De acordo com o histórico constante no Projeto Político Pedagógico (PPP) da
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Marcelino Pão e Vinho é um filme espanhol de 1955 baseado no famoso livro de mesmo nome escrito por José María Sánchez Silva. Conta a história de um menino órfão, que mora em um orfanato e através de sua simplicidade e coração puro conversa com os anjos.
escola, o Ginásio Industrial de Ceará – Mirim foi criado em 11 de dezembro de 1961, pelo decreto nº 2700, sendo autorizado a funcionar através do ato 35/36, pertencendo assim a Rede Estadual de Ensino, no governo de Aluísio Alves.
Com a nova legislação e amparada pela lei nº 4024/61, o Ginásio de Ceará- Mirim, realizou em maio de 1962, o primeiro exame de admissão que formou as primeiras turmas do Colégio. Estas turmas contaram com formação na área de eletricista instalador, cerâmica, marcenaria e artes gráficas. Monsenhor Rui Miranda foi o primeiro diretor da instituição, onde permaneceu de 1962 a 1982.
“O Ginásio Industrial era considerado uma referência em educação naqueles anos, recebendo clientela diversificada. Tinha características rígidas como toda escola daquela época, mas também apresentava muita competência em qualificar os alunos”. (Ronaldo, 52 anos).
Era comum durante todo o período da ditadura militar, a existência de inspetores nos estabelecimentos públicos de ensino. No entanto, como todos os cargos eram escolhidos pelo Monsenhor Rui, com relação à função de inspetor não foi diferente. Não havia fiscalização nas escolas, mas eram respeitados os desfiles cívicos e todas as datas comemorativas relacionadas. Os programas nacionais de educação eram enviados a escola pelo Governo, junto com o material escolar e o fardamento. As ordens eram seguidas a risca uma vez que, segundo relatos colhidos, o Monsenhor Rui era simpatizante da ditadura.
“Monsenhor Rui era muito pelo professor, mas sempre ouvia os dois lados. Isso não era garantia de nada, porque a palavra dele era a decisão final. (...) Fui do primeiro grupo de professores que lecionou lá (...) os funcionários todos eram escolhidos por ele, do porteiro ao secretário. Era muito correto na parte administrativa, mas também era muito bruto no tratamento com as pessoas (...) bastava uma pequena falha pra ele transferir aluno ou funcionário.” (Lourdes, 72 anos).
As famílias da elite econômica local matriculavam seus filhos naquela Escola ou no Colégio de Santa Águeda (quando se tratavam de meninas), uma vez que elas apresentavam um ensino reconhecidamente de boa qualidade. A Escola
Monsenhor Celso Cicco possuía professores capacitados para a época. O temor de todos pelo Monsenhor Rui Miranda garantia a organização e disciplina na instituição escolar. A Escola seguiu um regime rígido durante seus primeiros vinte anos, bem ao estilo do Regime Militar vigente naquele período, o que condizia com a conduta empregada pelo pároco no seu modo de administrar.
Enquanto instituição educacional, a Escola consistia num espaço privilegiado para a disseminação de um discurso conformista em relação à situação política nacional do período. Não era permitida a formação de grupos dentro da escola sem a supervisão de um professor; não era permitida a formação de grêmios estudantis. Os esportes se resumiam a futebol, basquete e xadrez, além de aulas de música para a formação da Banda Marcialda escola.
“Qualquer aluno ou funcionário que se cogitasse envolvido em qualquer coisa contra a ditadura militar era convidado a se retirar ou transferido de escola, dependendo da gravidade do acontecimento. Na época, correu o boato de que ele havia entregado várias pessoas que simpatizavam com o comunismo (...) ele simpatizava com a ditadura, elogiava muito e não era pra continuar na direção só não...ele admirava mesmo. Punha os meninos para rezar antes de entrar na sala em pleno sol do meio dia” (Lourdes, 72 anos).
Os discursos proferidos pelo Monsenhor Rui a comunidade escolar eram feitos por ocasião das reuniões de pais e mestres, onde em meio aos informes administrativos ele teria, ainda segundo as falas dos entrevistados, por varias vezes tentado convencer os pais dos benefícios que o Regime Militar e a doutrina católica poderiam trazer as famílias; usando a religião como meio de conformar a população frente à situação política do país. Embora seja de conhecimento publico que diversos membros da Igreja Católica tenham lutado arduamente contra o Regime Militar, houve aqueles que ao simpatizarem com os ideais militares promoviam sua manutenção e defesa, ainda mais em cidades interioranas. Na época, por estar distante dos pólos de efervescência política, a cidade de Ceará – Mirim parecia não ter uma noção clara do que uma ditadura significava. Muitas das notícias sobre tortura e abuso de autoridade não chegavam ao conhecimento da população, o que
fazia da situação política do país algo distante, que gerava a elaboração de pontos de vista distorcidos que tendiam a amenizar o caráter negativo do Regime.
“Eu nem sei dizer nada sobre esse negócio de Ditadura. Aqui era tudo igual. Até por que quase ninguém tinha televisor. Prá gente aqui era muito bom, não tinha ladrão, não tinha preocupação. Todo mundo respeitava. Eu sinto falta do apoio que o governo dava naquela época.” (Ana, 74 anos).
Monsenhor Rui Miranda teria, segundo os depoimentos, aproveitado-se dessa “desinformação” para construir ideias positivas entre os dois campos (o político e o religioso) de modo a conferir legitimidade aos dois discursos. “Dizia que quem não ia
a missa era comunista, não acreditava em Deus e era contra a religião” (Hermes, 44
anos).Exercia um domínio tácito e, quando agia, era para mostrar aos demais a sua
importância e influência em nome da manutenção da organização que ele havia estabelecido ao seu redor. Acumulava agora duas funções, a de administrador paroquial e a de diretor da maior Escola Industrial da região.
A religião como sistema, aqui entendida na pessoa do Monsenhor Rui Miranda, auxilia na organização divina que constrói a cidade, possui influência sobre a ordem social, manipula e é manipulada pelo sistema político para a execução de seus interesses mútuos. Em várias épocas da história humana, a religião tem sido utilizada pelo sistema político, num processo conjunto cujo objetivo principal é a dominação e subjugação da ordem social ou a legitimação do seu poder, mediante a ajuda da formação de opiniões que a religião, através de seus sacerdotes, é capaz de promover. Nesse contexto, a religião passou a exercer uma relevante pressão sob o sistema político e, por esse caminho, sobre o ser humano, condicionando os grupos sociais à aceitação de um conjunto de traços político-religiosos ligados, culturalmente, à história e ao destino da nação. (CAMARGO; FACHIN, 2008).
”Isso foi lá pelos anos de 76, 77. O certo é que ele transferiu Vasconcelos* de cidade. Dizia o povo que ele (Vasconcelos*) era contra a ditadura, que lia as revistas do partido comunista e um dia levou uma dessas pra mostrar aos colegas lá no Monsenhor (a escola). Como em todo canto Padre Rui tinha um “vigia”, foram logo entregar o rapaz. Aí ele reuniu o pessoal da secretária e obrigou o povo a falar, sob pena de ser transferido e até mesmo
demitido. Aí pronto, o pessoal entregou tudo. Ele então chamou Vasconcelos* e transferiu ele para Touros.” (Aluizio, 58 anos).
Nos diversos depoimentos colhidos, foram várias as situações relatadas envolvendo algum tipo de constrangimento realizado pelo Monsenhor Rui a funcionários e alunos da escola. Suas atitudes muitas vezes causavam desconforto em alguns e sentimento de revolta em outros. Havia também os que apoiavam e entendiam sua postura como a mais correta. O fato é que, tendo ele livre acesso aos mecanismos de manipulação do Estado, os utilizava em benefício próprio e de terceiros, afastando do seu convívio pessoas consideradas “indesejáveis” ou que se posicionassem contra a forma de administração que era praticada na instituição escolar. Por outro lado, investido da legitimidade do cargo de Padre, encontrava apoio e conformação por parte dos companheiros de profissão que entendiam sua postura como mais adequada a um período de tamanha instabilidade social e politica. Na Escola ele não deixava de ser o Padre para adotar a postura de um Diretor, ele era considerado na realidade, um Padre – Diretor, tendo com isso, um reconhecimento ainda maior sobre suas determinações: contrariar o diretor era contrariar o padre, com toda a carga ideológico-religiosa que o termo comporta.
Com o início da década de 1980, o grande sentimento de agitação em torno do fim do Regime Militar e o início das reivindicações pelo processo de redemocratização do país, fizeram com que a imagem do Monsenhor já não fosse positivamente associada com relação à situação social vigente. Sua figura remetia a um tempo de autoritarismo, de direitos políticos suspensos, de um nacionalismo repressor e decadente que não combinava com os aspectos da modernização e progresso que si faziam sentir naquele momento. Era a retomada dos direitos políticos e individuais. Era a quebra com um período de limitações e repressões. Ainda que a população local não tivesse sido tocada de modo contundente sobre os acontecimentos que se processavam no resto do país, a população das capitais brasileiras estava empenhada em, o mais breve possível, restabelecer um governo do povo, uma administração para o povo e, já com o advento da televisão, as pessoas queriam copiar os modelos vistos, renovando suas ideias e entrando numa era de profundas transformações.
“A administração dele era muito boa para o professor por que éramos valorizados, mas o caráter autoritário já não tinha espaço. Ele sentia isso, ele via as coisas mudarem e, além de tudo, já não era tão moço. Os jovens eram cada vez mais rebeldes, os novos professores que vinham das universidades chegavam cheios de idéias. Os tempos eram outros e Padre Rui não admitia mudanças. Parecia ser contra todas as novidades.” (Maria, 70 anos).
Assim, não encontrando mais espaço no serviço educacional público e alegando o peso da idade, em 1986 Monsenhor Rui é exonerado da direção da escola, no entanto, sendo posteriormente empossado como administrador-chefe do Sindicato Rural, mais conhecido como FUNRURAL31.