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(039) Aí o horário era de 14 às 20 horas. No momento, quando dava 18 horas no meu dia eu terminava o soul, o meu som sempre era mais um pouquinho baixo, num tinha volume alto pra num atormentar as pessoas, a vizinhança e no dia do

Arnaldo ele colocava o som no último volume e terminava às 9 horas da noite.

Então as pessoas não conseguia escutar novela, os hóspede do hotel ficava xingando porque chegava de viagem e não tinha como dormir... Os síndicos dos prédios começou a fazer um abaixo assinado, no Ministério Público, contra o espaço, que

Quarteirão do Soul poderia ficar. No caso o outro som, que é Movimento Black Soul, não podia ficar. Que aí eu sabia, o pessoal gosta de mim, gosta de mim até

hoje. Então, aí eles deram um prazo de dois meses pra sair do espaço e mandaram procurar outro espaço. Aí eu, Germano, sempre eu, fui na Santa Catarina, olhei o espaço, gostei. (...) Aí conseguimos o espaço na Santa Catarina, começamos a tocar na Santa Catarina durante esse tempo até hoje tamo na Santa Catarina. (...) Porque quando a gente tava na Goitacazes tava bem. Aí como o abaixo assinado foi pra dentro da Prefeitura, dos síndicos dos prédios em volta, do hotel, da escola, então aí Prefeitura pegou, não liberou mais o alvará pra gente. E fez uma proposta que nós podia sair daqui [Rua Goitacazes] e arrumar outro espaço onde não tivesse

prédio, aí onde que a [Rua] Santa Catarina não tem prédio residencial, lá só

comercial, então dá pra fazer lá na [Rua] Santa Catarina. (Germano – Fundador QS)

No texto (039), Germano aponta a distinção entre a dosagem do som quando era tocado no Movimento Quarteirão do Soul e no Movimento Black Soul. Segundo ele, o som do DJ Arnado, do Movimento Black Soul, extrapolava os limites, enquanto seu som era sempre mais um pouquinho baixo. O implícito subentendido do discurso de Germano é que, caso o DJ Arnaldo cumprisse as determinações de volume e horário, O Movimento Quarteirão do Soul não teriam saído da Rua Goitacazes. O enunciador acredita de modo explícito que apenas o Movimento Black Soul causava problemas, pois, mesmo após as intervenções dos moradores e da Prefeitura, acreditou que Se fosse Quarteirão do Soul poderia ficar. No caso o outro som, que é Movimento Black Soul, não podia ficar. No entanto, ambos os movimentos foram remanejados. O implícito pressuposto é de que os demais habitantes da Rua Goitacazes, seja comerciante seja morador, não sabiam das distinções entre os dois movimentos, e a solução almejada seria a desterritorialização da rua por parte dos blacks aos sábados.

(040) Nós temos um, um problema uma época, que antes os eventos se realizavam na Goitacazes, no quarteirão ali entre São Paulo e Curitiba, e ali tem hotel e tem um

prédio residencial. E a época, nessa época, eu não me lembro mais qual foi o

período exato, é, as pessoas começaram, os moradores se mobilizaram, os representantes do hotel e, pedindo que o evento deixasse de existir naquele local que era, né. Aí na época e participei de reuniões com esses moradores, com representantes do hotel, dos comerciantes e disse a eles que nós, enquanto administração da Regional Centro Sul, iríamos tentar uma forma de que o evento

continuasse, mas em um outro, um outro espaço, um outro local, né, e com isso,

nós levantamos ali aquele espaço que é da Santa Catarina, entre Amazonas e Tupis e, em comum acordo com os próprios promotores de eventos, nós os convencemos de que seria a melhor opção que a gente transferisse o evento, já que no local em que eles estavam tava tendo reclamação dos moradores, no entorno. E, eu também entendi à época, que o local que tava propondo, né, nós estávamos propondo, que mudasse, era até melhor, que era mais plano, né, um local plano, não sei se você já foi lá, mas é um local muito melhor que na Goitacazes, né? Aí, eles, é,

entenderam né, as ponderações, concordaram com a mudança e hoje, pelo que eu

sei, eles estão muito mais satisfeitos no local onde em que estão hoje do que o

que eles estavam. (Walter – Prefeitura)

(041) Participavam [das reuniões] os líderes do movimento, tá, os dois, no caso, um do Black [Soul] e outro do Quarteirão do Soul, representados, e até pessoas que

dançavam, bailarinos, pessoas que participavam ativamente; o gestor da Centro

Sul; a comunidade; o Hipercentro, um representante do hipercentro, né, do

CONCEP39; um representante dos comerciantes ou um representante dos condomínios, que era, no caso, um, um dos moradores, né, o condômino de cada prédio participava, davam umas vinte pessoas; uma socióloga da Prefeitura, né, uma

assistente social, digamos, uma pessoa inserida no contexto de população de rua,

etc, enfim, é onde se colocava a opinião de cada um. (João – Comerciante)

O alto volume do som do Quarteirão do Soul e a lotação do espaço da Rua Goitacazes fizeram com que os moradores se mobilizassem, pedindo que o evento deixasse de existir naquele local (texto 040). Nesse contexto, reuniões foram agendadas para solucionar o conflito da multiterritorialidade na Rua Goitacazes, aos sábados. Dessas reuniões participavam representantes do Quarteirão do Soul e do Black Soul, tanto os líderes, quanto pessoas que participavam ativamente dos movimentos; um gestor representante da Prefeitura de Belo Horizonte – Regional Centro Sul; a comunidade, representada por comerciantes e moradores; um representante do hipercentro; e uma assistente social. Os representantes da Prefeitura interromperam a liberação do alvará para a realização do evento na Rua Goitacazes e sugeriram que ele pudesse ocorrer em outro local, desde que não compreendesse um espaço residencial.

A sugestão da Rua Santa Catarina foi aceita pelos participantes do evento, embora no texto (039) Germano atribua a responsabilidade pelo processo de mudança a ele (sempre eu), mesmo que o Movimento Black Soul também fosse remanejado. Desde 2010, então, os dois Movimentos acontecem na Rua Santa Catarina, aos sábados, no período de 14 às 22 horas, mantendo o revezamento que acontecia ainda na Rua Goitacazes. Na ótica do representante da Prefeitura Walter (texto 040), a mudança foi positiva, visto que a Rua Santa Catarina é um local muito melhor que na Goitacazes e, segundo ele, os participantes estão muito mais satisfeitos no local onde em que estão hoje do que o que eles estavam.

Essa percepção, entretanto, não condiz com a realidade. A estrutura necessária para a realização de um evento como o Quarteirão do Soul não existia na Rua Goitacazes, assim como também não existe na Rua Santa Catarina, apesar de o Movimento funcionar mediante alvará de autorização. Ademais, a relação sociossimbólica do Quarteirão do Soul com a Rua Goitacazes não constituiu fator determinante na decisão de remanejamento dos blacks daquele local, onde elementos políticos e econômicos se sobrepuseram aos fatores de ordem simbólica

39 Conselho Comunitário de Segurança Pública. Disponível em: < http://www.consep.org.br/>. Acesso em: 20

e cultural. Os conflitos inerentes ao paradoxo da liberação de um evento que corre em um local inapropriado e outras questões relacionadas serão apresentados no capítulo seguinte.