3. DENEYSEL ÇALIġMALAR
3.3 Deneylerin YapılıĢı
De acordo com Read, o estilo é um dos conceitos mais indefiníveis da história da cultura. A derivação da palavra latina stilus indica que originalmente a conotação era pessoal: significa as peculiaridades das marcas feitas por um indivíduo usando um stilus ou pena165. Às vezes voltamos a este significado quando falamos do estilo como o traço de um pintor.
Tillich afirma que toda obra de arte possui três elementos: tema, forma e estilo. 1) O tema é virtualmente idêntico a tudo que pode receber a mente humana em imagens sensoriais. Não está restringido de nenhuma maneira por outras qualidades, como bem e mal, belo e feio, total e parcial, humano e inumano, divino e demoníaco. 2) A forma corresponde aos elementos estruturais do Ser em si e somente pode entender-se como aquilo em virtude do qual algo é o que é. Dá a coisa seu caráter único e universal, seu lugar especial, dentro da totalidade do Ser, sua força expressiva. A criação artística está determinada pela forma que utiliza elementos particulares, como sons, palavras, pedras, cores, e os leva a constituir algo que se sustenta por si mesmo. Por isso, a forma é o elemento ontologicamente decisivo em toda criação artística. Porém, a forma em si permanece modificada pelo terceiro elemento, o estilo. 3) O estilo matiza de um determinado e único modo as variadas criações de um período166. Isto é, oestilo é a forma geral, no qual, as formas particulares de todo artista particular e de toda a escola particular, ainda são visíveis como a forma geral; e esta forma geral é a expressão daquilo que inconscientemente está presente neste período como sua auto-interpretação, com a resposta à pergunta do significado último da sua existência. Estilo, com efeito, assinala uma interpretação própria do ser humano e, como tal, uma apreciação sobre o significado último da vida. Apesar de o termo estilo ser procedente do campo das artes, é possível aplicá-lo a todos os domínios da cultura.
164 Ibid., p. p. 113.
165 READ, H. Arte e alienação: o papel do artista na sociedade, p. 66. 166 TILLICH, P Teología de la cultura y otros ensayos, p. 67.
Quanto ao referencial temático de uma obra de arte, para Tillich, é importante, no entanto, não é determinante para atestar a relevância religiosa de uma obra, porquanto o que deve ser levado em máxima consideração é o seu estilo. O que dá validade religiosa a uma pintura, escultura, poesia, música..., não é, necessariamente, o seu tema, mas o seu estilo. Estabelece-se assim, um gradiente segundo o qual as obras mais completas, por assim dizer, seriam as que manifestam conjuntamente tema e estilo religiosos167.
Concomitantemente, qualquer que seja o tema que utilizado por um artista, qualquer que seja a forma, vigorosa ou débil, que utilize, não fará menos que expressar com um estilo sua preocupação última, que será também, em parte ao menos, a de sua época e seu grupo. Ela não pode escapar da religião, embora a rejeite, porque ela é o estado de preocupação pelo sentido mesmo da vida. Tillich pergunta se uns estilos são mais aptos para expressar o tema religioso que outros e ainda se há estilos essencialmente religiosos e outros essencialmente seculares. Diante dessas indagações, ele diz que não há estilo que exclua a expressão artística da preocupação última do homem, porque ela não está ligada a nenhuma outra forma especial de experiência ou coisa. Está presente e pode estar ausente em qualquer situação168.
O estilo na obra de arte é o referencial para se perceber a proximidade ou a distância da forma em relação à substância do ser essencial, isto é, ele é a forma comum que parcialmente determina a forma especial de um trabalho. No seu estilo artístico, uma sociedade, mais do que em qualquer outro lugar, para Tillich, traz a sua própria preocupação última. Por conseguinte, no ensaio Arte e Realidade última, a partir de uma interpretação metalógica169, Tillich mostra como determinados tipos de encontro com a Realidade Última determinam estilos de pintura. Ele sugere cinco formas possíveis de experiência religiosa com o Incondicionado, a saber; o sacramental, o místico, o profético, o idealista e o extático-espiritual.
O primeiro tipo de experiência religiosa e, segundo Tillich, o mais universal é o sacramental. Aqui, a Realidade Última aparece como o Santo, o qual está presente em
167 CALVANI, C. “Momento de beleza”. Revista Eletrônica Correlatio (www.metodista/br/correlatio) n. 8 (outubro de
2006).
168 TILLICH, P. Teología de la cultura y otros ensayos, p. 69.
169 A metalogia quer ir além (meta) da lógica (logia). Não se trata de negar a lógica ou suprimi-la, mas
transcendê-la. Por isso o pensamento lógico e racional é suficiente para dar conta apenas das conotações da forma, mas não é capaz de participar plenamente no significado do conteúdo, uma vez que esse tem aspectos “irracionais” ou “i-lógicos”, incapazes de ser totalmente dissecados pela lógica (CALVANI, C. 1998, p. 56).
todas as coisas, pessoas e eventos. Na história da religião, quase todas as coisas no seu encontro com o mundo converteram-se em importadoras do Santo, isto é, numa realidade sacramental170. O perigo religioso de toda realidade sacramental é a idolatria, ou seja, a tentativa de fazer de uma realidade consagrada sacramentalmente uma realidade divina, propriamente dita. Para Tillich, o estilo que mais se aproxima desse tipo de vivência é o realismo mágico, o que ele prefere chamar de “realismo numinoso” – termo extraído de Rudolf Otto. São apresentadas nesse estilo coisas cotidianas, pessoas comuns..., mas isto de uma maneira que os faz estranhos, misteriosos e com um poder ambíguo. O perigo artístico aparece quando as coisas são usadas meramente como símbolos perdidos sem poder de expressão. O segundo tipo de experiência religiosa é o místico. Neste, a Realidade Última é buscada sem a mediação de objetos particulares, considerados, para Tilich, obstáculos à comunhão divina. Os estilos artísticos mais próximos desse tipo de religiosidade são aqueles em que se privilegia a abstração. O terceiro tipo de experiência religiosa é o que Tillich chama de profético, sugerindo que a história toma o lugar da natureza como o lugar da manifestação da Realidade última. O estilo artístico correspondente é o realismo, mas não o numinoso. Aqui, a natureza perde completamente seu caráter sacramental. “O realismo crít ico apela diretamente ao ser humano enquanto agente histórico e, ao mesmo tempo em que julga suas realizações, valoriza suas possibilidades de reverter os acontecimentos”171. O quarto tipo de experiência religiosa é o idealista. Tudo que é aguardado pela esperança profética, isto no sentido de redenção da história, já é visto como realizado. O estilo destacado por Tillich, o qual se assemelha a esse tipo de religiosidade, é com tendências naturalistas. Por fim, o quinto e último tipo de experiência religiosa destacada por Tilich é o extático-espiritual, tendo seu correlato no expressionismo. Esse tipo de religiosidade é, segundo Tillich, ao mesmo tempo realista, mística e de cunho profético.
A história mostra, como sugere Tillich, que os estilos em que predominam as qualidades expressionistas se prestam com mais facilidade a uma manifestação artística da presença espiritual172. Este é o motivo por que não se criaram grandes obras de arte religiosa nos períodos em que esses estilos foram perdidos. Para Tillich, a religião não pode impor qualquer estilo ao desenvolvimento autônomo das artes. Isso contradiria o princípio da honestidade artística.
170 TILLICH, P. On art and architecture, p. 143. 171 CALVANI, C. Teologia e MPB, p. 78. 172 TILLICH, P. Teologia sistemática, p.647.
Porém, de qualquer forma, Tillich acredita que o Expressionismo se relaciona especialmente com a religião, isto é, o estilo expressivo compartilha a significação religiosa geral de todos os elementos estilísticos. Enquanto os demais, somente indiretamente representam à problemática da preocupação última, o expressionismo se ocupa diretamente dela. Porém, em si, é essencialmente adequado para expressar em formas diretas o sentido religioso, tanto por meio da temática secular quanto por meio da temática religiosa tradicional. O elemento expressivo de um estilo implica numa transformação radical da realidade – do ordinário – usando elementos de um modo que não se dá na realidade encontrada; a expressão rompe a aparência natural das coisas173. O artista real, então, expressa o que ele encontra nas dimensões da realidade que não podem ser notificadas de nenhuma outra maneira. Ele dá expressão simbólica à dimensão artística da realidade.
Dentro desta perspectiva, Portinari, através de Menino morto não apenas vê a insignificação da nossa existência, mas participa de seu desespero. Portinari enfrenta e assume essa realidade, tendo a coragem de mostrar todo o horror dessa insignificação em sua obra. Ele parece ter experimentado a gama mais variada de sentimentos: das lágrimas de pedra aos rostos atônitos e resignados, da dor gritada à dor surda expressa pelo olhar e pelo gesto vigoroso desses retirantes. Ao lidar com problemas tão sérios, de interesse último, com tamanha densidade e profundidade, Portinari mostra a inegável preocupação existencial que caracteriza qualquer ser humano.
Cores terrosas utilizadas nos corpos, onde raras pinceladas de laranja aquecem alguns pontos. Além disso, os tons frios dos azuis e verdes, empregados com parcimônia, se alternam e se misturam em áreas menores. O chão ocre, marcado por sombras se harmoniza com o colorido dos corpos dos retirantes. Os fundos se apresentam com céus azuis sombrios, entardecidos e horizontes mais claros174.
Portinari tenta entrar nos níveis mais profundos das pessoas a quem retrata. Ele só poderia fazer isso, na concepção tillichiana, mediante sua profunda participação na realidade e no sentido da pessoa a quem retrata. Só assim, ele estaria em condições de pintar esses seres humanos, de tal forma que seus traços superficiais não sejam reproduzidos como em uma fotografia, nem idealizados segundo o ideal de beleza do
173 Idem. Teología de la cultura y otros ensayos, p. 70. 174 LUZ, A. Op. cit., p. 94.
pintor, mas sejam usados para expressar aquilo que o pintor experimentou graças à sua participação no ser da pessoa retratada.
O predomínio do estilo expressivo, como assinala Tillich, na arte contemporânea, é uma possibilidade para o renascimento da arte religiosa. Nem todas as suas variedades são adequadas para expressar os símbolos religiosos. Porém, a grande maioria o é decisivamente. Segundo o teólogo alemão, nos estilos em que predominam os elementos não expressivos, a arte religiosa se mostrou deteriorada e o tema secular subjetivo ocultou sua base religiosa ao extremo de tornar-se irreconhecível. O redescobrimento dos elementos expressivos na arte desde 1900 foi um feito decisivo para a relação da religião e das artes visuais175. Esse feito possibilitou novamente a arte religiosa.
Como é sabido, o Expressionismo foi um movimento de vanguarda entre os anos 1910 e 1927, surgindo como uma reação à Escola de Paris e ao “Impressionismo”. Seu objetivo principal era uma renovação na pintura, absorvendo, diversas tendências das artes plásticas. O Expressionismo caracterizava-se em exibir nas pinturas cores fortes, e expressava fórmulas faciais carregadas de angústia e desespero.
A categoria de substância está perdida: objetos sólidos são torcidos como cordas; a interdependência casual das coisas é desrespeitada: coisas aparecem em contingência completa [...] As dimensões espaciais são reduzidas ou dissolvidas dentro de uma infinidade horrificante176.
Contudo, a verdadeira essência do Expressionismo não era a simples distorção em si mesma, mas a expressão do modo pelo qual a insatisfação humana com o estado da sociedade vinha à tona. Neste estilo, a realidade encontrada é usada como material para simbolizar uma preocupação última.
O Expressionismo vinha criticar a própria arte religiosa da sociedade capitalista, que reduz os símbolos religiosos tradicionais ao nível da moralidade da classe média e os esvazia de seu caráter transcendente e sacramental. O Expressionismo, portanto, apesar de sua aparente profanidade, tinha um caráter religioso, místico.177
Para Tillich, as artes expressam uma preocupação última através de seu estilo. Isso significa que toda preocupação artística é religiosa no sentido mais amplo de religião, já que nenhuma expressão artística pode fugir do fato de que ela expressa as qualidades da Realidade Última nas formas que têm. Para exemplificar, ele toma uma
175 TILLICH, P. Teología de la cultura y otros ensayos, P. 71. 176 Idem. A coragem de ser, p. 114.
pintura de Toulouse-Lautrec, A corner of the Moulin de la Gallette178
, uma cena do
Moulin-Rouge.
A pintura do ambiente festivo e de perversão no Moulin-Rouge expressa alguma coisa do poder do ser da Realidade Última. Isto é, essa pintura tem uma luz eterna e aponta para a natureza do solo divino de onde fora criada. A pintura de Toulouse-Lautrec é inteiramente secular e não tem nenhum relacionamento com a religião no sentido mais estrito da palavra, mas ela expressa o poder do ser. E tudo o que expressa o poder do ser é indiretamente religioso.
Tillich indica que o estilo expressionista, em algumas de suas formas, é a expressão de uma sociedade que ainda vive de uma substância religiosa, e que a arte revela o símbolo dessa substância179. Para entendermos melhor essas considerações, é importante destacarmos a conceituação que Tillich dá aos símbolos. O Expressionismo foi o estilo que, na visão de Tillich, melhor realizou essas funções da arte, tornando-se o movimento de maior caráter revelatório no início do século XX; ele se afasta do simples movimento horizontal e mostra a Presença Espiritual em símbolos da finitude rompida, sendo, para o teólogo, o genuíno elemento teônomo.
Por fim, em A dimensão perdida da religião, Tillich, a fim de descrever a atitude contemporânea relativa à religião, assinala que devemos verificar em primeiro lugar sob que formas a consciência da condição do ser humano ocidental no nosso tempo se acha
178 TOULOUSE-LAUTREC, H. A corner of the Moulin de la Gallette, (1892. The National gallery of art,
Washington, D.C. The Chester Dale Collection.
mais vivamente expressa. São elas, a arte superior, a literatura e, pelo menos em parte, a filosofia do nosso tempo. Para o teólogo, é tanto pelos temas como pelo estilo que estas criações revelam a luta apaixonada e muitas vezes trágica sobre o sentido da vida.
Esta arte, esta literatura e esta filosofia não são religiosas no sentido estreito da palavra, mas põe o problema religioso mais radicalmente e mais profundamente do que as expressões contemporâneas de caráter propriamente religioso [...] É o problema religioso levantado pelo pintor que desfaz em pedaços a superfície visível, para depois os reunir num grande quadro que pouca semelhança tem com o mundo que normalmente contemplamos, mas que exprime a nossa ansiedade e a nossa coragem em fazer frente à realidade180.