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Segundo Medeiros (2008), tratar da dignidade do trabalhador é um desafio que a autora considera instigante. Ela afirma que o trabalho é a matéria-prima, por excelência, da condição de se atingir a plena dignidade e sem ele o homem perece na essência, na condição de cidadão. Tão importante é o seu teor que no Brasil passou a ser realçado de forma mais intensificada a partir da Constituição Federal de 1988, cuja atenção está voltada, fundamentalmente, para a soberania do Estado e de toda a sociedade civil na implementação de ações positivas que venham a assegurar os direitos humanos. O próprio artigo 1º da

Constituição, inciso III, da CRFB abrange aspectos que vão desde a mão-de-obra mais simples, menos qualificada até os altos empregados com maior preparo e cultura (MEDEIROS, 2008).

Meireles (2008) elucida que a Constituição Brasileira de 1988 pretendeu valorizar o trabalho como instrumento de concretização do Estado Democrático e Social de Direito, tutelando, num primeiro grupo de garantias, os direitos trabalhistas fundamentais, individuais e coletivos, bem como, princípios protecionistas.

O papa João XXII, na Encíclica Pacem in Terris, de 1963, proclama o direito ao trabalho, em sintonia com os Direitos Sociais e a dignidade da pessoa humana, aspectos já realçados por Pio XI, e acrescenta o sentido de justiça salarial e de igualdade. Com respeito à capacidade e liberdade, como fatores de dignidade dos trabalhadores, ficam evidenciados numa maior participação destes na vida das empresas. É na Encíclica Laborem Exercens, de 1981 que fica destacada a importância do ser em detrimento do ter. (MEDEIROS, 2008).

Medeiros (2008) aponta que há um consenso entre os autores de que a implementação de condições mínimas de vida do homem é o caminho para se atingir a plena dignidade, e no campo da empregabilidade e do pleno emprego, a investigação é essencial. Para a autora é inegável a importância da qualificação e educação como condições essenciais para manter o trabalhador em boas condições de empregabilidade no mercado atual. Mesmo aqueles que ocupam funções mais simples precisarão de conhecimentos básicos necessários para interpretar manuais, de desempenho de máquinas, além do desenvolvimento de atitudes visando o processo de integração em equipe. Nesse contexto é destacado o modelo de trabalhador multiqualificado ou também chamado de polivalente, sendo esperada uma maior qualificação e desenvolvimento de várias habilidades e competências, o que poderá lhe permitir uma participação mais ativa na realização dos objetivos do capital.

"A pessoa humana é uma finalidade e tem direito a viver uma existência digna; uma ordem jurídica que funciona para a minoria, cujos bens defende, mas que é importante para dar satisfação às necessidades humanas, não poderá ser uma ordem justa. O Direito do Trabalho se apresenta como a iniciação de uma nova ordem e descansa no novo conceito de justiça. Sua ideia é dar satisfação às necessidades do homem que trabalha”. (Mário de La Cueva)

O investimento do capital na mão-de-obra e, portanto, na melhoria das condições de melhor servir não deve ter como meta, exclusivamente, a manutenção das empresas no mercado, mas deve se propor a promover a integração entre capital e trabalho com vistas às conquistas que envolvam um maior dinamismo e progresso social como um todo, objetivando o desenvolvimento de relações respeitosas e solidárias. Porém nada disso tem sentido se o homem não conquistar a sua própria dignidade, seu bem-estar, sua paz, pois a sociedade não pode ser saudável com seres doentes da emoção, aniquilados na necessidade de sobrevivência própria e de sua família (MEDEIROS, 2008).

Tomando como premissa a dignidade do trabalhador como um valor fundamental é essencial que a sociedade seja capaz de reconhecer a partir de que ponto as pessoas se encontram em situação indigna, isto é, consenso acerca do que seja conteúdo mínimo de dignidade, sob pena de se estar diante de uma grande crise de cunho ético e moral e, por isso, a constatação de que a dignidade é uma fórmula vazia e sem significado (BARCELLOS, 2002).

Uma matéria publicada no Jornal do Brasil, em 12 de agosto de 2007, o professor e na ocasião presidente da HSM do Brasil, Carlos Alberto Júlio traz uma interessante contribuição sobre a configuração do trabalho na sociedade moderna e suas consequências.

"Nesses novos tempos de exagerada competição, você poderá suspeitar de que se vive num mundo desumano, de hostilidades, egoísta e cínico”. Muitas vezes, você, terá razão. O ambiente de disputa permanente entre as empresas tende a endurecer as pessoas, tirar-lhes o espírito de solidariedade, como se essa virtude fosse incompatível com o mundo do trabalho. Em uma época de individualismo extremado, o engajamento profissional pode ser confundido com um jogo selvagem, no qual todos os outros devem ser vistos como adversários ou inimigos. A manifestação dessa síndrome é comum no universo dos executivos, mas também entre médicos, vendedores de coco verde e catadores de papel”.

(Carlos Alberto Júlio. Por que você trabalha? Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 12 ago. 2007. Caderno Serviços, E4).

Ainda na visão de Medeiros (2008), se a garantia de vida digna depende de maior capacitação, maior qualificação para a integração dos mecanismos da sociedade globalizada, faz-se necessário também que haja o desenvolvimento de formas que possam favorecer o próprio homem, sua família e a célula social, sob pena de se perder o objetivo da própria vida. A autora ainda ressalta que o trabalho deve ser motivo, no mínimo, de paz e bem-estar, mesmo que não possa ser de alegria e felicidade, nunca deverá fomentar relações marcadas pelo desrespeito das condições de cada trabalhador, tão pouco pela banalização da construção de um relacionamento pautado na urbanidade, atenção e preocupação com os outros segmentos da vida do trabalhador. Considerando ser a globalização elitista, seletiva e excludente, não há dúvidas que as políticas de desenvolvimento educacional e de preparo de mão-de-obra é a mola mestra da reconstrução e dignificação profissional. Por isso, o processo educativo, em sua forma mais global, tem caráter imprescindível à conquista da dignidade, incluindo a sua formação como cidadão para o mundo do trabalho (MEDEIROS, 2008).

Gosdal (2007) em seus estudos traz como reflexão a dignidade do trabalhador vinculada à noção de trabalho decente e ao seu conteúdo de honra, além do seu conteúdo de garantia de direitos mínimos, que não se tem a pretensão de negar. Para ela a dignidade é algo em permanente construção e reconstrução pela sociedade, devendo, portanto, ser compreendida como um conceito dinâmico, variável no espaço e no tempo, mas merecedor de um tratamento que não o esvazie de conteúdo.

Tratar da dignidade do trabalhador, sob a perspectiva do trabalho decente e da noção de honra, pressupõe compreender que a dignidade envolve elementos ideológicos, históricos e culturais, vinculando-se à vida concreta das pessoas, especialmente em suas relações de trabalho. (GOSDAL, 2007). Para Barcellona (2001), a dignidade deve ser compreendida além do âmbito jurídico, mas privilegiando uma compreensão dentro da dinâmica das relações sociais em que está inserido. Este autor reforça a ideia de que o ser humano é considerado indivíduo do mercado, que tem seus desejos e necessidades. Daí a concepção atual de direitos humanos não pode deixar de considerar os pressupostos da ideologia de mercado (...).

Jayme (2005, p. 1), conceitua os direitos humanos como “...o caminho a seguir na busca da felicidade, direito de todos os seres humanos (...). Para este autor, os direitos humanos são a via de realização da dignidade humana, devendo garantir o direito à vida, ao trabalho, ao acesso às condições imprescindíveis para a satisfação de suas necessidades materiais e

espirituais. Na sua acepção basta o indivíduo ser humano para tornar-se titular de direitos humanos (GOSDAL, 2007).

A expressão direitos humanos, num sentido que é mais difundido, deve ser reservada para os direitos positivados em normas internacionais, enquanto os direitos fundamentais são aqueles positivados no âmbito do Direito Interno dos Estados (FUSTER apud ALVARENGA, 1998). No entendimento de Sarlet (2004), o direito está classificado em direitos do homem (os naturais ainda não positivados); direitos humanos (os positivados na esfera do Direito Internacional); e direitos fundamentais (os reconhecidos pelo Direito Constitucional interno de cada Estado).

Segundo Gosdal (2007), a dignidade sob o enfoque do Direito do Trabalho pode ser compreendida de acordo com a noção de trabalho decente, propugnada pela Organização Internacional do Trabalho, especialmente a partir da Declaração da OIT relativa aos Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, de 1998, conforme já foi apresentado. Esta declaração, na verdade, reafirma normas de convenções e tratados já existentes. Para a OIT, segundo a interpretação de Luciane Cardoso (2003), o trabalho decente é o

“... desenvolvido em ocupação produtiva, justamente remunerada e que se exerce em condições de liberdade, equidade, seguridade e respeito à dignidade da pessoa humana. (...) Trabalho decente significa ocupação produtiva para todos os tipos de trabalhadores. A meta da OIT não é só a criação de trabalhos, mas a criação de trabalhos de qualidade aceitável, incluindo a ideia, por exemplo, de valor e satisfação.”

A dignidade, como já mencionado, precisa ser compreendida considerando-se o indivíduo concreto e em suas relações com os demais, em seus vínculos de pertencimento comunitário, como algo que está permanentemente sendo construído e reconstruído (GOSDAL, 2007).

Benzer Belgeler