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I. BÖLÜM

6.2. Edremit İlçesi ve Köylerinden Elde Edilen Bulgular

O Eutidemo oferece alguns problemas quando se tenta encaixá-lo nas interpretações cronológicas e desenvolvimentistas da filosofia platônica, pois não se enquadra dentro da organização teórica do corpus, a partir da correlação temporal entre os diálogos24. Alguns

temas presentes nos argumentos desse diálogo se correlacionam com os ditos de diálogos tardios, entretanto o seu formato é nitidamente semelhante a um diálogo de juventude. Certamente, isso enriqueceu o debate a respeito de seu papel dentro do corpus, ao mesmo tempo em que lhe relegou um papel secundário dentro do ponto de vista doutrinário da filosofia platônica. Como afirma Chance (1992, p. 3), o Eutidemo não se concentra sobre teorias filosóficas, mas sobre procedimentos argumentativos, o que torna difícil situá-lo dentro desse tipo de visão teórica do corpus platonicum: não há uma doutrina expressa no diálogo, que, por vezes, parece uma simples brincadeira argumentativa.

Considerado nos seus detalhes, o Eutidemo nos coloca diante de um problema sobre o status da organização do corpus, na medida em que apresenta um aspecto fragmentário, especialmente quando lido concomitante com diálogos teóricos, como República, Fédon e Fedro. Em certos aspectos, ele não parece possuir uma proposta filosófica evidente e que permita enquadrá-lo como aliado teórico desses diálogos. Nesse sentido, ele se assemelha mais a uma espécie de jogo argumentativo, do que a uma obra filosófica propositiva, na qual encontraríamos uma filosofia platônica anunciada. Em vista disso, esses problemas interpretativos apontam para seu caráter de problematizar a organização cronológica dos diálogos. De acordo com Jacynto Lins Brandão (1988, p. 32-ἁἃ), ἷlἷ ὧ Ὁm “ἶiὠlὁgὁ ὅὁἴὄἷ ὁ ἶiὠlὁgὁ”έ

24 Para aqueles que seguem a perspectiva de análise cronológica do corpus o Eutidemo é dos diálogos que mais

apresenta problemas. Cf. Canto (1989, 37-40) tenta definir uma data de composição para o diálogo, após a sua datação dramática; Palpacelli (2009, p. 33-38) faz um apanhado dessa discussão cronológica; Chance (1992, 2- 10) aponta para as sucessivas variações na interpretação do diálogo e as tentativas de situá-lo no corpus, desde de Shorey, Friedländer e Guthrie até Gifford, Owen e Sidgwick. Não nos empenhamos nesse debate por optarmos por um viés interpretativo em que essas questões cronológicas não se colocam.

66 Além disso, a constante presença de jogos de palavras o torna uma obra ainda mais extravagante, conferindo-lhe um peculiar sabor satírico. Desde o início (275c-276e), percebe- se que o jὁgὁ ἵὁm ἳ ὂἳlἳvὄἳ α , ὀἳ ὅὉἳ ὄἷlἳὦὤὁ ἵὁm ἳὅ ὂἳlἳvὄἳὅ α ῖ ἷ φ , explora as ambiguidades de forma sutil, como que para causar aporias aparentemente insolúveis, nas quais o leitor se perde no fluxo do diálogo. Como explica Adriana Nogueira (1999, p. 33), Platão mostra como as ambiguidades das palavras podem produzir aporias inquebráveis, mesmo que Sócrates tente combatê-las por homonímia, pois o enquadramento da situação gerada deixa Clínias perdido. Em decorrência disso, o vocabulário do diálogo apresenta inúmeras vias de compreensão, o que impossibilita extrair dele uma proposta positiva para os sucessivos jogos de palavras. Logo, parece impossível delimitar seus argumentos dentro de um padrão teórico único dentro do corpus25.

De acordo com Chance (1992, p. 9), por causa desses problemas, existe uma tradição interpretativa do Eutidemo que se empenhou em fazer um uso das Refutações Sofísticas de Aristóteles como ponto de partida para a compreensão dos recursos argumentativos do diálogo, especialmente no que diz respeito à utilização dos sofismas e das falácias. Nesse caso, as dificuldades interpretativas levaram os estudiosos a optarem por encontrar em Aristóteles as razões que dariam sentido à obra. Em certa medida, esse tipo de perspectiva sobrepõe as descrições lógicas aristotélicas nas construções dramáticas de Platão, estabelecendo um pressuposto lógico determinante para o diálogo. É como se a tradição definisse que o uso das falácias é uma questão fundamental do Eutidemo, cuja função dentro do corpus se concentra nos problemas lógico-metodológicos, especificamente naqueles oriundos do confronto explícito entre refutação socrática e erística.

Segundo Chance (1992, p. 9), Richard Robinson, em dois artigos intitulados Ambiguity e Plato’s Consciousness of Fallacy, inaugurou essa perspectiva interpretativa na qual a compreensão do Eutidemo passa inevitavelmente pela resposta à questão da consciência ou não de Platão do uso das falácias. Por isso, a comparação das falácias do diálogo com as formulações abstratas das Refutações Sofísticas de Aristóteles se torna a ferramenta essencial para essas interpretações. Nesse sentido, alerta Chance (1992, p. 10), a partir de Robinson, as principais interpretações do diálogo sempre estiveram vinculadas aos usos argumentativos, girando em torno de saber se Platão teria consciência ou não do uso que

25 Na introdução à sua tradução, Nogueira (1999, p. 33-41) tenta fazer um apanhado interessante dos possíveis

sentidos interpretativos envolvidos no Eutidemo, a partir da lista dos sofismas do diálogo, que, certamente, centrou o debate em torno do diálogo depois de Robinson.

67 ele faz das falácias. Segundo ele (1992, p. 11), é como se houvesse um reconhecimento de que a interpretação desse diálogo deve estar estritamente associada ao seu caráter lógico, seja pela análise dos argumentos utilizados pelos dois irmãos sofistas ou, até mesmo, pela postura argumentativa adotada por Sócrates. Desde então, a tradição interpretativa do Eutidemo tenta se dar conta do modo como Platão conduz os argumentos dentro do diálogo e como optou por situar os dois irmãos sofistas em um contexto da argumentação erística. Em certos aspectos, a tradição influenciada por Robinson procura mostrar um caminho entre duas opções: ou Platão promove um uso das falácias que contribui para atingir determinado conteúdo ou posição filosófica ou ele está simplesmente esboçando uma caricatura da qual ele não possui ainda um retrato filosófico bem delineado e definido. Em geral, somos levados a ver no Eutidemo uma centralidade do problema metodológico da filosofia pelo viés de uma disputa dentro do campo argumentativo, como se fosse possível esboçar uma espécie de experimentação argumentativa, na qual Platão se posiciona de forma inconsequente ou conscientemente.

Dentro desse debate, um dos estudos mais influentes é o de Sprague (1962), cuja aposta é a da possibilidade de utilizar as Refutações Sofísticas para expor como o Eutidemo representa certa maturidade de Platão ao construir as falácias. É nas considerações de Sócrates a respeito dos argumentos que Sprague (1962, p.5) demonstra que Platão tem plena consciência teórica do seu uso dos recursos lógicos. Isso nos conduz a aproximar a percepção lógica de Platão daquilo que foi feito por Aristóteles. Diὐ ἷlἳ (1λἄἀ, ὂέ ἃ)μ “Meu objetivo é insistir que no caso de certos argumentos especificamente falaciosos Platão estava plenamente consciente da falácia e a usou para um propósito”έ Para Sprague, o uso dos argumentos falaciosos aponta para um problema filosófico fundamental, que é o do ensino da virtude. Porém, o Eutidemo associa o problema da virtude com os problemas filosóficos inerentes à posição filosófica de Parmênides e dos neo-eleatas, o que estabelece um pano de fundo, cuja reflexão vai na direção da Teoria das Formas. Para ela:

A rejeição da erística é tida como especialmente crucial para Platão por duas circunstâncias: primeira, pois os sofistas se propõem a ensinar a virtude por este meio, segunda, posto que seus argumentos são em sua maior parte baseados sobre uma metafísica (aquela de Parmênides), que é incompatível com a dele. Portanto, ao expor a natureza falaciosa desses argumentos, Platão não está apenas defendendo seu próprio método de ensino, mas também limpando o caminho para aquilo que é, acima de tudo, a condição indispensável do seu método, a teoria das Formas. (1962, p. 33).

Thomas Chance, contrapondo-se tanto a Robinson quanto a Sprague, diz seguir uma perspectiva inaugurada por Hermann Keulen, cujo pressuposto seria de afastar a influência aristotélica na interpretação do Eutidemo. De acordo com Chance, é possível apostar que o

68 sentido filosófico do diálogo não se restringe a definir se Platão tem consciência ou não do uso teórico e abstrato das falácias. Em primeiro lugar, não é necessário recorrer a uma perspectiva aristotélica para estabelecer uma interpretação satisfatória dos argumentos dos sofistas. Em segundo lugar, adotar as descrições aristotélicas como ponto de partida seria, ao mesmo tempo, negar a possiblidade de alcançar o sentido pedagógico e dramático que Platão utiliza para a construção dos sofismas; isto é, não é suficiente se estabelecer o sentido lógico e argumentativo do diálogo, sendo necessário também se atentar para o paralelo entre Sócrates e os dois irmãos sofistas. Isso seria uma espécie de apresentação da sabedoria erística do ponto de vista dramático (1992, p. 21).

A proposta de Chance (1992, p. 13) é a de que é necessário listar as características trágicas e cômicas que o diálogo contém e que permitiriam traçar o sentido exortativo e persuasivo que o Eutidemo inegavelmente possui. Diz ele (1992, p. 14): “No Eutidemo, Platão juntou um estrutura retórica e uma dramática, ao mesmo tempo que criou uma tensão entre tragédia e comédia e entre persuasão e dissuasão”. Sendo assim, a hipótese dele (1992, p. 18) é de que o diálogo ὧ “uma completa e acabada obra de arte”, ἵὁmὁ ὁἴὄἳ ἶὄἳmὠὈiἵἳ, na qual podemos delinear um confronto nítido entre sofística e filosofia. Em vista disso, pode se estabelecer que a erística é como um “ὁὉὈὄὁ” ἶἳ ἶiἳlὧὈiἵἳ. Em um jogo de similaridade e diferenciação, Chance acredita que é possível determinar conscientemente o antípoda do método filosófico de Platão. Nesse aspecto, a narrativa de Sócrates teria duas direções: a primeira é feita para estabelecer uma tonalidade predominantemente irônica e satírica, a partir da qual se faz uma caricatura da erística; a segunda, por outro lado, delimita-se como um modo concreto de fazer filosofia (CHANCE, 1992, p. 21)

Certamente, é preciso reconhecer que a interpretação de Chance aponta para uma questão central no que diz respeito à compreensão do diálogo: é quase impossível decidir a respeito de qual seria o objetivo filosófico de Platão. Os jogos de palavras e a tonalidade satírica dão um caráter bem peculiar ao diálogo, o que nos inibe de fazer considerações gerais sobre o papel dele no corpus. Deve-se considerar no mínimo que se trata de uma tarefa que sempre deixa lacunas: por mais que possamos alcançar uma perspectiva contextualizada deste com outros diálogos, ou até mesmo com a obra de outros autores, como a dos megáricos26 e as

obras aristotélicas, o Eutidemo sempre deixa uma lacuna na interpretação das falácias. De

26 Cf. Dorion (2000, p. 50) para a consideração de que Eutidemo e Dionisodoro são uma representação dos

filósofos megáricos, em nítida referência às questões filosóficas contemporâneas à escrita do diálogo; Inverso (2014, p. 53) para a perspectiva de um vínculo lógico entre os irmãos e a metodologia argumentativa megárica, pela metáfora da armadilha usada no diálogo.

69 certo modo, o único viés que podemos apontar é que não há para o diálogo um objetivo filosófico único, delimitado e restrito, pois suas nuanças interpretativas podem ter caracteres variados.

Diante disso, apostamos que é possível indicar, entre as várias direções possíveis, uma interpretação pela qual se observa a construção dramática do diálogo em vista de seu caráter cômico, como uma espécie de projeto pedagógico. Isso é o que permite compreender o confronto pedagógico entre a refutação socrática e a erística, a partir de certos recursos cômicos. E mesmo que se possa observar elementos trágicos e, por vezes, épicos, na exposição dos modelos pedagógicos e nas condições de aprendizado apontadas, é inegável que os recursos cômicos do Eutidemo são preponderantes. Em certa medida, gostaríamos de apontar que essa interpretação tem o intuito de mostrar como é possível compreender de forma cômica que a esfera do aprender é algo pertencente ao campo do saber. Ou seja, é possível observar que o contexto narrativo e literário do diálogo se constrói para transparecer que o aprender é um problema do campo epistemológico, ao mesmo tempo sério e cômico.