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Belgede AĞ KULLANIM KILAVUZU (sayfa 156-160)

Ao examinarmos as imagens brutas captadas para um segundo curta ficamos atentos à entrevista com seu Crispim. Percebemos seu valor histórico e cultural, uma nova vertente para o trabalho que estávamos dando prosseguimento. As falas, a riqueza do depoimento e o carisma apresentado, valeriam o investimento de novas captações, aprofundando um pouco mais o trabalho. No mês de maio de 2007, telefonei para a Secretaria de Cultura do Serro e conversei com meu contato para tentar retomar o trabalho durante o mês de julho. Foi neste telefonema que tive a triste notícia da morte de seu Crispim, vítima de um infarto fulminante junto à cerca de sua pequena propriedade. Apesar do impacto da notícia, resolvi dar andamento ao projeto. Na ocasião, apenas eu e outro cinegrafista tínhamos disponibilidade para a viagem. E foi desta forma que partimos para a produção do documentário “Ausência”.

Retornamos a Milho Verde com um destino certo. Passando pelo Serro, conhecemos Nando e Bruno, mantenedores do Ponto de Cultura Instituto Milho Verde. Pela conversa que tivemos com os dois, já em Milho Verde, ficamos sabendo que seu Ivo estava muito abalado com a morte de seu amigo e parceiro de vissungo. Além disto, seu Crispim era uma figura importante dentro

dos catopês de Milho Verde, exercendo a função de embaixador, algo que não havíamos visto nos do Serro. Ficamos curiosos em saber o que isto representava, mas teríamos que aguardar a festa do Rosário de Milho Verde, que acontece sempre no último final de semana de setembro. Por ora, soubemos apenas tratar-se de uma figura que vai à frente do grupo, abrindo espaços para sua passagem. Um pouco céticos quanto ao resultado, apesar do otimismo de Hilário, cinegrafista e operador de áudio, nos deslocamos à casa de seu Ivo na esperança de que tivesse mudado de ideia. Na esquina de sua residência, em meio a uma roda de pessoas, o encontramos. Rememorei o encontro do ano anterior, salientando que gostaríamos de fazer um documentário que pudesse ser uma justa homenagem a seu dileto amigo. Para minha surpresa, com um olhar diferente de nosso último encontro, seu Ivo correspondeu ao convite e se dispôs a dar um depoimento sobre ovissungo. Mal sabíamos que este possível depoimento se transformaria em mais três encontros diferentes, em lugares diversos, com temas que versariam sobre

vissungo, catopês, Crispim, Milho Verde, festa do Rosário, devoção e saudade.

Naquela mesma hora, iniciamos uma sessão de depoimentos, tendo um Ivo solícito e radiante, o inverso da amargura que encontráramos no passado. Seus olhos brilhavam, salientando as maçãs do rosto e um sorriso tímido que aparecia por debaixo de um ralo bigode com alguns pelos grisalhos. Neste primeiro depoimento, conversamos sobre seu Crispim. Seu Ivo falou da luta de ambos em preservar um pouco da história do vissungo, por meio de aulas para as crianças da escola local. Para desapontamento de ambos, após um breve período, o projeto fora suspenso sob a alegação de que o ensino do vissungo entraria em conflito com a aprendizagem da língua portuguesa. Seu Ivo demonstrava uma extrema revolta sobre o assunto, mas alterava seu humor para uma candura quando se lembrava dos momentos que passara com seu companheiro, relembrando músicas e festas do Rosário. Após um longo tempo, encerramos este que seria o primeiro de nossos encontros. Saímos dali com a certeza de que teríamos um rico material para nossa produção.

Havia um fato que nos fazia lamentar profundamente. Tivéramos a informação desde São Paulo que o enterro de seu Crispim havia sido feito dentro do ritual do vissungo. Na ocasião em que o entrevistamos, seu Crispim descreveu com extremos detalhes características, cantos e outras liturgias que

envolviam o enterro desta natureza. Na época, seu Crispim afirmara não ser mais possível enterrar pessoas desta forma, pois “hoje as pessoas morrem em hospitais, e quando voltam mortas, são levadas de carro. O vissungo tem que ser feito a pé, com o defunto levado no braço. Hoje, não tem mais...”. Achávamos que nunca mais aconteceria, e quando houve o do seu Crispim, não estávamos lá para registrar por fotos ou filme. Comentando isto com Nando e Bruno do Instituto Milho Verde, soubemos que um morador temporário, que estava desenvolvendo um trabalho cultural na região, filmara partes deste enterro. Seu nome eraRudá Andrade, e era ligado ao Instituto. Prontamente, Nando e Bruno nos colocaram em contato com ele, que ainda estava na cidade. Nosso temor era de que a mídia empregada no registro fosse diferente da que utilizávamos e pudesse ocasionar uma incompatibilidade na hora da edição. Para mais uma surpresa nossa, Rudá utilizara a mesma mídia que trabalhávamos, e forneceria as imagens desde que colocássemos os créditos de seu trabalho no filme. Aceitamos prontamente, pois agora teríamos um depoimento de seu Crispim em vida ( e talvez o último antes de sua morte ) e outro registro com o seu enterro. A sorte ainda nos acompanhava.

Quando a noite desceu, retornamos ao Serro onde estávamos hospedados. Na praça principal, um bar e pizzaria era o local em que jantávamos e tentávamos alinhavar a produção do dia de trabalho. Na primeira noite, encontramos um rapaz negro sorridente, usando um leve cavanhaque, chamado José da Conceição, mas que atendia pelo apelido de “Gordo” apesar do corpo esbelto. Ficamos sabendo que era sobrinho de seu Crispim, e que morava em Ausente, mesma localidade do tio. Sem muito trabalho, agendamos uma entrevista com ele para o dia seguinte. Conforme “Gordo” sugerira, a entrevista aconteceria no bar de sua propriedade, e ele estaria acompanhado por um dos filhos de seu Crispim. No dia seguinte, conforme o combinado, “Gordo” nos aguardava em uma bifurcação do caminho que levava a Ausente. Seguimos pela variante de terra clara e castigada pelo assoreamento, com constantes aberturas de porteiras de fazendas e espantando vacas que insistiam em permanecer na via. Chegamos, enfim, a uma construção de barro e cimento coberta por telha de amianto e portas de madeira azuis em duas folhas. Era o bar de propriedade do “Gordo”. Entramos pelo ambiente escuro, que aos poucos era iluminado pelas duas janelas e porta abertas. O bar não

possuía energia elétrica. Logo, um rapaz negro alto e robusto, com bigode fino e boné, se aproximou. Era Enílsson, um dos filhos de seu Crispim. Em seu depoimento, “Gordo” confessou seu temor pelo vissungo no começo, pois lembrava “defunto”, mas com o tempo este medo passou. Achava esta “cultura” importante e reconhecia o esforço do tio na preservação, no que foi referendado pelo primo presente. À nossa volta, crianças diversas se aglomeravam curiosas pelos equipamentos. “Gordo” se exultou e disse que se tornaria celebridade a partir daquele momento. Ao final da entrevista, fomos convidados a visitar as instalações. No fundo, pequenas prateleiras exibiam latas de cerveja em poucas quantidades, algumas bolachas, garrafões de vinhos e caixas de doces. Na cozinha, separada do principal ambiente por uma fina parede, um fogão improvisado de quatro tijolos esfumaçados, sustentava uma pequena panela com um pouco de carne desfiada e um molho grosso. Quando retornamos ao salão pequeno, “Gordo” insistiu que experimentássemos a iguaria, o “pão com molho”. Um pão francês amanhecido foi aberto ao meio, e uma generosa porção da carne foi acondicionada entre as duas fatias. Eu e Hilário, devoramos os respectivos pães, acompanhados por um vinho de garrafão servido em copo plástico. Insistimos em pagar pelo consumo, e quando questionado sobre o preço, “Gordo” informou não ter a menor ideia de quanto cobraria. Acabamos pagando o que decidimos achar justo e retomamos o caminho para o Serro.

Na manhã seguinte, já havíamos agendado buscar seu Ivo no Serro após um exame médico, para dar continuidade às entrevistas. Era nosso desejo utilizar a topografia alta das montanhas como pano de fundo para um tema que tinha correlação direta com aquela paisagem. Afinal, o vissungoera, basicamente, uma forma de comunicação oriunda de cantos de trabalho, de transporte e outras práticas. E isto acontecia no ambiente externo, com a paisagem montanhosa característica da região.

No horário previsto, encontramos um Ivo no centro do Serro, animado e carregado de sacolas. Nestas, segundo ele, carregava encomendas de anáguas, tecidos e outros apetrechos que seriam utilizados pelo grupo catopês, quando da festa do Rosário em setembro. No caminho, seu Ivo desfilava as dificuldades na condução de um grupo que estava com problemas de renovação de seu quadro de componentes, uma vez que os mais jovens

refutavam utilizar fardamentos como as anáguas e as pinturas no rosto. Além disto, o desinteresse também era sentido pelo fato dos jovens não quererem mais gastar os finais de semana com ensaios do grupo, frente aos atrativos das festas, dos bailes, da TV e dos videogames. Contudo, seu Ivo ainda acreditava que os que lá estavam, de alguma forma, poderiam continuar o seu árduo trabalho. Seu Ivo falava em preparar pessoas que pudessem conduzir o grupo, manter tradições e despertar sentimentos regionais esquecidos. Seu humor variava conforme as razões e os sentimentos apresentados, saindo da euforia juvenil para uma triste resignação, retornando à primeira com seus olhos vivos e radiantes. No caminho a Milho Verde, quando a paisagem começa sua transformação do verde das pastagens para as rochas esbranquiçadas e áridas, seu Ivo falava da estória do escravo Bernardo, decapitado por não suportar o caminho difícil e faleceu, atrapalhando o transporte de outro escravo, tendo sua cabeça jogada em uma curva que ficou conhecida por “Cabeça de Bernardo”. De forma natural e sem esboçar nenhum sentimento, pedi que seu Ivo repetisse o relato na gravação que íamos fazer no alto das pedras escarpadas do caminho. Ligeiro, apesar da dificuldade de locomoção por conta de uma das pernas comprometidas, fazendo com que caminhasse com a ajuda de uma bengala, seu Ivo saltou do carro e caminhou para o alto. Enquanto montávamos o equipamento de som e imagem, seu Ivo apreciava pacientemente a paisagem bucólica, sem deixar de lembrar que naquelas pedras muitos escravos fugidos deixaram suas marcas. Quando fomos iniciar seu depoimento, seu ouvido afiado captou um som inaudível para nós: “Não é melhor esperar o ônibus passar?”Para nossa surpresa, cerca de um minuto após, um velho coletivo passa sacolejando com dificuldade pelo caminho pedregoso. Aquele homem, apesar da idade, ainda mantinha seus sentidos aguçados e despertos. Nesta entrevista gravada do alto das pedras que margeiam Milho Verde, seu Ivo cantou algumas canções que fazem parte do

vissungo. Sua voz retumbava pelas pedras escarpadas, atravessava o vale

silencioso como fosse de encontro aos cantos e lamentos dos que por ali passaram nos últimos trezentos anos. Enquanto cantava, seus olhos vivos se fechavam ligeiramente, compenetrado em pensamentos que, para nós, eram carregados de lembranças, de saudades, do tempo e de sua passagem. Enquanto falava, a fina bengala riscava o chão pedregoso, em movimentos

repetitivos de seu braço, como se cavasse um pouco do passado que ali estava depositado.

Retornamos a Milho Verde e fomos caminhar um pouco, tentando dar um sentido para as informações e depoimentos que estávamos recolhendo. Neste caminhar, a rotina daquela comunidade brotava da terra arenosa que pisávamos. Casas centenárias simples sinalizavam os tempos passados, mas que ainda permaneciam em velhos costumes, como das lavadeiras utilizando um chafariz de pedra, da época do império. Panelas de alumínio, tachos e pequenos potes de plástico eram banhados em águas que surgiam de canos desgastados, acondicionados em pedras esverdeados pelo limo, em meio a conversas gostosas e risos escancarados sobre acontecimentos que mantinham ares de uma época quase inalterados. No açougue fechado, com velhas portas de madeira e a pequena escada de pedra, o zumbido da geladeira pulsava como um coração que ditava o ritmo de uma rua deserta, tendo como testemunha isolada um cão sarnento se coçando. Uma bicicleta passou entre nós, com seus passos marcados pelo preguiçoso movimento circular de seu condutor, estalando a corrente enquanto nos saudava com um “ôup” alongado. Nenhum dos bares estava aberto. Apenas duas vendas comercializavam os gêneros essenciais para que a vida do lugar tivesse andamento. Mais do que no Serro, espaços diminutos combinavam uma mistura exótica de sabonete, açúcar e material elétrico. Das casas com paredes irregulares delimitando o espaço dos caminhos em formatos de ruas, aparelhos de som emitiam os sucessos sertanejos ou de axés, para o deleite de vozes femininas que tentavam acompanhá-los. Encerrávamos mais um dia de trabalho.

Belgede AĞ KULLANIM KILAVUZU (sayfa 156-160)