ĐLGĐLĐ ARAŞTIRMALAR
ĐŞĐTME ENGELLĐ
O questionário de 1866 previu um conjunto de onze títulos susceptíveis de utili- zação pelos alunos no item V, intitulado «livros de que usam os alunos com declaração do número dos que usam deles», deixando espaço em aberto para que os professores registassem outros manuais em uso na escola. A forma como é requerida a informação é inequívoca quanto à identificação da posse e utilização dos manuais. Nesta data, o ma- nual pertencia e era utilizado pelo aluno, sendo adquirido pela família, ou oferecido pela Câmara Municipal, Junta da Paróquia ou pelo Professor. Nesta situação contabilizaram-
se cinco escolas, envolvendo trinta alunos264
.
Aos onze títulos oficialmente previstos no questionário, foram acrescentados mais quarenta e seis entradas, realçando a heterogeneidade dos materiais utilizados nas escolas, como podemos atestar no Quadro II.27 Obras utilizadas pelos alunos em con- texto de aula, em 1866. Não obstante a diversidade observada que ultrapassa as 4 deze- nas de títulos, verifica-se a adopção generalizada do Methodo Facillimo para aprender a ler tanto a letra redonda como a manuscripta no mais curto espaço de tempo possi- vel, de Emílio Aquiles Monteverde, em todas as escolas avaliadas, onde vários alunos (sempre acima de 5 alunos por escola) o utilizavam. Seguem-se as miscelâneas com abecedários e silabários de autores anónimos e logo depois o Manual Encyclopedico para uso das escolas d'instrucção primaria também da autoria de Emílio Aquiles Mon- teverde. No campo das entradas adicionadas, predominam as obras de diversos autores relativas à doutrina cristã.
Uma organização dos dados por área disciplinar, como desenvolvemos no Qua- dro II.28 Distribuição temática de manuais segundo o n.º de alunos utilizadores, em 1866, evidencia que são predominantes os livros dedicados à prática da leitura e à dou- trina cristã, cujos compêndios serviam de iniciação à leitura. A baixa densidade das res- tantes áreas disciplinares é compensada pela utilização do Manual Encyclopedico para uso das escolas d'instrucção primaria, estruturado para servir de suporte a todas as dis- ciplinas, presente na totalidade de escolas analisadas, à excepção da escola de Vaqueiros (concelho de Alcoutim), cujo provimento recente do professor (5.9.1865) poderá justifi-
264Mapas escolares de 1866. [Ms.]. 1866. P. 1, item II. Acessível em ANTT, Fundo Ministério do Reino,
88 car a ausência do Manual Encyclopedico, pensado para o seguimento do Methodo Fa- cillimo. Podemos concluir que foram as obras de Emílio Aquiles Monteverde (1803- 1881) as principais responsáveis pela organização do conhecimento a adquirir pelo pú- blico infanto-juvenil, instituindo-se como modelos culturais de aprendizagem no início da segunda metade do século XIX. Interessa, assim, perscrutar o horizonte intelectual aí proposto.
O Methodo Facillimo para aprender a ler tanto a letra redonda como a manus- cripta no mais curto espaço de tempo possivel foi um dos manuais elaborados segundo os decretos de 20 de Setembro de 1844 e de 20 de Dezembro de 1850 que obteve a aprovação do Conselho Superior de Instrução Pública. Obteve-se notícia de onze edi-
ções ao longo de Oitocentos265
, continuamente reelaboradas e aumentadas. A edição que consultámos, a 5.ª, publicada em 1851, estava centrada na aquisição das competências de leitura. Num anúncio de 1865, publicitando a 8.ª edição, o Método Facílimo integra- va exercícios dirigidos também à escrita, subintitulando-se: Para aprender a ler e es- crever no mais curto espaço de tempo possível.
Centrando-nos na organização interna deste manual, segundo a edição de 1851, de 144 p., distingue-se uma divisão em duas partes que correspondem, em primeiro lu- gar, à aprendizagem das noções basilares da leitura em letra impressa (p. 1-46), confor-
me ordenado pelo decreto de 20.9.1850266
, e, em segundo lugar, a textos para exercitar a leitura, seguindo diversos tipos de letra (v. Figura II.12 Folha de rosto, Quadros e gra- vura alusiva a tipografia). Nesta segunda parte, podemos subdividi-la em diferentes secções, alusivas à moral e civilidade, p. 48-86 e p. 120-131, aritmética, p. 106-110, e conhecimento do mundo, p. 111-143, onde são incluídas breves noções sobre geografia, história natural, história de Portugal e sobre a forma de reproduzir esses conhecimentos, isto é, um texto dedicado à arte tipografia, nas p. 141-143. Ocupámo-nos, na secção II.2, das vantagens reconhecidas ao impresso para a aprendizagem e aquisição de competên- cias intelectuais, aqui sancionadas. O Methodo Facillimo reforça essa asserção ao inclu- ir o texto metacognitivo final, destinado à consciencialização do processo que oferece
265 FARIA – Op. cit., p. 155.
266 Capítulo V, Art.º 23.º «Os Professores começarão por ensinar aos meninos a leitura pela letra impres-
sa, fazendo-lhes conhecer e pronunciar bem distinctamente cada uma das letras nos seus differentes sons; e repetindo este trabalho para a pronuncia correcta das sylabas, e das palavras ou dicções, exercitará se- guidamente os meninos na leitura de breves maximas, ou sentenças moraes e religiosas, pelos livros ele- mentares, para esse fim adoptados.»
89 como objecto da aprendizagem (v. Figura II.12 Folha de rosto, Quadros e gravura alu- siva a tipografia).
O Manual Encyclopedico para uso das escolas d’instrucção primaria era anun-
ciado «como o seguimento do Methodo Facilimo»267
, reunindo as matérias do 1.º e do 2.º grau de ensino e outras de carácter de cultura geral. Como o próprio título indica, o Manual proporcionava o acesso a uma vasta diversidade de temáticas num só volume, que poderia ainda ser enriquecida pelas frequentes notas de rodapé, reencaminhando o leitor para outros autores e obras. A maior vantagem era certamente a economia, como sublinha o texto da publicidade:
Assim, pelo modico preço de 480 réis (em brochura) acharão os pais de familia reunido, núm só volume, aquillo que até agora era necessario procurar em muitos, a fim de poderem dar a seus filhos, sem maior despeza, as primeiras noções sobre aquelles as- sumptos geraes, sem cujo conhecimento todo o progresso da instrucção ulterior será frustrado.»268
Acrescia ainda a facilidade de utilização para os professores e alunos, a quem era disponibilizada no final de cada secção um «Exame», para aferir o nível de aquisi- ção dos conteúdos.
Na edição de 1865 (existiram 13 edições ao longo do século XIX269
), que con-
sultámos por ser coetânea dos mapas escolares em apreço270
, a distribuição das matérias por número de páginas era a elencada no Quadro II.29 Distribuição do n.º de páginas por área disciplinar do Manual Encyclopedico, 1865.
Como pode concluir-se a partir do número de entradas que constituem o Quadro II.27 Obras utilizadas pelos alunos em contexto de aula, em 1866, a produção tipográfi- ca relativa ao género didáctico floresceu ao longo do século XIX, gerando uma literatu- ra destinada a crianças e a adultos, que entravam pela primeira vez no mundo dos co- nhecimentos elementares, e para os quais foram produzidas antologias de diferentes naturezas. Vem a propósito notar que os homens de letras tiveram neste domínio frutuo- so campo de cultivo, bastando lembrar, para além dos já arrolados, António Feliciano de Castilho (1800-1875) com a Leitura repentina: método para em poucas lições se ensi- nar a ler com recreação de mestres e discípulos, editado em 1850, ou João de Deus
267 In MONTEVERDE, Emílio Aquiles – Mimo á infancia ou manual de Historia Sagrada para uso das
crianças que frequentão as aulas, tanto em Portugal como no Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional, 185, p. 249.
268 Id., p. 252.
269 Cf. FARIA – Op. cit., p. 155.
270MONTEVERDE, Emílio Aquiles – Manual Encyclopedico para uso das escolas d'instrucção prima-
90 (1830-1896), através da Cartilha Maternal, publicada em 1876. Mas não foram apenas os literatos a envolver-se nas campanhas de alfabetização e no projecto de uma nação culturalmente una, envidando meios e recursos. Vários foram os que se inscreveram nesta torrente e localmente investiram na produção de livros de instrução e em outros meios de divulgação. Cabe citar, a título de participação local, a colectânea de História de Portugal, preparada pelo médico-cirurgião António Carvalho Ribeiro Viana, em exercício profissional na localidade de Alcantarilha, concelho de Silves. Em 1879 e 1880, deu à estampa na Tipografia da Defesa do Povo, em Silves, o seu Resumo da His- tória de Portugal extrahido de vários autores, composto por 66 páginas, organizadas segundo cada reinado. A 2.ª edição «revista e augmentada» incluiu uma tábua cronoló- gica dos reis de Portugal no final do volume. A publicação vendia-se em Alcantarilha, na casa do autor, e em Lisboa na livraria Bertrand, pelo preço de $200 réis, podendo ser adquirida de qualquer parte do país por correio (v. Figura II.13 Capa da 1.ª edição e Figura II.14 Capa da 2.ª edição de Resumo da história de Portugal).
Conclui-se, assim, que a escola de ensino primário pública estabelecida no Al- garve não foi um local de disponibilização e de acesso ao livro, mas incrementou a pro- dução, a posse e a utilização individual do livro, fixando a cultura tipográfica como ma- triz identitária da formação literária.