58 A Heresia Albigense, cujo nome deriva da suposição que os cátaros tivessem sua sede na cidade de Albi, entre Tou- louse e Lyon, no sul da França, imperava em toda a região do Languedoc, onde dominavam as casas de Toulouse e Trencavel, relacionadas por laços de vassalagem, casamento e hereditariedade entre si e com o Reino de Aragão. Como movimento religioso, o Catarismo (do gr katharos, puro) remete aos primeiros tempos do cristianismo e, como heresia, às doutrinas sobre Trindade e Cristologia que floresceram no Oriente em desacordo com os posteriores Credo de Nicéia (325) e Constantinopla (381). Entre essas, destacam-se as idéias de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, cujos ele- mentos dualísticos e gnósticos teriam influenciado o paulicianismo na Armênia (650-872) e os bogomilas balcânicos (sec X, na Macedonia), eventuais precursores do Catarismo. Os cátaros da Occitania consideravam-se apenas ‘bons cristãos’. Celebravam rituais semelhantes ao da Eucaristia na Santa Missa: abençoavam o pão e dividiam entre si mas provavelmente não acreditavam que fosse outra coisa além de pão que, por ser objeto material, não pertencia ao reino do divino, mas ao do seu oposto. Nesse dualismo, o credo cátaro pode ser visualizado como elo de uma corrente antiga que, no tempo de Cristo, fazia parte da religião mais comum entre o Oriente Médio e a China, o Zoroastrismo ou Mazdeísmo centrado na Pérsia, cuja classe sacerdotal, os Magi - como aqueles que vieram de longe para homenagear o menino que nascera numa manjedoura - era considerada por gregos e romanos profundamente sábia e misteriosa. Os Magi persas eram dualistas que acreditavam no paraíso, na ressurreição, no juizo final e na vinda de um messias. Para os cátaros, no século XI, o reino divino era o das Almas e Luzes, das coisas imateriais. O seu oposto, o reino das Trevas, era o da matéria, incluindo o mundo, as coisas que existem nele e também os homens, através da captura e aprisiona- mento de suas almas em corpos matéricos, no processo da concepção. A morte não era exatamente temida entre os catá- ros mas até certo ponto benvinda, como o despir-se de uma roupa suja. Havia que preparar-se para esse momento, uma vez que ao despreender-se do corpo a alma podia retornar vestida em outro corpo, humano ou animal. Sòmente os Puros estariam livres do círculo vicioso de reencarnações. Como os pitagóricos, os cátaros acreditavam em metempsicose e na transmigração das almas. Entre eles, não havia uma classe sacerdotal propriamente dita. Embora os seguidores não fos- sem todos iguais, eles não se diferenciavam por gênero nem discriminavam as mulheres: haviam os simples Crentes (Auditore ou Credentes) e os Eleitos/as (Perfecti). Havia uma certa aura de santidade em torno deles. Eram leigos, ho- mens e mulheres que viviam uma vida apostólica mais cristã que a do clero, elegiam seus superiores em cerimônias simples, assistiam aos fiéis na celebração dos ritos e eram profundamente respeitados pela cristandade mais crédula como receptáculos de uma sabedoria íntima em que o Espírito Santo parecia habitar do mesmo modo que a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade habitou entre os Apóstolos, no dia de Pentecostes. Viviam pobremente. Observavam estrita castidade e ascetismo semelhante ao ideal monástico mais rigoroso, não aceitavam mentira alguma, não faziam juramentos solenes, não matavam ou comiam qualquer tipo de criatura viva - o que incluía carne, ovos, leite, queijo com exceção do peixe cuja reprodução se acreditava livre do ato sexual. Tornaram-se alvo fácil para os perseguidores: um rosto macilento, uma pele amarelada e sem viço podia denuncia-los - ou incriminar um inocente, fez ver o bispo Wazo de Liège na Bélgica aos mais afoitos, algumas décadas depois do ano 1000, conta seu biógrafo Anselmo (in Gesta Episcoporum Leodiensium, citada por Richard LANDES in "The Birth of Heresy: A Millennial Phenomenon", Journal of Religious History 24.1, 2000, pp 26-43). Nos séculos seguintes foram mortos aos milhares.
59 O ano de 1184 pode ser considerado como início da Inquisição medieval em função da bula ‘Ad abolendam diversa- rum haeresum pravitatem’ promulgada pelo papa Lucio III no Concilio de Verona com o objetivo de combater a heresia cátara e controlar os movimentos heterodoxos surgidos na cristandade em torno do ano 1000. Aperfeiçoada como ins- trumento de contenção herética pelos papas sucedâneos Inocêncio III, Honorio III e Gregorio IX, a Bula de Verona pre- via, além da condenação de todos que pregassem em público ou em particular sem a autorização da Igreja, a excomu- nhão e o confisco dos territórios dos nobres e magistrados que não aderissem ao combate. Para implementação das me- didas, foi estipulado que os bispos, sob pena de destituição eclesiástica, deviam reprisar o anúncio de excomunhão du- rante três anos consecutivos, na celebração das festas e feriados, assim como percorrer duas ou três vezes por ano suas dioceses para detectar lugares suspeitos e interrogar os aldeãos, colocados sob juramento, a respeito de heréticos. Embo- ra o Ad Abolendam tenha mostrado alguns resultados na Itália e em outras partes da Europa, teve pouco efeito na Occi- tânia e em particular no Languedoc onde a nobreza e o clero, com seus trovadores e poetas, mostravam-se mais liberais em questões de fé que seus pares em Roma, Paris e no norte da França.
Lingua Occitânica:
correspondências geográficas no mapa da Europa
Cruzada Albigense, à época da batalha de Muret (1213): em destaque no verde, os domínios da Casa de Trencavel no
Languedoc, vassala simultânea do conde de Toulouse e do rei Pedro II de Aragão
Dominios da Coroa de Aragão (amarelo): Béarn, Comminges, Gévaudan e Provence. Protetorado de Pedro II de Aragão (vermelho): condados de Toulouse e Foix.