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O princípio da boa-fé objetiva tem por fundamento constitucional a cláusula

geral de tutela da pessoa humana ou, mais especificamente, o objetivo de construção de uma sociedade solidária, voltada para o respeito pelo próximo.

Segundo o entendimento de Negreiros,

“[...] a incidência da boa-fé objetiva sobre a disciplina obrigacional determina uma valorização da dignidade da pessoa, em substituição à autonomia do indivíduo, na medida em que se passa a encarar as relações obrigacionais como um espaço de cooperação e solidariedade entre as partes e sobretudo de desenvolvimento da personalidade humana”.44

42 NEGREIROS, Teresa. Op. cit., p. 158.

43 SERPA LOPES. Curso de direito civil. 6. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1996. v. III, p. 73.

44 NEGREIROS, Teresa. Fundamentos para uma interpretação constitucional do princípio da boa-fé. Rio

De acordo com tal concepção, os contratantes devem agir segundo certos padrões de conduta, que se caracterizam pela correção e lisura de comportamento frente ao outro contratante. Esse princípio reflete um valor ético, consubstanciado na lealdade, correção e veracidade de conduta.

No novo código civil, a boa-fé aparece como critério de interpretação da declaração de vontade (art. 113), de valoração da abusividade no exercício de direitos subjetivos (art. 187) e como regra de conduta imposta aos contratantes (art. 422).

Este novo elemento integrante do contrato afasta-se da vontade das partes, preocupando-se com o padrão de conduta esperado de um homem médio, o denominado

bom pai de família. Ao lado das obrigações contratuais previstas no ajuste, surgem deveres paralelos e acessórios que devem ser cumpridos pelos contratantes, independentemente de expressa previsão pelas partes.

Uma vez celebrado, o contrato deve despertar a confiança de que retrata a real intenção dos contratantes, os quais têm o objetivo de efetivamente cumpri-lo e realizar os interesses ali envolvidos. As partes assumem uma relação de cooperação e respeito mútuo, antagônica à perseguição egoísta de satisfação individual outrora determinada pelo individualismo puro. Rosenvald entende existir uma affectio contractus, segundo a qual as partes devem agir de forma a que possam alcançar maior proveito da relação contratual:

“A visão solidária da relação obrigacional, porém, demonstra que os contratantes assumirão a postura de parceiros e não simplesmente de pólos opostos em um vínculo negocial. Não há qualquer ingenuidade em supor uma affectio contractus, pois a existência de interesses opostos não impede que cada parte respeite um mínimo ético e indispensável de lealdade e cuidado para com o outro”.45

Lotufo também explica,

“[...] o contrato, que é fonte voluntária das obrigações, torna-se um instrumento de cooperação entre as pessoas, que, no âmbito do sinalagma e da comutatividade, há que preservar a igualdade dos sacrifícios que, se não decorrer da colaboração conjunta dos que participam da avença, será por força da lei que busca a concretização conjunta dos princípios fundamentais”.46

45 ROSENVALD, Nelson. Dignidade humana e a boa-fé no código civil. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 95. 46 LOTUFO, Renan. Código civil comentado: obrigações – parte geral. São Paulo: Saraiva, 2003. v. 1, p. 9.

Os contratantes, assim, devem respeitar os interesses uns dos outros, agindo em cooperação para alcançar o efeito prático pretendido pelo contrato.

O princípio é bem explicado por Marques, ao expor:

“Boa-fé objetiva significa, portanto, uma atuação ‘refletida’, uma atuação refletindo, pensando no outro, no parceiro contratual, respeitando-o, respeitando seus interesses legítimos, suas expectativas razoáveis, seus direitos, agindo com lealdade, sem abuso, sem obstrução, sem causar lesão ou desvantagem excessiva, cooperando para atingir o bom fim das obrigações: o cumprimento do objetivo contratual e a realização dos interesses das partes”.47

Igualmente, ensina Theodoro Júnior que referido princípio exige das partes, ao contratarem, seguir os padrões éticos do meio social:

“A lei não define esses padrões, mesmo porque eles são variáveis, no tempo e no espaço. A regra, aqui e nas fontes do direito comparado que alimentaram o Código Civil brasileiro, corresponde ao tipo de norma que a doutrina denomina ‘cláusula geral’ para indicar preceitos genéricos ou abertos, cujo conteúdo haverá de ser completado e definido casuisticamente pelo juiz. Mais do que normas definidoras de conduta, as cláusulas legais da espécie se endereçam ao juiz, exigindo-lhe um trabalho de adaptação a ser cumprido por meio da hermenêutica, da interpretação”.48

A boa-fé objetiva apresenta tríplice função:

- função de otimização do comportamento contratual, de forma a que o ajuste alcance o objetivo desejado pelos contratantes (interpretativa). Nesse aspecto, a interpretação dos contratos deve levar em conta não o sentido literal expresso pelas partes, mas, o sentido que propiciará a melhor satisfação dos interesses das partes, correspondente às convenções sociais. Para Lotufo,

“[...] o destinatário não pode ater-se simplesmente ao sentido literal da declaração, porque lhe incumbe também o dever de diligência na precisão do conteúdo volitivo do negócio, conforme a boa-fé. Se o destinatário cumpre esse requisito, merece proteção sua fé, sua confiança, em que a declaração é válida com o significado que extraiu”49

47 MARQUES, Cláudia Lima. Op. cit., p. 107.

48 THEODORO JÚNIOR, Humberto. O contrato e sua função social, p. 17. 49 LOTUFO, Renan. Op. cit., p. 308.

- função limitadora, diretamente relacionada à teoria do abuso de direito, que impede condutas que extrapolam os limites impostos pelo fim econômico ou social do ato (art. 187, CC/2002) (controle);50

- e, função integrativa do contrato, da qual defluem os deveres de conduta destinados a resguardar o fiel processamento da obrigação.

Inserta no princípio da boa-fé objetiva, além dos deveres de conduta que devam ser adotados pelos contratantes, encontra-se, também, a obrigação dos terceiros respeitarem o ajuste de vontades. Trata-se do dever geral de agir segundo a boa-fé (não lesar, neminem laedere).

Rosenvald, sobre o tema, admite que:

“[...] a necessidade de preservar a ordem econômica e a fidelidade às convenções demanda que terceiros se abstenham de violar contratos em andamento. O abuso no exercício da liberdade contratual gera responsabilidade de quem induz outrem à violação de contrato. A colaboração em grau mínimo da sociedade já é suficiente para preservar a confiança na circulação econômica dos créditos”.51

Nessa esteira, a boa-fé cria um dever geral de não interferência, limitador da liberdade de agir, segundo o qual ao terceiro é exigido respeitar as situações jurídicas constituídas validamente e merecedoras de tutela do ordenamento jurídico. Esse dever encontra-se intimamente ligado à idéia de que o contrato não é uma realidade que diz respeito apenas aos contratantes. Os terceiros não podem agir como se o contrato não existisse ou não lhes dissesse respeito, na medida em que interessa a toda a sociedade. Daí porque se afirma que os princípios da boa-fé objetiva e da função social do contrato são filhos da mesma genitora (solidariedade).52