2. Yabancı Yatırımların Tanımı ve Türleri
2.1. Yabancı Yatırımların Tanımlanmasına Yönelik Kuramsal Yaklaşımlar
2.1.2. Eksik Rekabet Koşullarına Dayanan Yaklaşımlar
2.1.2.6. Duning’in Eklektik Kuramı veya OLI Paradigması
A Primeira República, conforme exposto, representou um período no qual as frações burguesas ligadas ao café e ao comércio exportador e importador desfrutaram uma posição proeminente no bloco político dominante, o que lhes permitia conduzir, de forma hegemônica, as rédeas do poder, alinhando aos seus interesses particulares às ações do Estado nos campos econômico, político e social. Esse edifício oligárquico era sustentado pelo compromisso estabelecido entre as elites políticas estaduais e o governo federal, denominado Política dos Governadores. No plano econômico, a estrutura produtiva brasileira, ao longo da Primeira República apresentava fortes contornos coloniais, pois estava alicerçada na produção de artigos primários, em especial o café, em larga escala para o mercado externo. O comércio exportador constituía o principal eixo de acumulação capitalista. Dessa forma, o país ficava à mercê das injunções do comércio mundial e dos interesses das principais nações capitalistas do mundo. O Brasil desenvolvia-se, mas em bases dependentes.
Ao longo daquele período, o Brasil experimentou um intenso processo de diversificação econômico-social, tornando a conformação social brasileira mais complexa. Assim, paralelamente às frações burguesas ligadas ao latifúndio e ao comércio importador/exportador, que dominavam a vida política nacional, havia a pequena burguesia urbana, composta pelo funcionalismo público, profissionais liberais, militares, comerciantes; uma fração da burguesia ligada à atividade industrial; um incipiente, porém em ascensão, proletariado urbano, empregado na atividade fabril e no setor de serviços. No contexto pós- Primeira Grande Guerra, há a expansão da produção industrial, ainda que lenta e descontínua, porém, já conquistando o setor fabril importante posição na organização econômica do país.
Em razão da Primeira Guerra, houve uma crise no comércio externo nacional, o que prejudicou seriamente o setor exportador, principal base de acumulação do país. Da mesma maneira, com a diminuição do volume de exportações e importações, ocorreu uma retração na arrecadação fiscal do governo, o que incidiu negativamente no orçamento público. Diante da escassez de capital, recorreu-se às emissões que, juntamente com a desvalorização da moeda brasileira, concorreu para a inflação e o aumento do custo de
vida. Além disso, as crises no setor cafeeiro demandavam auxílio econômico por parte do governo federal.
Paralelamente, a retração do comércio externo e a concomitante redução do mercado importador, em razão do conflito mundial, provocam a dinamização de outras atividades econômicas, como, por exemplo, a industrial. A produção manufatureira é impulsionada pela necessidade de serem satisfeitas internamente as demandas que até então eram atendidas com produtos e artigos importados.
Os fatos acima mencionados não deixam de produzir reflexos na estrutura política, econômica e social do Brasil, provocando fraturas no concerto político oligárquico até então dominante. Diante da ascensão de forças políticas e sociais, que tornou mais complexa a sociedade brasileira, o situacionismo político responderia de forma intransigente, buscando reafirmar seus interesses com o intuito de impedir o desenvolvimento das forças produtivas e esmagar as demandas e aspirações das quais aquelas forças eram portadoras. Da incapacidade ou má vontade do status quo oligárquico em responder às novas vicissitudes que, até então latentes na sociedade, ameaçavam eclodir, derivar-se-ão as manifestações e movimentos políticos e sociais que ocorreram nos últimos anos da Primeira República e que trouxeram ao palco da política nacional novos atores como, por exemplo, a classe operária e a pequena burguesia urbana.
Nesse sentido, das transformações econômicas e sociais, surgem novas forças e grupos sociais cujas demandas e aspirações funcionam como um êmbolo a pressionar o círculo político dominante. A emergência de novos segmentos sociais trouxe à tona, no campo das relações sócio-políticas, interesses e aspirações que não só conflitavam com os das camadas dirigentes, mas, também, questionavam as bases do poder oligárquico e o caráter excludente da ordem liberal-burguesa imperante no país ao longo da Primeira República.
Diante desse cenário, as elites políticas, ciosas em manter o controle do Estado, reforça as estruturas e instituições político-econômicas por meio das quais concentram o poder em suas mãos. Assim, o bloco oligárquico dominante, ao longo da Primeira República, manteve-se inflexível e impermeável às modificações que vinham acontecendo nas bases econômica e social. Optou-se por marginalizar, excluir, reprimir e, até mesmo, obstaculizar o desenvolvimento das forças produtivas:
[...] As questões trabalhistas não tinham ressonância no esquema de poder. A única alternativa proposta pelo Estado era a repressão pura e simples. As camadas médias, por seu turno, não conseguiam ver refletida na estrutura política a sua importância ascendente na vida
social do país. Do outro lado, o Exército – única instituição pública efetivamente nacional – começava a sofrer perturbações em função das demandas políticas da baixa oficialidade. Finalmente, a camada mais numerosa, isto é, a população pobre dos campos, continuava dispersa e praticamente sem nenhuma expressão política como classe organizada em torno de interesses específicos. A sociedade brasileira do começo da década de 1920 já era complexa demais para ser abarcada pelo liberalismo autoritário da República Oligárquica. (MENDONÇA; PIRES, 2015, p. 218).
O enfraquecimento do poder oligárquico revelava, pois, a ascensão de novos sujeitos sociais e políticos na vida nacional. De acordo com Nelson Werneck Sodré (1990, p. 314), era nítida a discrepância entre a “estrutura política” e a “estrutura econômica”, de forma que aquela se mostrava ultrapassada, obsoleta frente a esta. As orientações impressas às políticas econômicas, que visavam garantir a concentração da renda no setor agroexportador passariam a ser questionadas de modo cada vez mais contundente63. Diante deste quadro, “As oligarquias declinavam, multiplicando recursos para a defesa de suas posições, e apenas protelando mudanças inevitáveis”. (SODRÉ, 1990, p. 314).
No palco estrangeiro, os reflexos da Primeira Grande Guerra foram sentidos, também, não apenas no continente europeu. Da mesma forma o foram outros acontecimentos, em especial a Revolução Russa de 1917.
Nos anos 1920, o país vivenciou uma fase de ebulição político-social e modificações significativas. De acordo com Marieta Ferreira e Surama Pinto (2003, p. 389), o ano de 1922 foi rico em acontecimentos que, de uma forma ou de outra, foram responsáveis por tal ebulição, contribuindo, assim, para alterar o quadro político, social e cultural brasileiro. O Movimento Modernista, a organização do Partido Comunista
63 A chamada “socialização das perdas” constituía um obstáculo ao desenvolvimento econômico e social
do operariado urbano e dos segmentos da burguesia que não estavam associados ao comércio agroexportador. Esta parcela da sociedade era fortemente sensível às operações cambiais que, ao proteger os interesses do bloco agrário dominante, acarretavam pesados custos para a população, dentre os quais, está a elevação do padrão de vida. Na classe trabalhadora, a preocupação maior girava em torno da perda do poder de consumo. No caso da fração burguesa industrial, duas questões lhes tiravam a tranquilidade: o pagamento de salários e situação de estagnação econômica provocada pela política de elevação e/ou diminuição das taxas cambiais. O fortalecimento da moeda representava uma excelente oportunidade, para a classe industrial, de adquirir maquinário, peças e outros equipamentos no exterior. Contudo, a valorização acarretava uma maior procura por bens de consumo importados, aumentando o nível da concorrência. Quando havia uma desvalorização do câmbio, a situação se invertia, pois, o encarecimento dos produtos estrangeiros acarretava um aumento dos preços dos meios de produção, o que restringia o desenvolvimento do sistema produtivo em direção à “substituição de importações”. As medidas governamentais em prol da valorização comercial do café, em períodos de oscilações de preço e desequilíbrios no mercado internacional, trouxeram enormes prejuízos para o conjunto da população, pois foi sobre a coletividade que recaíram os custos dos empréstimos públicos contraídos para sustentar, de maneira artificial, o preço do café. Assim, o montante da dívida externa brasileira crescia em razão dos interesses da fração burguesa agroexportadora, o que contribuía para debilitar a estrutura econômica nacional, de caráter agrário, ao reforçar a posição periférica e dependente que o país ocupava no mercado mundial.
Brasileiro, eleições presidenciais e Tenentismo constituíram importantes acontecimentos que expressavam um descontentamento com relação aos modelos estético, político e econômico dominantes. Além desses acontecimentos assiste-se, nesse período um crescimento dos núcleos urbanos, expansão da classe operária e dos setores médios além de conflitos e cisões no seio das frações oligárquicas dominantes.
Desses conflitos nasceria a Reação Republicana64 que consistiu em uma composição político-eleitoral, em oposição ao bloco oligarca dominante, formada no contexto da sucessão de Epitácio Pessoa, em 1921. A campanha contou com a participação de uma parcela dos militares, constituindo o marco inaugural do Movimento Tenentista no cenário nacional: “O movimento tenentista, [...], começa por confluir na campanha sucessória de Epitácio Pessoa, somando-se às forças que marcham com a candidatura de Nilo Peçanha, na Reação Republicana, [...]”. (SODRÉ, 1983, p.239)65.
Contudo, derrotada nas urnas, diante do poderio da máquina política do situacionismo oligárquico, sustentada por expedientes extralegais, como a fraude e a manipulação eleitoral, a frente civil congregada na Reação Republicana não acompanharia o ímpeto transformador dos militares. Não ousaram transcender os marcos institucionais do oligárquico. Esse recuo das hostes civis, ao mesmo tempo em que deixa as frações militares isoladas, reforçam nestas a importância de seu papel, a necessidade de ultrapassar os marcos legais como forma de contestar o status quo: “[...] O recuo pela ordem, ao tempo em que desampara os jovens, dá-lhes a consciência de sua missão, agora cada vez mais revolucionária, fora das regras do jogo”. (FAORO, 2012, p. 743). Em seu depoimento, Oswaldo Cordeiro de Farias lembra que:
Pessoalmente, eu senti frustrados os meus propósitos de participar da política pelas vias normais, através do processo eleitoral e do voto. Os militares se sentiram muito mal. A oficialidade jovem, como eu, ficou inconformada com a derrota, mais uma vez fruto dos velhos arranjos da
64 As frações oligárquicas dominantes dos Estados política e economicamente hegemônicos, São Paulo e
Minas Gerais, uniram-se em apoio à candidatura de Artur Bernardes e Urbano Santos. A Indicação destes nomes não foi consensual entre os grupos oligárquicos estaduais. Descontentes com relação à escolha daqueles candidatos, e a posição periférica ocupada pelos seus respectivos Estados, no cenário político e econômico nacional, as elites dirigentes do Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul anunciaram, ao criar uma campanha política que ficou conhecida como “Reação Republicana”, a chapa Nilo Peçanha e J.J. Seabra. Contudo, é importante ressaltar que a oposição à hegemonia paulista e mineira, sustentada na política dos governadores, não transcendeu as urnas. Ela se organizou e agiu dentro dos marcos oligárquicos.
65 Em entrevista à Aspásia Camargo e Walder de Góes (2001, p. 66), Oswaldo Cordeiro de Farias afirmou
que “Nas eleições de 1922, Nilo Peçanha encarnava o liberalismo contra a oligarquia representada por Artur Bernardes. Com toda aquela efervescência política, cheguei a me apresentar como fiscal de uma seção eleitoral, em nome do comitê de Nilo Peçanha. [...]. Queria participar, fazer política, e estava irremediavelmente seduzido pelas ideias liberais do candidato.”
política oligárquica. Concluímos que a situação precisava mudar. (CAMARGO; GÓES, 2001, p.66)
Além das questões relativas ao ambiente político nacional, concorreu, também, para a eclosão das manifestações tenentistas, um sentimento de revolta diante das ofensas lançadas contra a instituição militar pelo círculo político dominante, ofensas essas que atingiram os valores simbólicos que conformam os ideais e princípios internos ao Exército. As chamadas “cartas falsas”, publicadas no jornal Correio da Manhã, cuja escrita foi atribuída a Artur Bernardes, continha ofensas ao Exército e a Hermes da Fonseca. Além desse episódio, houve, também, a prisão deste, no dia dois de julho de 1922 e o fechamento do Clube Militar, no dia seguinte, por iniciativa de Epitácio Pessoa. Para Nelson Werneck Sodré (1983, p. 238), o Tenentismo expressava, em sua atuação político-militar, os anseios políticos da camada burguesa que, em seu movimento ascendente, buscava romper com a estrutura de poder das oligarquias latifundiárias:
[...] em toda essa torrente de paixões, o que se condenava, inconscientemente, era um regime levado à falência pelo predomínio do latifúndio, pela sua política de submissão ao imperialismo, por tudo aquilo que, em suma, ficou conhecido como política das oligarquias, que impunham sua vontade ao país. O mal vinha dos fins do século XIX, porém, com o governo de Campos Sales, que liquida a componente burguesa, encabeçada pelos militares, que haviam concorrido para a mudança do regime. Nessa liquidação, havia, de resto, claro e evidente, o traço do imperialismo. Numa fase em que o proletariado brasileiro mal dava os primeiros passos em sua organização, pesava no conjunto das forças renovadoras a burguesia e, entre as suas camadas, a pequena burguesia se destacava como a mais combativa. Pertenceria ao grupo militar, nesta, a função de vanguarda, função que se iniciou nos fins do século XIX e que persistiu até depois da Revolução de 1930, [...] (SODRÉ, 1965, p. 208-209)
Dessa forma, as insurreições tenentistas absorveriam o clima de insatisfação e descontentamento político reinante, no período, ao mesmo tempo em que assinalava o despertar de transformações políticas, econômicas e sociais que estavam latentes na sociedade. A condição de militares e consequentemente o poder das armas, constituíam fatores que garantiam aos tenentes o papel de força social e política mais expressiva da pequena burguesia.
Visto que o operariado, no contexto que ora é analisado, ainda carecia de maturidade política e de sólida capacidade de organização que lhe propiciassem desempenhar um papel de vanguarda no processo de transformação político-social que figurava no horizonte do país, caberia a outro setor social tal papel, à pequena burguesia,
mais precisamente uma parcela de sua componente militar que, dispondo do recurso às armas e de organização tática, pôde trazer à realidade o impulso renovador, por meio das manifestações político-militares, das quais a Coluna Prestes-Miguel Costa foi a de maior vulto e significado:
Apesar do conteúdo militar aparente de todos ou quase todos estes movimentos, nada existe neles contudo que os caracterize como ‘militaristas’, no sentido próprio do termo. Embora sejam militares seus principais autores e participantes, eles não agem e não pensam como militares. Exprimem antes a inquietação das classes médias a que pertencem pela sua origem; de uma burguesia progressista cujos anseios de renovação encarnam, e que as forças conservadoras da República Velha comprimem num arcabouço anacrônico e rígido, que já se resvalara francamente para a mais completa degradação política e moral. Se são militares que formam na vanguarda dos movimentos de regeneração política do Brasil, é que suas armas lhe davam a possibilidade de agir; e não estava ainda em condições de substituí-los a ação das massas populares, desorganizadas e politicamente inativas. Os ‘tenentes assumirão por isso a liderança da revolução brasileira. (PRADO, 1979, p. 14).
Enquanto integrantes de um todo social, “[...] os militares rebeldes não poderiam deixar de ser produtos dela”. (CORRÊA, 1976, p.185). Por pertencerem aos “setores médios” sentiram diretamente os reflexos das injunções políticas e econômicas da década de 1920. A condição de serem parte do aparelho burocrático estatal, dotou uma fração da oficialidade do Exército de uma consciência quanto à sua responsabilidade pela purificação e regeneração dos costumes políticos nacionais e dos princípios republicanos consubstanciados na Constituição de 1891. Menosprezavam as disputas partidárias e a práxis política das elites civis, responsabilizadas pela decadência moral e política da Republica. O distanciamento dos militares em relação aos conflitos intra-oligárquicos é o que conferia legitimação à sua missão regeneradora.