Grup III (Vitamin D grubu) (n=7); 8 Haftalık deney süresi boyunca her gün
3. BULGULAR 1 Klinik Bulgular
3.5.2. Betatrofin Ġmmünreaktivites
3.2.1.1 O "quase transcendental": uma solução insuficiente
Em alguns escritos Derrida, seguido por importantes intérpretes - dentre os quais, por exemplo, Geoffrey Bennington, Rodolphe Gasché e John Protevi - encontram na ideia de
"quase transcendental" uma alternativa para o equacionamento dessa questão. Bennington, por exemplo, descreve assim a questão: "Apenas a idealidade do signo 'eu' permite o movimento de transcendência em relação ao 'eu' concreto que o enuncia: essa idealidade depende da repetição que implica a possibilidade de minha morte como figura de minha finitude necessária. Tendo assim 'produzido' o transcendental, a filosofia situa a morte ao lado do empírico e do acidental, ao passo que ela era necessária para a produção daquilo que agora a secundariza"573. O transcendental, como diz Protevi, estaria em uma relação de subida/descida, a partir do qual, sem se reduzir ao empírico, tampouco seria transcendente. Essa posição gera alguns problemas que não irei abordar574 porque, no lugar de me opôr a ela, procurarei simplesmente oferecer uma via alternativa. A ideia de plasticidade de Catherine Malabou permite a reconfiguração do problema transcendental por uma via diferente do "quase transcendental" no pensamento da escritura que, à época em que a expressão começou a proliferar na obra derridiana, encontra-se em segundo plano. Procurarei recuperar essa dimensão abrindo uma nova janela no hiperlink derridiano. A exposição será dada em seguida e nos capítulos seguintes enfrentarei as objeções - inclusive da própria Malabou - acerca da compatibilidade entre escritura e plasticidade.
3.2.1.2 O sulcamento do transcendental
Como pensar simultaneamente a idealidade e a materialidade sem que o ideal seja reduzido a "epifenômeno" (materialismo vulgar)575 ou o real seja reduzido à "aparência"
573 BENNINGTON, Geoffrey. Jacques Derrida, pp. 192-193. Até aqui, acompanho a posição. No entanto, em seguida o autor faz o paralelo com um elemento "fora-da-lei" que constituiria o transcendental enquanto excluído. Diz ele: "Toda lei se comunica 'finalmente' com um fora-da-lei absoluto que estaria em posição 'transcendental' em relação a toda legalidade dada, e que foi, justamente, chamado de dom da lei, ou promessa" (idem, p. 196). Aqui o autor abdica da imanência para recuperar um transcendental transcendente (mesmo que uma transcendência precária), o que, apesar da recusa de identificação com uma ontologia fundamental, parece ter sido solucionado com maior acuidade pelo próprio conceito de escritura que precede empírico e transcendental sem transcendência, como imanência aberta. Para Bennington, eclode o problema da indecidibilidade. No entanto, essa indecibilidade não precisa ser pensada em termos de transcendental nem de transcendência. O transcendental como efeito da escritura parece, por isso, resolver melhor o problema do que essa "alteridade transcendental".
574 PROTEVI, John. Political Physics, pp. 85-87.
575 O "materialismo vulgar" também poderia ser um "fisicalismo" no sentido forte, reduzindo todo discurso transcendental a um epifenômeno do empírico. Ele acabaria, no entanto, caindo em um psicologismo que não conseguiria pensar as idealidades. Derrida utiliza o argumento husserliano repetindo Suzanne Bachelard contra o empirismo fisicalista (DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, pp. 94-95 e 232; BACHELARD, Suzanne. La
(platonismo)? Como criar uma filosofia do conceito que não seja um formalismo do Livro ou um materialismo que não seja uma filosofia espontaneísta da physis? A fim de pensar a forma sem reificá-la e sem cair no movimento inverso de um empirismo puro, Derrida utiliza a imagem psicanalítica do sulcamento (frayage) para pensar a questão da forma. O sulcamento gera uma "efração do transcendental" cujas marcas constituem a própria idealidade sem que esta possa ser reduzida a epifenômeno do empírico576. Como Husserl mostrara, embora as estruturas da objetividade sejam constructos humanos, elas não perdem com isso sua característica universal e objetiva, reduzindo-se a instâncias psicológicas. No entanto, esse transcendental não pré-existe às condições empíricas; ao contrário, ele somente se apresenta retroativamente. A origem já é uma repetição. É preciso pensar essa arquiescritura em termos de um transcendental e empírico ao mesmo tempo. Curtis já mostrara como a metáfora do Livro implicava a estrutura do sulcamento no papel: essa ideia, que a psicanálise trabalha como "trilhamento" ou "facilitação", corresponde à inscrição das formas no mundo não como resultado de um processo de espelhamento real-ideal, como a metafísica do Livro pensava, mas como campo que precede, na sua efração, a própria cisão que mais tarde será efetivada em empírico e transcendental. A um só golpe o transcendental se materializa e o empírico se formaliza, ainda que essa formalização seja um efeito retroativo de uma materialidade que não se deixa totalizar nem capturar integralmente por um mundo de formas pré-dadas. Tudo isso pode ser resumido na seguinte formalização: o transcendental é o empírico seguindo seu próprio rastro.
A idealidade existe como "suprassensível no sensível", expressão de Marx que Derrida
logique de Husserl, pp. 164-166). Markus Gabriel afirma: "Even though the domain of all domains does not exist, the universe exists qua object domain of physics. There is no problem with the existence of the universe as long as we understand that the universe is just one object domain among others. If it were the only object domain, as physicalism tries to make us believe, then it could not exist, and this goes for anything and everything determinate. And as soon as many object domains exist, the domain of all domains does not exist anymore. Of course, it never existed. As Heidegger thus correctly pointed out, Being is Nothing, for it does not exist" (GABRIEL, Markus. Transcendental Ontology, p. xxvii). Derrida ratifica esse argumento heideggeriano em La vie la mort, seminário no qual, embora subscreva a crítica ao fisicalismo (pensamento do ser como physis) que Heidegger imputa a Nietzsche, termina defendendo o último do ataque com base na própria condição "pós-ontológica" do discurso nietzschiano e na textualização da biologia, que responderia à crítica da entificação realizada pelas ciências regionais (DERRIDA, Jacques. La vie la mort, s/n; ver ainda De l'esprit: Heidegger et la question, pp. 86-88). Veremos em seguida, portanto, como a crítica ao fisicalismo de Derrida não deságua no idealismo, mas em um materialismo não-hilemórfico.
576 DERRIDA, Jacques. Edmond Jabès e la question du Livre (ED), pp. 110-111. Em A diferência, os tradutores optaram por traduzir "frayage" por "sulcamento" (DERRIDA, Jacques. A diferência, p. 51), tradução que, em linhas gerais, adotei. Trata-se da palabra alemã Bahnung, para a qual já foram propostas diversas traduções: por exemplo, trilhamento ou facilitação (p.ex, GARCIA-ROZA, Luis. Introdução à metapsicologia freudiana, vol. 1, pp. 58-62). Forçoso reconhecer, contudo, que o próprio tratamento que Derrida deu à questão do rastro/traço ultrapassa o freudiano, de modo que não necessariamente o sulcamento precisa ficar adstrito ao sentido da palavra germânica Bahnung.
toma emprestada. É seu caráter iterável que irá torná-la ideal. Idealidade e iterabilidade, portanto, estão diretamente conectadas. O que transforma a idealidade não é a duplicação do Livro, mas a capacidade de reproduzir-se em termos de formas no maior número possível de casos. Ao contrário da pirâmide da perfeição inteligível, trata-se aqui da materialidade repetível dada desde baixo, isto é, desde a Terra577. A idealidade se inscreve nessa Khora (Terra), ganhando esse caráter quanto maior é a sua abrangência em termos de reprodutibilidade. O processo de criação das categorias, portanto, não é nem subjetivo nem objetivo: por um lado, é criação humana, invenção conceitual; por outro, nada tem a ver com qualquer internalismo ou psicologismo - todo psicologismo é derivado dessas estruturas que o antecedem de direito. As estruturas são parte da história do rastro enquanto aventura extra- humana, da qual a humanidade é apenas uma parte.
Portanto, a escritura enquanto teoria formal empírica é, ao mesmo tempo, uma teoria transcendental, uma vez que antecede a própria divisão clássica entre empírico e transcendental. Trata-se de uma teoria da forma sem hilemorfismo: sem a crença de que a matéria é substância contingente e a forma, essência necessária578. É o próprio grafema, como veremos a seguir, que marca sua possibilidade e destrutibilidade escrevendo sua estrutura finita, sem estar guiado por nada que o comande de fora. Transcendental e empírico são modos imanentes de economia da escritura. Nenhum fundamento sustenta o real por fora, como transcendência, nada se esconde em um sentido inefável. A mise en abîme não é uma profundidade escondida, mas a própria inexistência desse fundo. A abismo não é um fundo, mas um fundo sem fundo (se fosse um fundo, não seria abismo)579. Não há nome próprio. Nada sustenta esse movimento, por isso, como veremos, a dyferença é nada, esse pensamento não pesa nada, não quer dizer nada. O pensamento formal da tradição metafísica não será ignorado, mas levado a um outro lugar a partir da emergência e liberação da escritura.
577
DERRIDA, Jacques. Introduction (OG), pp. 79-81; idem, De la grammatologie, p. 134, 141; idem, La voix et le phénoméne, pp. 58-59; Limited Inc, p. 19.
578 DERRIDA, Jacques. La voix et le phénoméne, pp. 70-71; Freud et la scène de l'écriture (ED), p. 316. O tema da desconstrução do hilemorfismo por Jacques Derrida é o ponto principal do trabalho de PROTEVI, John. Political Physics, passim, tendo inspirado a tese na questão. O texto de Protevi, por sua vez, é uma leitura de Derrida inspirada na crítica ao hilemorfismo de Deleuze/Guattari e Gilbert Simondon, fonte de todo debate. 579 Em La vie la mort, Derrida faz uma aproximação que sempre evitou, provavelmente prevendo mal- entendidos, entre mise-en-abîme e caos (no sentido grego) a partir da polêmica entre Heidegger e Nietzsche. O caos, no sentido grego, seria uma necessidade sem lei humana ou divina, sem finalidade ou intenção, que resistiria, conforme ressalta a Gaia Ciência, à qualquer antropomorfização e, contrariando a leitura de Heidegger, a qualquer totalização ou fechamento (DERRIDA, Jacques. La vie la mort, s/p). Ver ainda, DERRIDA, Jacques. Khôra, p. 47 e p. 74, nota 4; "deserto abissal e caótico, se o caos descreve primeiramente a imensidão, a desmesura, a desproporção no escancaramento de uma boca aberta" (idem, Espectros de Marx, p. 47, trad. modificada; Spectres de Marx, p. 56; De la grammatologie, p. 233).
3.2.1.3 Do signo ao grafema
O rastro é sempre rastro finito de um ser finito. Ele mesmo pode, portanto, desaparecer. Um rastro indelével não é um rastro. O rastro inscreve em si mesmo sua própria precariedade, sua vulnerabilidade de cinza, sua mortalidade. Tentei tirar todas as conseqüências possíveis desse axioma, no fundo muito simples. (DERRIDA, Jacques. "Outrem é secreto porque é outro").
O signo tem a peculiaridade de reunir ideal e material, inteligível e sensível. Hegel já demonstrara que o signo é precisamente o medium, o lugar de passagem no qual as dualidades kantianas encontram a respectiva articulação580. Bidimensional (significante e significado), ele transborda a materialidade e a imaterialidade a uma só vez, uma vez que se trata de um conceito relacional581. Com o signo, Derrida enxerga um elemento que permite cruzar a separação entre empírico e transcendental, material e ideal, sem se reduzir a nenhum dos pólos582. Na sua bimensionalidade, ele evita a reificação da idealidade, característica do idealismo (à medida que pressupõe um mundo paralelo de idealidades) e de algumas formas de realismo (quando projetam a existência de entidades matemáticas ou morais no mundo, por exemplo), mas ao mesmo tempo dispensa a existência do "referente", à medida que este sinaliza uma ontologia da substância (materialismo, empirismo ou fisicalismo). O signo, portanto, permite pensar, a partir do campo da linguagem, um fenômeno cuja existência é dada sem a forma do um. Seu caráter diferencial lhe concede a forma de um feixe, fora dos quadrantes tanto da reificação essencialista do eidos quanto da substancialista do referente (ou da "coisa"). É uma forma de contornos relacionais que se dá no intervalo diferencial, sem se reduzir a qualquer dos dois pólos. Em síntese e como explica Maniglier, "o signo não é tanto um tipo empírico que uma correlação entre os limites de variação"583.
Após analisar as teorias do signo de Saussure (semiologia) a Hjelmslev (glossemática), Derrida acompanha Peirce, tido como momento mais radical, em torno de
580 DERRIDA, Jacques. Le puits et la pyramide (MP), pp. 91-92. 581 WAHL, François. Estruturalismo e Filosofia, p. 16.
582
"Afirmar o arbitrário fundamental do signo é simplesmente reafirmar, de outro modo, que não há, em primeiro lugar, signos, mas sempre, em primeiro lugar, línguas, ou em outras palavras, há uma estrutura, irredutível às aderências particulares dos elementos que ela põe em jôgo. Em têrmos hjelmslevianos, a forma não está contida nas substâncias" (WAHL, François. Estruturalismo e Filosofia, p. 35).
583
MANIGLIER, Patrice. Térontologie saussurienne : ce que Derrida n'a pas lu dans le Cours de linguistique générale, p. 385. Ver ainda DERRIDA, Jacques. La différance (MP), pp. 11-12.
uma visão realista dos signos. A arbitrariedade do signo, seu devir-imotivado584, transpõe as fronteiras entre natureza e cultura, gerando como seu efeito as oposições entre physis e seu outro. O projeto semiótico de Peirce estaria atento a esse devir-imotivado: ao reconhecer a dependência do simbólico em relação não-simbólico, ele não recua diante da hipótese, mas faz os símbolos remeterem a outros símbolos que não dependem de uma lógica para se constituir. Para Peirce, os signos não representam coisas, mas as coisas são signos:
Peirce vai muito longe em direção ao que chamamos mais acima a desconstrução do significado transcendental, que, num ou outro instante, daria um final tranqüilizante à remessa de signo a signo. Identificamos o logocentrismo e a metafísica da presença como o desejo exigente, potente, sistemático e irreprimível, de um tal significado. Ora, Peirce considera a indefinidade da remessa como o critério que permite reconhecer que se lida efetivamente com um sistema de signos. O que enceta o movimento da significação é o que torna impossível a sua interrupção. A própria coisa é um signo585.
E, de outro lado, não podemos pensar senão em signos (argumento contra o realismo direto ou intuicionismo). Sendo a semiótica referência direta na área das práticas de informação, compreende-se por que todo esse campo, como anunciava Derrida, hoje cobre o espaço do virtual que a filosofia reservava para um âmbito suprassensível e muitas vezes inefável. O virtual, para Peirce, é aquilo que "funciona como", sendo a mente e os estados mentais, por isso, virtuais586. Peter Skagestad, por exemplo, assinala que a afirmação de Peirce de que "todo pensamento é em signos" pode ser interpretada como "todo pensamento é materialmente corporificado"587. Nesse notável texto, Skagestad mostra como para Peirce não apenas a tinta da caneta faz parte do pensamento tanto quanto o lóbulo cerebral, como sustenta que sem ela esse pensamento não seria possível. Infelizmente o gap fundado no
584 Em "Da Gramatologia", Derrida usa diversas vezes a expressão "devir-...", nunca traduzidas dessa forma, mas pelo equivalente "vir a ser...", na versão brasileira. Não se pode subestimar no caso a influência de Gilles Deleuze, cuja interpretação de Nietzsche é citada mais tarde em "A dyferença", no tema. Nesse caso a tradução brasileira, embora correta, acaba involuntariamente ocultando esse possível vínculo (p.ex., DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 43, 69, 100; idem, A Gramatologia, p. 34, 58, 85, mas diversas vezes depois).
585
DERRIDA, Jacques. No original: "Peirce va très loin dans la direction de ce que nous avons appelé plus haut la dé-construction du signifié transcendantal, lequel, à un moment ou à un autre, mettrait un terme rassurant au renvoi de signe à signe. Nous avons identifié le logocentrisme et la métaphysique de la présence comme le désir exigeant, puissant, systématique et irrépressible, d'un tel signifié. Or Peirce considère l'indéfinité qu'on a bien affaire à un système de signes. Ce qui entame le mouvement de la signification, c'est ce qui en rend l'interruption impossible. La chose même est un signe" (De la grammatologie, pp. 71-72).
586 SKAGESTAD, Peter. Peirce Inkstand as an external embodiment of mind, p. 554.
587 SKAGESTAD, Peter. Peirce Inkstand as an external embodiment of mind, p. 554. Mais adiante veremos como a construção de Derrida radicaliza as teorias da embedded e embodied cognition. A referência veio de: RANSDELL, Joseph. A relevância da semiótica perceana para uma inteligência computacional aumentada, pp. 163, 171, 173.
preconceito obstaculizou aproximações entre Peirce e Derrida, impedindo muitos filósofos de perceberem que a teoria da escritura não é outra coisa senão essa teoria da inscrição generalizada, inclusive daquilo que a filosofia tradicionalmente opunha ao material como "ideal"588 (voltarei a esse ponto mais tarde).
Portanto, o signo como linha intermediária entre real e ideal, inteligível e sensível, ultrapassa a linha platônica que separava os dois mundos, configurando algo que penetra dos dois lados da oposição como condição de possibilidade para ambos. Mas seria necessário pensar um signo que não dependesse do significado transcendental nem o respectivo privilégio fônico-espiritual, o que só é possível cancelando a própria ideia de signo, que não sobrevive sequer com a inversão do valor entre significante e significado589. Um signo sem nome próprio seria um gramma, grafema, traço ou rastro (trace). O grafema, "átomo não- simples" da escritura, é aquilo que ocupa o lugar antes reservado ao signo pelo estruturalismo. O grafema é uma condensação da dupla face do signo em um único traço infinitamente divisível cuja polidimensionalidade é superficial, mas infinita. Por isso, como afirma Catherine Malabou, a gramatologia é uma "semiologia sem signos"590, tomando a semiologia como a ciência transveral que para Saussure ultrapassa a própria dimensão da linguagem. É o movimento que, após inverter a hierarquia da escritura diante da linguagem, abre a possibilidade da arquiescritura, da qual a linguagem é apenas um caso. A escritura desliza do sentido metafórico (a era do Livro, lembre-se, é a era da teologia, da metafísica e da
metáfora) para o sentido metonímico, tomando o lugar do logos.
Ideal com materialidade, real sem substância. Esse ponto de encontro é exatamente o
topos que permite ultrapassar a cisão de mundos que a própria lógica hilemórfica procurou
588 SKAGESTAD, Peter. Peirce Inkstand as an external embodiment of mind, p. 551. Como veremos mais tarde, o pensamento do subjétil é essa radicalização peirceana, relacionando o conteúdo do pensamento com a forma da sua superfície. Ver ainda, DELEUZE, Gilles. Em que se pode reconhecer o estruturalismo? In: A Ilha Deserta, p. 231 ("Da estrutura, diremos: real sem ser atual, ideal sem ser abstrata").
589 François Wahl expressa isso com precisão: "Isto quer dizer que a essência do signo é o cancelamento do signo: pois o conceito de signo formou-se na filosofia da intuição, na metafísica da presença, na lingüística da palavra, a partir de uma presentação e de sua re-presentação modificadora, a partir, portanto, de uma derivação, e no horizonte sempre mantido, de uma supressão do desvio do significante para um retôrno à mesmidade do significado. E, neste sentido, tôda organização do tipo significado-significante está grávida de redução ao significado, grávida do logocentrismo. Para salvar o signo, para 'restaurar a originalidade e o caráter não derivado' de sua dualidade, é preciso paradoxalmente cancelar um conceito de signo, cuja História tôda e cujo sentido todo pertencem à aventura da metafísica da presença'. Até na semiologia estrutural, inclusive" (WAHL, François. Estruturalismo e Filosofia, p. 140). Em seguida, Wahl defende de modo muito interessante o estruturalismo diante da acusação derridiana (idem, p. 145-165). Ainda: DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 73.
590
MALABOU, Catherine. The end of writing? Grammatology and plasticity, p. 432. Ainda: DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, pp. 74, 86; La différance (MP), p. 16.
desenvolver. Uma teoria das formas sem matéria não é apenas vazia (como Kant e depois Hegel já haviam demonstrado), mas inviável. A precedência da escritura como condição da geometria, repetida nas práticas de informação contemporâneas, prova de que o transcendental não se constitui sem um suporte empírico e fornece uma imagem de possível generalização para ultrapassar a mais poderosa entre as dicotomias filosóficas. Cruzar forma e matéria significa atravessar empírico e transcendental, real e ideal, inteligível e sensível, ser e ente. Significa pensar aquilo que permite suturar a fronteira entre o formal e o material. Por isso, "materialismo da ideia", relembrando Hyppolite lendo Mallarmé (que, ao contrário de Marx, não vira Hegel "de cabeça para baixo", repetindo a metafísica como espelho invertido, mas cria um ponto de fuga da totalização, abrindo a imanência do discurso hegeliano).
O grafema enquanto átomo não-simples não pode ser algo sem forma (materialismo atomista-substancialista), nem pode ser submetido por uma forma externa a ele (idealismo hilemórfico). O grafema é uma forma divisível e relacional591. Como até mesmo Alain Badiou admite, a grafemática é conceitual, seguindo a tradição da filosofia do conceito592, e não da filosofia da physis. Se a tradição sempre pensou a forma como inteligível, opondo à matéria sensível, tratar-se-á de subverter a própria dualidade, infiltrando no processo de formação da
forma a temporalidade que desconstrói as nossas próprias categorias de pensamento593. "A prática da língua ou do código", afirma Derrida, "pressupondo um jogo de formas, sem substância determinada e invariável, pressupondo igualmente na prática desse jogo uma retenção e uma protenção das diferenças, um espaçamento e uma temporização, um jogo de