A partir das informações obtidas verificou-se que alguns municípios apresentam recorrência na decretação de desastres associados ao clima. Esta situação indica que os eventos naturais intensos ocorrem com alta frequência, mas também adverte que a população e as instituições públicas possuem baixas resiliências, uma vez que após serem atingidas por um evento adverso, elas não têm meios para prever, prevenir e mitigar futuros desastres, a partir da experiência vivida. Assim, constantemente sofrem com os mesmos danos, tornando a situação de risco uma constante na vida das pessoas.
Dos 184 municípios cearenses, 179 tiveram reconhecidas pelo menos uma vez uma decretação de SE ou ECP motivada por escassez hídrica, além disso,
20,65% dos municípios se concentraram na classe de frequência “Baixa” e 23,91% na “Baixa a Moderada” indicando que alguns municípios são frequentemente impactos pela escassez hídrica, entretanto apresentam melhores condições para resistir os eventos de menor intensidade. Outros apresentaram frequências superiores (classes Alta e Muito Alta), mais do que a própria quantidade de anos da série histórica em análise, a exemplo de Tauá, Penaforte, Caridade e Campos Sales (Figura 62). Todavia, houve uma maior frequência na classe “Moderada”, com os municípios que tiveram reconhecidas de 04 a 06 decretações (Quadro 10).
Quadro 10 – Classes e frequência das Portarias de reconhecimento da situação de desastre decorrente de secas e estiagens
Classes Quantidade de Portarias Frequência Frequência Relativa (%) Frequência Acumulada Frequência Acumulada (%) Ausente Nenhuma 5 2,72 5 2,72 Baixa 01 ˫ 04 38 20,65 43 23,37 Baixa a Moderada 04 ˫ 07 44 23,91 87 47,28 Moderada 07 ˫ 10 51 27,72 138 75,00 Alta 10 ˫ 13 38 20,65 176 95,65 Muito Alta 13 ˫ 16 8 4,43 184 100,00
Fonte de dados: SEDEC, 2003-2012.
Os municípios com maiores frequências foram Tauá e Penaforte, os quais em sete dos dez anos da série histórica tiveram reconhecidos 16 decretos de SE ou ECP, muito dos quais indicando estado de agravamento dos impactos sentidos. As regiões mais afetadas foram os sertões dos Inhamus e Central.
Esta situação, como de outros municípios, decorre de um contexto de elevada vulnerabilidade socioambiental, marcada por um espaço natural suscetível a ocorrência das secas, além de um alto estado de degradação. Além disso, parte majoritária da população interiorana não possui meios técnicos, financeiros e conhecimento para superar as adversidades proporcionadas pela escassez hídrica. Acrescenta-se um quadro de poucas ações efetivas de prevenção de desastres realizadas pelas entidades públicas competentes. Por fim, outro fator agravante da vulnerabilidade é a própria cultura do sertanejo, habituado a conviver com um sentimento de esperança, na verdade, de passividade diante da seca, aguardando a ajuda do Poder Público e principalmente das “benesses de Deus”.
Contudo, os dados revelam que alguns municípios apresentam baixas vulnerabilidades ao fenômeno das secas. Estes se concentram na RMF, no litoral oeste e na região da Ibiapaba, devido a maior disponibilidade hídrica destas regiões. No primeiro caso, a transposição das águas da bacia do rio Jaguaribe para o complexo hídrico dos açudes Pacoti-Gavião-Riachão é uma das ações para o abastecimento das principais cidades do estado, bem como garantindo a oferta de água para as atividades produtivas, destacando as indústrias dos polos de Maracanaú e do Pecém. As outras regiões possuem clima sub-úmido e úmido, havendo uma maior disponibilidade de água nos reservatórios naturais e artificiais.
Do mesmo modo que estiagens, as inundações são desastres recorrentes nos territórios de alguns municípios (Figura 63). Os dados referentes às Portarias de reconhecimento de desastres das inundações apontam que a maioria dos municípios registrou apenas uma (41,30%) ou duas (22,28%) situações de desastres (classe Baixa e Baixa a Moderada, respectivamente). Em seguida, 15,22% registraram três a quatro situações de desastres (classe Moderada), 0,54% obtiveram de seis a sete decretações reconhecidas (classe Muito Alta). Não há registro equivalente a classe Alta. Por fim, 38 municípios (20,65%) nunca decretaram ou tiveram reconhecidas situações de desastres produzidos por inundações na série em foco (Quadro 11).
Quadro 11 – Classes de frequência das Portarias de reconhecimento da situação de desastre decorrente das inundações
Classes Quantidade de Portarias Frequência Frequência Relativa (%) Frequência Acumulada Frequência Acumulada (%) Ausente Nenhuma 38 20,65 38 20,65 Baixa 01 ˫ 02 76 41,30 114 61,96 Baixa a Moderada 02 ˫ 03 41 22,28 155 84,24 Moderada 03 ˫ 05 28 15,22 183 99,46 Alta 05 ˫ 06 0 0,00 183 99,46 Muito Alta 06 ˫ 07 1 0,54 184 100,00
Fonte de dados: SEDEC, 2003-2012.
Com relação à frequência das Portarias de reconhecimento, observa-se que os municípios das bacias dos rios Salgado, Aracatiaçu, Acaraú e Jaguaribe foram os mais atingidos pelas inundações. O município do Crato foi o que apresentou a maior frequência, motivados pelas inundações do canal do rio Granjeiro, contribuinte do rio Salgado.
Este município instalou-se no sopé da Chapada do Araripe, sendo que à medida que se expandia espacialmente, aglutinava a calha do rio Granjeiro na malha urbana. No entanto, durante o período chuvoso, as pequenas drenagens do planalto recebem maiores aportes de águas pluviais. Ao descerem pelas vertentes, as águas ganham força, velocidade e competência erosiva, de modo que quando os rios adentram nos terrenos suave ondulados da depressão periférica, ocorre o extravasamento das águas do canal, gerando muitos danos nas áreas marginais.
Para a contenção das inundações, o Poder Público realizou uma série de intervenções, como a canalização e retificação do canal. Porém, os resultados foram insatisfatórios, de tal forma que, ampliou-se a magnitude das inundações.
A própria cidade de Fortaleza nunca decretou SE ou ECP, mesmo diante dos periódicos eventos pluviais extremos que ocorrem. Neste sentido, em função da vulnerabilidade do espaço urbano e daqueles que o habitam, faz-se mister a análise das repercussões destes episódios no referido espaço. A seguir é apresentado um estudo de caso produzindo por um evento ocorrido no dia 27.03.2012.
6.4 O episódio pluvial de 27 de março de 2012 e suas consequências no