• Sonuç bulunamadı

Este trabalho apresenta base documental sendo utilizados como fontes os atos normativos da Consocial como o conjunto de relatórios, atas e publicações dos órgãos envolvidos que discorram sobre a conferência. Tais dados foram coletados a partir de fontes secundárias, dentre elas: a Secretária-geral da Presidência da República e a Controladoria-Geral da União (CGU).

37 Para Cellard (2008) a base documental constitui-se como uma fonte extremamente importante ao possibilitar a representação dos vestígios da atividade humana em determinado período, incidindo como testemunho de tais atividades. Consideração a qual Gil (2008) parece também concordar ao destacar que as fontes documentais permitem o acesso ao conhecimento do passado e à investigação dos processos de mudança social e cultural, acrescentando ainda, a possibilidade de obtenção de dados com menor custo e com menor constrangimento aos sujeitos, como suas vantagens.

Com vista a determinar as limitações das fontes documentais, Cellard (2008) acrescenta que embora permitam evidenciar muitas questões, relevantes ao pesquisador, podem suscitar outras perguntas as quais não poderá responder sem a utilização de outra fonte de dados.

Teixeira, Souza e Lima (2012, p. 8), ao tecer considerações sobre o processo conferencial lembram que a base documental impõe limitações no que tange à determinação de como efetivamente cada um dos participantes foi escolhido, como exerceram sua representação, bem como outras condicionantes que podem passar despercebidas se a análise restringir-se a tal base de dados. Procurando vencer tais limitações, optou-se pela realização de entrevistas para que se compusesse um quadro analítico mais amplo acerca da realização da I Consocial.

Para Gil (2008) entende-se por entrevista “a forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação” (GIL, 2008, p. 109).

Entre as vantagens da entrevista citadas por Lakatos e Marconi (2003) destacam-se: a sua versatilidade em poder ser aplicada a variados públicos; sua flexibilidade no que tange à administração das perguntas e esclarecimento acerca destas; a oportunidade para obtenção de dados além da fonte documental; dentre outras. Para Bardin (2011) a entrevista é uma forma de oportunizar a expressão livre daquilo que a pessoa vivenciou, sentiu e pensou frente a determinada coisa ou acontecimento. Nela está presente a subjetividade e também a riqueza das falas, a singularidade dos posicionamentos, mas também sua expressão contraditória.

Sobre as limitações que podem incidir no processo, Lakatos e Marconi (2003) apontam: a dificuldade de expressão dos envolvidos na entrevista; a incompreensão do conteúdo das perguntas; a possibilidade de influência do entrevistado pelo entrevistador; variação no que tange à disposição do entrevistado em dar informações

38 e o dispêndio de tempo, o qual pode ser alto caso seja extenso o roteiro de entrevista (LAKATOS e MARCONI, 2003).

Como pontos fracos, Yin (2001) acrescenta ainda a possibilidade de que as respostas expressem visões tendenciosas em relação ao caso estudado frente à questões mal-elaboradas, à ocorrência de imprecisões devido à memoria do entrevistado e a reflexibilidade, entendida a partir da possibilidade do entrevistado dar ao entrevistador aquilo que ele pretende ouvir. Fatores limitantes os quais dificultam a realização das entrevistas e que demandam do entrevistado certa experiência para lidar com tais eventualidades.

Tomando-se cuidado para não incidir nas dificuldades inerentes ao processo, evidenciadas pelos autores anteriormente, procedeu-se a realização das entrevistas com representantes do poder público e da sociedade civil encarregados da organização da I CONSOCIAL. Tal procedimento foi realizado com vista a determinar as perspectivas dos entrevistados frente ao processo participativo, bem como através destas, apontar os limites e as possibilidades do processo, enquanto espaço de debate sobre Transparência e Controle Social.

Do rol de 40 representantes que compuseram a Comissão Organizadora3 da Conferência, 9 foram entrevistados entre os meses de novembro de 2015 e janeiro de 2016. Outras três contribuições foram dadas por meio de boletins de avaliação do processo conferencial elaborados por órgãos participantes que não puderam ser entrevistados.

Como limitações que se impuseram ao estudo indicam-se: a recusa de alguns em dar entrevista justificada pela pouca participação no processo e não se sentirem aptos à contribuir; a impossibilidade de estabelecer contato tendo em vista à mudança dos servidores para outras instituições; e a falta de documentação ou registro de como seu deu a participação ou intervenção dos órgãos na conferência, sendo tal participação realizada mais como uma atividade individual, não como participação organizacional.

De todo modo, acredita-se que os contatos realizados tenham sido suficiente para compor o quadro de análise da conferência dado o alcance de organizações que lidam cotidianamente com a temática tratada, dessa forma representam importante posicionamento a respeito do processo.

3

39 Como técnica de análise utilizou-se a Análise de Conteúdo, a qual Chizzotti (2006), compreende como sendo a consideração crítica do sentido das comunicações, do seu conteúdo manifesto, bem como as significações explícitas ou ocultas.

Segundo Bardin (2011), a análise de conteúdo compreende três etapas, sendo elas: 1) Pré-análise: seleção do material e a definição dos procedimentos a serem seguidos; 2) Exploração do material: implementação dos procedimentos definidos; 3) Tratamento dos resultados obtidos e interpretação: geração de inferências e dos resultados da investigação, onde as suposições poderão ser confirmadas ou não.

Após a seleção e exploração dos materiais concernentes à temática, os dados garimpados foram categorizados para melhor compreensão do fenômeno estudado. Como categorias analíticas utilizaram-se quatro âmbitos de análise propostos por Anduiza e Maya (2005): Quem participa? Como se participa? Sobre o que participa? E, quais as consequências do processo? Estes quatro âmbitos são utilizados para analisar processos participativos, como o fez Souza (2008), e servem de base para uma análise mais apurada sobre o objeto, tendo em vista a dificuldade em se chegar a um consenso sobre quais variáveis considerar.

Laville e Dionne (1999) denominam esta escolha antecipada das categorias no procedimento de análise de conteúdo, como “modelo fechado”. A partir deste modelo, o pesquisador decide as categorias e em seguida, submete o objeto de estudo à prova da realidade.

A partir dos quatro âmbitos já elencados, Anduiza e Maya (2005) atribuem critérios de avaliação e elementos a serem observados no processo participativo decorrentes destes. Soma-se também às dimensões de análise, a compreensão sobre como se deu a organização do processo participativo, compreendendo um quinto âmbito de análise. A discriminação dos itens a se observar bem como para embasar o estudo seguem no quadro 1:

40

Quadro 1.Elementos de observação para a análise de processos participativos

Âmbito Critério de Avaliação Elementos de observação

Organização do processo

Acordo Aceitação social, política e técnica Transversalidade

Grau de implicação com diferentes áreas políticas e técnicas; Existência de espaços para integração de áreas relacionadas

Iniciativa e liderança Origem da iniciativa; Respaldo da liderança Integração ao sistema

participativo

Existência de sistema de participação; Coordenação entre as ações

Clareza de objetivos Definição de objetivos; Objetivos como guias do processo; Resultados coerentes com os objetivos Planejamento e recursos

Existência e Cumprimento do planejamento; Causas de não cumprimento dos objetivos; Orçamento destinado ao processo; Recursos técnicos e humanos.

Quem participa

Quantidade de participantes

Destinatários do processo; Proporção de participantes em relação à população de referência; Proporção de atores organizados em relação ao total de referência

Diversidade

Presença de públicos normalmente sub-representados (mulheres, negros, jovens) e proporção em relação à população total; Perfil das organizações participantes; Ausência de algum participante ou organização-chave no processo

Representatividade

Forma como organizações escolhem seus

representantes; Debates intraorganizacionais para que o representante leve os interesses coletivos; Momento para fluxo de informações entre representantes e representados;

Grau de abertura do processo

Abertura das etapas do processo para participação da população; Seleção prévia de participantes; Restrição aos espaços de decisão

Sobre o que participa

Relevância

Tema é da agenda política do governo; Percepção da comissão organizadora sobre a relevância do tema; Realização de diagnóstico prévio para decisão dos temas a serem colocados em pauta; Porcentagem do orçamento afetado pelo resultado do processo Capacidade de

intervenção do órgão responsável

Competência do órgão responsável na matéria em questão; Envolvimento de órgão correlatos

41

Quadro 1. Elementos de observação para a análise de processos participativos

Âmbito Critério de avaliação Elementos de observação

Como se participa

Diagnóstico

participativo Envolvimento dos participantes no diagnóstico Capacidade propositiva Possibilidade de se fazer propostas

Grau de participação

Percepção dos *participantes sobre a profundidade do processo; Etapas do processo com seus objetivos e resultados

Qualidade da informação

Clareza, utilidade e conveniência da informação diante do perfil do público e objetivos do processo; Acesso à informação para potenciais participantes; Canais de difusão de informações; Pluralidade de fontes utilizadas no processo; Heterogeneidade de visões e opiniões; Percepção da comissão organizadora sobre a qualidade das informações disponíveis

Métodos e técnicas para o diálogo

Existência de mediadores no processo; Técnicas utilizadas para facilitar a intervenção de mais

participantes; Sentimento de escuta dos *participantes

Consequências do processo

Resultados

Forma de sistematização dos resultados; Impacto nas políticas públicas, utilidade e adequação aos objetivos; Percepção dos *participantes sobre os resultados atingidos

Implementação dos Resultados

Existência e funcionamento de órgão para

acompanhamento da implementação dos resultados; Ratificação institucional por órgão competente; Grau de implementação dos resultados; Composição do órgão para o seguimento do processo

Devolução dos resultados

Previsão da devolução no planejamento; Formato da devolução; Existência de validação dos resultados por parte dos participantes

Fortalecimento de relações sociais

Percepção dos *participantes sobre a melhora das relações entre si, entre organizações e participantes e entre organizações; Percepção dos *participantes sobre o impacto do processo na relação com o órgão

promotor; Melhora das relações entre órgãos do governo e no órgão promotor entre as áreas envolvidas

Capacitação

Ocorrências de atividades de capacitação; Assessoria técnica para a participação; Percepção dos

*participantes sobre a capacitação recebida Geração de cultura

participativa

Satisfação de *participantes com o processo, a utilidade de sua participação e a motivação para voltar a participar

Fonte: Anduiza e Maya (2005) apud Souza (2008, p. 146-149) e Souza (2011, p. 204-207)

* Participantes enquanto membros da sociedade civil engajados na organização da Conferência Para Souza (2011), o qual utiliza-se destes elementos para sua observação, para cada dimensão a qualidade da participação, compreendida como as características do funcionamento e operação das Instituições Participativas, é determinada da seguinte forma:

42  Quem participa: quanto mais ampla e diversa for a participação, melhor será

o processo participativo;

 Em que participa: a qualidade do processo é determinada quando a participação é direcionada a questões que a população possa influenciar;  Como se participa: pela forma com a qual o processo participativo obtém

suporte social, político e administrativo, bem como apoio material e técnico para a sua operação;

 Quais as consequências da participação: espera-se que a participação inspire decisões políticas e fomente a cultura participativa.