Este princípio foi proposto pela BACOR para, juntamente com os demais princípios da etnometodologia, integrar os princípios da etnofenomenologia, uma vez que trabalhamos a Pedagogia Vivencial Humanescente centrada na Teia da Corporeidade, que lança mão de vivências trabalhadas intensamente com o desenvolvimento do pensamento ecossistêmico por meio de metodologias que envolvem a corporeidade para a transformação dos sujeitos. Esta transformação relaciona-se a autoformação humanescente, que faz uso das construções simbólicas no Jogo de Areia e suas possibilidades projetivas, além de seu potencial comunicativo e interativo, que se expressa por meio dos arquétipos.
Para a Psicologia Arquetípica, o termo arquétipo extrapola a pesquisa clínica dentro do consultório da psicoterapia, ao situar-se dentro da cultura da imaginação. Para Hillman (1988, p. 21) “é uma psicologia deliberadamente ligada às artes, à cultura, e à história das ideias, na forma como elas florescem na imaginação”.
Aqui adotamos a arquetipalidade como sendo a representação simbólica de nosso sentipensar e nossa autoformação humanescente, trabalhando os símbolos utilizados pelos participantes em suas diferentes interações vivenciais, sem uma preocupação com a interpretação aprofundada dos arquétipos, como proposto por Jung (2000), uma vez que a proposta deste trabalho não trilha o caminho da abordagem psicológica, mas sim o da pedagógica que percebe o ser humano em sua humanescencialidade.
Trabalhar e vivenciar o Jogo de Areia e outras experiencialidades táteis é experimentar a cada momento as expressões da arquetipalidade. Trabalha-se na areia com as miniaturas que são símbolos do que queremos construir, de nosso mundo interior e expressão de nossa imaginação, como afirma Chopra (2005, p. 109) “os arquétipos são modelos de vida, imagens e ideias que norteiam a sua vida em direção ao destino supremo da sua alma”.
E mesmo quando não se usa miniaturas e os desenhos emergem da areia, pela ação das mãos mergulhadas na areia ou simplesmente alisando-a e modelando-a em uma entrega ao devaneio e à imaginação, experimentando as sensações e emoções da tatilidade, ali também está a expressão de nossos símbolos revelando a arquetipalidade. Sobre a simbologia em nossa vida, Capra (2006, p. 289) afirma que;
Como seres humanos, amoldamos nosso meio ambiente com muita eficácia, porque somos capazes de representar o mundo exterior simbolicamente, pensar conceitualmente e comunicar nossos símbolos, conceitos e ideias. Fazemo-lo com a ajuda da linguagem abstrata, mas também de modo não verbal, através da pintura, música e outras formas de arte.
Portanto, somos capazes de representar nosso mundo vivencial por meio de símbolos, por exemplo, pelas miniaturas ou pelos desenhos na areia, colagens sobre o papel, fotografias e outras formas que adotamos nesta pesquisa para investigar a autoformação humanescente, que possibilita uma transformação do ser ao conhecer e se reconhecer simbolicamente.
Essa transformação ocorre continuamente no viver a vida entregando-se às experiências que se apresentam a cada momento proporcionando a autoformação humanescente. Nossa forma de enxergar o mundo configura a arquetipalidade. Downing (1994, p.9), ao discutir as imagens arquetípicas que moldam nossa vida, afirma que “chamar algo de arquetípico é um procedimento de valorização, não a postulação de um fato ontológico. Assim, arquetípico refere-se a um modo de enxergar. Nós não olhamos para arquétipos, nós vemos através deles”.
Para Jung (2000, p. 58), “há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida”. O autor estudou e descreveu muitos arquétipos que incluem o poder, a magia, o herói, a criança, a mãe terra. Outros ligados à natureza, como as árvores, os rios, o sol, o fogo, e também arquétipos relacionados a objetos construídos pelo homem como anéis e armas. Para Chopra (2005, p. 108) “os arquétipos nascem da alma coletiva, mas são encenados por almas individuais. Os dramas míticos delas têm lugar diariamente no mundo físico”.
São os símbolos que representam nosso ser e estar no mundo. É a vida do sujeito que se revela pelos símbolos que ele utiliza para descrever ou representar seu mundo. O participante Berilo (2009), ao se auto representar, usou três símbolos e os descreveu da seguinte forma: “o livro representa a faculdade, a aliança meu
relacionamento, e a ferramenta meu trabalho. As três não estão ligadas diretamente, mas qualquer alteração em uma, interfere nas outras”.
A aliança ou anel é simbolicamente relacionado ao elo ou vinculação, a uma comunidade ou destino associado (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007). Usualmente se usa o anel nos dedos das mãos para demonstrar ligação afetiva entre duas pessoas, como uma simbologia de amor. E foi exatamente desta forma que o participante Berilo expressou sua relação amorosa. Ele utilizou também o livro para representar a escola e uma ferramenta para o trabalho, e estabeleceu uma relação emocional e energética entre eles, como uma configuração em teia. Se há interferência em um deles, os outros também são afetados.
O livro é um símbolo muito utilizado nas vivências táteis e sempre se relaciona com o processo de ensinar e aprender, como revela a participante Muscovita (2009):“fiz um livrinho com a palavra aprendizado que é uma coisa eu me foco bastante, é tentar estar desenvolvendo esse aprendizado na academia [...] e me preocupando para futuramente estar passando esse aprendizado”.
Cada pessoa em seu processo vivencial e contexto pessoal transmitem suas próprias características a uma imagem, e Bachelard (2003, p. 174) afirma que “é essa contribuição pessoal que torna os arquétipos vivos; cada sonhador repõe os sonhos antigos em uma situação pessoal. Assim se explica porque um símbolo onírico não pode receber, em psicanálise, um sentido único”. Portanto, o anel pode ter um significado da amorosidade, da relação afetiva entre duas pessoas que se amam, mas ele também pode simbolizar a prisão e submissão, o poder, a sabedoria entre outras simbologias (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007).
Outro participante usou flores para representar os sentimentos bons e o conhecimento que imaginou que iria adquirir nas vivências com o Jogo de Areia: “as rosas grandes e coloridas representam alegria, satisfação, desafio, conhecimentos, ou seja, tudo que vou adquirir nos encontros de pesquisa” (MUSCOVITA, 2009). As flores são símbolos importantes e mesmo que cada uma tenha uma representação própria, muitas vezes a flor “apresenta-se como figura-arquétipo da alma como centro espiritual” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007). As flores possuem mágicos poderes de nos alegrar, de nos fazer sonhar, como diz Bachelard (2006, p.148):
Uma flor, uma fruta, um simples objeto familiar vêm repentinamente solicitar que pensemos neles, que sonhemos perto deles, que os ajudemos a ascender ao nível de companheiros do homem [...] Nem todos os objetos do mundo estão disponíveis para devaneios poéticos. Mas, assim que um poeta escolheu o seu objeto, o próprio objeto muda de ser. É promovido à condição de poético.
As flores são sempre escolhidas pelos poetas e promovidas à condição de poético em diferentes situações onde a beleza da vida se expressa, podendo representar a amizade, como revela Monazita (2009) “as flores é o momento meu e de meus amigos, já que estamos fazendo várias trilhas e sempre juntos” ou representar a educação de qualidade que tanto buscamos, como reflete Lepidolita (2009) “a educação deve ser como uma flor: bonita e agradável. Nossas escolas precisam de beleza e é isto que imagino fazer pela educação quando eu estiver na sala de aula: transformar em beleza o que é feio e sem vida”.
As flores também simbolizam a alegria de uma vida sem atropelos, como destaca Caolinita (2009) na descrição de seu cenário no Jogo de Areia (Figura 21), em que ela separa dois caminhos, um com flores e outro sem flores:
Aqui o caminho que eu estou seguindo em frente na minha vida. De um lado eu encontro flores e o refúgio que eu encontro nas minhas orações, na igreja. E de outro lado, sem ter só flores, tenho também a guerra e as dificuldades da vida, e diante deste longo caminho, quando eu penso que estou livre, aí vem uma longa subida, e que com certeza, com fé e coragem, eu vou conseguir, e no final terei a vitória.
É na construção dos cenários no Jogo de Areia que a arquetipalidade tem sua expressão mais evidente e nos entregamos ao devaneio e a imaginação, construindo e reconstruindo mundos reais ou imaginários e onde fazemos brotar nossa arquetipalidade. Para Chopra (2005, p. 108), cada um de nós “está em sintonia com um, dois ou três arquétipos. Cada um de nós está intrinsecamente programado, no nível da alma, para encenar ou modelar características arquetípicas, que são sementes plantadas dentro de nós”.
Jogamos o jogo da beleza e da vida no Jogo de Areia, possibilitando emergir nossos arquétipos. É onde as mãos intensificam a tatilidade, possibilitando que cheiros, sabores, cores, sons e emoções perambulem pelos cenários. Neste sentido, Weinrib