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2.3. Başarı faktörleri

2.3.1. Öğrenme başarısını etkileyen faktörler

Uma das dimensões mais marcantes da história escolar de André, é sua disposição diante do futuro. “Ser possível” e “num tempo possível”: disposições que foram significativamente facilitadoras, mobilizadoras de energias subjetivas e materiais para seu empreendimento escolar. Reafirmamos aqui a hipótese de que esse tipo de atitude, constituiu-se como um verdadeiro trunfo para seu sucesso escolar e, de um modo mais geral, para as camadas populares, desprovidas de outras condições favorecedoras.

Um dos momentos da entrevista foi particularmente fértil no sentido de expressar sua atitude básica diante do tempo futuro. Quando indagamos sobre o que explicaria, na sua perspectiva, possíveis diferenças entre ele e colegas seus, que, com idade e condições sociais semelhantes, já haviam abandonado a escola há muito tempo. Ultrapassando o nível do simples relato de fatos, ele, muitas vezes hesitante na formulação de sua fala, mostrou-se extremamente engajado na problemática proposta, tentando, ao mesmo tempo em que nos respondia, compreender-se e explicar-se. Ainda que extensa, transcrevemos, a seguir, sua reflexão a respeito:

“O que eu tenho notado é que parece, assim... pessoas que convivem comigo atualmente e que já conviveram também... parece que o que eles têm na cabeça hoje é aquela coisa do imediato, sabe? Eles querem estar aqui, agora... eles são muito imediatistas; é o que está acontecendo agora. Eles não têm

projeto nenhum para o futuro! Eles são bem o presente mesmo, e tal; viver o presente do jeito que ele tiver acontecendo e o futuro, quando ele chegar, a

gente vê o que faz, entendeu? O futuro como alguma coisa que tem que

construir, entendeu? Eu não consido imaginar isso, não. Eles têm a mesma

capacidade que eu?! Não consigo compreender porque eles pensam dessa forma! (...) A impressão que eu tenho, é que eles acham que têm uma adolescência eterna!”(grifos nossos)

André comenta que alguns de seus colegas das camadas populares, numa espécie de lamento sobre a própria sorte, tecem frequentes comentários acerca da situação priviliegiada de seus colegas de classe média, dizendo que estes últimos estariam tranquilos, “porque têm herança” da família. Só que, questiona André, assim como ele próprio, aqueles colegas, não tendo herança, consideram, diferentemente, “que não têm que construir nada”. “Eu tenho que construir minha própria herança”, afirma ele. Entendemos que André expressa aqui uma concepção de que “construir a própria herança”, seja possível.

Da mesma forma, André não concebe que o sucesso escolar esteja, necessariamente, determinado para os colegas de classe média. E quando ele discute essa questão, está de novo polemizando com jovens das camadas populares que, com frequência, pensam o seguinte:

“(...) o pessoal que convive com a gente (colegas de classe média), estudou

sempre; tá sempre tendo as coisas todas pra estudar... então... levam as

coisas... fazem as coisas que têm que fazer... esse pessoal que estudou, é porque tinha que estudar mesmo; foram feitos pra isso mesmo!” (grifos nossos).

outros jovens das camadas populares. Só que essa concepção de mundo tem que se materializar enquanto projeto, enquanto algo que deve ser conquistado! Ele acredita que as condições adversas do presente podem ser superadas e, nesse sentido, é portador do que Mercure (1995) denomina de “plano de vida”. Ou seja, sua vida é norteada por orientações gerais do que deve ser o futuro: “eu sei o que quero pra minha vida futura”. Nesse sentido também, ele distingue-se de seu pai que, numa disposição mais conservadora diante do futuro, contenta-se em reproduzir, com dignidade, as condições básicas do presente.

Uma outra condição facilitadora da sobrevivência escolar de André, foi sua disposição em “se acomodar” ao tempo que lhe foi possível para construir seu caminhar pelos diferentes andares da escolarização. Ele teve, e continua tendo, persistência e

fôlego nessa direção. Sua trajetória é rica em exemplos dessa firmeza em não se desviar

da rota: a forma como, estrategicamente, viveu e superou suas reprovações e o período difícil de adaptação ao universo acadêmico. Em relação à sua segunda reprovação, quando André se confrontou com injunções de vida complicadas, ele declara: “eu não esquento muito a cabeça, sabe? Se a coisa não tiver... se eu ver que não tenho condições naquele momento ali... eu dou um tempo, depois eu tento de novo”. Poderíamos considerar, nesse contexto, que algumas expressões suas, como, “vou dar um tempo” ou “eu não parei”, são verdadeiras “palavras de ordem”, norteadoras de vida.

Em suma, alguns traços emergiram com nitidez e força nos relatos de André e de sua família, que, a despeito de algumas condições familiares desfavorecedoras, também apontadas, contribuíram para “compor”, interdependentemente, seu sucesso escolar inesperado. Esses traços foram, sucinta e restrospectivamente, os seguintes: uma desvalorização das origens, que tem como ponto nevrálgico a questão do trabalho; referências de outro universo sócio-cultural que tiveram origem numa convivência duradoura e forte com um grupo de pares de classe média; concepções básicas de mundo, que apontam para a possibilidade de transformação da vida; uma autodeterminação imbatível de manter-se na escola, como o meio privilegiado de não reproduzir a história dos pais.

CAPÍTULO IV

JÚLIA:

“me integrar na sociedade”

De Alpercatas para Belo Horizonte; da “Escola Rural da Penha” para o Curso de Geografia da UFMG: um caminho aberto a picareta

A entrevista com a Júlia se deu na Faculdade de Educação, onde, no momento, ela cursava disciplinas de licenciatura. O contato com sua família aconteceu na casa de Mercês, sua irmã, em Lagoa Santa. Participaram desse segundo encontro o seu pai, Seu Tonico, com aproximadamente 80 anos de idade e figura central do encontro, suas irmãs Mercês e Ana, e a própria Júlia, a partir de um determinado momento.

Tendo a pesquisadora chegado na hora combinada, Seu Tonico não estava em casa; fui convidada por Mercês a entrar e fui recebida numa área de fundo de sua casa, lugar onde a entrevista se realizou. Conhecedor do tema a ser tratado, temos a hipótese de que o pai da Júlia tenha esperado esta entrevista com muita desconfiança, o que de fato percebemos em alguns momentos do seu desenrolar. A irmã Ana não participou da conversa; mostrou-se mais distante e, num certo momento, ofereceu-nos um café com bolo trazido da sua casa, onde mora também o pai e que fica no mesmo lote. Mercês, ao contrário, participou ativamente do assunto. A mãe, já falecida, é figura apagada na história escolar da Júlia.

Seu Tonico viveu toda a sua vida na roça; em lugares diferentes, mas na mesma região, Santa Luzia. Cursou até a 2ª série primária numa escola municipal de Andrequissé; andava 1 légua para ir à escola. Antes frequentara uma “escola particular” de “uma dona lá que dava escola particular e cobrava 3 mil réis pro mês, 1 tostão por dia”.

No entanto ele era “muito bem desenvolvido, muito ativo pra quem fez só a 2ª série de Grupo”, afirma Júlia. A mãe de Júlia aprendeu apenas a assinar o nome.

Ultimamente Seu Tonico vivia em Alpercatas, distrito de Taquaraçu de Minas, onde ficava seu “terreno” e de onde fora expulso há alguns meses pela enchente do Rio Taquaraçu. Morava a partir de então em Lagoa Santa. Júlia localiza “esta roça”, objeto de significações fundamentais para ela, da seguinte forma:

“Meus parentes, a maioria é de Santa Luzia. (...) Taquaraçu de Baixo... Tinham [seus avós] uma fazenda não muito grande, mas foi dividida; alguns venderam, alguns conservaram...alguns quiseram mudar pra cidade, venderam. Alguns ainda moram lá. Os que moram lá não se realizaram. Ficaram lá mesmo cuidado de roça, de terra. Os que saíram é que conseguiram” (grifo nosso).

O trabalho do Seu Tonico sempre foi ligado à terra e na condição de pequeno proprietário, mesmo quando ainda em compania de seus pais. Lidava com pequenas culturas e com gado para fins de subsistência. Conta Júlia que ele fora também tropeiro lá pelos lados de Ibirité, quando ainda jovem e solteiro. Ele conta também que trabalhou como “empregado” numa fábrica de sabão, em Santa Luzia, por um período aproximado de 4 anos. Quando morava com os pais, viveu uma situação de pobreza muito grande, que tinha para ele uma explicação no fato de que seu pai “vivia trabalhano, puxano lenha pros outro...fazeno serviço, arano terra pros outro”. Só ia trabalhar na própria terra quando “já era tarde, fora de hora”. Ele fala dessa época como sendo de tempos muito difíceis, em que não se colhia quase nada. E fala também de como mudou o rumo de sua vida, ao passar a trabalhar por conta própria. E assim fazendo, ele superou a fase anterior de grandes dificuldades. Ele fala deste momento nos seguintes termos:

“Depois que eu larguei os modo deles lá, não trabalhar pros outro, tabalhar pra

mim, plantar e colher e comer... não teve nada mió pra mim. Eu plantava pouco,

colhia muito. Plantava arroz, milho, feijão, mandioca, cana, horta. Terra boa! A terra dava flor de prata e fruta de ouro na cultura. Plantava de tudo um pouco. E tá lá até hoje. Taquaraçu” (grifo nosso).

Este depoimento do Seu Tonico tem elementos reveladores de um determinado modo seu de se relacionar com o mundo do trabalho; de sua recusa a “empregos”. Ela representa, não só a defesa de uma forma de gerenciar o trabalho que possibilitou superar a pobreza, mas também a defesa da situação de “proprietário”; daquele que não trabalha para os outros, como o pai trabalhava, daquele que não é “empregado”. Como discutiremos adiante, o sentido predominante que o Seu Tonico atribui à escola em geral, e à escolarização da Júlia em particular, tem uma relação muito estreita com esse modo de conceber o trabalho.

Benzer Belgeler