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A estrutura manifesta, descrita no item 6, foi obtida mediante a observação. Nesta seção, descrevo a interpretação que me permitiu enunciar uma estrutura relacional subjacente à estrutura manifesta.

No esforço interpretativo, examinei as propriedades essenciais das práticas. Identifiquei regras de ocorrência para reduzir a multiplicidade de dados empíricos a uma simplicidade explanatória. Comecei pela busca dos elementos da estrutura interpretada. Fiz isto examinando as práticas e buscando suas explicações – o que descrevo a seguir.

Na construção compartilhada reside a defesa de interesses da organização, de grupos e de indivíduos – defesa esta marcada por disputas de poder, onde usuários e grupos tentam aproximar o sistema do que é importante para eles ou do que está de acordo com os objetivos organizacionais. Por vezes, isto consiste na busca de naturalização do sistema, na tentativa de transformar uma ferramenta que não está perfeitamente ajustada às necessidades do trabalho em algo mais próximo do que se precisa. Esta aproximação às necessidades do trabalho favorece a aceitação do sistema. Do contrário, se grupos tiverem seus interesses obstruídos pelo resultado do que a construção coletiva gerou ou identificarem o sistema como algo pouco ajustado à necessidade do trabalho, a resistência ao sistema tende a aumentar.

A assimilação dos SI é marcada pela obrigatoriedade do uso, uma vez que o processo produtivo é baseado no sistema. O uso dos sistemas faz parte das normas da organização para execução de algumas atividades e é regido por interesses presentes em relações de poder, determinadas pelos que normatizam a utilização do sistema e estipulam suas regras e pelos que usam o sistema de acordo com o que foi estipulado. Também está presente na assimilação do sistema a percepção de benefícios organizacionais e individuais associados ao seu uso. Esta busca por benefícios individuais e organizacionais tem por base a defesa de interesses de indivíduos, de grupos e da própria organização. Outro ponto é que o hábito da utilização do

97 sistema precisa ser desenvolvido – a capacitação para a utilização é também uma estratégia de tornar o sistema “natural”. O treinamento é uma forma do usuário se familiarizar com algo que antes não fazia parte de seu processo de trabalho.

Após a assimilação, a prática da concepção de aprimoramentos para o sistema novamente indica uma busca de naturalização, igualmente determinada pelos interesses de pessoas, de grupos e da organização. Estes interesses estão presentes na concepção das melhorias e na seleção das idéias de aprimoramento que são passadas adiante e as que são mantidas com seus idealizadores. Quando o usuário seleciona, dentre os aprimoramentos que ele idealizou, quais devem ser passados adiante, ele tende a priorizar que demandas são mais relevantes de serem executadas no seu ponto de vista. Ele pode estar ciente de que algumas solicitações não devem ser feitas, pois iriam contrariar interesses da organização ou de grupos na organização. O usuário pode também pensar um aprimoramento sem passar a idéia adiante por falta de canal de comunicação.

As incorporações dos aprimoramentos seguem a intenção de otimização de recursos, mediante as capacidades de desenvolvimento tecnológico, e de preservação dos interesses que existem por detrás do sistema. Isto determina o que será incorporado ou não e quando a incorporação será realizada.

As edições do sistema, que acontecem no uso dos SI pelos usuários, consistem mais uma vez na busca pela naturalização do sistema – o usuário adiciona ou subtrai propriedades do sistema ou o adapta a outras necessidades. Também na edição está a busca da defesa de interesses de pessoas, grupos ou da organização, manifesta pela procura da incorporação de benefícios que ocorre nestas edições. Por último, esta prática revela a racionalidade técnica da otimização de recursos, de usar funções complementares que outros recursos tecnológicos disponham, sem a necessidade de incorporar isto ao sistema.

O controle massificado é uma estratégia de normatizar o trabalho e facilitar a vigilância de uns sobre os outros, para que em última instância os interesses organizacionais possam ser preservados. O trabalho passa a ser exercido segundo o que as normas impõem e grupos de trabalhadores passam a controlar o que os demais fazem devido ao fluxo de atividades estabelecido. A massificação do controle otimiza recursos, uma vez que elimina a supervisão direta. A percepção de não haver uma vigilância personificada, mas de sim de que existe transparência nas ações dos demais e de que todos seguem as mesmas regras, tende a reduzir a resistência ao sistema.

98 A função enriquecida resulta da busca de se otimizar a utilização dos recursos humanos. A implantação dos sistemas em questão poderia causar a banalização de tarefas, ao automatizar parte das atividades, o que faria com que o usuário perdesse o interesse pelo trabalho. Isto não se dá devido ao enriquecimento informacional da função ou devido à disponibilidade de dados que o sistema oferece. O trabalho tem uma parcela normatizada e automatizada. O tempo que ele libera proporciona aos trabalhadores a possibilidade de lidarem com um volume maior de produtos e serviços e faz com que estes assumam um volume e um tipo de trabalho que exige mais de suas qualificações do que antes – quando estas pessoas desperdiçavam tempo com preenchimentos de formulários e elaboração de cálculos manuais. A parcela autônoma do trabalho fica mais rica. Trata-se da otimização dos recursos humanos que a organização dispõe, que acaba adaptando a ferramenta ao usuário, na tentativa de evitar que o seu trabalho se torne banal.

A tarefa programada e a autonomia reduzida caminham juntas em defesa dos interesses organizacionais. O objetivo é que o usuário cumpra o que é estabelecido pela organização. Especificamente no caso dos sistemas de gestão de risco, este objetivo consiste em fazer com que a área de negócio cumpra com fidelidade o que foi estabelecido pela área de gestão de risco, facilitando a atividade desta última. A programação da tarefa também visa a otimização dos recursos humanos da organização, pela simplificação da atividade do usuário.

A restrição da responsabilidade decorre da preservação dos interesses organizacionais. O banco opta por manter atividades específicas e de maior complexidade sob responsabilidade de um grupo restrito. Isto acaba por compensar a perda de autonomia, uma vez que o usuário é libertado de certas responsabilidades.

O limite para o desenvolvimento tecnológico dos Bancos está ligado à otimização de recursos. As instituições investem no que é prioritário e adiam o que consideram que podem esperar. Isto é necessário porque, considerando a dinâmica de evolução dos negócios no setor bancário e a alta demanda por TI para automação das tarefas e para ganhos de volumes de operação, a tecnologia está sempre um passo atrás do que as necessidades do trabalho demandam.

A Tabela 10 sintetiza as práticas, suas origens, as relações entre os elementos do corpus arbitrado e a interpretação objeto da seção 7.4, reveladora da estrutura de interação entre os sistemas e o trabalho.

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O Manifesto O Subjacente

Prática Origem Componentes

elementares

Interpretação transformacional Construção

Compartilhada

Construção SI de acordo com as demandas do trabalho Incorporação de benefícios Idealizado x Incorporado Aprimorado x Piorado Defesa de interesses Naturalização

Assimilação do SI Imposição de uso

Habituação

Identificação de benefícios

Imposto x Voluntário Benéfico x Não benéfico Habitual x Novo Defesa de interesses Naturalização Concepção de aprimoramentos Busca de incorporação de benefícios

Busca de atualização para necessidades do trabalho Ausência de canais de comunicação Otimização de recursos Idealizado x Incorporado Transmitido x Não transmitido Naturalização Defesa de interesses Incorporação de aprimoramentos Preservação de objetivos do sistema Busca de incorporação de benefícios Otimização de recursos Selecionado x Não selecionado Incorporado x Vetado Priorizado x Adiado Otimização de recursos Defesa de interesse

Edições do sistema Adequação às necessidades da

tarefa

Adequação às preferências e capacidades individuais Busca de incorporação de benefícios

Natureza do sistema e do trabalho Racionalidade técnica Adicionado x Subtraído Adaptado x Padronizado Naturalização Defesa de interesse Otimização de recursos Controle massificado Otimização de recursos Objetivos do sistema Massificado x personificado Vigiado x Livre Transparente x Velado Defesa de interesse Otimização de recursos

Função enriquecida Otimização de recursos

Objetivos do sistema Autônomo x Normatizado Otimização de recursos Naturalização Controle da autonomia

Objetivos do sistema Obrigado x Desobrigado Defesa de interesse

Restrição da Responsabilidade Otimização de recursos Objetivos do sistema Interessante x Banal Amplo x Restrito Defesa de interesse

Tarefa programada Otimização de recursos

Objetivos do sistema

Programado x Variável Defesa de interesse

Otimização de recursos Limitação do desenvolvimento tecnológico Limite do investimento em desenvolvimento tecnológico Dependência do fornecedor Otimização de recursos

Disponível x Pendente Otimização de recursos

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