Os grupos e entrevistas foram realizados em salas da Faculdade de Medicina ou no Anexo Bias Fortes. Isso pode ter imposto restrições às falas em função do imaginário social sobre a Universidade (academia) e sobre a Medicina, como lugares sociais de normatização do saber e do normal, produtores e detentores de valores em função dos quais suas crenças, suas atitudes e seus sentimentos seriam avaliados, gerando falas argumentativas e com visada explicativa, como a seguinte:
“É uma chantagem, mais é uma chantagem limpa, não é de ameaçaaaar, num é vou te bater, vou te espancar, vou fazer isso e aquilo não, sabe? É uma chantagem limpa assim. – Então eu vou deixar você estudar sozinho, azar se a professora chegar lá e o dever num tiver feito. Mas eu num faço igual o pai dele não, igual o pai dele trata ele não!” Elena.
Por outro lado, é possível que alguns significados sejam compartilhados em nossa cultura em relação à Academia e à Medicina, sendo estas vistas como lugares de “solução de problemas” para os quais não há resposta no senso comum. Sobretudo a Medicina pode estar relacionada à privacidade, ao sigilo e até a uma certa obrigatoriedade de revelação de segredos, junto a uma expectativa de imparcialidade e compreensão. Esses aspectos podem ter contribuído para diminuir as restrições às falas e conformar os discursos na forma de queixas e demandas, bem explicitadas pelos pais em suas falas. De certa forma colocava os pais, em seu imaginário, no lugar de pacientes e contribuía para a explicitação do seu próprio sofrimento:
“Aah (suspira), eu não sei te falar, eu tô muito, eu tô muito nervosa! Sabe? Nervosa demais! Eu não tenho idade mais pra ter filho. Entendeu? Realmente, eu não queria ter a Maria Clara! Vou ser bem sincera!” Ana.
Os locais apresentavam boas condições de privacidade, o que facilitava a expressão de afetos; porém, a presença de auxiliares para o manejo da aparelhagem de gravação e uso de gravador pode ter dificultado essa expressão. Em um dos grupos houve muito ruído de trabalho de construção na sala ao lado; isso incomodou e desviou a atenção do grupo e pode também ter prejudicado a
expressão de afetos relacionados aos relatos, além de reduzir o tamanho das falas. Finalmente pode ter havido prejuízo na interação do grupo devido à dificuldade para a sustentação da atenção e, às vezes, para a compreensão.
Não houve recusa do uso do gravador, mas o comportamento de um dos participantes sugere que a presença do aparelho estava registrada e interferia, mesmo de forma não-consciente e/ou explicitada: diante de uma participante que relatava um episódio de agressão emocional contra o filho, um dos pais presentes se apropriou do gravador e o colocou mais próximo dessa mãe, demonstrando a sua vontade de assegurar o registro. Podemos supor diferentes razões para esta atitude, mas ela nos sinaliza que a presença do gravador tem algum significado para este pai. Esse significado provavelmente conformou os discursos dos participantes com relação à expressão de sentimentos considerados socialmente negativos, com relação às narrativas de experiências de abuso, à expressão de crenças e atitudes que no imaginário do falante seriam condenadas pelo pesquisador, sobretudo diante da visada, predominante nos discursos, de constituição de aliança com ele, como objetivo de atendimento da criança no AMBDA.
Os participantes dos dois primeiros grupos foram convidados por telefone pela pesquisadora e se deslocaram até a Universidade para isso, o que demonstra motivação para participar, que pode ter sido determinada pelas expectativas dessas pessoas quanto à retomada de atendimento pela equipe do ambulatório. Os participantes do terceiro grupo não foram convidados com antecedência e provavelmente entenderam a realização do grupo como um procedimento normal do ambulatório, já que foram comunicados sobre as atividades de pesquisa realizadas pelo AMBDA nos procedimentos de acolhimento. Nesse sentido poderíamos esperar uma demanda mais enfática por parte dos que se deslocaram até a Universidade para participar do grupo, o que realmente aconteceu:
“Esse encontro aqui tem algum propósito de ajudar os nossos filhos? Vim, dá os medicamento, podê dá os remédio...?” Anete.
As queixas quanto ao serviço de saúde e às interrupções no tratamento feitas pelos participantes convidados não surgiram nos grupos nem nas entrevistas realizadas com os pais que compareceram para a consulta.
Convidados em nome da Instituição, os pais podem ter se sentido valorizados por estar contribuindo para uma pesquisa ali realizada, o que poderia gerar uma disposição em falar abertamente sobre seus problemas e ao mesmo tempo realizar construções do discurso de predomínio narrativo e argumentativo:
“Por isso deu esse discreto déficit de atenção, né? Que a imaturidade talvez, que ele tinha... por isso que deu este resultado”.Cibele
Por outro lado, o fato de seu filho(a) estar em tratamento no ambulatório pode ter gerado nesses pais algum receio de que alguma crítica ou queixa que fizessem pudesse influenciar negativamente no atendimento. Assim, as queixas com relação ao atendimento apareceram de forma sutil, discreta, sem culpabilização direta do HC ou dos seus profissionais:
“Fiquei sabendo do Dr X através de uma assistente social no meu trabalho, que o filho dela tava com o ele, porém particular, sabe? Como eu não tenho condições de pagar, eu vim até aqui” Ana.
“Todos esses lugares, assim... público, começa a atender e de repente... termina! As criança ficam perdida, as mãe fica perdida” Anete.
6.2.2 As restrições impostas pelo contrato e gênero do discurso e pelo