Em se tratando de uma análise que busca avaliar os recursos responsáveis pela sustentabilidade de desempenho superior em determinado mercado, a primeira definição do estudo foi delimitar quais empresas representam este mercado. Essa definição remete ao primeiro objetivo intermediário deste estudo: avaliar o mercado brasileiro de telecomunicações – no ramo de provimento de acessos à telefonia, internet e TV por assinatura – no período pós-privatização, destacando a formação dos competidores desde a privatização e a evolução dos índices de acessos de telefonia, internet e TV por assinatura. Como o mercado brasileiro de telecomunicações é a soma do que é realizado pelas empresas concorrentes no setor, a princípio foram definidas quais empresas deveriam ser agregadas no estudo. O histórico do processo de privatização do setor serviu como base para esta definição; partindo-se das empresas privatizadas em 1998 para a realização do estudo.
Como a medição de desempenho é condição mandatória para o cumprimento do primeiro objetivo intermediário da pesquisa, empresas que não têm suas informações financeiras divulgadas oficialmente foram excluídas da população. No primeiro capítulo deste trabalho, descreveu-se de forma resumida como foi o processo de privatização do mercado brasileiro de telecomunicações, no qual foram privatizadas doze holdings. Partiu-se dessas doze holdings privatizadas como base para elaboração da população, exibidas no quadro 2 com o respectivo valor arrecadado em 1998 pelo Estado na venda de cada uma.
Nome da Holding Valor Arrecadado (R$ Bilhões)
Embratel 2,65
Telesp 5,78
Tele Centro Sul 2,07
Tele Norte Leste 3,43
Tele Norte Celular 0,19
Telesp Celular 3,59
Tele Sudeste Celular 1,36
Tele Centro Oeste Celular 0,44
Tele Leste Celular 0,43
Telemig Celular 0,76
Tele Celular Sul 0,70
Tele Nordeste Celular 0,66
Quadro 2: Holdings Privatizadas em 1998 Fonte: ANATEL (2010).
Apesar do número elevado de empresas privatizadas, houve uma concentração no setor, causada por diversas fusões e aquisições ocorridas nos anos seguintes ao processo de venda do sistema Telebrás. O valor arrecadado com a privatização das doze holdings representou um ágio de 63,7% em relação ao preço mínimo estipulado. Sete grupos tornaram-se controladores de uma ou mais das doze empresas privatizadas, conforme exibido na figura 9.
HoldingPrivatizada Nome Comercial em dez/08 Embratel
Telesp
Tele Centro Sul
Tele Norte Leste
Tele Norte Celular
Telesp Celular
Tele Sudeste Celular
Tele Centro Oeste Celular
Tele Leste Celular
Telemig Celular
Tele Celular Sul
Tele Nordeste Celular
Embratel Telefonica Brasil Telecom Oi Vivo Telemig Celular Tim
Figura 9: Concentração do Setor Após a Privatização Fonte: Elaborado pelo autor.
Desta forma, a cada ano de análise nesta pesquisa o número de empresas poderá sofrer alteração, devido à fusão ou compra de algumas empresas ao longo do tempo analisado. Seria relevante adicionar à população outras empresas, como as operadoras-espelho e a operadora de SMP Claro. Contudo, a Claro não divulga seus resultados, o que inviabiliza a avaliação de seu desempenho. As operadoras-espelho, apesar de entrarem no mercado em uma condição desfavorável (sem infra-estrutura), foram a solução que a ANATEL encontrou para intensificar a competição nas regiões das concessionárias de STFC, empresas que
inicialmente estavam restritas à uma atuação geográfica delimitada. Assim, para cada região de exploração do STFC (regiões I, II e III) foi vendida uma licença de exploração do serviço de STFC, para que as operadoras que compraram as concessões não atuassem sozinhas em suas áreas, pois isso caracterizaria um monopólio nas respectivas regiões. Também foi realizada operação semelhante para o serviço de longa distância nacional, para que a Embratel não gozasse de monopólio. Portanto, aos sete grupos resultantes das holdings privatizadas, há quatro empresas-espelho a serem incorporadas à população:
a) GVT: empresa espelho da região de atuação da Brasil Telecom; b) Vésper: empresa espelho da região de atuação da Oi;
c) Vésper São Paulo: empresa espelho da região de atuação da Telefonica;
d) Intelig: empresa espelho da Embratel, para operação do serviço de longa distância nacional e internacional.
Entretanto, a Intelig não divulga seus resultados financeiros. A Vésper e a Vésper São Paulo também não divulgavam seus resultados e foram adquiridas pela Embratel em 2003. Dessa forma, a única empresa espelho que justifica sua inclusão no estudo é a GVT, que passou a divulgar seus resultados a partir de 2005. Devido à falta de histórico de dados da GVT, ela foi excluída do estudo, permanecendo a análise focada nas doze holdings privatizadas em 1998. Assim, os doze grupos oriundos da privatização formam a população de pesquisa deste estudo, conforme exposto no quadro 3.
Nome Comercial da Empresa Razão Social da Empresa Principal Produto de Atuação (em 1999)
Embratel EMBRATEL PARTICIPAÇÕES S.A Longa Distância
Telefonica TELECOMUNICAÇÕES DE SÃO
PAULO S/A – TELESP
STFC
Brasil Telecom BRASIL TELECOM
PARTICIPAÇÕES S.A.
STFC
Oi TELE NORTE LESTE
PARTICIPAÇÕES S/A
STFC
Amazônia Celular TELE NORTE CELULAR
PARTICIPACOES S.A
SMP
Vivo (Telesp Celular até 2005) VIVO PARTICIPAÇÕES S/A SMP
Tele Sudeste Celular TELE SUDESTE CELULAR
PARTICIPAÇÕES S.A.
SMP
Tele Centro Oeste Celular TCO CELULAR PARTICIPAÇÕES
S/A
SMP
Tele Leste Celular TELE LESTE CELULAR
PARTICIPAÇÕES S.A.
SMP
Telemig TELEMIG CELULAR
PARTICIPAÇÕES S.A.
SMP
Tim (Tim Sul até 2003) TIM PARTICIPAÇÕES S.A. SMP
Tim Nordeste TELE NORDESTE CELULAR
PARTICIPAÇÕES S.A.
SMP Quadro 3 – População de Pesquisa
O período de análise corresponde ao período pós-privatização, iniciada em 1998. O primeiro ano com informações disponíveis para as empresas é 1999. As empresas foram analisadas até 2008, compreendendo dez anos de análise.
Como se pode observar, a amostra compreende empresas que, embora se enquadrem no ramo de telecomunicações, competem com diferentes produtos. É o caso das empresas provedoras de acesso SMP em relação às provedoras de acesso STFC. Contudo, de acordo com a definição de Besanko et al (2006), na qual duas empresas competem entre si se qualquer decisão de marketing tomada por determinada organização afeta o nível de produção de outra, pode-se enquadrar essas empresas dentro do mesmo escopo competitivo. Balesdent Filho (2004), Oliveira (2006) e Santos (2006) que um dos pontos que vem alterando as estratégias das empresas no setor de telecomunicações é a crescente substituição do acesso fixo pelo móvel, intensificando a competição entre as empresas. Isso ocorre pelo desenvolvimento
tecnológico associado ao setor, que caminha de forma acelerada para ofertas convergentes, onde mais de um produto é combinado para atender necessidades do cliente.
Esses indícios justificam o agrupamento das empresas para análise, ainda que haja diferenças tecnológicas entre elas. Outro ponto que atesta a convergência competitiva entre as empresas cujos produtos principais são diferentes é o cenário de consolidação do setor, com número já expressivo de empresas capazes de prover ambos os serviços (STFC e SMP). Os outros principais produtos do mercado, TV por assinatura e acesso à internet, também são fornecidos por mais de uma das empresas analisadas. Será interessante levantar até que ponto a presença dos principais produtos do setor em uma só empresa pode ou não ser responsável pelo desempenho superior da mesma.
3.2. As razões de desempenho superior, sob a perspectiva da Visão Baseada em