As at ividades desenvolvidas na fazenda do Cilho são um dos result ados do processo de const rução da Terra do Tropeirism o. São produt os criados a part ir de hist órias, m em órias e locais de m em ória que fazem part e da com unidade sent ir- se e apresentar- se com o herdeira dos t ropeiros. At ividades m ovim entadas, canalizadas, incent ivadas pelas ações da professora Lucila e, consequent em ent e, os frutos colhidos do Senat ro. Paradoxalm ent e, ao m esm o t em po em que são resultados, são, assim com o as ações políticas e de pesquisa da professora, t am bém vet ores pot encializadores da m em ória, da const rução e da represent ação da ident idade t ropeira cont em porânea, em Bom Jesus. São as ações dos suj eitos criadores desses elem entos que, som ados a outros aspectos e suj eit os, que serão explorados no capít ulo seguint e, m ovim ent am pessoas na direção do pert encim ent o e da apropriação desse passado, bem com o no desenvolvim ent o do processo const rutivo da Terra do Tropeirism o.
O sem inário, o criat ório de m ulas, os depoim ent os e aparições na m ídia de Manoel Gaspar, as ações educat ivas e o desenvolvim ent o de produções art esanais e de suvenires são exem plos de elem ent os que produzem signos referenciais, os quais obj et ivam m ost rar o t ropeirism o e a origem t ropeira da população de Bom Jesus. Um tropeirism o que, apesar de, com o afirm a Cláudio Borges, pret ender seguir na “ sequência da vó” , represent a um passado
idealizado, um discurso que é frut o do t em po present e, carregado de sent idos que, de form a conot at iva, rem et em a esse agent e do passado, o t ropeiro, e m it o fundador da sociedade contem porânea bom - j esuense ( OLSEN, 1990, p. 169) . Ao pret enderem m ost rar aos de fora a origem cult ural da cidade, seu m it o profano, nos heróis da “ saga dos t ropeiros” , produzem art efat os, at ividades t uríst icas e out ros produt os, elaborados a part ir de event os, m em órias e hist órias. Elaboram sist em as de significações que levam o t urist a ao ent ret enim ent o, fornecem às unidades fam iliares envolvidas sua m anut enção econôm ica e, à com unidade com o um t odo, a apropriação “ daquele t em po” , um t em po em que se propõem a dar cont inuidade aos event os e ações de seus ant epassados, inspirados em t ropeiros do século XVI I I ( com o t rat ado no capít ulo ant erior) .
Através dos obj etos que rem etem ao tropeirism o com o atividade de t em pos passados, cont em plados num horizont e de expect at iva que elabora a nostalgia do fut uro ( JORGE, 2000) , discursos são const ruídos. Os próprios grupos sociais, at ravés dos obj et os e produtos do t em po present e, elaboram um m et adiscurso sobre o passado ( OLSEN, 1990) . A m at erialidade da cult ura nada m ais é do que esse m etadiscurso sobre as coisas do passado, sobre os art efat os a ele relacionados, m esm o que confeccionados na cont em poraneidade, apresentados com nova essência para construção de identidades e consum os do t em po present e. Nossa t arefa não é recuperar um a origem perdida, m as criar um a int eligibilidade para o nosso próprio t em po ( OLSEN, 1990) , um a vez que t am bém elaboram os discursos a part ir de nossos cont ext os de vivências e perspect ivas de m undo.
3 ELES, OS TROPEI ROS
A “ Terra do Tropeirism o” : m ais do que um a sim ples expressão ou slogan, represent a ident idade. O processo const rut ivo de um a represent ação de si diant e dos out ros. Um a ident idade alicerçada na elaboração da hist ória a part ir das m em órias locais; na m em ória inspirada no pert encim ent o ao passado rem ot o ( século XVI I I ) que alim ent a o caldo cult ural do t em po present e, conform e t rat ado no capít ulo 1. Um a m ist ura de t em pos que t razem o t ropeirism o ao cont ext o cont em porâneo, com o discut ido at é ent ão.
Nest e capít ulo, proponho- m e abordar a const rução da Terra do Tropeirism o at ravés dos m at eriais publicit ários a ela relacionados, proj et os locais e regionais. Com o suport es e vet ores m at eriais ou virt uais de represent ação ident it ária, m em ória e produto t uríst ico, as peças publicit árias são dot adas de significados e represent ações que rem et em à const rução de prát icas t uríst icas desenvolvidas na conveniência dos usos da cult ura ( YÚDI CE, 2004) . Represent ações, para os de fora, deles, os t ropeiros, apresentados com o “ herdeiros” da cult ura const ruída no hoj e, represent ada por correlat os m at eriais e suas m at erialidades, elaborada nas ações e prát icas discursivas de diferent es suj eit os que t êm com o obj et ivo buscar, m esm o que inconscient em ent e, elem ent os represent at ivos e, ao m esm o t em po, vet ores correlat os, const rut ores e pot encializadores da ident idade t ropeira na cidade. Esses elem ent os correspondem a part e do repert ório pat rim onial57 at ivado e criado pelos grupos diret am ent e envolvidos na const rução ident it ária. Para t ant o, serão necessárias algum as reflexões sobre ident idade, pat rim ônio e t urism o.
Muit o além de um conj unt o conceit ual em voga na at ual lit erat ura, ident idade e pat rim ônio represent am a base das construções turísticas deste século. Os saberes e as representações locais ganham espaço a cada ano na busca do desenvolvim ent o sust ent ável a part ir de econom ias criat ivas ( YÚDI CE, 2004) fom entadas pelo turism o cultural, hist órico e arqueológico. Cont udo, o pat rim ônio, inserido em at ividades t uríst icas, não se resum e a font e de renda para com unidades econom icam ent e pouco at ivas.
Essa dim ensão m ais explicit am ent e ut ilit ária do pat rim ónio convive com as [ …] dim ensões polít ica e sim bólica, num a relação de com plem ent aridade e retroalim entação, pois os referentes sim bólicos fornecem os m otivos que alim entam a indústria turística e a indústria turística recria os elem entos culturais e a própria história, em anando novos referentes sim bólicos que dão subst ância à im aginação colect iva, int egrando- se na “ m it ologia ret rospect iva” que sobre o pat rim ónio é erigida e acrescent ando- lhes novos elem entos. ( PERALTA, 2003, p. 87) .
Nesse sent ido, pat rim ônio designa um bem dest inado ao usufrut o de um a com unidade – am pliado a dim ensões m aiores – const it uído pela acum ulação cont ínua de um a diversidade de obj et os que se congregam por seu passado- present e com um . O significado at ribuído ao pat rim ônio e à ident idade com o recursos est á int rínseco na dinâm ica cult ural e contém com plexidades que, por vezes, passam despercebidas, bem com o int eresses diversos present es em seus cont ext os de produção ( FI GUEI REDO, 2005, p. 44) . Aqui o cent ro da reflexão não será a discussão do patrim ônio e da identidade em si, m as sim os processos que os fazem presentes, o processo de sua const rução e int ersecção a part ir de diferent es ações e produt os, na dinâm ica cult ural convenient e, na experiência com / da cult ura m at erial de um repert ório no hoj e at ivado.