Gênero do discurso pode ser definido como “atividades (de linguagem) mais ou menos ritualizadas, que só podem desdobrar-se legitimamente e obter “sucesso” se estiverem conformes às regras que as constituem” (MAINGUENEAU, 1998).
O gênero entrevista enquadra o discurso, impondo-lhe determinadas restrições. Nesse caso não se trata de qualquer entrevista, mas de uma entrevista de pesquisa na área da saúde, em que o entrevistador é um pesquisador, profissional qualificado e representante da Instituição, assim se apresentando e assim reconhecido pelo entrevistado.
O contrato de fala prevê uma situação em que o entrevistado não está autorizado a falar sem ser perguntado nem está autorizado a dizer mais do que o que lhe é perguntado. Dessa forma, por mais aberta que seja, a pergunta define a resposta até certo ponto. O tempo é definido pelo entrevistador, influenciando certa organização da resposta. No caso deste estudo, há uma pressuposição de saber e poder do entrevistador, levando a uma relação altamente assimétrica entre os interlocutores. Pressupõe-se uma visada de solicitação (querer saber) por parte do entrevistador e de informação (saber fazer) por parte do entrevistado. Percebemos, no entanto que, em função da influência dos demais determinantes no discurso dos participantes, manteve-se a exacerbação da assimetria da relação, mas as visadas de solicitação (do entrevistador) e informação (dos entrevistados) mesclaram-se de forma importante com as de demonstração e solicitação por parte dos entrevistados:
“Mas... eu ajudo demais, sou uma mãe dedicada, todo mundo fala!” Elena
As visadas de demonstração relacionavam-se sobretudo à justificação e à legitimação de crenças, atitudes e emoções em relação ao filho e aos eventos a ele relacionados.
“Eu queria uma opinião. Porque no meu caso é... [...] Eu não sei como agir com o irmão dele, porque praticamente ele se aproveita da situação pra... humilhar, abusar do André por causa do problema que ele tem. Eu não sei como agir com ele, assim, não sei se eu ponho ele no psicólogo também, se... eu não sei. Eu não sei o que eu faço” Aline.
O grupo focal tem elementos em comum com a entrevista em grupo, com acréscimos e atenuações de restrições de uma entrevista típica. No grupo focal o
tempo de fala e a relação com cada interlocutor impõe certas restrições ao discurso, enquanto a identificação com os demais participantes que se reconhecem como compartilhando uma experiência e interesses comuns, pode reforçá-los na legitimidade das suas crenças e demandas e na justeza das suas atitudes e sentimentos, determinando transformações de forma e conteúdo.
O fato de compartilhar o mesmo lugar em relação ao principal interlocutor (o pesquisador) pode relativizar, diluir a percepção de sua autoridade levando a diminuir a assimetria na interlocução. Observamos nos grupos, por exemplo, que a interação e a identificação de dificuldades comuns entre os participantes facilitaram a expressão mais espontânea de atitudes e sentimentos negativos em relação a seus filhos, os quais nas entrevistas individuais não foram tão declaradamente expressos.
“Às vezes em num güento também, igual ela falô que o marido... coisa! A gente tem que entrar no meio e: — Oh! pô! Num é assim não! Calma! Ele tamém tem que pôr a inteligência! Mas pra isso de vez em quando... sai fora do ritmo!” Anete
Essa fala exemplifica como a fala de outro participante (que relatava maus-tratos do marido em relação ao filho) estimulou e autorizou a expressão de sentimentos e de uma atitude motivada pela emoção (entrar no meio da briga do marido com o filho) que aparentemente têm um julgamento negativo da própria mãe que o expressou. Mesmo a expressão utilizada na discussão com o marido (“Oh! pô!”) demonstra uma informalidade e uma espontaneidade que podem ter sido possibilitadas pela aliança do grupo. A identificação com o grupo pode também ser exemplificada pelo uso da expressão “a gente” que, no contexto do grupo, referia-se a seus componentes, embora também refletisse uma crença mais geral da mãe.
Observamos também, com a participação de um casal no terceiro grupo, que os parceiros às vezes se uniam para contrapor uma opinião ou para responder a uma pergunta, às vezes discordaram e quase brigaram, mas se contiveram, obedecendo ao contrato estabelecido que impõe restrições ao tipo de diálogo que ali deveria ser estabelecido.
Os pais entrevistados individualmente, com exceção de dois que eram ex- pacientes da entrevistadora, mostraram-se preocupados em sustentar uma imagem de bons cuidadores, defendendo atitudes educativas baseadas no diálogo e apenas deixando escapar, nas sutilezas do discurso, alguns de seus sentimentos negativos e atitudes punitivas. Já nos grupos, a maioria expressou sentimentos de tristeza, raiva, vergonha, medo, intolerância e atitudes punitivas em conseqüência dos comportamentos indesejáveis das crianças e dos adolescentes com TDAH.
“O filho é meu, e tem hora que cê tem que bater mesmo porque ele tem que obedecer! Tem que ter um limite! Pra mim tem que ser assim!” Vilma.
“...mas eu não conseguia nada, mas cê sabe o que é cê num conseguir nada? Eu não conseguia nada, a não ser assim, na base da... cê entendeu?” Carmem.
“Eu fico com vergonha, sabe, eu vejo os coleguinha dele, tudo bunitinho perto da mãe, e ele daquele jeito, ah... eu não aceito muito, não!” Carina.
Além disso, observamos que nas entrevistas os pais falaram mais das crianças do que de si mesmos, apesar da solicitação de falarem dos sentimentos e das vivências em relação à criança e ao TDAH. Nos grupos, talvez devido à identificação entre eles e porque a autoridade do pesquisador ficou diluída, eles falaram mais de si mesmos:
“Tenho ainda muita vergonha de ler... é... em púbrico... muita mesmo! Ainda num passou esse trauma” Anete.
“Eu num güento mais, sabe? Eu tô assim, à flor da pele, eu tô nervosa demais com ela, porque tudo é ela, tudo é ... tudo é briga, sabe, tudo ela chora, tudo ela fica irritada, então assim, tá muito cansativo, sabe?” Ana.
6.2.3 As representações imaginárias que os interactantes fazem de suas