Atualmente, as preocupações sobre a escassez e a possibilidade de esgotamento de fontes não renováveis de energia estão contribuindo para a disseminação da importância do uso sustentável dos recursos energéticos.
Além disso, restrições ao uso indiscriminado de tecnologias convencionais vêm crescendo mundialmente, devido ao maior conhecimento de suas conseqüências ambientais, como o aquecimento global ocasionado pelo efeito estufa em função da liberação de gases liberados, como, por exemplo, o dióxido de carbono, no processo de queima de combustíveis fósseis e a possibilidade de perda de controle no processo de produção de energia nuclear, tal como ocorreu em Chernobyl, em 1986.
Dessa forma, como tentativa de solucionar tais problemas, formas alternativas de obtenção de energia estão sendo desenvolvidas, além do aumento da consciência sobre a importância da racionalização do uso dos recursos energéticos. No cenário brasileiro, com o intuito de definir estratégias visando mobilizar a sociedade para o uso responsável e eficiente de energia elétrica, o Governo Federal, representado pelo Ministério de Minas e Energia, criou, em 1985, o PROCEL – Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (MARQUES et al., 2007).
Assim, a eficiência energética consiste no uso eficaz e inteligente dos recursos energéticos, visando redução de custos e ganhos sócio-ambientais. Para a sociedade, a diminuição do desperdício de energia gera uma maior disponibilidade, além de permitir que os recursos economizados possam ser destinados para outros fins e contribuir para a diminuição da emissão de gás carbônico. Já para as indústrias, a eficiência energética contribui para reduzir os gastos com insumos energéticos, além de possibilitar ganhos de marketing à empresa, devido à prática de ações sustentáveis (NOGUEIRA, 2007). É importante fazer distinção entre o uso eficiente de energia, ou seja, racionalização e o racionamento. O primeiro consiste no combate ao desperdício, propondo mudanças permanentes de hábitos e processos, além da utilização de novas tecnologias. Já o segundo, por sua vez, consiste apenas em uma limitação temporária de consumo, imposta devido à escassez de energia (NOGUEIRA, 2001; SALUM, 2005).
Assim, sendo as indústrias as maiores consumidoras do mercado energético brasileiro, respondendo por 39,6% do consumo total (BRASIL, 2009), a eficiência energética neste presente trabalho é focada apenas às atividades industriais.
Do ponto de vista industrial, a eficiência energética pode ser definida como a razão entre a saída útil de um processo (ou equipamento) e a energia introduzida nesse (ABEE, 2011). É importante ressaltar que a saída do processo não precisa ser necessariamente medida em termos energéticos, podendo ser utilizadas diferentes grandezas como quantidade produzida e receita obtida (PATTERSON, 1996).
Para isso, ao longo do desenvolvimento deste item, é inicialmente apresentada a metodologia de gerenciamento energético, sendo depois detalhadas as auditorias e, finalmente, estudadas as principais formas de economia de energia.
3.3.1 GERENCIAMENTO ENERGÉTICO
Os gastos energéticos consistem em um dos principais custos de uma indústria, dessa forma seu gerenciamento apresenta uma crescente importância, motivado pela necessidade de redução de custos em um mercado competitivo, além das incertezas sobre a disponibilidade energética e das restrições ambientais. Assim, por se tratar de um tema complexo, devem ser utilizados métodos e técnicas na busca por um melhor desempenho energético, a partir da definição de ações e objetivos concretos, representados por indicadores de desempenho energético (SALUM, 2005; MARQUES et al., 2007).
Como prática fundamental do processo de gerenciamento energético, deve ser criado um comitê de gestão de energia, que visa aumentar a eficiência de instalações, sistemas e equipamentos, além de avaliar a demanda energética necessária pela indústria, a disponibilidade da energia necessária no mercado e a possibilidade de co-geração. Adicionalmente, deve também propor, implantar e
acompanhar medidas de uso racional de energia, promovendo a conscientização e motivação dos empregados.
É importante ressaltar que a metodologia de gestão energética deve ser apoiada e disseminada por toda empresa, fazendo parte do modelo de gestão corporativa e tendo seus indicadores acompanhados de forma contínua (FURNARI, 1985; SALUM, 2005; MARQUES et al., 2007).
No entanto, para que um plano de gerenciamento de energia possa ser bem desenvolvido, é necessário conhecer a realidade energética das instalações. Para isso, são realizados diagnósticos e auditorias energéticas.
3.3.2 DIAGNÓSTICO E AUDITORIA ENERGÉTICA
Conforme previamente discutido, o diagnóstico energético constitui uma etapa crucial para se avaliar o uso geral de energia de uma instalação, consistindo na fase inicial de um projeto de eficiência energética. Dessa forma, após um estudo energético superficial, denominado diagnóstico, é realizada uma auditoria energética, que consiste em uma análise mais minuciosa e criteriosa dos pontos abordados no diagnóstico (NOGUEIRA, 2001). Na Figura 3.2 é apresentada uma abordagem genérica a ser utilizada no desenvolvimento de uma auditoria energética.
Figura 3.2 – Etapas de uma Auditoria Energética - adaptada de NOGUEIRA (2001)
Como resultado de uma auditoria energética, deve ser gerado um relatório capaz de compilar o trabalho de levantamento de informações desenvolvido, apresentando os resultados, recomendações e conclusões de uma maneira clara e coerente. Deve ser analisada tanto a situação atual quanto as condições a serem atingidas a partir de projetos posteriores (NOGUEIRA, 2001; SALUM, 2005; MARQUES et al., 2007). É importante ressaltar a existência de um trade-off entre a qualidade e abrangência do estudo energético e a quantidade de recursos gastos, uma vez que a coleta, processamento e análise dos dados requerem esforços significativos (ABEE, 2011).
Dessa forma, durante uma auditoria energética, devem ser analisados os balanços energéticos da planta, além de se estudar os sistemas elétricos, térmicos e mecânicos. Dentre os sistemas elétricos, as principais ações consistem no levantamento da carga elétrica instalada, na análise das condições de suprimento e distribuição, envolvendo estudo do sistema de iluminação e motores elétricos, além
de outros equipamentos que demandem um elevado consumo energético. Em relação aos sistemas térmicos e mecânicos, devem ser avaliados os seguintes sistemas:
• Condicionamento de ar, exaustão e refrigeração; • Fornos e combustíveis;
• Geração e distribuição de vapor e condensado; • Bombeamento e tratamento de água;
• Compressão e distribuição de ar comprimido (NOGUEIRA, 2001; MARQUES
et al., 2007).
Dessa forma, uma vez realizada a auditoria energética, podem ser planejadas ações de eficiência viáveis técnica e economicamente, que apresentem metas definidas, permitindo a racionalização do uso de energia (NOGUEIRA, 2001; MARQUES et al., 2007; ENGELESCO, 2011). De modo geral, deve-se priorizar a implementação dos itens associados a processos com menores eficiências e que apresentem baixos investimentos para a racionalização energética (NOGUEIRA, 2001). Como o foco do presente trabalho se baseia na atividade mineradora, as principais ações de eficiência energética relacionadas à mineração são apresentadas a seguir.