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Para o estudo do momento da produção, além da pesquisa bibliográfica, valemo-nos das técnicas de entrevista e observação. Foram realizadas entrevistas com profissionais de

Zero Hora e feita observação da rotina da Redação do jornal. As entrevistas ocorreram em

dois momentos distintos da pesquisa, sendo o primeiro, em dezembro de 2004, e o segundo, em janeiro de 2006, quando também aconteceu a observação da rotina de produção.

Marta Gleich e Ricardo Stefanelli. A escolha dos entrevistados se deu em função de ser a figura do Editor-chefe, em Zero Hora, quem controla todo o processo de edição propriamente dito. Ambos se dividem ao longo de quase quinze horas diárias de produção do jornal na Redação, garantindo a supervisão do processo. Cabe a eles coordenarem uma das reuniões de pauta53, fazer a ligação entre as distintas editorias e tomar decisões sobre a edição. A opção por entrevistá-los ainda se deu em função de percebermos, em nossa observação sistemática às edições de ZH, uma presença mais contundente ou mais freqüente de construções discursivas relacionadas à identidade em estudo nos títulos das notícias. Desta forma, inferimos que havia uma influência da edição, e da figura do editor, que é tradicionalmente o responsável pela confecção ou aprovação dos títulos no jornalismo impresso. Essas primeiras entrevistas54 tiveram caráter exploratório e de levantamento de dados, de modo que nos forneceram elementos para a tese e também levaram, mais tarde, a entrevistar um novo conjunto de atores no jornal.

Em janeiro de 2006, foi realizada observação da rotina de produção durante dois dias na Redação de ZH55 e feitas novas entrevistas, na ocasião com o Diretor de Redação, Marcelo Rech, com o Gerente de Circulação, Walter Bier, e com o Analista de Mercado, Marcelo Xavier56. Em relação a esse grupo de entrevistados, a justificativa para esses nomes e cargos é a seguinte: em relação ao Diretor de Redação, optou-se por entrevistá-lo em função do cargo que ocupa e das funções que o envolvem, bem como de sua trajetória na Redação, onde foi de repórter a Diretor de Redação, acompanhando o processo de desenvolvimento do jornal nas duas últimas décadas. Como Diretor de Redação, é o responsável pelas decisões finais, bem como é quem garante a manutenção da linha editorial e, obviamente, quem a estrutura em

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A reunião da manhã. As demais, da tarde e noite, são coordenadas pelo Diretor de Redação, Marcelo Rech, que ocupa o cargo diretivo mais alto na Redação de ZH.

54 Realizamos entrevistas utilizando o gravador. As entrevistas foram de natureza semi-estruturada, com um

roteiro de perguntas previamente montado e outras questões elaboradas durante as entrevistas, partir da resposta dos entrevistados, tendo em vista se chegar à situação de diálogo com os entrevistados, mas sem perder o foco da entrevista. As questões foram sobre a rotina de produção do jornal, a montagem da pauta, a seleção dos acontecimentos, a edição e a intencionalidade ou não da construção discursiva acerca da identidade gaúcha. O roteiro de perguntas era o mesmo para ambos os entrevistados, porém algumas questões não chegaram a ser feitas para o segundo entrevistado, dada a repetição constatada nas respostas e à disponibilidade de tempo dos editores-chefe. O primeiro entrevistado foi Ricardo Stefanelli, que concedeu a entrevista mais longa e detalhada, seguido de Marta Gleich.

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Vale o registro de que não foi feita observação de caráter exploratório, dada a condição profissional da pesquisadora, que, enquanto jornalista que atuou no mercado durante quinze anos, até 2005, inclusive o da capital do Estado, já havia um conhecimento a priorístico da Redação de ZH, tanto da sua estrutura física e de pessoal, bem como de seu funcionamento. Ainda, a pesquisadora foi jornalista de ZH durante um ano, entre 1992 e 1993, atuando como correspondente em Santa Maria/RS.

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conjunto com a direção da empresa. Em relação ao Gerente de Circulação, a entrevista objetivava levantar as estratégias de distribuição do jornal e seu avanço para o interior do estado, ocorrido desde a década de 1990. E, com o Analista de Mercado, Marcelo Xavier, a entrevista foi realizada porque ele concentra os números de circulação e pesquisas de mercado sobre leitor e conteúdo do jornal.

Partimos do entendimento que a técnica da entrevista para a pesquisa social é a possibilidade de captar o discurso de quem se entrevista (OROZCO, 2000). A entrevista não- diretiva é um momento de interação social, de possibilitar um diálogo (QUEIROZ, 1991), uma forma de levantamento de dados que permite a exploração do universo cultural do grupo entrevistado (THIOLLENT, 1981), no caso, o dos profissionais de ZH. Mesmo com limitadores, entre eles as interferências ao processo causadas pela presença do entrevistador, a entrevista gera uma situação psicológica, sociológica e lingüística que possibilita o levantamento de dados através do discurso emitido pelo entrevistado, bem como pelos elementos não-verbais do processo da entrevista.

Em relação à observação da rotina, a mesma teve caráter semi-estruturado57 e não- participante. Constituiu em acompanhamentos às reuniões geral de pauta do dia, que ocorrem em três momentos, por volta das nove horas, das quatorze horas e das dezenove horas, e de visitas às editorias, com observação dos procedimentos de trabalho. Além disso, no entremeio das reuniões, foram sendo feitas também as entrevistas apontadas acima. Nessa observação, tivemos duas atitudes distintas. Quando do acompanhamento das reuniões de pauta, adotamos a atitude do observador passivo dos acontecimentos, apenas acompanhando o desenrolar das discussões e decisões dos editores e registrando no “caderno de campo” os dados. Quando da ida às editorias, o procedimento foi mais ativo, com a realização de entrevistas - também não- diretivas - de caráter informal e não gravadas com os editores executivos das editorias e coordenadores de produção. As sínteses das respostas dessas entrevistas foram para o “caderno de campo”. Consorciada às duas condutas acima, permanecemos na Redação do jornal observando a movimentação dos profissionais, que trabalham dentro de um mesmo espaço físico, dividido em “ilhas”, agrupadas em conjuntos de mesas com

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Chamamos de semi-estruturada nossa observação sobre a rotina de produção da Redação devido aos procedimentos adotados, que incluíam o estabelecimento prévio de alguns aspectos para a análise, como a condução dos processos de decisão sobre pauta, angulação e edição por parte dos editores, porém, ao mesmo

microcomputadores. Não chegamos a acompanhar a produção de uma ou mais notícias em si. Optamos pelas reuniões de pauta e entrevistas informais aos editores, dada a natureza de nossa pesquisa e ao propósito da visita ao jornal, que visava entender as estratégias editoriais, mais do que propriamente o trabalho cotidiano dos repórteres. Queríamos ter a compreensão de como o jornal era feito diariamente, porém nosso foco era avistar o direcionamento da produção para as questões identitárias e como isso se processava na confecção do jornal.

Entendemos que a técnica da observação tem também seus limitadores, dentro os quais a interferência do pesquisador no ambiente observado. A mediação causada pelo pesquisador interfere nos discursos produzidos nas entrevistas, assim como nos “movimentos” de quem é observado. No entanto, permite o acompanhamento de uma certa dinâmica social e enriquece o referencial analítico para a pesquisa.