviatã também era um mostro que possuía por símbolo o Peixe, e, no próprio signo zodiacal de Peixes, encontramos dois peixes que nadam em direções antagônicas, como uma representação do bem e do mal, do Cristo e do Anti-Cristo. O peixe pode ainda simbolizar a lascividade e os instintos mais baixos. Em diversos mitos, simboliza a revelação da Profun- da Sabedoria. Nos sonhos, por vezes, o peixe é um símbolo da criança não nascida, pois antes de nascer, vivemos na água como um peixe. Ele traz em si o simbolismo de renovação e renascimento, além de simbolizar os con- teúdos autônomos do inconsciente (NAIDA, 2007, p.26).
A mitologia ensina ser o peixe símbolo da criança não nascida, pois antes do nasci- mento vivemos na água como um peixe. Este símbolo evoca a criança, talvez não nascida que é Olhinhos de Gato pelo fato de sua mãe ter morrido, de ela mal tê-la conhecido. Ao passo que, traz em si o simbolismo de renovação e renascimento. O brincar com Dentinho de Arroz também dá à menina esta oportunidade de se renovar, renascer. Ou melhor, sair do mundo dos mortos e entrar na fantasia da criança feliz. Neste mundo da brincadeira, da fan- tasia tudo é permitido para a criança ser feliz. E Dentinho de Arroz tem este poder de trans- portar a menina da sua realidade de tristeza para o mundo da fantasia e do belo. Ou dizendo de outra forma, essa Grande Mãe tem o poder de transcender Olhinhos de Gato para o mun- do das deusas.
Os pássaros puxam carros festivos. Na vida real, quem puxa os carros festivos são bois. No mundo da fantasia, são os pássaros. Para Eliade, “o pássaros simbolizam de modo
geral as entidades psíquicas de caráter intuitivo e mental, pois é considerado como uma en- tidade sem corpo e alada”. É também, como o peixe, símbolo da transcendência e represen- ta o “SELF que surge como um princípio único, uma intuição da totalidade oriunda das pro- fundezas do inconsciente”. Como símbolo alquímico, “o pássaro encontra-se vinculado ao medo da morte, à separação da alma do corpo, que é a sublimatio definitiva; sendo que exis- tem representações medievais em que a alma deixa o corpo do morto em forma de pássaro”. Talvez paire aqui este medo da morte tão arraigada em Olhinhos de Gato.
(...) “e as palavras, ditas três vezes, formam e desfazem as pessoas e as coisas mais
impossíveis”. Este é o real mundo da fantasia onde as palavras tem este poder de transformar as pessoas e as coisas se forem ditas três vezes. Somente no mundo dos deuses e das deusas as palavras têm este poder de transformação se forem ditas três vezes. O mesmo se observa no excerto seguinte:
É bom dormir sobre o seu peito, diferente dos outros. Uma curva diferen- te. E um outro cheiro. Encostada a ela, a menina pensa viajar para longe, para a roça, pelo mato, onde moram animais engraçados, de nomes esquisitos: gambás, cangurus, caxinguelês — que surgem den- tre folhas densas, ásperas e de cheiro acre. (MEIRELES, 1983b, p.59).
Imagem de aconchego. Deitar sobre o seu peito é muito diferente dos outros. É uma viagem ao mundo da magia e do encanto. E neste peito é possível pensar em viajar para longe, para a roça, pelo mato. O que é o mato? Mato onde mora a Grande Mãe. Grande Mãe mora no mato e cuida da natureza. Mato é a simbologia do mundo onde existem os animais engraçados e de nomes esquisitos. Os animais vivem no mato: gambás, cangurus, caxingue- lês. E estes animais surgem dentre as folhas densas, ásperas e de cheiro acre. Aqui o tátil e o olfato se unem nesta imagem. Um cheiro acre é agudo e penetrante. É viajar para o mundo de todas as histórias que Dentinho de Arroz contava para ela. Diante desta vivência num mundo transcendente, existia um medo de que um dia Dentinho de Arroz também morresse. E este medo aparece nitidamente nesta imagem. Como tudo é transitório neste mundo Den- tinho de Arroz também um dia partiria numa noite dessas.
Mas OLHINHOS DE GATO sentiu como se lhe puxassem o coração para fora do peito. Uma certeza súbita prendeu-a num círculo de sombra. Dentinho de Arroz iria também. Iria uma noite dessas, quando ela estives- se dormindo, talvez. Tudo vai. . .tudo vai. (...) (MEIRELES, 1983b, p.17).
Segundo Jung (2000, p.92), o pavor infantil também é considerado uma variável do Arquétipo da Grande Mãe nefasta. Olhinhos de Gato sentia apavorada diante da certeza de que Dentinho de Arroz também um iria como tudo se vai. O transitório aparece com nitidez
na poesia ceciliana justamente por este medo das pessoas morrerem com muitos familiares seus. E numa noite Dentinho de Arroz se foi e transformou-se em poesia:
Para minha morta
Pedrina minha, eu não te vejo há tantos anos! Há quantos anos que não vens!... E as minhas preces Não chegam mais a estes lugares sobre-humanos: Porque eu chorei noites sem fim, para que viesses, Pedrina minha, e eu não te vejo há quantos anos!... Pedrina minha, és a mais doce das memórias Para minha alma, vida inteira alma de criança. Amando sempre os encantamentos das histórias. De Barba Azul, de Ali Babá, de um rei de França... Pedrina minha, és as mais doces das memórias... Pedrina minha, e os penúltimos de dezembro?... Nossos Natais... E aquelas rezas que rezavas... Coisa tão linda, mas tão longe!... Mal me lembro. E as lendas mortas de taperas e de escravas... Pedrina minha, os penúltimos de dezembro?... Pedrina minha, eu fico, às vezes, muito triste... Penso que não me compreendes, não me escutas... Talvez, depois que nos deixaste e que partiste, Dê a tudo isso vagas formas diminutas... Pedrina minha, eu fico, às vezes, muito triste... Pedrina minha, não faz mal que tu me esqueças... Eu sofro, sim, mas não faz mal... A minha vida É tão... Lembrando-a pode ser que ainda padeças...
Já padecesse muito coisa imerecida,
Pedrina minha, não faz mal que tu me esqueças... Pedrina minha, dorme, dorme... em noites lentas, Tu me embalas a cantar... E o sono vinha...
Hoje eu não durmo... É porque mais não me acalentas? Eu não sei nada... Eu não sei bem, Pedrina minha...
Pedrina minha, dorme, dorme... Em noites lentas... (MEIRELES, 2001b, p.108-109).
O poema é formado por 12 estrofes, numa sequência de tercetos e dísticos. Nele, o eu lírico conversa com sua interlocutora Pedrina, como o próprio título apresenta, ela é uma morta. O ritmo é lento acompanhado pelo refrão “Pedrina minha (...)” sempre a iniciar o terceto; o segundo verso, do dístico, também se inicia com “Pedrina minha” e repete o pri- meiro verso do terceto.
O eu lírico fala de um tempo da falta. A falta causada pela morte. E a morte é de Pedri- na. A Pedrina do eu lírico. Não é qualquer pessoa que ele sente falta, mas de Pedrina. Aqui ele mostrou o quanto foi difícil sobreviver depois da morte de uma pessoa muito querida. A falta se repercute em sua vida e o deixa incrédulo. “E as minhas preces\Não chegam mais a estes lugares sobre-humanos;”. Lembra-se da Nossa Senhora que não ouve mais os pedidos da humanidade, do Deus ocioso. É um dado que perpassa a poética ceciliana: suas preces não são mais ouvidas.
No primeiro verso, observa-se também a simbologia do olhar: “Pedrina minha, eu não te vejo há tantos anos”! O eu lírico não vê a sua Pedrina há muito anos. A distância anunciada através do olhar revela esta singeleza da poeta ao tratar das imagens de distanciamento.
Na sequência seguinte o destaque é para a memória. Esta memória é uma memória “doce”. O doce evoca a infância. Pedrina soube ser a Grande Mãe mais doce para aquela criança a ponto de eternizar a infância “Para minha alma, vida inteira alma de criança”. Além disso, Pedrina transmitia amor quando contava a história do “Barba Azul, do Ali Ba- bá, de um rei da França”. Era esta a diferença do contar de histórias de Pedrina.
Complementando a simbologia da memória infantil, temos os “penúltimos de de- zembro” (natal): “Pedrina minha, e os penúltimos de dezembro?...” Natais bem vividos fi-
cam para sempre na memória. Estes natais falam também de umas rezas que somente Pedri- na sabia rezar. Estas rezas remetem a um tempo tão distante lembrado pelo eu lírico.
Agora o eu lírico revela sua profunda tristeza: “Pedrina minha, eu fico, às vezes, muito triste...” Nestes dois mundos entre vivos e mortos, Pedrina não a compreende, não a escuta. E diante deste distanciamento ela chega até a pensar na desvalorização do seu ser para Pedrina. A ponto de ela se conformar com esta situação. “Pedrina minha, não faz mal que tu me esqueças...” Nesta conformidade, ela sente medo de Pedrina ao se lembrar dela possa sofrer com esta lembrança. Pedrina já sofreu muito de forma imerecida, não precisa sofrer mais uma vez por sua causa. O eu lírico se compadece do sofrimento do outro (Pedri- na) por coisas imerecidas e não quer aumentar este sofrimento. Sendo assim, se ela for uma lembrança triste, poderá esquecê-la e isto é aceitável.
Nos últimos versos vem a imagem do sono, da noite: “Pedrina minha, dorme, dor- me... em noites lentas”. O eu lírico não dorme mais, pois sente a falta do embalo de Pedrina. Enquanto isso, ela dorme em noites lentas. Ou seja, é um sono contínuo: a morte.
Essas foram variáveis da Grande Mãe representadas na pajem. Pedrina (Dentinho de Arroz) é uma Grande Mãe transfigurada numa imagem daquela babá perfeita capaz de levar a criança ao mundo mágico onde não existe dor e sofrimento. Ao morrer sua ausência trans- formou-se numa das mais belas criações poéticas cecilianas.
2.5 Considerações sobre o capítulo
Poetizar sobre a ausência materna foi uma forma que a poeta encontrou para falar de sua angústia existencial. Através desta análise, observo o teor da ausência materna que transpareceu na poética ceciliana. Esta ausência estava representada por meio de símbolos e imagens que carregavam a presença do desejo de se encontrar face a face com a mãe morta. Desejo este que repercute em toda poética ceciliana. É com sua mãe que ela quer se encon- trar. E este encontro se deu através da poesia. Poesia e ausência são dois dados unidos em Cecília Meireles. Da mesma forma que ela poetizou a ausência materna por meio de sua mãe morta, ela também faz também com a babá. Porém, entre a mãe e a babá existe uma diferença: da mãe ela tem vaga lembrança da voz, ao passo que, a babá foi uma das pessoas que cuidou dela, na falta da mãe legítima. No próximo capítulo, apresentar-se-á a Grande Mãe por meio dos santos e das santas poetizadas por Cecília Meireles na infância e na vida adulta.