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Júlia nasceu e viveu até os 32 anos “na roça”, quando entrou para a Universidade. No momento da entrevista tinha 38 anos. Ela teve uma trajetória escolar singular, porque sua experiência de frequentar a escola regular foi muito reduzida. Não passou pela pré- escola; cursou as três primeiras séries da escola primária na “Escola Municicipal Rural da Penha” e daí deu um “grande salto” para a Universidade. Todo o 1º grau, a partir da 4ª série primária, e o 2º grau, foram cursados via ensino supletivo. Pelo fato de ter vivido muito pouco o cotidiano de uma escola, ela reclama de não ter participado daqueles “trabalhos, coisas, festinhas...acho que faz parte da escola”.

A escola primária que Júlia frequentou fica num povoado chamado Penha, no município de Lagoa Santa. Esta escola fica a 4 km de onde morava, o povoado de Alpercatas, e a 8 km da cidade. Ela ia e voltava para a escola a pé. No caminho da escola atravessava um pequeno rio sem ponte que, na época das chuvas, impossibilitava o acesso à escola. A “Escola Municipal Rural da Penha” é situada na Fazenda de propriedade da então professora de Júlia, D. Maria do Carmo, atualmente aposentada, e só funcionava, com turmas multisseriadas, até a 3ª série.

Quando concluiu a 3ª série, ela teve então de interromper os estudos por falta de escola. Para continuar a estudar teria que mudar para a cidade (Lagoa Santa, Santa Luzia, Jaboticatubas...cidades mais próximas) e isto era impensável naquele momento, por absoluta falta de condições, sobretudo econômicas. Além das dificuldades materiais, os pais colocavam outros obstáculos. O pai não valorizava o estudo e a mãe temia que a

cidade fosse um “mau caminho“ para as filhas. Indagada se tinha vontade de ter estudado também, Mercês, irmã de Júlia, responde que “nem colocou isto na cabeça; não adiantava ocê querer pensar, porque não tinha condições. Morava na roça. Lá a professora dava só 3º ano”.

Júlia só foi retomar os estudos aos 20 anos, motivada por um convite para ser monitora na escola onde ela estudou. A diretora de então “obrigou-a” a fazer imediatamente a 4ª série para assumir essa função. Não era objetivo seu fazer a 4ª série naquele momento, mas organizar a vida para “sair” (da roça) e só mais tarde continuar os estudos. Como veremos, “sair” da roça tinha, para Júlia, o duplo sentido de se deslocar fisicamente para a cidade, mas também (e sobretudo?) “sair” cultural e socialmente daquele lugar. Por força das circunstâncias, ela aceitou então “cursar” a 4ª série naquele momento, o que fez no Mobral. Trabalhou como monitora até 1982, até a aposentaria da diretora que a convidou. É possível que aquele convite de monitoria se explique por ela ter apresentado, no passado, um rendimento escolar muito bom naquela escola. Na entrevista que fizemos com D. Maria do Carmo, ela fala que a Júlia “toda a vida foi muito boa aluna; muito comportada”. O próprio pai também reconhece este fato e o expressa da seguinte forma:

“Que teve inteligência pra estudo foi só ela [comparando-a com os outros irmãos]. Os outros todo ficou 6, 7 anos na escola e aprendeu o tantinho mesmo que tá aí; não aprendeu mais não. (...) A Júlia, desde que ela entrou na escola, se desse duas...duas veis por ano, o 1º e o 2º, ela fazia todos os dois num ano”.

A partir dos 27 anos, cerca de 3 anos depois que deixou a monitoria na escola, Júlia iniciou uma nova fase em seus estudos. Na verdade os retomou de um ponto de vista mais sistemático e com o objetivo de diplomar-se, porque ela estivera, até então, sempre estudando, principalmente em função das necessidades da monitoria. Ela afirma que teve que estudar muita coisa “pra poder passar” (no sentido de dominar conteúdos para transmitir aos alunos) e que, porisso, “estava sempre lendo”. Foi quando ela fez as últimas séries do 1º grau, de 5ª à 8ª série, e todo o 2º grau por correspondência. Para subsidiar esse período de estudo, ela conseguiu duas bolsas de estudo; uma que cobriu o

1º grau e outra, o 2º. A primeira bolsa foi obtida através de um programa sertanejo de rádio. Afirma que, “casualmente ouvi o programa no sábado”. A segunda bolsa veio do próprio Instituto Universal Brasileiro, instituição com a qual se correspondia e que lhe conferiu os diplomas de 1º e 2º graus. Foi de um ano esse tempo do supletivo :

Não perdi nem uma matéria não. Eu demorei um pouquinho do 1º pro 2º grau pra mim conseguir outra bolsa; até eu conseguir outra bolsa. Mas foi rápido também. (..) Aí o 2º grau eu mandei a cópia do certificado e agradeci...ganhei a outra! Pouco tempo depois. Uns seis meses depois. Acho que foi o tempo deles ... pegar, apurar direitinho, ler direitinho e me deu a outra”.

Assim que conseguiu o diploma do 2º grau, ela se inscreveu no vestibular da UFMG, sem frequentar nenhum cursinho. O primeiro vestibular que tentou foi para o curso Direito, no ano de 1990, quando perdeu na 2ª etapa. No ano seguinte tentou novamente, mas desta vez para Geografia. De um vestibular para o outro, se preparou também sem cursinho, “sempre atualizando pra tentar vestibular de novo”, afirma. Logo que se viu amparada por uma bolsa da FUMP, deixou a casa dos pais na roça e foi morar em Lagoa Santa, “no mesmo quintal” que sua irmã casada, a Mercês. É um lote com 3 casas, numa das quais ela mora.

Até então, as informações de que dispunha Júlia acerca do funcionamento da Universidade eram mínimas. Ela não sabia, por exemplo, que existia curso superior de Geografia, conhecendo apenas alguns cursos mais tradicionais como medicina, direito, engenharia. “Aqui é que fui ver, no vestibular, a lista de cursos superiores”, diz. Não sabia também que tinha que pagar taxa de matrícula na UFMG. No ato da matrícula, foi

encaminhada para a FUMP.1 “Aí me deram dinheiro emprestado; eu tenho que pagar

depois”. A primeira escolha de curso superior, Direito, é explicada em termos de “tradição de família”; questão sobre a qual discutiremos mais adiante. Já a Geografia foi escolhida porque era um curso “mais fácil de entrar”. É possível supor, no entanto, que outros fatores tenham também entrado nesta opção, como a sua relação vital com a terra e com o pai.

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Após um ano e meio de frequência ao curso de Geografia, cursado no turno diurno, Júlia teve que fazer mais uma interrupção nos seus estudos, desta vez para

trabalhar. Aprovada num concurso da Copasa,2 teria que ter disponibilidade de tempo

para o trabalho durante o dia. Ela deveria então passar a estudar à noite, mas a UFMG coloca como condição para transferências desse tipo, já ter cursado pelo menos 50% dos créditos no curso de origem, condição que ela não cumpria no momento. Nesta situação, a sua opção foi de trancamento de matrícula, que é justificada da seguinte forma:

“Eu tinha condições de viver independente, manter minha despesa, sem tomar dinheiro emprestado [da FUMP]. Então eu acho que valia a pena eu parar um tempo, começar a trabalhar e depois voltar, já que tinha o curso noturno”.

Para ingressar no noturno, ela submeteu-se a outro vestibular de Geografia, no qual foi aprovada. Foram dois anos e pouco de espera, até que uma turma do curso noturno de Geografia em andamento “chegasse no ponto onde parou”. Até começar a trabalhar na Copasa, sobrevivia na cidade com os subsídios da FUMP e com o salário proveniente de um trabalho de alguns dias da semana num restaurante de Lagoa Santa.

Ela conta que os momentos mais difíceis de sua trajetória escolar foram o período do supletivo e a entrada na Universidade. No período do supletivo as dificuldades eram relacionadas com as disciplinas de estudo e, sobretudo, por ter que se defrontar com elas sozinha. “Com a química e a física eu sofri demais; achei muito difícil”. Também no curso superior enfrentou dificuldades com disciplinas, como geomorfologia e climatologia. No início “fazia mais o curso com monitor que com professor”. Mas aí, ao contrário, ao invés de estar sozinha, sentiu o impacto da presença de “70 alunos numa sala de aula”, de muito barulho e, segundo nos parece, da vivência do confronto com um universo sócio- cultural muito distinto do que até então tinha vivido. Estamos diante de uma história de persistente e intensa luta para chegar à Universidade.

Benzer Belgeler