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Nossa sabedoria começa onde a do autor termina e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos. (Proust)

Inicialmente, tratamos acerca do pensamento de Bakhtin, e buscamos em Brait (2006a), a denominação que demos a este capítulo. A pesquisadora tem se dedicado ao estudo da obra de Bakhtin e seu Círculo11 e explica (2003, p. 28) que esses autores nunca propuseram conceitos sistematicamente organizados que funcionassem como perspectiva teórico-analítica fechada. Por isso, Brait (2006a) sustenta que o conjunto das obras do Círculo originou uma análise/teoria dialógica do discurso, que influenciou não só os estudos literários e lingüísticos, mas também as Ciências Humanas de um modo geral. A autora explicita o embasamento que constitui a análise/teoria dialógica do discurso; afirma que isso é possível considerando-se a inseparável relação discursiva existente entre língua, linguagens, história e sujeitos historicamente situados, relação que instaura os estudos de linguagem como lugares de produção de conhecimento de forma comprometida, responsável. A pesquisadora (2006a, p. 14) afirma que na análise/teoria dialógica do discurso bakhtiniana “não há categorias a priori, aplicáveis de forma mecânica a textos e discursos, com a finalidade de compreender formas de produção de sentido num dado discurso, numa dada obra, num dado texto”. Ela continua: “as contribuições de Bakhtin constituem de fato um corpo de conceitos, noções e categorias que especificam a postura dialógica diante de um corpus discursivo, da metodologia e do

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Buscamos a denominação em Brait (2006a, p. 9-10). A autora ensina que “o conjunto das obras do Círculo motivou o nascimento de uma análise/teoria dialógica do discurso”.

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O grupo era formado por intelectuais como M. Bakhtin, P.N. Medvedev, V.N. Volochinov e outras pessoas de diversas formações, que se reuniram durante dez anos, de 1919 a 1929. Esse grupo foi denominado, posteriormente, pelos estudiosos de suas obras, de Círculo de Bakhtin. Clark e Holquist (1984/2004) informam que os componentes do Círculo apresentavam, em comum, uma paixão pela filosofia e pelo debate das idéias.

pesquisador” (BRAIT, 2006a, p. 29). Foi a partir dessas constatações de Brait que verificamos a importância da abordagem dialógica para nosso trabalho.

4.1.1 Algumas contribuições de Bakhtin e seu Círculo

Para a realização desta tese, escolhemos como aporte teórico as contribuições do filósofo russo M. Bakhtin e seu Círculo, não porque estão na moda, mas porque seu instrumental teórico-metodológico é capaz de fornecer elementos para a compreensão do funcionamento discursivo da sentença judicial, gênero escolhido para nossa análise.

A leitura da obra bakhtiniana não é tarefa das mais fáceis, pelo fato de o autor não fornecer conceitos acabados; em toda sua vida, Bakhtin desenvolveu inúmeras obras12, nas quais as noções que ele apresenta foram sendo remodeladas. Dessa forma, só foi possível entendermos suas contribuições fazendo um diálogo constante com suas diversas produções. Para a elucidação de alguns aspectos bakhtinianos que haviam ficado pouco claros durante o diálogo com seus livros, recorremos a outros autores que o estudaram. Dentre esses pesquisadores/livros que explicitaram pontos fundamentais, destacamos Brait (1996, 1997, 2001a, 2001b, 2005, 2006a, 2006b e 2006c), organizadora de Bakhtin: conceitos-chave (2005) e de Bakhtin: outros conceitos-chave (2006), a obra clássica de Clark e Holquist,

Mikhail Bakhtin (1984/2004) e, finalmente, Faraco, Linguagem & Diálogo: as idéias lingüísticas do Círculo de Bakhtin (2003). Para chegarmos aos conceitos pertinentes à nossa análise, abordamos alguns pressupostos bakhtinianos, presentes em diversas obras do escritor, algumas produzidas nos anos 20 e outras publicadas a partir dos anos 60 do século passado.

Tendo em vista os objetivos de nossa pesquisa, buscamos, na teoria bakhtiniana, alguns conceitos imprescindíveis para a análise, como enunciação/enunciado, dialogismo,

12 Algumas obras de Bakhtin e seu Círculo, apresentadas em ordem cronológica, são: Bakhtin/Volochinov (1926) Discurso na Vida, Discurso na Arte; Bakhtin/Medvedev (1928/1994), El método formal em los estudios

literários: introducción crítica a uma poética sociológica; Bakhtin/Volochinov (1929/1992), Marxismo e

Filosofia da Linguagem; Bakhtin (1929/2002) Problemas da poética de Dostoiévski; Bakhtin (1975/1988)

autor/autoria, destinatário, discurso do outro, plurilingüismo e gêneros do discurso. Apesar de esses conceitos estarem presentes em diversos trabalhos13, e parecerem dispersos, isso é só aparente, pois há um elemento que permeia toda sua obra, o dialogismo. No livro Marxismo e

Filosofia da Linguagem (1929/1992)14, Bakhtin/Volochinov antecederam aproximadamente cinqüenta anos de orientação da lingüística moderna. Inicialmente, Bakhtin/Volochinov se aproximam de Saussure15, que entende a língua como fato social; mas, diferentemente do estruturalista, que apresenta uma visão estática e abstrata de linguagem e rejeita a fala, Bakhtin/Volochinov valorizam a fala, consideram-na como manifestação social e não individual. A enunciação só pode realizar-se na interação verbal, e sua base concreta é o diálogo. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929/1992), Bakhtin/Volochinov dialogam com duas orientações do pensamento filosófico lingüístico. A primeira delas é o subjetivismo

idealista, cujo interesse é o ato da fala como criação individual, como fundamento da língua. A criação lingüística tem as mesmas leis da psicologia individual, é análoga à criação artística. Além disso, a língua como produto acabado, sistema estável, apresenta-se como um depósito inerte. Isso quer dizer que a língua, para os adeptos dessa tendência, tem uma concepção essencialmente estética, com o predomínio do estilístico sobre o gramatical. A enunciação é monológica e apresenta-se como ato puramente individual. Os dois autores criticam essa tendência, a qual tem o interior como centro organizador, pois para eles esse centro organizador de toda enunciação é exterior, está situado no meio social que envolve o indivíduo. Dessa forma, a enunciação é produto da interação social, “a interação verbal

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Alguns trabalhos de Bakhtin pesquisados são: Bakhtin, (1922-1924/2003) O autor e a personagem na

atividade estética; (1934-1935/1993) O discurso no romance; (1952-1953/2003) Os gêneros do discurso e (1959-1961/2003) O problema do texto na lingüística, na filologia e em outras ciências humanas.

14 Publicado na Rússia em 1929, o livro tem gerado polêmica em torno de sua autoria. Assinado pelo lingüista e professor Volochinov, o texto tem a autoria atribuída a Bakhtin, conforme assumem Clark e Holquist (1984/2004). Outros estudiosos consideram que a obra é de Volochinov. Neste trabalho, não iremos polemizar com essas duas posições opostas e optamos por adotar os dois nomes Bakhtin/Volochinov como autores, como na tradução brasileira da obra.

constitui assim a realidade fundamental da língua” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 123).

A segunda tendência é o objetivismo abstrato, cujo centro organizador de todos os fatos da língua situa-se no sistema lingüístico. Os traços normativos fonéticos, gramaticais e lexicais garantem a unicidade de uma língua e permitem que ela seja compreendida por todos os locutores de uma mesma comunidade. Essa tendência também sofre a oposição de Bakhtin/Volochinov (1929/1992), pois o sujeito falante não poderia fazer uma criação refletida da língua; dessa forma, em tal sistema não há lugar para os valores ideológicos, só há o critério da correção lingüística. Para os autores, “a separação do seu conteúdo ideológico constitui um dos erros mais grosseiros do objetivismo abstrato” (p. 96). Além disso, os adeptos dessa tendência vêem, num mesmo plano, os diferentes contextos em que aparece uma palavra, e essa postura leva à unicidade da palavra. Isso também é contestado por Bakhtin/Volochinov, pois eles acreditam que o sentido da palavra é determinado por seu contexto, havendo tantas significações possíveis quanto contextos possíveis. Finalmente, o objetivismo abstrato coloca a língua fora do fluxo da comunicação verbal, mas para os autores russos, a língua não se separa desse fluxo, avança com ele.

Bakhtin/Volochinov rejeitam essas duas posições antagônicas, pois acreditam que elas são insuficientes para investigar o enunciado concreto16, de natureza social, que tem um autor e um interlocutor. Os autores partem de uma visão sociológico-dialógica do enunciado, o qual é constituído por um aspecto verbal, a língua e um aspecto não-verbal, a situação. No capítulo Enunciado/enunciado concreto/enunciação, Brait e Melo (2005) apresentam como esses conceitos aparecem no conjunto das obras de Bakhtin e de seu Círculo e consideram sua importância nas reflexões sobre a linguagem, bem como suas conseqüências para os estudos

16 SOUZA, G.T. faz uma pesquisa pertinente sobre o assunto em Introdução à teoria do enunciado concreto do

enunciativos e discursivos atuais. Para as duas pesquisadoras, a concepção desses termos só tem sentido na articulação com outras categorias, como discurso, gêneros do discurso, texto, linguagem em uso, signo ideológico e outros elementos constitutivos do processo enunciativo-discursivo.

A criatividade lingüística é realizada na interação verbal, no diálogo entre falantes de uma comunidade lingüística. Esse aspecto já era preocupação de Bakhtin/Volochinov em

Discurso na Vida, Discurso na Arte (1926, p. 5)17 em que os autores indagam “como o discurso verbal na vida se relaciona com a situação extraverbal que o engendra? [...] Como se relaciona o horizonte extraverbal com o discurso verbal, como o dito se relaciona com o não dito?” Para responder à primeira questão, Bakhtin/Volochinov explicam sobre a importância do contexto extraverbal do enunciado, que compreende três fatores: o horizonte espacial comum dos interlocutores, o conhecimento e a compreensão comum da situação por parte dos interlocutores e sua avaliação comum dessa situação. Como resposta à segunda pergunta, os autores explicam que a situação se integra ao enunciado como uma parte constitutiva essencial da estrutura de sua significação. Assim, um enunciado concreto apresenta duas partes: a percebida ou realizada em palavras e a presumida.

Bakhtin/Volochinov apresentam, em Marxismo e Filosofia de Linguagem, a noção de enunciação/enunciado, o ato de fala ou seu produto, que para eles não é individual, pois “a enunciação é de natureza social” (1929/1992, p. 109). Toda palavra dirigida a um interlocutor apresenta duas faces, pois procede de alguém e se dirige a alguém; sendo assim, ela constitui “o produto de interação do locutor e do ouvinte” (p. 113). Nessas afirmações está a tese do dialogismo, o princípio constitutivo da linguagem em sua relação com o outro, princípio esse que não se restringe ao diálogo entre os interlocutores. A enunciação carrega sempre a fala do outro; o interlocutor é participante ativo no discurso, com importância igual ao do locutor,

tendo em vista que é por causa da presença daquele que este toma a palavra, sempre para responder-lhe algo. A noção de dialogismo permeia toda a produção bakhtiniana; por isso, para traçar um percurso, procuramos saber como ele examina essa questão em outras obras..

O dialogismo aparece em Problemas da Poética de Dostoiévski (1929/2002), obra na qual, ao discutir os tipos de discurso na prosa, Bakhtin trata sobre as relações dialógicas; afirma que elas se situam no campo do discurso, isto é, “a língua em sua integridade concreta e viva, e não a língua como objeto específico da lingüística” (p. 181).

Bakhtin interessa-se por análises realizadas a partir das relações dialógicas no plano do discurso; sua teoria não tem interesse na análise da língua, no enunciado isolado. A partir dessas afirmações, propõe uma nova disciplina - a Metalingüística - um estudo dos aspectos da vida do discurso, que ultrapassam os limites da lingüística por possuírem objeto autônomo e metas próprias. Contudo, ele mostra que as pesquisas lingüísticas não podem ser ignoradas, e seus resultados devem ser aplicados pela metalingüística.

Ao trazer para Problemas da Poética de Dostoievski (1929/2002) as divergências entre relações dialógicas e lógicas, o autor acentua que as relações dialógicas são extralingüísticas, mas não podem ser separadas do campo do discurso, pois a linguagem só vive na comunicação dialógica, o verdadeiro campo da vida da linguagem. Para ele, “as relações dialógicas são absolutamente impossíveis sem relações lógicas e concreto-semânticas, mas são irredutíveis a estas e têm especificidade própria” (p. 184). Isso quer dizer que as relações dialógicas são apreendidas discursivamente na língua, sem desconsiderar as relações lógicas.

Também no texto O discurso no romance (1934-1935/1993), Bakhtin considera a orientação dialógica como um fenômeno próprio a todo discurso. Para ele, todo discurso orienta-se para a resposta futura, sendo um diálogo vivo. Isso introduz elementos novos no discurso do falante, pois para tanto concorre a interação dos diversos contextos, pontos de vista, horizontes e falas sociais. Quando o falante entra em relação dialógica com tais

aspectos, há o fenômeno da dialogicidade interna, que se encontra, em maior ou menor grau, manifesto em todas as esferas do discurso vivo.

Mais tarde, em O problema do texto na lingüística, na filologia e em outras ciências

humanas (1959-1961/2003), ele retoma as relações dialógicas como relações de sentido entre enunciados completos, nos quais se expressa o autor, um sujeito real.

Essas relações são profundamente originais e não podem reduzir-se a relações lógicas ou lingüísticas, ou psicológicas, ou mecânicas, nem a nenhuma outra relação natural. É o novo tipo de relações semânticas, cujos membros só podem ser

enunciados integrais (ou vistos como integrais ou potencialmente integrais), atrás dos quais estão (e nos quais exprimem a si mesmos) sujeitos do discurso reais ou potenciais, autores de tais enunciados. (BAKHTIN, 1959-1961/2003, p.330-331) Segundo o filósofo russo, mesmo dois enunciados distantes um do outro, no tempo ou no espaço, no confronto dos sentidos revelam relações dialógicas, se entre eles há ao menos uma identidade particular ou do tema ou do ponto de vista.

Em Reformulação do livro sobre Dostoievski (1961/2003, p. 348), Bakhtin afirma que a vida humana tem natureza dialógica e que “viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc.”.

Todas essas afirmações esclarecem o princípio dialógico da linguagem, que se constitui na língua como um fenômeno social, como interação verbal, em que há alternância dos sujeitos falantes. Nesta tese, remetemo-nos a diversos estudiosos que comentaram acerca do dialogismo. Dentre eles, destacamos Brait (2001a), cuja leitura ancora a questão do dialogismo numa dupla dimensão. Ela se manifesta:

Por um lado, o dialogismo diz respeito ao permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade. É nesse sentido que podemos interpretar o dialogismo como o elemento que instaura a constitutiva natureza interdiscursiva da linguagem.

Por um outro lado, o dialogismo diz respeito às relações que se estabelecem entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos, que, por sua vez, instauram-se e são instaurados por esses discursos. E aí, dialógico e dialético aproximam-se, ainda que não possam ser confundidos, uma vez que Bakhtin vai falar do eu que se realiza no nós, insistindo não na síntese, mas no caráter polifônico dessa relação exibida pela linguagem. (BRAIT, 2001a, p. 78-79 )

Essas afirmações realçam a idéia de que dialogismo não é somente um conceito dentre outros; o olhar compreensivo da pesquisadora leva-nos a perceber que, além da questão do permanente diálogo, entendido como interação e comunicação, Bakhtin preocupa-se ainda com o homem, um ser de linguagem, que se realiza ao relacionar-se a outro homem, por meio do que o filósofo chama de gêneros do discurso.

No capítulo Os gêneros do discurso (1952-1953/2003), Bakhtin vê o processo de produção do gênero; tem como ponto de partida a relação entre as atividades humanas e a utilização da linguagem e, por isso, os enunciados devem ser verificados na sua função no processo de interação que só pode acontecer porque falante e ouvinte se inserem em um contexto imediato, o qual vai dar sentido ao diálogo. Deve-se levar em conta o fato de os participantes do diálogo agirem em determinadas esferas de atividades, como as do trabalho, da escola, da política e outras, pois nelas estão implicadas as condições de produção, circulação e recepção. Dependendo da esfera em que o falante estabelece o diálogo, há o aparecimento de determinados tipos de enunciados, e isso remete aos gêneros, os quais são formas relativamente estáveis de enunciados, que circulam em determinada época. Para o filósofo russo:

o emprego da língua se efetua em forma de enunciados (orais ou escritos), concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua, mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. (BAKHTIN, 1952-1953/2003, p. 261-262) Os gêneros caracterizam-se por um tema, uma forma composicional e um estilo, componentes do todo do enunciado, o qual é marcado pela especificidade de uma esfera de circulação, entendida como o ambiente no qual os gêneros circulam. Há um número sem fim de gêneros; sua heterogeneidade é muito grande e determinada pela infinita variedade de esferas das atividades humanas, que se permeiam, pois não há fronteiras rígidas entre elas.

Quanto aos três elementos constitutivos do gênero, o primeiro, o tema, foi trabalhado pelo Círculo bakhtiniano em Marxismo e Filosofia da Linguagem. Bakhtin/Volochinov, no capítulo 7, Tema e Significação na Língua (1929/1992, p. 128-136), consideram algumas características para se explicar o tema. Destacam que ele é uma propriedade que pertence a cada enunciação como um todo; um sentido da enunciação completa, individual e não reiterável, expressão de uma situação histórica concreta que deu origem à enunciação; afirmam que o tema é tão concreto como o instante histórico ao qual a enunciação pertence. O tema é determinado pelas formas lingüísticas (as palavras, as formas morfológicas ou sintáticas, os sons, as entoações) que entram na composição e também é determinado pelos elementos não verbais da situação. Além disso, é concreto como o instante histórico ao qual ela pertence; é irredutível à análise, não pode ser segmentado.

No mesmo capítulo, há um paralelo entre tema e significação, essa entendida como reiterável e idêntica, podendo ser analisada em um conjunto de significações ligadas aos elementos lingüísticos que a compõem. Eis como os autores formulam a inter-relação do tema e da significação:

O tema constitui o estágio superior real da capacidade lingüística de significar. De fato, apenas o tema significa de maneira determinada. A significação é o estágio

inferior da capacidade de significar. A significação não quer dizer nada em si mesma, ela é apenas um potencial, uma possibilidade de significar no interior de um tema concreto. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 131)

Tendo em vista essa explicação, Bakhtin/Volochinov propõem outra distinção: de um lado, a investigação da significação contextual de uma palavra em uma enunciação concreta (tema); de outro, a investigação da significação da palavra no dicionário (significação). Assim, entendemos que o tema é a parte extra-verbal, a situação do enunciado; já a significação é a parte verbal, a palavra.

Outro elemento constitutivo do gênero é a forma composicional, o formato do texto, o modo de estruturar, de organizar o texto. Na afirmação de Stella (2006, p. 189), são “as

formas da língua em funcionamento dentro de um determinado gênero em circulação em uma determinada época”, formas essas que dão sentido ao gênero, ao mesmo tempo em que ganham sentido, porque circulam dentro de um gênero.

O último elemento que constitui o gênero é o estilo, cuja importância é destacada por Bakhtin. A estilística o estuda como uso individual da língua. Por isso, tratar do estilo na visão bakhtiniana, segundo Brait (2005), pode parecer contraditório, tendo em vista que para o autor russo e seu Círculo a linguagem é relação, pressupõe o outro, não sendo vista como algo subjetivo, pessoal. No conjunto bakhtiniano encontra-se a questão do estilo desde

Discurso na Vida, Discurso na Arte (1926), em que há uma reflexão acerca do conceito de estilo:

“O estilo é o homem”, dizem; mas poderíamos dizer: o estilo é pelo menos duas pessoas ou, mais precisamente, uma pessoa mais seu grupo social, na forma do seu representante autorizado, o ouvinte – o participante constante na fala interior e exterior de uma pessoa. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1926, p. 16)

O estilo explica-se pela interação dialógica entre duas ou mais pessoas; ele depende do modo como o locutor percebe e imagina seu destinatário. É importante o direcionamento do enunciado a alguém, ao destinatário, que tem força e influência sobre o autor e sobre o herói, o assunto do enunciado. Esse papel exercido pelo destinatário determina o estilo de um enunciado. Eis o que os filósofos escrevem:

Benzer Belgeler