• Sonuç bulunamadı

As crianças começam a chegar à creche antes mesmo de o portão ser aberto, por volta das 6h50min., acompanhadas por seus pais ou responsáveis. Muitas delas vão à creche andando, mas outras chegam de bicicleta ou de moto. Ficam aguardando na calçada a autorização da entrada pelo porteiro que, às vezes, demora mais do que o previsto, causando inquietação nas famílias que precisam ir trabalhar. Quando isso acontece, algumas mães e pais chegam a reclamar entre si, mas não verbalizam a insatisfação para as professoras. Esse comportamento (não reclamar pelo que recebem nem reivindicar melhor atendimento) é usual e parece estar ligado a vários fatores, inclusive ao temor de represálias a seus filhos ou mesmo perder a vaga na creche, atendimento que muitos deles ainda parecem considerar como favor.

Carla, auxiliar da sala D, costuma chegar à creche pouco antes das sete horas. Conversa um pouco com as colegas e se dirige à sala para receber as crianças. Renata também tem o hábito de chegar pontualmente, e foram raras as vezes, durante a pesquisa de campo, em que se atrasou.

Fotografia 17: Uma das crianças que acaba de chegar, abraça e beija a colega

Quando a porta principal é aberta, as famílias acompanham as crianças até a sala, mas poucas são as que trocam informações com a professora. Quando há essa comunicação, geralmente os assuntos restringem-se à confirmação do horário em que devem buscar seus filhos, a reclamações da professora acerca dos calçados com que as crianças vão à creche63 e sobre brinquedos, moedas e outros objetos que costumam trazer de casa. A docente também costuma questionar as famílias em relação à ausência das crianças por períodos prolongados e repreendê-las por levar as crianças para a creche com problemas de saúde, especialmente doenças de pele, como escabiose e pitiríase versicolor (“pano branco”), e febre. Os pais, geralmente, tentam justificar-se ressaltando que as crianças estão sendo medicadas, mas enfatizam que não podem ficar com elas em casa porque precisam trabalhar. Após essa breve explicação, saem devagar, com ar desconfiado, transparecendo constrangimento.

A professora costuma cumprimentar as crianças de forma rápida ao chegarem. Parece uma ação automática que acontece sempre da mesma forma, independente de como chegam à sala: diz bom dia e o nome da criança, mas sequer olha atentamente para ela. As crianças, por sua vez, não respondem à saudação. Ao entrarem na sala parecem já ter incorporado o que deve ser feito: ir à estante de madeira e pegar livros ou revistas para folhear. A maioria obedece a essa sequência, mas as que chegam sonolentas costumam sentar e ficar paradas, não havendo qualquer incentivo da professora ou da auxiliar para envolvê-las nessa atividade. Outras crianças chegam chorando, carregadas por seus pais que as colocam para dentro sem maiores explicações. Diante disso, a atitude de Renata varia bastante. Algumas vezes, ela segura as crianças para mantê-las na sala e pede a quem veio deixá-las que se retire o mais rápido possível para que a criança se acalme. Os responsáveis pelas crianças, apesar de apreensivos, costumam atender à solicitação da professora, mas geralmente saem olhando para trás, o que demonstra relativa preocupação com os possíveis desfechos da situação.

Passados alguns instantes, quando as crianças param de se debater, Renata tenta seduzi-las oferecendo-lhes brinquedos que estão na sala multifuncional. Algumas vezes, a criança volta aparentemente satisfeita com um brinquedo ou livro nas mãos. Outras vezes, não obtendo êxito em sua empreitada, opta por deixar as crianças sozinhas para

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A professora costuma reclamar porque as crianças, especialmente as meninas, vão à creche com calçados inadequados, a maioria de salto alto.

que, segundo ela, acalmem-se um pouco mais. De acordo com a professora, essa atitude revela o respeito que tem pelas crianças, tendo em vista que não tenta uma aproximação forçada.

Se a criança chega calada, contudo, ou mesmo se está chorando, mas aceita entrar na sala sem maiores contestações, a atenção demandada não é a mesma. Ambas as profissionais até perguntam o motivo da insatisfação, mas não demonstram real interesse em escutar a resposta já que no momento seguinte ao questionamento já se dedicam a outra atividade. Na maioria das vezes, as crianças choram até cansar ou perceber que não obterão qualquer resultado com a manifestação de suas emoções64.

Apesar de haver livros e revistas disponíveis às crianças nesse momento inicial do dia, não há nenhuma atenção especial da professora no acolhimento das crianças, quer se aproximando para manusearem juntas o material ou mesmo para perguntar como passaram a noite ou o final de semana. São as próprias crianças que demonstram interesse e satisfação ao rever seus companheiros de sala, dando as boas-vindas (fotografia 17) e convidando os que chegam mais tarde para se envolverem nas conversas dos grupos que vão se formando espontaneamente.

É importante ressaltar que apesar de a maioria dos livros e revistas oferecidos às crianças serem inadequados e estarem em péssimo estado de conservação, conforme dito anteriormente, as crianças os observam sempre com muito interesse e entusiasmo (fotografia 18). É realmente impressionante o nível de concentração que elas atingem nesse momento, chegando a passar até 20 minutos explorando o material. Também costumam conversar com os colegas sobre as figuras e até mesmo dialogar com os personagens dos poucos livros a que têm acesso.

Geralmente, a frequência diária é de 17 crianças. À proporção que vão chegando, a professora e a auxiliar trocam-lhes as roupas pelos calções de uso coletivo da creche65. As roupas retiradas são colocadas dentro das mochilas das crianças, os calçados no canto da parede e, dessa forma, elas permanecem sem camisa e descalças

64 Em uma das cenas filmadas e discutidas com a professora, uma das crianças ch ora insistentemente ao

seu lado. Ela permanece estática, olhando para fora da sala e sem nada dizer.

65 A coordenadora esclareceu que um “trabalho de conscientização” está sendo realizado junto às famílias

no sentido de que enviem ao menos duas peças de roupa dentro da mochila para que as crianças usem durante o dia. Apesar de alguns pais já estarem atendendo à solicitação, a maioria deles ainda não aderiu a essa medida porque, segundo Camila, consideram-na desnecessária e dispendiosa.

durante todo o dia. Essa medida é seguida rigorosamente por todas as turmas, mesmo se estiver chovendo, o clima mais frio e o piso está molhado e escorregadio66.

Benzer Belgeler