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Cert a vez, por volt a de 1551, o rei de Port ugal, Dom João I I I , conversava com a rainha, Cat arina d’Áust ria, sobre um present e a ser enviado ao arquiduque aust ríaco Maxim iliano I I , em função de seu casam ento com a filha de Carlos V,

ocorrido fazia quat ro anos. O present e enviado na ocasião do casam ent o, segundo Dom João I I I , não est ava digno de união t ão im port ant e. Cat arina, na busca por alt ernat ivas que resolvessem o problem a, sugeriu que Salom ão fosse o present e. Salom ão, ele m esm o. Um elefant e que, vindo da Í ndia, est ava em Port ugal fazia dois anos, no m ais profundo ócio. Quando chegou naquelas t erras peninsulares Salom ão era visit ado por t odos, o centro das curiosas at enções e aplausos infant is e adult os. No ent ant o, t ornou- se conhecido e, por isso, cot idiano. O coit ado caiu no esquecim ent o. O elefant e, que out rora fora um ast ro, est ava aos cuidados do t am bém indiano Subhro, seu cornaca, e com ele esquecido no t em po e no espaço. Present e apenas, e quem sabe som ent e pela fagulha da lem brança, na m em ória da Rainha.

Cat arina, t alvez preocupada em dar um dest ino út il ao elefant e, convence Dom João I I I de fazer de Salom ão o present e. Ent ret ant o, fat o que ela sequer deve t er im aginado, seu papel foi det erm inant e para a hist ória do esquecido, e agora centro do assunto, Salom ão. O elefant e foi, pela rainha e os dem ais que com ele est iveram envolvidos na elaboração de seu novo significado, at ivado. Com punha part e do repert ório do present e de casam ent o. Ao iniciar a viagem rum o ao local de dest ino, Viena, para ser ent regue ao present eado arquiduque, o elefant e se t ornou lem brado pelos que j á o conheciam . Foi feit o obj et o de curiosidade e conhecido por aqueles que o viram pela prim eira vez ou dele ouviram falar. Um a nova função foi dada ao at ivado Salom ão, ser um present e. Um novo significado e papel social foi dado ao elefant e, um present e de reis, de poderes, diplom acia, gent ileza e laços polít icos nele sim bolizados. Um obj et o passado que se t ornou present e, do relam pej o de lem brança na m em ória de Cat arina d’Áust ria. At é fazer part e do cot idiano e, em consequência, do esquecim ent o m ais um a vez ( SARAMAGO, 2008) .32

Cert a vez, por volt a de 1992, um a professora cham ada Lucila Maria Sgarbi Sant os t am bém , assim com o a Cat arina, t irou um elefant e da m em ória e levou o seu Salom ão para um novo cam inho, para o da hist ória.33 Porém , o elefant e não se cham ava Salom ão, com o o dos reis de Portugal, cham ava- se tropeirism o. A professora colocou em prát ica nossa t arefa de hist oriadores e arqueólogos,

32 História presente na obra A viagem do elefante. Coloco “ história” e não “ estória” , por esse livro tratar de um evento que ocorreu, a viagem do elefante com o presente, apesar de fazer parte de um a obra fictícia.

cientes de sua inserção num contexto específico do tem po presente: a de trazer os “ elefant es” para o hoj e. Com nova roupagem e essência, t irá- los do passado, do em poeirado esquecim ent o, das m em órias. At é que novam ent e o deixam os de lado, para t razer out ro elefant e, a part ir de out ro proj et o, ou relem brar o m esm o e conhecer, de form a m ais profunda, um elefant e j á fam iliar, com novo significado e out ra razão prát ica.

O tropeirism o, em Bom Jesus, rem et e a um a at ividade cot idiana do passado de boa part e da população. Com o j á post o, e percebido at ravés das ent revist as realizadas, m uit os m oradores da cidade t êm ou t iveram pai, m ãe, avó ou avô que, de diferent es m aneiras, est iveram envolvidos com essa prát ica. Um fazer que, de t ão present e e cot idiano, assim com o o Salom ão enquant o estava em Portugal, ficou no passado, m as sem pre esteve lá com pondo um invent ário de elem ent os pot encialm ent e ativáveis em novos repert órios. A part ir do ano de 1992 o “ elefant e” , em Bom Jesus, foi revist o. Dot ado de novas funções, novos significados e novos at rativos. Com nova essência e roupagem , com o o Salom ão.

O ano de 1992 m arcou a t raj et ória da produção de conhecim ent o sobre o t em a, bem com o a hist ória do m unicípio de Bom Jesus. Naquele ano, a professora Lucila Maria Sgarbi Sant os concret izou um obj et ivo idealizado desde out ros t em pos. Foi dado início ao I Sem inário Nacional sobre Tropeirism o. Com apoio de pesquisadores interessados pelo t em a, oriundos de out ras cidades e estados, bem com o da Prefeit ura Municipal de Bom Jesus, nascia o I Senat ro, com obj et ivos cent rados na const rução de um espaço de diálogo ent re pesquisadores de outras regiões e no incentivo às novas pesquisas. Mas falar sobre o papel do Senat ro na const rução da Terra do Tropeirism o é algo sem sent ido, se não falarm os da professora Lucila nesse processo. Daquela que m ovim ent ou o “ Salom ão” nas m em órias da com unidade.34

34 Faz- se necessário retom ar aqui o que j á foi post o no início deste capítulo: o tropeirism o não é um a invenção de agentes contem porâneos. Estes, por sua vez, m ovim entaram os com plexos espaços e em aranhados das m em órias presentes a várias gerações na com unidade local. Seu papel é central nos novos usos e significados atribuídos às m em órias e aos lugares de m em órias ( NORA, 1993) , construção do pat rim ônio e da identidade. Esses agent es são, paradoxalm ente, produto e m otor da construção da Terra do Tropeirism o. Agentes ativadores de repertório patrim onial.

Net a de t ropeiro e filha de um agricult or que part icipou, com o m adrinheiro,35 das tropeadas do pai – o que em Bom Jesus tem poucas chances de ser diferent e – Lucila t eve essa at ividade no cot idiano e nas m em órias de sua fam ília.36 Em 1965 form ou- se em pedagogia, t rabalhou em escolas rurais e escolas da área urbana, superou m uit as dificuldades do desafio de ensinar sem os suport es m at eriais e est rut urais desej ados. Fez especialização em orient ação educacional, no ano de 1971, e anos m ais t arde, em 1974, pós- graduação em Mét odos e Técnicas de Ensino, na PUCRS. Mas, desde o início da década de 1960, trabalhava com o professora nas fam osas brizoletas.37 Em m eados dos anos 1980, era supervisora educacional da escola I rm ãos Ram os, em Bom Jesus. Na busca por m elhores m et odologias de ensino e de incent ivo ao corpo docent e da escola, idealizou, em conj unt o com o professor Luiz Albert o Marques, um curso para professores do m unicípio. A paut a do curso foi m et odologia de t rabalho dos professores a part ir dos saberes locais, da valorização do pat rim ônio e das hist órias dos suj eit os. Ao final da experiência, no ano de 1991, os docent es acharam t udo m uit o int eressant e e provocativo. No ent ant o, o m aior desafio est ava lançado, segundo relat ou Lucila, o de colocar t udo em prát ica.

A propost a do professor convidado, cham ado por Lucila de Bet inho, foi m ais desafiadora ainda. Deveriam , os docent es que part iciparam do curso, m ont ar um a exposição com o art esanat o, im agens, saberes, et c., de Bom Jesus. Aceit aram o desafio post o. No ent anto, Lucila acredit ava38 que sequer exist ia artesanato em Bom Jesus, m as levaram adiante a tarefa para a resolução da at ividade.

[ …] no final ele disse assim : “ Agora vam os, nós vam os fazer um a exposição do artesanato e de fotografias” . “ Tá, vam os fazer! ” Mas, nós acham os: “ O artesanato em Bom Jesus, m as da onde nós

35 O m adrinheiro ou a m adrinheira de tropas são indivíduos, m uitas vezes crianças, que seguem à frente da tropeada, m ont ados na égua m adrinha. Um a égua que, com um sino no pescoço e, algum as vezes, enfeitada, conduz a tropa. É o sinuelo da viagem .

36 As inform ações apresentadas sobre a traj etória de vida de Lucila Maria Sgarbi Santos são provenientes de duas ent revistas, a prim eira, realizada em set em bro de 2005 por Luciane Sgarbi Santos Grazziotin, durant e o desenvolvim ent o de sua tese de doutorado em Educação na PUCRS ( GRAZZI OTI N, 2008) , a quem aqui deixo m inha im ensa gratidão pela disponibilização da entrevista. A segunda, realizada em j aneiro de 2009 por m im , para fins deste trabalho ( Apêndice A.1) .

37 Escolas construídas em prédios de m adeira, por todo o Rio Grande do Sul, com a m esm a arquitetura, durante o governo de Leonel de Moura Brizola, com o parte do proj eto de expansão do ensino no est ado.

38 Tanto na entrevista realizada em 2005 por Luciane Sgarbi Santos Grazziotin ( 2008) quanto na realizada por m im em 2009 ( Apêndice A.1) .

vam os tirar artesanato aqui?” Menina, quando nós fom os organizar o espaço, fizem os no CTG, que é um local grande, não tinha m ais espaço de tanta coisa que surgiu, bordado, ahn, franj as, tram as, trabalho em m adeira, o próprio trabalho que o Enor faz com , com , de ossos, fazendo cabos de facas, essas coisas. Enfim , aquelas coisas que fazem parte do dia- a- dia da gente e que tu olha com o um a coisa que é norm al, que aquilo é da vida, do cotidiano, e não vendo com o um a, com o um a arte, com o um a coisa im portante. A partir daí eu disse, bom , agora eu acho que nós vam os com eçar a lidar com os nossos tropeiros, aí eu j á enxerguei um cam inho [ …] . ( Lucila Maria Sgarbi Santos, Apêndice A.1) .

Da experiência do curso e da est rut uração da exposição, que parece t er sido um sucesso total, novas portas se abriram e outros desafios foram encont rados.

Aí, pensam os m uito e organizam os, m ontam os um proj eto, que int it ulam os “ resgat ando nossas raízes” … a m et odologia, foi o prim eiro obj et ivo dele, era conhecer a história do m unicípio de Bom Jesus, através de quem a viveu e de tudo que fez parte desse processo de form ação histórica do m unicípio. Com o, nós íam os fazer? Aí, organizam os subproj etos, o prim eiro subproj eto foi cham ado “ reconstruir a história at ravés da m em ória oral: ouvindo e lem brando” , cham ou esse prim eiro subproj eto. Então partim os para um a… para um levantam ento de m em ória oral, eu fiz um treinam ento em Porto Alegre, um curso que teve de um serviço estadual de m useus e li um xerox de um livro que agora eu não est ou lem brada o nom e, m as eu tenho em casa o xerox de com o se organizar, com pram os um gravador, fizem os prom oções para com prar o gravador e a m áquina fotográfica para a secretaria, que não estavam previstas no orçam ento essas despesas, aí foi através de lei, o prefeit o propôs um a lei, criando o Depart am ent o de Cult ura e estruturando esse Departam ento de Cult ura, não criando, que existia j á, m as organizando, dando os obj etivos, o que faria parte desse departam ento [ …] .39

Desde o início de sua carreira com o docente e do curso realizado em 1991, Lucila conduz, de form a m uit o diplom át ica e produtiva, as relações com o poder público, no qual buscou e, de várias form as e int ensidades, encont rou apoio na est rut uração de ações em prol de seus proj et os. Com m aest ria t ransit a nas relações ent re proj et os – Secretaria Municipal de Educação e Cult ura – Prefeit ura Municipal – com unidade.

Em 1992 surgiu o Senat ro. Nesse m om ento, o envolvim ent o de Lucila com o tropeirism o não se fechou som ente em suas vivências e m em órias fam iliares,

39 Entrevista com Lucila Maria Sgarbi Santos, realizada em 21 de setem bro de 2005 por Luciana Sgarbi Santos Grazziotin ( 2008) com o parte de sua pesquisa de doutorado na Pós- Graduação em Educação da PUCRS. Transcrição da ent revistadora.

m as t am bém em sua at ividade de pesquisadora. Principalm ent e, quando percebeu que, nas ent revist as que realizou, para o proj et o “ resgat ando nossas raízes” , ao pergunt ar a profissão do ent revist ado, ou de seus pais, os t erm os “ t ropeiro” e “ m adrinheiro” eram recorrent es. I nicialm ent e, desej ou organizar um event o para discut ir os m angueirões e os corredores const ruídos em pedra. Ent ret ant o, ao conversar com colegas, concluíram que t al t em a seria esgot ado em dois ou t rês encont ros. Foi ent ão que surgiu a ideia de fazer algo m ais am plo, um sem inário para discut ir o tropeirism o em suas diversas facet as.

Na prim eira edição do sem inário, Lucila relat a que não t inham experiência na organização de event os desse t ipo; não havia, por exem plo, um espaço reservado para apresentação de com unicações. Superados os prim eiros problem as, o sem inário foi aberto com direito a com unicações, palestras e visitas a lugares hist óricos relacionados ao t ropeirism o no m unicípio. No I Senat ro não houve espaço para os relat os de experiência. No ent ant o, ao ver que os ex- t ropeiros( as) e ex- m adrinheiros( as) que part icipavam do event o est avam sem pre cercados de pesquisadores que faziam pergunt as o t em po t odo, propôs, na segunda edição, reservar um espaço para esses relat os. O m om ent o dos sem inários em que os relat os foram apresent ados variou m uit o. Já est iveram num a m esa única, inscritos com o com unicadores, etc. Enfim , o que é aqui m ais significat ivo é que esses relat os fazem part e do event o e que represent am , além da socialização dessas font es de pesquisa – as experiências e m em órias –, um canal de valorização das t raj et órias de vidas, da história local, do ingresso de novos suj eit os na hist ória, da valorização do pat rim ônio ligado ao saber/ fazer dos t ropeiros. E, com o frut o colhido do espaço abert o, o aum ent o da aut oest im a dos relat ores e da com unidade com o um t odo. A agência dos suj eit os hist óricos é post a em paut a. Cum prindo assim um im port ant e papel social. As palest ras ficam a cargo do que Lucila cham a de “ vacas sagradas” , sem deixar de dar espaço para a com unidade, para a realização e part icipação em oficinas, com unicados, et c.

A cada Senatro são proporcionadas visitas a algum sít io arqueológico ou out ro local relacionado ao t ropeirism o, t ais com o: corredores de t ropas, fazendas, o criatório de m ulas, o Museu e Arquivo Municipal, etc. O sem inário é int errom pido por um dia, ou um t urno, para o desenvolvim ent o da at ividade de visit ação, geralm ent e acom panhada de um delicioso alm oço de confrat ernização,

onde é servido um churrasco ou com idas tropeiras, sobre as quais com entarei m ais adiante.

No prim eiro sem inário a visit ação ocorreu no que era ent ão o 4º Dist rit o de Bom Jesus, hoj e m unicípio de São José dos Ausentes,40 com alm oço de confrat ernização na fazenda do Arvoredo. O obj et ivo era m ost rar aos part icipant es os m angueirões de t aipa.41 Em novem bro de 1993, ano de lançam ent o do sem inário seguint e, de 1994, foi prom ovida um a cavalgada, a “ Cavalgada da I nt egração” , ent re o m unicípio de Lages e Bom Jesus. A integração se deu at ravés do Passo de Sant a Vit ória, na t ravessia dest e. Esse local, aqui abordado, na perspect iva de Nora ( 1993) , com o lugar de m em ória, est á além da condição de cenário à hist ória. Trat a- se de um lugar ( THOMAS, 1996) replet o de significados que denot am a atividade tropeiríst ica. O correlato m at erial represent at ivo da const rução da ident idade calcada nesse fazer do passado.

Figura 6 – Cavalarianos bom - j esuenses na fazenda da Guarda, 1˚ Distrito de Bom Jesus, local de partida para encontro dos cavalarianos de Lages, e faixa do lançam ento do I I Senatro. ( Fot os: Lucila

Maria Sgarbi Santos. Em : 23/ 11/ 93. Acervo: Museu e Arquivo Municipal de Bom Jesus. Códigos de localização: 1915 e 2941, respect ivam ent e) .

40 O m unicípio de São José dos Ausentes foi em ancipado de Bom Jesus em 1992. A em ancipação significou um im pacto negativo nos proj etos turísticos de Bom Jesus, um a vez que os tão visitados e atraentes Aparados da Serra passaram a pertencer a São José dos Ausentes.

41 As m angueiras ( currais) são estruturas construídas para proteger o gado, m antê- lo preso. São com o cercados e podem ter form ato circular, retangular, quadrado, etc.; “ taipa” é o term o regionalm ente utilizado para designar m uros construídos em pedras encaixadas, sem rej unte. Para im agens e com entários sobre essas construções ver Silva, A., ( 2006) .

Benzer Belgeler