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8. Mitokondriyal DNA hastalıkları b Edinsel nedenler:

1.5. Diyabetin Komplikasyonları

1.5.2. Diyabetes Mellitus’un Kronik Komplikasyonları

1.5.2.3. Diyabetik Nefropat

1.5.2.3.6. Diyabetik nefropatide klinik görünüm

"Le signe et la divinité ont le même lieu et le même temps de naissance. L'epoque du signe est essentiellement théologique"

(J. DERRIDA, De la grammatologie)

3.1.2.1 Platonismo e teologia infinitista

"Por todas as formas de intermediários culturais, ou seja postais, elas pagam sua taxa, e não é necessário para isso ser tachado de 'platonismo' e mesmo se você subverteu o platonismo (olhe-os, vire o cartão, quando eles escrevem de cabeça para baixo no avião). (...) Mas, naturalmente, quanto maior a ânsia para libertar-se e não mais dever, mais se paga. E quanto menos se paga, mais se paga, eis a armadilha desta especulação". (J. DERRIDA, O Cartão-Postal).

A clausura do Livro é sustentada pelo "preconceito teológico". Antes de tudo, portanto, e mesmo nas suas versões secularizadas (p.ex., em Galileu ou Jaspers), o Livro é um conceito teológico. Os sintomas que Derrida levanta apontariam para o fato de que a onto- teologia, de Platão a Hegel, estaria em vias de se encerrar. A questão, no entanto, é bem mais complexa do que parece e está longe das simplificações positivistas ou "laicas" que, sem refletir sobre as próprias premissas e deslocamentos, não percebem que muitas vezes o discurso teológico está presente em nível estrutural (por exemplo, como metafísica da presença - e portanto da eternidade) onde supostamente ele teria se evadido. Em primeiro

lugar, a apresentação do "preconceito teológico" carrega o sentido da Destruktion realizada por Martin Heidegger da tradição onto-teológica, aqui revalidada e subscrita sem reservas (a não ser reservas que radicalizam as premissas) na direção da finitude e da temporalidade493. A "metafísica" ocidental, entendida sempre e irrevogavelmente (isto é, até as últimas obras) com o sentido de onto-teologia, alimenta-se do infinitismo teológico platônico-cristão que Heidegger havia apresentado, reprimindo as dimensões da morte, da temporalidade e da finitude em nome da crença na "imortalidade da alma". Assim, a palavra "metafísica", quando aparece no texto derridiano, carrega sempre esse sentido (salvo no caso de Levinas). Lembre- se que a metafísica, segundo Heidegger, é o esforço para pensar o ente em sua totalidade:

Metafísica é o pergunta além do ente para recuperá-lo, enquanto tal e em sua totalidade. (..) Sobre o nada a metafísica se expressa desde a Antigüidade numa enunciação, sem dúvida, multívoca: ex nihilo nihil fit, do nada nada vem. Ainda que, na discussão do enunciado, o nada, em si mesmo, nunca se torne problema, expressa ele, contudo, a partir do respectivo ponto de vista sobre o nada, a concepção fundamental do ente que aqui é condutora. A metafísica antiga concebe o nada no sentido do não-ente, quer dizer, da matéria informe, que a si mesma não pode dar forma de um ente com caráter de figura, que, desta maneira, oferece um aspecto (eidos). Ente é a figura que se forma a si mesma, que enquanto tal se apresenta como imagem. Origem, justificação e limites desta concepção de ser são tão pouco discutidos como o é o próprio nada. A dogmática cristã, pelo contrário, nega a verdade do enunciado: ex nihilo nihil fit e dá, com isto, uma significação modificada ao nada, que então passa a significar a absoluta ausência de ente fora de Deus: ex nihilo fit - ens creatum. O nada torna-se agora o conceito oposto ao ente verdadeiro, ao summum ens, a Deus enquanto ens increatum494.

No entanto, apesar de seguir a crítica heideggeriana da onto-teologia enquanto filosofia do ente como totalidade, Derrida não segue a linha do esquecimento do ser. Como veremos logo em seguida, o ser como "nome próprio" é igualmente abandonado a partir de um ultrapassamento para a errância da dyferença. O recalcado, assim, não é o ser (ou a questão do ser), mas o outro. Por isso, também o fim do Livro tem o sentido de crítica da ideia de totalidade desenvolvida à época por Emmanuel Levinas. Derrida incorpora aqui a dimensão de violência que o "esforço totalizador" (não há totalidade, só falsa totalidade)

493 Aprofundada, por exemplo, quanto à sobrevivência da ideia de "espírito" (Geist) que inicia bastante discreta em Ser e Tempo, mas vai crescendo em importância na adesão de Heidegger ao nacional-socialismo (DERRIDA, Jacques. De l'esprit: Heidegger et la question, pp. 31-73).

494 HEIDEGGER, Martin. Que é metafísica? In: Os Pensadores, trad. Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1991, p. 43. Ver ainda sobre a Destruktion, GABRIEL, Markus. Transcendental ontologies, pp. 74-79; STEIN, Ernildo. Seis estudos sobre "Ser e Tempo", pp. 21-54; idem, Introdução ao pensamento de Martin Heidegger, pp. 89-101; idem, Diferença e metafísica: ensaios sobre a desconstrução, pp. 42-77.

carrega. A "ontologia", entendida no sentido de Totalidade e Infinito, é a violência do Um (totalização) sobre o outro (a alteridade). Como já vimos, em Violência e Metafísica Derrida arrola uma série de restrições às teses de Levinas, mas em essência a crítica da ontologia é incorporada. O Livro é, ao mesmo tempo, a metafísica enquanto recalque da temporalidade (Heidegger)495 e da alteridade (Levinas)496 - não por acaso os dois sentidos convergem na palavra dyferença (diferir e deferir).

A partir do ponto estratégico do signo, Derrida procura demonstrar como a metafísica sempre privilegiou uma relação de espelhamento entre logos e significado, mediados pelo significante exterior (e por isso inferior). Trata-se de uma oposição que coloca uma idealidade natural, eterna e universal, de um lado, e uma materialidade decaída, corrompida e temporal, de outro. A ideia de significado puramente ideal mantém viva, apesar da "queda no significante", a oposição: "a face inteligível do signo permanece voltada para o lado do verbo e da face de Deus"497. Mesmo com descontinuidades de Platão à Idade Média e principalmente a partir da inauguração da subjetividade moderna, existe uma cumplicidade que se arrasta ao longo de todo percurso, tornando ainda viva a tradição. Afirma ele:

Como acontecia com a escritura da verdade na alma, em Platão, ainda na Idade Média é uma escritura entendida em sentido metafórico, isto é, uma escritura natural, eterna e universal, o sistema da verdade significada, que é reconhecida na sua dignidade. Como no Fedro, uma certa escritura decaída continua a ser-lhe oposta. Seria preciso escrever uma história desta metáfora que sempre opõe a escritura divina ou natural à inscrição humana e laboriosa, finita e artificiosa. Seria preciso articular rigorosamente suas etapas, marcadas pelos pontos de referência que acumulamos aqui, seguir o tema do livro de Deus (natureza ou lei, na verdade lei natural) através de todas as suas modificações498.

495 HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo, pp. 52-57, 303ss. 496

Sem excluir o fato de que para o próprio Levinas a relação entre temporalidade e alteridade era fundamental: "o tempo é o outro". Entretanto, sem discordar em nada da genealogia que remete a Franz Rosenzweig (influência assumida de Levinas) a dimensão da temporalidade, é impossível não ver as marcas do próprio Heidegger no trabalho do filósofo franco-lituano que mais tarde tomará a "ontologia fundamental" como uma adversária permanente da ética da alteridade. "A ciência fenomenológica absoluta, a autoridade inegável do agora no presente vivo, é justamente aquilo que tematizaram, com estilos e segundo estratégias diferentes, todos os grandes questionamentos desse tempo, particularmente o de Heidegger ou o de Lévinas" (DERRIDA, Jacques. “Outrem é secreto porque é outro” (PM), p. 339). Ainda: idem, De la grammatologie, p. 103.

497 DERRIDA, Jacques. Gramatologia, p. 16. No original: "la face intelligible su signe reste tournée du coté du verbe et de la face de Dieu" (De la grammatologie, p. 25; ainda idem, p. 104).

498 DERRIDA, Jacques. Gramatologia, p. 18. No original: "Comme c'était le cas pour l'écriture de la verité dans l'âme, chez Platon, c'est encore au Moyen Age une écriture entendue au sens métaphorique, c'est-à-dire une écriture naturelle, éternelle et universelle, le système de la verité signifié, qui est reconnue dans sa dignité. Comme dans le Phèdre, une certaine écriture déchue continue de lui être opposée. Il faudrait écrire une histoire de cette métaphore oppoosant toujours l'écriture divine ou naturelle à l'inscription humaine et laborieuse, finie et artificieuse. Il faudrait en articuler rigoureusement les étapes marquées par les repères que nous acumulons ici, suivre le thème du livre de Dieu (nature ou loi, en verité loi naturelle) à travers toutes ses modifications" (DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 27).

O signo, ao manter "dois lados" (significante e significado), é a última herança platônico-teológica, propondo um significado que seja o nome próprio enquanto significado transcendental499. No seminário inédito Manger l'autre, muitos anos depois, Derrida volta ao tema reafirmando a ideia ao acompanhar Louis Marin no seu livro "La parole mangée" quanto ao argumento de que o signo seria a secularização da eucaristia. A hóstia seria o modelo do signo500. Relembrando "Da Gramatologia", ele afirma:

la remarque que Marin limite à la Logique de PR, à savoir que 'le corps eucharistique se trouve être -mais au terme de l'énonciation intégrant les signes dans l'unité d'une phrase - la matrice de tout signe, qu'il soit physei ou thesei. C'est donc ainsi que le corps théologique est la fonction sémiotique même / c'est que j'appelais dans De la grammatologie le caractère fondamentalement théologique du concept de signe / et que, pour Port Royal, en 1683, il y a adéquation parfaite entre le dogme catholique de la présence réelle et la théorie sémiotique de la représentation signifiante (La parole mangée, p.35)501.

Signo e Livro estão, portanto, diretamente ligados. Ao evocar o Livro, Derrida faz eco a uma fonte pouco notada pelos intérpretes: trata-se de E. Curtis, erudito alemão que realiza um estudo histórico acerca da metáfora do livro na literatura medieval502. Em um capítulo da sua obra Literatura Européia e Idade Média Latina, Curtis relaciona exatamente alguns dos pontos que trata de atar em "Da Gramatologia": a relação entre Livro, metáfora e teologia. Fazendo uma análise tropológica (vocábulo que Curtis extrai de Goethe e será repetido por Derrida)503, permite penetrar nas origens da sacralização do Livro, não apenas abrindo espaço para toda desconstrução posterior que Derrida executará sobre o Fedro de Platão e seu desprezo pela escritura (mencionando a questão mnemotécnica, o problema da 'tábua de cera' do espírito, entre outros), como inclusive ingressando no problema do "sulcamento" que mais

499 DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 24. 500

"... et un discours si subtil qu'on peut parfois se demander en effet si l'Eucharistie est un simple exemple dont ce système logico-sémiotique est capable de rendre compte, parmi d'autres exemples possibles, ou si au contraire toute la 'logique' et la conceptualité de cette sémiotique ne sont pas organisées en vue de pouvoir rendre compte de cet exemple paradoxal et exemplaire, au service de la possibilité de quelque chose como l'Eucharistie, l'événement, l'experiénce et le discours qu'on appelle Eucharistie" (DERRIDA, Jacques. Manger l'autre, p. 79). Ver, MARIN, Louis. La parole mangée et autres essais théologico-politiques. Paris: Méridiens Klincksieck, 1986, pp. 11-35. E ainda: HANDELMAN, Susan. The Slayers of Moses, p. 4, 113-120.

501 DERRIDA, Jacques. Manger l'autre. Seminário inédito, p. 93. 502

DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 27. 503

CURTIS, E. Literatura Européia e Idade Média Latina, pp. 313-314. Ver, p.ex., DERRIDA, Jacques. La mythologie blanche (MP), pp. 261, 298-300.

tarde será objeto de "Freud e a Cena da Escritura"504. Embora mencionado desde os tempos gregos, com Plotino como antecipador do "Livro da Natureza"505, é o "cristianismo que deu a máxima consagração ao livro"506. Curtis demonstra, passando por todas as fases da literatura medieval, que a metáfora do Livro era constantemente presente, correspondendo à imagem da criação divina. Assim, ainda no início da Renascença "tudo que é terreno está por assim dizer pré-modelado num livro transcendental. O espírito cognitivo do homem é comparado com um livro... No livro de nossa razão, acham-se inscritas as imagens das coisas, as idéias divinas"507. Segundo o próprio Curtis,

Resumindo, segue-se que a idéia do mundo ou da Natureza como um 'livro' surgiu na eloqüência sagrada, foi adotada depois pela especulação filosófico-mística medieval e passou enfim ao uso geral da linguagem. No curso dêsse desenvolvimento, o 'livro do mundo' foi laicizado, isto é, alheado de sua origem teológica, algumas vêzes, porém nem sempre (...)508.

A ideia do Livro é o centro da mitologia logocêntrica, correspondendo a uma imagem de totalidade pré-inscrita numa esfera puramente inteligível que comandaria a natureza e cujas leis o intelecto humano buscaria, na transparência e univocidade da linguagem, alcançar509. Muitos anos depois, no texto em que mais intensamente Derrida retorna à temática, ele afirma:

O que chamei então de 'o fim do livro' vinha ao termo de toda uma história: história do livro, da figura do livro e mesmo do que se chamava de 'o livro da natureza' (Galileu, Descartes, Hume, Bonnet, Von Schubert, Novalis, sua 'enciclopedística' e o que ele chamava de sua 'teoria da bíblia', etc.). Ao falar do 'fim do livro' em curso, refiria-me ao que certamente já se anunciava, e de que falamos esta noite, mas visava sobretudo ao modelo ontológico-enciclopédico ou neo-hegeliano do grande livro total, o livro do saber absoluto, que reúne em si, circularmente, sua própria dispersão infinita510.

504 CURTIS, E. Literatura Européia e Idade Média Latina, pp. 325-326. 505 CURTIS, E. Literatura Européia e Idade Média Latina, p. 319. 506

CURTIS, E. Literatura Européia e Idade Média Latina, p. 322. 507 CURTIS, E. Literatura Européia e Idade Média Latina, p. 333. 508 CURTIS, E. Literatura Européia e Idade Média Latina, p. 334.

509 "L'idée du livre, c'est l'idée d'une totalité, finie ou infinie, du signifiant ; cette totalité du signifiant ne peut être ce qu'elle est, une totalité, que si une totalité constituée du signifié lui préexiste, surveille son inscription et ses signes, en est indépendante dans son idéalité. L'idée du livre, qui renvoie toujours à une totalité naturelle, est profondément étrangere au sens de l'écriture. Elle est la protection encyclopédique de la théologie et du logocentrisme contra la disruption de l'écriture, contre son énergie aphoristique et, nous le préciseron plus loin, contre la différence en général" (DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 30).

510

DERRIDA, Jacques. O livro por vir (PM), p. 30; Ellipse (ED), p. 429. Ver ainda ROMANDINI, Fabián Ludueña. Para além do princípio antrópico, pp. 49-54.

O deslocamento da Modernidade, nesse caso, seria apenas um movimento de progressão na conquista dessa sincronização entre saber absoluto e totalidade, da arkhe (platônica) ao telos (hegeliano)511.

3.1.2.2 O um, a hierarquia e a ordem

A ideia de Livro da Natureza converge para a repressão da dyferença por parte da metafísica ocidental. Seu efeito é conter o fluxo dyferencial, como será mais adiante explicado, a fim de economizá-lo sob a forma unificante. Mais uma vez a questão da necessidade aparece: não se trata apenas de um "erro" ou "ilusão" que guiou a metafísica até agora, mas de uma forma que ela tomou (e que passou por metamorfoses) nas múltiplas possibilidades possíveis. A mitologia logocêntrica valoriza, do platonismo à modernidade, os valores da ordem, unidade, univocidade, presença, imortalidade e homogeneidade, construindo a partir da sua estrutura vertical uma hierarquia ontológica isomórfica à hierarquia política512. A detenção do jogo na economia do Pai-Logos - ou seja, do platonismo - é sempre comandada pelo que poderíamos nomear de "princípio arcôntico", formando o "arquivo filosófico". O princípio arcôntico rege essa estrutura:

Arkhê, lembremos, designa ao mesmo tempo o começo e o comando. Este nome coordena aparentemente dois princípios em um: o princípio da natureza ou da história, ali onde as coisas começam - princípio físico, histórico ou ontológico -, mas também o princípio da lei ali onde os homens e os deuses comandam, ali onde se exerce a autoridade, a ordem social, nesse lugar a partir do qual a ordem é dada - princípio nomológico513.

A metafísica do Um, portanto, é uma metafísica da soberania. A pulsão totalizante do

511

DERRIDA, Jacques. Glas, p. 191. 512

PROTEVI, John. Political Physics, pp. 64-66, 83. 513 DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo, p. 11.

pensamento ocidental não é apenas um evento teórico. De fato, Derrida não tem uma relação apenas negativa com a teologia, mas procura, na herança de filósofos como Walter Benjamin e Carl Schmitt, perceber o trabalho que ela desenvolveu no campo concreto de ação em que está situada. Nesse sentido, ele esboça uma teologia política que explicita as economias do poder fundadas na soberania estatal e voltadas para a concretização dos impulsos totalizantes e xenófobos que caracterizaram o pensamento grego. A pulsão por ordem nas raízes do eurocentrismo chegou definitivamente ao ocaso no início do século XX, com todo processo de decadência que os tempos depressivos que não só Benjamin, Max Horkheimer e Theodor Adorno (pensadores que integraram mais tardiamente os escritos), mas inclusive Husserl e Heidegger (numa direção restauradora)514 já haviam diagnosticado não por acaso na Alemanha, celeiro da experiência política mais devastadora na perseguição a tudo aquilo que se opunha à unidade, ordem e homogeneidade. Levinas, experimentando na carne essa violência totalizadora, já havia chamado a ontologia grega ao tribunal da ética, ao qual não estava acostumada a comparecer. Derrida nunca negou que sua experiência pessoal (colonialismo, antissemitismo, xenofobia etc.) foi decisiva para a configuração do seu pensamento515.

No entanto, apesar dos esforços arcônticos, a realidade não se deixa reduzir a Um. Sempre há mais e menos que Um. O Um, por isso, é um centro que, ao pretender totalizar a realidade a partir de seu princípio ordenador, não deixa de produzir margens que ele não pode controlar totalmente, como as testemunhas dos campos de concentração (cujo objetivo visava não apenas a apagar os judeus, mas também o próprio arquivo do extermínio; ou seja, configurar a unidade absoluta e sem restos). A impossível totalização é o que permite à metafísica ser ao mesmo tempo monista (totalitária) e dualista (dialética). É dos restos, das margens (as "margens da filosofia") que Derrida parte precisamente. Por essa razão, a desconstrução não é uma estratégia organizada a partir de uma axiomática da qual pode partir com segurança, fundada em âncoras de certeza que seriam a arkhe do texto, daí fazendo derivar filosofemas de modo lógico-dedutivo. O traçado é sempre dado desde a margem, a partir daquilo que não se deixa governar pela economia restrita do platonismo visando à

514 DERRIDA, Jacques. De l'esprit: Heidegger et la question, pp. 94-116. Ver ainda SOUZA, Ricardo Timm de. Husserl e Heidegger: motivações e arqueologias. In: O Tempo e a Máquina do Tempo, pp. 49-80; Adorno e Kafka: paradoxos do singular, pp. 44-49.

desconstrução da oposição sedimentada516.

Platão não apenas delimitou o campo do que é e não é filosófico, excluindo, por exemplo, os sofistas e deixando permanentemente de lado os atomistas, mas igualmente fez um modelo do real a partir do Estado hierarquizado - funcionando a partir da soberania do Pai cuja legitimação está além do próprio logos, uma vez que o fundamenta. A República é o livro da filosofia do Estado517. Pode-se entender a relação de Derrida com a teologia, portanto, na mesma linha dos escritos de Jean-Luc Nancy, Giorgio Agamben e outros autores que procuram pensar o fenômeno da secularização como um processo de deslocamento de estruturas teológicas que, contudo, não as elimina, exigindo por isso que o respectivo debate não seja simplesmente recalcado para que também não seja simplesmente ingênuo. Tradição cujo nascente, apesar das aparências e das diferenças, está na própria crítica à ideologia feita por Karl Marx. A explicitação das estruturas teológicas (ou religiosas) enquanto fatores de poder que mantêm hierarquias sociais é herança inequívoca do materialismo, constituindo, a rigor, uma crítica à ideologia (ainda que esses termos - materialismo, ideologia, teologia, religião, poder - sejam infinitamente reconstruíveis) 518.

...

516 Malabou define o contraste entre desconstrução e Destruktion afirmando que o motivo da primeira não é o ser, mas uma perturbação de todo motivo de "reunião" ou "unidade" da tradição. "Le négatif, ici, est clairement au service de la disjonction, de la dislocation d'une unité formelle" (MALABOU, Catherine. La plasticité au soir de l'écriture, p. 45).

517

DERRIDA, Jacques. La bête et le souverain, v. 1, pp. 84-88. "... el programa antropotecnológico de La República que no debe analizarse como un programa utópico sino más bien como um enunciación paradigmática de una tecnologia gubernamental..." (ROMANDINI, Fabian Ludueña. La comunidad de los espectros, p. 75). É o próprio Platão que, na alegoria de Theuth, convoca o Rei a decidir sobre a validade da escritura. O que não pode significar senão que os dois elementos (político e ontológico) estão miscigenados desde o princípio da filosofia. O princípio arcôntico, como vimos, é aquele que submete todas as esferas - kosmos, physis, nomos, tekhnê - ao Um. Desde sempre a escritura é uma "questão moral". Já na sua primeira manifestação, Sócrates deixa clara a incompatibilidade entre a verdade e a escritura fazendo o paralelo com o "fora de si" que ficam os homens pelo prazer ao ouvir a volúpia do canto, embora ainda nesse momento a condenação se dê de forma mais suave. E, em seguida, é a escritura - o pharmakon - que irá o jogar para fora da cidade da qual não se deveria jamais sair (DERRIDA, Jacques. La pharmacie de Platón (LD), pp. 76, 79, 83). Ver ainda, PROTEVI, John. Political Physics, pp. 115-148; NANCY, Jean-Luc & LACOUE-LABARTHE, P. O mito nazista, pp. 31-34;

Benzer Belgeler