Como procuramos abordar no primeiro capítulo (p. 34), o termo técnico foi empregado pela primeira vez em legislação na década de 1930. Na década de 1940, quando foi formada a primeira turma de técnicos industriais, o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CFEA) decidiu acatar a decisão de registrar estes profissionais como técnicos de grau médio, estabelecendo as funções que lhes eram atinentes, as quais podem se resumir na atribuição de “auxiliar de engenheiros”, sendo-lhes conferidas as funções de:
53 Relação candidato-vaga para o 1º. semestre de 2007: enfermagem: 13,1; administração: 8,6; informática: 5,8;
mecatrônica: 6,7; mecânica: 3,7; eletrônica: 3,5; eletrotécnica: 2,1. (Informações obtidas no site www.vestibulinhoetec.com.br).
54 A relação diploma-cargo não é regulamentada no Brasil como ocorre na França, onde existe uma relação mais
estreita entre a realização de determinado curso, ou seja, o capital escolar e um cargo ou carreira dentro de uma empresa. Porém, entendemos que os Conselhos Profissionais exercem, de certa maneira, uma regulamentação do exercício profissional, favorecendo a correlação aos diplomados em algumas áreas.
Conduzir trabalhos de sua especialidade, projetados e dirigidos por profissionais legalmente habilitados (de nível superior); projetar e dirigir trabalhos que não exigissem a responsabilidade de um engenheiro, desde que obtivessem a autorização prévia do Conselho Regional de Engenharia; exercer a função de desenhista, na sua especialidade em pontos do território nacional onde não houvesse engenheiros; exercer as funções de Auxiliar de Engenheiros nas repartições públicas, independente de prova de habilitação (CUNHA, 2005c, p. 116).
Entretanto, a definição legal da categoria profissional do técnico industrial remonta ao ano de 1968, com a Lei no. 5.524, mais de 20 anos depois e quando já haviam sido formados mais de 25 mil técnicos pelo sistema de ensino organizado em 194255. Segundo Cunha (2005c, p. 115), essa medida visou atingir dois alvos: “garantir o privilégio preexistente dos profissionais de nível superior e elevar os requisitos educacionais para o desempenho da função do técnico industrial”. Mas seu ponto mais importante foi a tentativa de tornar obrigatória a escolaridade específica para o desempenho das funções de técnico industrial (CUNHA, 2005c, p. 116).
A partir desse dado, referente ao técnico industrial, mas que pode ser estendido para outras habilitações técnicas, observa-se que a problemática da definição de um estatuto para os concluintes de uma formação em nível técnico esbarra no poder das corporações de profissionais de ensino superior, imbuídas da função de exercer o controle de segmentos internos no mercado de trabalho. Confirma essa disposição, o fato de o Decreto que regulamentou a Lei acima mencionada – Decreto no. 90.922/95 – ter sido instituído somente 27 anos depois da referida Lei.
Segundo Cunha (2005c, p.119), esse Decreto restringiu o campo de atuação dos “técnicos industriais de 2º. grau”. As possibilidades de atuação destes profissionais ficaram ainda mais especificadas, como mostra o exemplo: “Os formados em edificações foram autorizados a projetar e dirigir edificações até 80 m2, que não constituíam conjuntos residenciais, bem como realizar reformas, desde que não impliquem em estruturas de concreto armado e metálicas”. Limitações similares atingiam outros profissionais técnicos.
A morosidade para a regulamentação profissional sugere que portadores de posições privilegiadas se sentiam ameaçados pela entrada de novos profissionais no mercado de trabalho, e a definição legal do campo de atuação dos técnicos ilustra a atuação dos conselhos profissionais em resguardar uma fatia do mercado aos profissionais de nível superior, mantendo os técnicos como seus auxiliares.
55 Em 1942, o ensino técnico foi organizado passando a fazer parte dos cursos reconhecidos pelo Ministério da
Estas medidas espelham as hierarquias estabelecidas no campo profissional e também no campo escolar, onde o ensino técnico ocupa um lugar inferior quando comparado ao ensino superior. A partir dos dados de nossa pesquisa, verificamos que a realização do curso técnico, algumas vezes é assimilado pelos alunos como um “desvio” da trajetória escolar: “Pela minha idade avançada já era pra eu tá com faculdade e tudo, pela minha
idade” (Milton, G2, mecatrônica); “Não tenho faculdade ainda, já devia com 17 anos ter
entrado em uma” (André, G2, administração).
Os alunos dos cursos industriais, para atuarem na área técnica, podem obter registro profissional no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA), órgão que expede a carteira profissional necessária para exercer legalmente o cargo. Todavia, o registro profissional por alunos formados em cursos técnicos industriais é uma prática incomum. Como afirma Ana Paula Hey (2000, p. 105) o credenciamento existe, porém não é reconhecido pelo sistema produtivo.
Os alunos por nós entrevistados nem mesmo dispunham informações a esse respeito. Na mesma direção, a pesquisa de Luiz (1999, p. 94) com egressos dos cursos técnicos industriais evidenciou que 80% dos alunos que integraram a amostra da pesquisa não haviam adquirido o registro depois de formados, o que atribuíram a diversos fatores como a não-exigência por parte da empresa (27,1 %), falta de interesse (30%), falta de informação sobre o assunto (18,6%); ou pelo fato de nunca terem exercido ocupações na área técnica, estarem providenciando ou alegarem não haver necessidade (4,3%).
Esses dados refletem a distorção diploma-cargo nos cursos industriais, o que pode ser atribuído à ausência de fiscalização do desempenho de funções técnicas. Muitos desempenham essas funções sem formação em escola técnica, enquanto formados em cursos técnicos podem ocupar cargos sem equivalência em funções, e sem proteção profissional específica. Tal “confusão” pode constituir uma estratégia que visa proteger os detentores de certificados de ensino superior, como evidencia o histórico de definição legal do estatuto do profissional técnico. Além disso, parece ser uma estratégia dos proprietários de capital econômico, interessados em mão-de-obra a baixo custo. Considerando que “o valor vinculado, do ponto de vista objetivo e subjetivo, a um título escolar só se define na totalidade dos usos sociais que dele podem ser feitos” (BOURDIEU, 1998e, p. 160), o portador do certificado técnico tende a ter seu uso social subestimado.
Guardadas as devidas proporções das diferentes relações diploma-cargo no Brasil e na França, a partir das considerações de Bourdieu e Boltanski (1998) é possível inferir que a relação entre diploma e cargo é objeto de luta: os vendedores da força de trabalho desejam
valorizar seus diplomas, e os compradores buscam obter pelo menor preço as capacidades que presumem ser garantidas pelos diplomas:
(...) a força de um diploma não se mede pela força de subversão (portanto, unicamente pelo número) de seus detentores, mas pelo capital social de que são providos e que acumulam em decorrência da distinção que os que são providos e que acumulam em decorrência da distinção que os constitui objetivamente como grupo e pode servir também de base para agrupamentos intencionais (BOURDIEU; BOLTANSKI, 1998, p. 136).
Desta maneira, a luta depreendida pela relação diploma e cargo, quando tomada sob uma perspectiva individual é fragilizada, e a posição dos dominantes, assimilada inconscientemente como legítima, tende a predominar. Por outro lado, a instituição escolar também tem seu papel nos conflitos do mercado de trabalho. O diploma, quando reconhecido, confere certa liberdade frente ao sistema econômico e, quanto menor a autonomia da instituição escolar que produz o diploma em relação à economia, mais o diploma que ela assegura será dependente do sistema econômico (BOURDIEU; BOLTANSKI, 1998, p. 136).
Assim, o valor do diploma não é unicamente pessoal, confere poder legítimo e evoca todos os portadores de diplomas e a autoridade do sistema escolar que lhes assegura:
O sistema de ensino desempenha um papel capital nos conflitos, transações ou negociações individuais ou coletivas que se desenrolam entre os detentores dos meios de produção e os vendedores de sua força de trabalho sobre:
1) a definição do cargo: as tarefas que seus ocupantes devem executar e também, ao mesmo tempo, as que eles podem recusar;
2) as condições de acesso ao cargo: as propriedades que devem possuir seus ocupantes (essencialmente diplomas, por vezes, também, a idade, etc.);
3) a remuneração oferecida aos ocupantes do cargo e o lugar dessa remuneração em uma hierarquia de remunerações;
4) o nome do cargo, se preferirmos, da posição (BOURDIEU; BOLTANSKI, 1998, p. 141).
O diploma é uma competência de direito que pode ou não corresponder à competência de fato. Isso ocorre porque as relações entre o sistema de ensino e mercado de trabalho não se dão de forma direta. O sistema de ensino possui relativa autonomia, tem um efeito de garantia escolar sobre o mercado de trabalho. Assim, quanto mais próxima a relação entre diploma e cargo e quanto mais o cargo depender do diploma, maior tende a ser o valor atribuído econômica e simbolicamente.
Neste contexto, as defasagens decorrentes da relação entre diploma e cargo do profissional de nível técnico, de forma não explícita, fazem com que os estudantes assimilem a realização do curso técnico como um “trampolim” para outra pretensão, atribuindo a ele uma condição provisória, o que não deixa de estar associado com um “senso prático” resultante da percepção de que a realização do curso não encerra muitas garantias.
4.4 A OBJETIVAÇÃO DAS RELAÇÕES DOS ESTUDANTES COM AS FORÇAS PRESENTES NO