ĐLGĐLĐ ARAŞTIRMALAR
Etkinlik 15- Dikdörtgenden kare yapma: Çizim veya inşa sonucu elde edilen kare ve dikdörtgen modellerinde açıların birer dik açı ve köşegenlerin birbirini ortalayan
Creio que só uma geografia do uso efectivo dos manuais poder-nos-á dar, com segurança, esta resposta. Para o caso do Algarve, apenas conseguimos esse mapeamento geral na segunda metade do século XIX, recorrendo aos resultados das inspecções às
escolas primárias209
. No entanto, é possível acompanhar, desde Quinhentos, a marcha de impressos didáctico-pedagógicos que foram colocados a circular na região, no quadro
das resoluções tridentinas210
.
D. João de Melo e Castro (1549-1564) preparou, em língua portuguesa, a Doc- trina de prinçipios e fundamẽtos de christãndade, destinada ao bispado. A edição, cujo
único exemplar conhecido não dispõe de pé de imprensa211
, julga-se que terá sido im- pressa por Germão Galharde, numa data situada entre 1549 e 1553, pois nas Consti-
tuicoens do bispado do Algarue212
preparadas pelo bispo em 1554, resultantes do Síno- do desse ano, pode ler-se a alusão àquela obra:
Ordenamos e mandamos que todos aquelles que se ouuerem de ordenar e pro- mouer aa primeira clerical tonsura e aas quatro ordeẽs menores saibam o pater noster e a
209 CUNHA, Abílio da (relator) – Inspecção às escolas primárias. [Ms.] 1863. Acessível em ANTT,
Lisboa Portugal. Fundo Ministério do Reino, mç. 4091; Mapas escolares de 1866. [Ms.]. 1866. Acessível em ANTT, Fundo Ministério do Reino, mç. 4103. V. neste trabalho o capítulo II.3.b O ensino primá- rio.
210 Na sessão XXIV, de 11 de Novembro de 1563, ficou estabelecido: «A fim de que o povo fiel se apro-
xime dos sacramentos com o maior respeito e devoção, o santo concílio ordena a todos os bispos que, ao administrarem os sacramentos, não só os expliquem e façam compreender àqueles que os recebem, mas procurem também que os párocos façam o mesmo e, se for necessário, na língua vernácula, segundo a forma prescrita pelo concílio para a exposição de cada sacramento no catecismo: de forma que os bispos procurarão que seja traduzido na língua vulgar e o farão explicar ao povo pelos curas.» Subls meus. In RAMOS, António Manuel Monteiro – Os catecismos portugueses: notas de história: os catecismos mais utilizados na catequese portuguesa de 1561 a 1953 e um estudo critico dos catecismos da infância e adolescência de 1953 a 1993. Águeda (l.i.): Paulinas, 1998, p. 28.
211 O exemplar existente encontra-se depositado na secção de reservados da BNP e está catalogado com a
cota Res 692 P. Apresenta 57 fólios e é um in-4º (20 cm). Disponível em: http://purl.pt/23137.
212 ALGARVE. Diocese, CASTRO, D. João de Melo e – Constituicoens do bispado do Algarue. [em
linha] Lixboa: Em casa de Germão galhar [sic], 1554. Acessível na BNP, Res 119 A e disponível em linha: http://purl.pt/14796.
71 Auemaria, e Credo, e Salue regina, e o mais que se contẽ na doctrina christaã ~q mandamos imprimir […]213
Este catecismo foi destinado aos educadores e, por isso, tratou-se de uma versão aprofundada das matérias e não contemplou a secção dedicada à aprendizagem do alfa- beto. As razões da sua edição e destinatários são apresentados no primeiro fólio do exemplar depositado na Biblioteca Nacional de Portugal, fólio Aij:
Nos Dom Joã de mello b~po do Algarve ec. Fazemos saber, ~q cõsiderãdo neste nosso bispado ha grande ignorancia e descuido do que todo r~pam deve sa- ber, e ha pouca lembrãça que os pays tem de inssinarem seus filhos, e hos meestres seus discipulos, e hos curas seus freigueses ho que convem pera sua salvaçam como sam obrigados. Determinamos dar a ysso remedio, e mandamos imprimir esta bre- ve doctrina de principios e fundamẽtos de r~pandade por ser facil, e se poder reteer na memoria segundo ho estillo que leva. (subls. meus)
Com efeito, o autor utilizou uma linguagem coloquial, recorrendo ao registo ex- positivo e ao diálogo. À parte especificamente dedicada à doutrina, o bispo acrescentou o que, nos dias de hoje, poderíamos designar um manual de ética socioprofissional, ori- entado pelos preceitos cristãos. Introdu-lo assim:
Depois que na doctrina ~q precedeo se declarou ha maneira ~q os pais devẽ teer em insinar seus filhos, e hos mestres seus discipulos, e hos curas seus freigueses. Restava que brevemẽte declarassemos ho modo que deviam guardar has pessoas em seus estados, pera viverẽ nelles cõforme a serviço de nosso señor, e segurãça de su- as cõciẽcias. Pello qual amoestamos, e ẽcomẽdamos á todas has ditas pessoas, ~q façã aprẽder este breve sũmario á seus discipulos, filhos, e freigueses, pera ~q vindo a ydade em que tomam estado e modo de viver, vivam nelle a proveito de suas almas.214
Nesses estados, D. João de Melo incluiu: os governadores, os clérigos, os con- fessores, os juízes e demais pessoas que administram a justiça, testemunhas judiciais, procuradores de causas, notários, médicos, boticários, mercadores, mestres que ensi- nam, moços e pessoas que aprendem, lavradores, estalajadeiros, militares, casados, ri- cos, pobres, pessoas que tem em suas casas criados e família, mulheres, trabalhadores e pessoas religiosas, indicando para cada um o conjunto de normas para dirigirem as suas vidas e ofícios. Encerra o texto com a «Regra em comuũ que devem guardar todos hos
fieẽs cpãos que se desejam salvar»215
.
Presume-se que a Doctrina d’ prinçipios (v. Figura II.9 CASTRO, D. João de Melo e – Doctrina d’ prinçipios e fundamẽtos d’ christãdade) alimentou longamente a formação religiosa de eclesiásticos e a formação moral dos fiéis. Em conformidade com
213 In «Titulo VI. Do Sacramento das Ordeẽs, capítulo I». O Sínodo realizou-se na cidade de Silves a 14
de Janeiro de 1554 e as Constituicoens têm data de impressão a 27 de Agosto de 1554, Lisboa, por Ger- mão Galharde.
214 Subls. meus. Fólio não numerado.
215 Não sendo, por agora, oportuno desenvolver a análise a esta obra, pretendemos numa fase posterior
72 a lei de 30 de Setembro de 1770, foi introduzido no Algarve o catecismo do Bispo de Montpellier. A folha de rosto foi adaptada à diocese («para o uso do bispado de Faro», v. Figura II.10 Frontispício das Instrucções geraes em forma de catecismo…), mas o conteúdo, incluindo o prólogo, é idêntico ao que circulou, por exemplo, no bispado de Coimbra. A publicação foi destinada aos mestres, como se conclui da sua organização e complexidade de assuntos. Para os alunos foram preparados os dous catecimos abbrevi- ados para o exercício dos meninos, que circulavam como anexo às Instrucções, mas que não localizámos, em qualquer das edições consultadas.
O catecismo impresso, na dupla função de alfabetizar e civilizar, constituiu para muitos, certamente, o primeiro contacto com a leitura e, porventura, o único objecto impresso possuído, se assumirmos que de objecto e método de ensino dos mestres pas- sou a objecto de leitura do aluno. Ao do bispo de Montpellier, seguiram-se outros, se- leccionados conforme os diferentes bispados e tendências doutrinárias. No bispado do Algarve, vulgarizou-se o Catecismo da Congregação do Oratório, introduzido por D. Francisco Gomes do Avelar, bispo da diocese entre 1789 e 1816.
Francisco Gomes (1739-1816), além de professor de Filosofia na Real Casa das Necessidades foi autor de compêndios destinados ao ensino dos meninos daquele colégio. Embrenhado na reforma do ensino de índole humanística e científica que a Congregação levou cabo, quando bispo, D. Francisco Gomes do Avelar moveu quanto pôde os recursos à sua disposição em benefício da instrução dos fiéis do bispado. Para isso, distribuiu gratuitamente manuais impressos, que requereu à sua Congregação logo que chegou ao Algarve, designadamente, o ABC, o catecismo, pautas, ortografia,
sintaxe, etc.216
No trânsito de livros entre Lisboa e o Algarve, localizaram-se duas licenças de transporte, datadas respectivamente de 10 de Dezembro de 1795 e de 8 de Abril de 1796, onde, entre outros, incluem-se o envio dos «Catecismos p.ª os meninos das primeiras idades» enviados por S. João de Andrade da Congregação ao bispo do
Algarve (v. Figura II.11 Frontispício do Catecismo…) 217
. Debaixo da iniciativa bispal, assegurou-se, portanto, que os meninos possuíram o seu primeiro livro de leitura impresso, que constituíu, como vimos, para os Oratorianos o método preferencial de
216 AVELAR, D. Francisco Gomes do – [Carta] 16.10.1789, Faro [a] P.e João Andrade. [Ms]. 1789.
Acessível em BNA, 54-XI-35, n.º 32.
217 ANDRADE, D. João de – Requerimentos para obtenção de licença de saída de livros. [Ms.]. 5.4.1796.
73 aprendizagem da leitura e um objecto que «deve andar continuamente nas mãos», como se lê na já citada Instrucção de principiantes.
Não obstante o esforço do prelado na valorização e patrocínio material das esco- las, o contexto da sala de aula continuou a desnudar o fosso entre o país oficial e as prá- ticas do quotidiano. Os testemunhos directos são escassos, mas esclarecedores. Em 17 de Novembro de 1820, João José Fragoso, professor proprietário da cadeira de Vila No- va de Monchique, escreveu à Junta da Directoria Geral dos Estudos para dar informa- ções sobre o progresso da sua aula. Mostrou-se convicto de que todos os seus alunos se
tornariam «bons Lentes, p.ª o futuro»218
. Contudo, para que a previsão se concretizasse, era necessário que os alunos tivessem acesso aos livros aprovados, o que, como eviden- ciam os pedidos escritos pelos próprios alunos, não sucedia geralmente. Transcrevemos o corpo das petições:
Aula Regia de Monxique 7 de Obro 1820
Faz hoje quatro mezes q venho a Escola dezejo mediga oseu parecer, sesabére escrever bem, e tambem dezejaria ter livros para ler, porque tenho muita vontade do saber. […] Seu Dicipulo Joaquim Duarte
Jozé Bento Theodozio Jozé M.el Ign.co Ant.to Rodriges Joaq.m Oliveira. e Jozé Cardo- zo me pedem para q eu como seu Segundo lhe pesa a V.m para rogar a S. M. pella Junta da Derectoria geral dos Estudos e Escollas do Reino. Assim dever se pode Obter alguns Livros para aplicação euzo dos mesmos, que pella Sua pobreza os não podem Comprar, eu espero q V.M. que tanto dezeja o dientamento delles a sim O faza. […]
Joze Maria da Conceição
V.M Como nosso M.e deverá Rogar a S. M. pela Real Junta da Derectoria Geral dos Es- tudos; p.ª q seja servido mandarnos os Catecismos de Montpellier, p.ª nosso uso, e para aprendermos tudo que V.M. nos dezeja ensinar, tanto Espiritual, como Moral; pois co- mo nos tem ditto que os d.os Livros são tão utis esperamos q. V.M. assim ofaza, eu aro- go dos mais Seus Discipulos assim lhepeso. […]
Manoel Cunha.219
Como pode concluir-se pela redacção de José Maria da Conceição, a escola era frequentada por crianças provenientes de diferentes contextos sociofamiliares,
218 FRAGOSO, João José – [Carta] 17.11.1820, Monchique [a] Junta da Directoria Geral dos Estudos.
[Ms.]. 1820. Acessível em ANTT, Ministério do Reino, mç. 4347.
219 AA.VV. – [Petições]. [Nov./1820], Monchique [a] Junta da Directoria-Geral dos Estudos. [Ms.].
74 mantendo-se o problema da gratuitidade do ensino como a principal fragilidade do sistema público. Não temos dados que permitam generalizar esta situação a todas as escolas existentes no Algarve, mas é fora de dúvida que a desvantagem no acesso aos materiais de ensino existiu por falta de intervenção atempada da tutela educativa (Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros, de 21.6.1787- 17.12.1794; Junta da Directoria-Geral dos Estudos e Escolas destes Reinos, de 17.12.1794-7.9.1835). Não bastou criar e dotar as escolas com mestres, era igualmente necessário que o Estado proporcionasse, de facto, os materiais didáticos aprovados. Em contrapartida, parece-nos evidente que a escola pública criara, também na periferia, a necessidade do impresso como central à prática do ensino-aprendizagem das primeiras letras e a sua utilização passara a ser partilhada por mestres e discípulos. Para este resultado, é fundamental ter presente a convergência de esforços com origem na iniciativa pública e particular, nomeadamente, a actuação bispal que, com recursos, presença e influência no seio das populações, proporcionou condições essenciais às
mudanças legalmente promulgadas220
.
II.3 O livro e a leitura enquanto «bens públicos»: as estruturas de ensino