Oranı 30 Eylül 2016 31 Aralık 2015
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Não obstante as cooperativas atuarem dentro de um modelo empresarial, isto é, organizando os fatores de produção, resta-nos saber se a classificação empreendida pelo Código Civil, que faz a separação das atividades sociais em empresárias e simples, como decorre do texto contido no art. 982 do Código Civil, foi acertada.
Vejamos:
Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais.
Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.
Como se vê, as pessoas jurídicas de direito privado subdividem-se em duas espécies distintas, quais sejam, as sociedades empresárias e as sociedades simples. Essa classificação funda-se no modo de exploração da atividade econômica, se empresária ou não.
Nesse sentido, melhor nos explica a doutrina de Fábio Ulhoa:
O que irá, de verdade, caracterizar a pessoa jurídica de direito privado não estatal como sociedade simples ou empresária será o modo de explorar seu objeto. O objeto social explorado sem empresarialidade (isto é, sem profissionalmente organizar os fatores de produção) confere à sociedade o caráter de simples, enquanto a exploração empresarial do objeto social caracterizará a sociedade como empresária.
[...]
Por critério de identificação da sociedade empresária elegeu, pois, o direito o modo de exploração do objeto social. Esse critério material, que dá relevo à maneira de se desenvolver a atividade efetivamente exercida pela sociedade, na definição de sua natureza empresarial, é apenas excepcionado em relação às sociedades por ações. Estas serão sempre empresárias, ainda que o seu objeto não seja empresarialmente explorado (CC, art. 982, parágrafo único; LSA, art. 2º, § 1º). De outro lado, as cooperativas nunca serão empresárias, mas necessariamente sociedade simples, independentemente de qualquer outra característica que as cerque (CC, art. 982, parágrafo único). Salvo nestas hipóteses – sociedade anônima, em comandita por ações ou cooperativas -, o enquadramento de uma sociedade no regime jurídico empresarial dependerá, exclusivamente, da forma com que explora seu objeto.
Portanto, na literalidade do Código Civil de 2002, o critério diferenciador das sociedades simples ou empresária, como regra, leva em conta os critérios da empresarialidade, ou seja, o profissionalismo no modo de organização dos fatores de produção, salvo quando disser respeito às sociedades por ações (que são as sociedades anônimas e as sociedades em comandita por ações) e as cooperativas, pois as sociedades por ações serão sempre empresárias, enquanto as cooperativas serão sempre simples, ainda que o modo de exploração não corresponda a tais classificações.
Pois bem.
A doutrina acima diz que a diferença entre a sociedade empresária e a sociedade simples está no seu modo de exploração. Com efeito, classifica as cooperativas como sociedades simples, partindo do pressuposto de que estas não atuam de forma profissional para organizar os fatores de produção. Com toda a vênia, mas não nos parece correto afirmar que as cooperativas não atuam de forma organizada e com profissionalismo.
No cotidiano cada vez mais nos deparamos com o profissionalismo dos associados, principalmente aqueles que compõem o corpo diretivo das sociedades cooperativas. Excelentes exemplos são as cooperativas de trabalho que atuam no ramo médico ou odontológico e também as cooperativas de crédito. Não se pode deixar de lado, por corolário, as cooperativas voltadas ao ramo do agronegócio e tantas outras.
Estas sociedades inegavelmente cresceram não somente em decorrência da força de vontade dos associados, do trabalho árduo por eles desempenhado, mas, sobretudo, pela forma de organizar os fatores de produção, com planejamento e muito profissionalismo.
Mas fique bem entendido que não se está defendendo que as sociedades cooperativas são empresárias. Após várias leituras feitas do Código Civil e de algumas doutrinas sobre o assunto, cada vez parece mais evidente que a classificação empreendida pelo legislador civilista deixou a desejar quanto à real situação jurídica das sociedades cooperativas.
Pelas particularidades próprias que cercam este modelo associativo, é difícil defender que as sociedades cooperativas possam ser classificadas como simples, a teor do que preconiza o § único, do artigo 982, do CC. Da própria análise dos artigos 997 a 1.038, 1.093 a 1.096, todos do Código Civil e da Lei n. 5.764/71, evidentemente nos deparamos com as diferenças existentes entre as sociedades simples convencionais e as sociedades cooperativas. O importante é notar que na essência as sociedades simples possuem características distintas das cooperativas.
Em verdade, foi o Código Civil de 2002 que equiparou as sociedades cooperativas às sociedades simples. Por se tratar de equiparação, talvez o legislador civilista pudesse prescrever que as cooperativas fossem enquadradas como sociedades empresárias. Mas, o fato da legislação colocar uma classificação no sistema jurídico, não implica que está correto. Não raras vezes o poder legiferante comete equívocos que são analisados com mais rigor pela Ciência do Direito.
Esta situação foi muito bem esboçada por Waldírio Bulgarelli:
Em que pese as dificuldades existentes para a caracterização de qualquer novo ramo do Direito, dificuldades estas que o Direito Comercial ainda hoje arrosta, parece ser inequívoco que a sociedade cooperativa apresenta características que a tornam original perante as demais sociedades existentes, e que se estende e se prolonga até suas atividades, norteando-lhes os atos que se distinguem por isso dos civis e dos comerciais.67
67 BULGARELLI, Waldírio. As sociedades cooperativas e a sua disciplina jurídica. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p. 20 (grifo nosso – atualmente o Código Civil não designa as sociedades como civis, sendo elas simples, donde, por força do § único, do artigo 982, as cooperativas seriam uma espécie).
Cumpre aos operadores do Direito organizar o sistema por meio da construção de significado para as regras jurídicas. É por meio da interpretação do Direito, deve ser relembrado, que chegamos à norma jurídica. Sendo assim, o sentido e o alcance dos enunciados prescritivos devem passar pelo crivo da Ciência do Direito. Esta sim está habilitada para dar as respostas esperadas pela sociedade. Portanto, mesmo que o Código Civil tenha dito que as cooperativas são sociedades simples, uma investigação científica mais apurada pode nos apontar outra resposta.
Trilhando as memoráveis lições de Pontes de Miranda, verbis:
A sociedade cooperativa é sociedade em que a pessoa do sócio passa à frente do elemento econômico e as consequências da pessoalidade da participação são profundas, a ponto de torna-la espécie [autônoma] de sociedade.68
Dessarte, doutrinariamente podemos classificar as sociedades em três categorias distintas: a) empresárias; b) simples; e c) cooperativas.