2.9. Dini / Milli Sinema Akımı
2.2.3 EĢref PaĢalılar
Como vimos, as consequências da história do nosso país mostram a violação dos direitos descritos em leis como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, Constituição Federal e Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim como a utilização das estratégias importadas dos EUA, para (re)produção da criminalização da pobreza, e perpetuação do extermínio da juventude negra e favelada, através da intensificação da repressão policial com programas como o “tolerância zero” e da propagação de discursos elitistas reforçados por programas jornalísticos policiais e sensacionalistas que formam a opinião da maioria da população desinformada.
Com isto, a existência de instituições como a Fundação CASA segue a trajetória histórica de encarceramento da juventude negra e pobre com a nítida utilidade social de reprodução da delinquência, com a máscara da ressocialização, assim como todo o sistema prisional. Sobre esta perspectiva, pensamos que os projetos de educação nesta instituição não têm a função verdadeira de educar e sim de entreter, a nosso ver isto faz parte de uma intencionalidade institucional imbricada na prática cotidiana e não de uma deficiência estrutural.
Contudo, nossa experiência prática, indica que a atuação dos arte- educadores e a presença da arte nos centros de atendimento confrontam estes resquícios ideológicos a ponto de causar conflitos no cotidiano de trabalho, seja pela música alta, pelos corpos em movimento, pelas cores nas paredes ou simplesmente pelo fato de a atividade ser o que é, como a capoeira, marcada por um histórico de resistência à escravidão e à perseguição policial. Assim, observamos que os movimentos de esquiva gerados por estas atividades apresentam outros recursos diferentes dos movimentos populares, institucionais e legais que vimos até agora.
Por isso, acreditamos na práxis de educadores compromissados com a educação que mesmo diante da massificação do Estado e do Mercado não se deixam capturar. No caso dos arte-educadores que atuam na Fundação CASA, a pesar da falta de estrutura, têm em mãos uma poderosa ferramenta de atuação que é a arte. Diferente de outros educadores que não atuam de modo artístico, nós arte- educadores conseguimos penetrar o impenetrável e transcender aos limites das engrenagens dos sistemas. Contudo, verificamos a necessidade de estes arte-
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educadores estar empoderados de recursos básicos como domínio da linguagem artística que atua, convicção ética/política/filosófica e compromisso com a causa.
Ademais, ainda que nossa práxis seja embasada de forma consistente, muitas vezes é mal compreendida, pois não há conhecimento por parte de outrem, sobre os fundamentos que a sustentam e por isso, torna-se motivo de grandes transtornos diante das regras institucionais e principalmente, da postura treinada dos chamados agentes de apoio socioeducativo, que sempre se viam no direito e obrigação de intervir de maneira extremamente autoritária e repressora, cobrando dos alunos uma postura padronizada conforme a rotina estabelecida no centro, passando desrespeitosamente por cima da atuação legítima do professor provocando assim o que chamamos de movimentos de captura, em outras palavras, a tentativa de se manter o que está estabelecido, sem questionamento ou reflexão.
Isto se dá pelo fato que já falamos de que a instituição não mudou seus paradigmas, como pintam alguns documentos oficiais. Nesta perspectiva, iniciaram- se algumas indagações relacionada a contraditoriedade do contexto: 1 - Como é possível uma Fundação que promove medidas socioeducativas de privação de liberdade, basear seu discurso teórico através das obras de um autor, como Paulo Freire, que defende com todas as letras uma educação como prática da liberdade? 2 – Neste caso, como seria possível, realizar este trabalho em termos práticos, ou seja, como poderiam atuar com liberdade em , adolescentes privados de liberdade em um processo educacional? 3 – Seria coerente a expressão medida socioeducativa de privação de liberdade, se partimos do princípio que educação e liberdade são indissociáveis? Tentaremos responder estas questões ao final deste texto. O que por hora pudemos visualizar é que:
1 - Embora esta Fundação tenha a característica de cumprir medidas socioeducativas de privação de liberdade e mantém diversos resquícios ideológicos positivistas e behavioristas, sabemos que essas políticas, regras e ideologias são construídas sócio/historicamente e, portanto podem ser modificadas da mesma forma. Nesta perspectiva, há pessoas que procuram pensar e na medida do possível instituir paradigmas que orientem este trabalho em outros sentidos. Então, acreditamos que seja esse o motivo de a Superintendência Pedagógica basear seu discurso teórico através das obras Paulo Freire, ainda que seja absurdamente discrepante com a prática institucional.
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Contudo, há três fatores cruciais que impedem a realização desta mudança paradigmática: a) a contenção, que se dá inicialmente através da apreensão policial e posteriormente pelos chamados agentes de apoio socioeducativo, que atuam agressivamente de forma semelhante á PM; b) o judiciário, que detém poder definitivo quanto a aplicação das tais medidas e que na maioria dos casos optam pela privação de liberdade em contradição com o ECA que propõe esta medida apenas para casos extremos e; b) o enclausuramento, que inibe o desenvolvimento pessoal numa perspectiva intelectual, cultural e ética. Acreditamos que não é possível construir um aparelho educacional condicionado à estes três fatores, porque a atuação de ambos convergem para a manutenção de um sistema repressivo, discriminatório e desumano.
2 – Somente se torna possível, realizar um trabalho educacional que empodere os adolescentes internos para atuarem com liberdade e autonomia, se houver a ousadia de profissionais das diversas áreas em compreender e arriscar a incorporação dos princípios de uma educação libertadora. Ainda assim, como a determinação jurídica é de privação de liberdade, este movimento será conflituoso, e neste caso, além do apoio teórico instituído em documentos como o caderno da Superintendência Pedagógica, é importante valorizar a noção de conflito proposta por Souza Santos, e assumir o jogo de capturas e esquivas no sentido de provocar movimentos transformadores, inclusive na questão jurídica sem medo de ser feliz. Vale ressaltar que os trabalhos relatados ocorreram na esfera das ambiguidades, como fatos isolados no interior desta instituição que não mudará com reformas, por outro lado provocaram movimentos conflituosos que por alguns instantes foram capazes de abalar a estrutura local e apresentar outros horizontes para os profissionais e internos da fundação.
3 – Compreendemos que não é possível “estancar uma hemorragia com um esparadrapo”, e é isso o que a política repressiva vem fazendo para “reduzir” a delinquência frente a negligência do Estado mínimo neoliberal. É necessário uma mudança paradigmática da sociedade como um todo. Ciente disso somos fiéis ao nosso estrebuchamento intelecto/visceral ao qual nos faz gritar pelo o fim da propriedade privada que é o grande roubo defendido e “naturalizado” pelos discursos feudais, liberais e positivistas e pelo fim de todas as medidas de enclausuramento, ainda que sob a justificativa de ressocialização ou atendimento
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socioeducativo. Afinal, acreditamos que não basta falar em um processo educativo em sistemas de privação de liberdade, é necessário repensarmos o modelo de sociedade que vivemos, mas podemos e devemos partir de onde estamos.
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