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No tópico anterior foi assinalado que em 1950, 80% da população galega morava no meio rural e 90% trabalhava na agricultura. Tratava-se de uma agricultura camponesa que tinha como objetivo fundamental a manutenção da unidade familiar. Como argumenta Bouhier (2001), pautava-se em um sistema agrário com foco no policultivo, na pecuária e no aproveitamento das terras. Era uma agricultura que não dependia de recursos externos à própria unidade produtiva, baseada num aproveitamento máximo dos recursos naturais disponíveis. Com estas características o elevado grau de parcelamento era um requisito indispensável para a prática de um sistema de policultivo, sustentado nas rotações de cultura. Por último, outros elementos caracterizadores deste modelo produtivo era o uso intensivo da mão de obra familiar e o predomínio dos mercados locais.

A década de 60 marca o início das transformações no rural galego, em que esta agricultura orgânica de policultivo organizada em um sistema de pequenas parcelas e com emprego de mão de obra familiar se modifica para um setor agrário com uma marcada especialização pecuária, subordinado ao mercado e demandante de grandes quantidades de

capital e elevado consumo de inputs de origem industrial (GONZÁLEZ, 1996). Ou seja, passa-se de uma economia voltada para o autoconsumo, para uma economia mercantilizada.

Um dos indicadores que nos permitem observar a intensidade das transformações ocorridas são os números de estabelecimentos rurais produtivos. O Censo Agrário de 1962 demostrava a existência, na Galícia, de 433.716 estabelecimentos. Por outro lado, em 2009 as informações do Censo Agrário disponibilizado apontaram que só ficaram ativos 80.337. Significa dizer que, entre 1962 e 2009, deixaram de existir 81,4% das unidades produtivas agropecuárias galegas, o que impactou profundamente o emprego no meio rural, que se reduziu em 93% no mesmo período.

É importante salientar que este fenômeno não é exclusivo da Galícia, e sim, de toda a Europa, sendo parte de um processo bem conhecido, ou seja, consequência inevitável do processo de desenvolvimento econômico: a desagrarização (PEREZ-FRA, 2014). Mas o que é característico deste território é o fato de ter experimentado este processo de forma abrupta e tardia, ao ter se concentrado em apenas sessenta anos, aquelas transformações que nos países mais desenvolvidos da Europa se deram gradualmente durante 150 anos (FERNANDEZ, 2013). De fato, como se pode observar na figura a seguir, boa parte deste ajuste agrário realizou-se a partir dos anos 80.

Figura 04. Evolução da população ocupada com agricultura no período de 1985 a 2013

Fonte: PEREZ-FRA, 2016

Os números apresentados até o momento demostraram a existência de um intenso processo de mudanças que afetou as estruturas produtivas na Galícia. Esta abrupta mudança no modelo de produção agrário tradicional teve como consequência uma profunda transformação das áreas rurais, que se concretiza nos três aspetos que seguem:

1- Regressão demográfica e deterioração econômica. Lopez Iglesias (2012) aponta como primeira mudança, a deterioração econômica e demográfica das áreas rurais, que

resultou em uma crescente concentração da população nas zonas urbanas. Como consequência, na atualidade, a Galícia não é mais uma sociedade rural, embora o meio rural ocupe a maior parte do seu território. E efetivamente, se atentarmos à classificação do grau de urbanização4 feita pelo Instituto Galego de Estatística (IGE, 2014) podemos afirmar que, de acordo com os números oficiais da população, as áreas rurais5 galegas representam 71% do território, mas este é um espaço no qual reside apenas 18% da população. O estudo da evolução do emprego agrário e da população mostra a existência de uma correlação entre a intensidade do ajuste agrário e o declínio populacional. Dito de outra forma, a regressão demográfica está claramente ligada à dinâmica do emprego: o ajuste agrário acelerado não tem sido compensado pela geração de novos postos de trabalho, em quantidade suficiente, em outras atividades (LÓPEZ & PÉREZ-FRA, 2004). Este fato provocou o fechamento das unidades agrárias e a consequente saída de efetivos demográficos do território (PÉREZ-FRA, 2016). As áreas rurais galegas deixaram de ser atraentes para a população, estando imersas desde os anos 60 em um continuado processo de perda de população e de envelhecimento apontado no quadro a seguir.

Quadro 04. Idade média da população galega tendo como referência a classificação por sub

grau de urbanização, 2014.

Grau de Urbanização Idade média (anos)

ZDP 44,6

ZPP alta 44,1

ZPP intermedia 47,6

ZPP baixa 52,6

Fonte: IGE, 2014.

2- O setor agrário não é mais a principal fonte de emprego mesmo nas áreas rurais. Na Figura 05, pode-se comprovar que o setor primário representa nestas áreas somente 12,7% do total de emprego. Assim, apesar do baixo empenho na geração de empregos em outros setores, motivada pela extrema debilidade que apresentam os setores secundário e terciário, as áreas rurais galegas são na atualidade espaços econômicos terceirizados.

4 Classificação feita a partir de um standard da Eurostat: The new degree of urbanization. (http:// ec.europa.eu/eurostat/miscellaneous/index.cfm?TargetURL=DSP_DEGURBA)

5 O IGE estabelece a seguinte tipologia: Zonas Densamente Povoada (ZDP): Densidade demográfica superior a 500 hab./Km2 e uma população total de 50.000 habitantes. Zonas Intermediárias (ZIP): densidade demográfica superior a 100 hab./ Km2 e, ou população total superior a 50.000 habitantes. Zonas Pouco Povoada (ZPP): São os grupos de Áreas Locais (AL) que não pertencem a zonas Densamente Povoadas ou a Zonas Intermediárias. Dentro destas ainda se situam três níveis: ZPP de densidade alta, média e baixa. Para este trabalho considerou-se como espaço rural as áreas definidas como ZPP de baixa densidade.

Figura 05. Percentagem de afiliações à Seguridade Social por setores econômicos nas áreas

rurais (ZPP), 2014 Fonte: IGE, 2016

3- A deterioração das áreas rurais galegas tem componentes demográficos, econômicos e sociais. É abundante a literatura6

que descreve o processo de desarticulação social vivido nestes espaços ao longo do século XX. Este processo afetou, especialmente, as formas de organização social vinculadas com a gestão das áreas comunais. Nesse sentindo, dois elementos podem explicar esta desarticulação social: o primeiro deles é a intensidade e rapidez da mudança do sistema agrário, que impactou as formas de organização vinculadas ao sistema produtivo tradicional sem que novas formas pudessem substituí-las. Já o segundo, refere-se ao marco político em que se deu o processo transformação agrária. Na Espanha houve uma ditadura que durou de 1939 a 1975, que para além de eliminar os processos de organização social surgidos no primeiro terço do século, dificultou a aparição de outros novos (FERNANDEZ, 1992).