O avanço do turismo como tema mais econômico do que cultural tem tornado esse o ju to de atividades a po ta de la ça do dese volvi e to de lo alidades, regiões e até nações inteiras. A relação entre a riqueza gerada pelas atividades do turismo e o Produto Interno Bruto destes, desde os anos de 1980 e especialmente nos anos de 1990, tem se dado basicamente em dois eixos: o aumento de competitividade entre as empresas dos setores envolvidos – que buscam ampliar a oferta para abarcar novas demandas – e pelo aumento de competitividade entre os territórios – que buscam atrair o maior número possível de turistas por meio da promoção em
marketing e implantação de infraestrutura. Os dois eixos são complementares, embora
sejam guiados de forma diferente a depender do grau de consolidação das estruturas sociais, econômicas e culturais do território ou do Estado/Nação. Por conseqüência, os benefícios (bônus) e riscos (ônus) da atividade turística sobre um dado espaço geográfico irão depender da capacidade de reação desse território a uma dinâmica intensiva de utilização dos recursos existentes, sejam eles naturais, construídos ou simbólicos.
A partir do final dos anos de 1980, o mercado financeiro norteamericano começa a investir em turismo, especificamente na produção de hotelaria em diversas partes do mundo. Segundo Buades (2006) esse investimento decorreu como diversificação do próprio mercado imobiliário que apresentava problemas de valorização nos Estados Unidos, além de depreciação do dólar. Investir em hotéis
parecia naquele momento uma saída estratégica para evitar os riscos acumulados no imobiliário em algumas crises pontuais nos anos de 1970 e 1980.
Para o turismo isso representou um fluxo financeiro revigorante, pois sua capacidade de ampliação por compra de terra e imobilização do capital estava muito restrito, conforme assevera Buades:
La provisión de capital para la expansión hotelera daba, pues, un doble dividendo: la burbuja inmobiliaria sumada a la fácil repercusión de la inflación a través de los altos precios de las habitaciones proporcionaba pingües beneficios a bancos, fondos financieros y constructoras, mientras que permitía a los hoteleros poner en marcha planes de expansión impensables poco tiempo antes. Esta colaboración entre mercados financieros y hostelería impulso la productividad, obligó a mejorar los sistemas de gestión ante la necesidad de presentar a corto plazo rendimientos palpables al inversor externo y dio alas a una expansión inaudita de la oferta hotelera (BUADES, 2006, p.46)
Esse movimento do capital norteamericano ensejou, no início dos anos de 1990, a atração de capitalistas da Europa e Ásia, não apenas na construção de hotéis mas na implantação de resorts e flats em diversas regiões do planeta. Isso significou uma intensificação dos investimentos estrangeiros no turismo internacional, embora desde os anos de 1960 ocorressem fluxos como esse na Costa do Mediterrâneo. Com o aumento da oferta, os setores de transporte (aviação e marítimo) tiveram um empuxo na sua demanda abrindo possibilidades para vôos charteres e cruzeiros com destino ao Caribe, Mediterrâneo e sudeste asiático.
Desde mitad de los años 90, pues, puede datarse la hegemonía de compañías inmobiliarias, bancos y fondos financieros (juntos o separados) en la indústria turística. De hecho, la aceleración colosal de las grandes cadenas hoteleras actuales empieza entonces (BUADES, 2006, p.51).
O relacionamento entre turismo, mercado financeiro e imobiliário ampliou-se ainda mais com a utilização intensiva de Real Estate Investment Trusts (REIT), constituído normalmente como fundos de investimentos em bolsa de valores. Os REITs comercializados permitem a maior captação de recursos de diversos investidores individuais em projetos turístico e imobiliários em todo o mundo, especialmente na América Latina, Asia e Caribe. Em relação ao território isso representou o aumento
considerável no número de resorts turísticos de luxo em tamanhos cada vez maiores (com maior apropriação de área) e presença dos campos de golfe nos projetos.
O bônus econômico dessas atividades atraiu (e atrai) não apenas localidades, mas também as políticas nacionais de desenvolvimento, interessadas em uma fração dos US$ 944 bilhões de receita gerada por essas atividades, segundo a Organização Mundial de Turismo (2009). Esses recursos possuem como característica a dispersão e a fragmentação em setores díspares como aviação e alimentação, construção civil e vestuário, marketing e mobiliário, entre outros. Por essa pluralidade de atividades comuns tanto ao turista quanto ao habitante da cidade ou região, a exata dimensão das atividades turísticas é sempre um tema em aberto além da sua viabilidade enquanto setor econômico.
De modo usual, falar de economia do turismo dentro da lógica de produção dos espaços turísticos é abordar os níveis de ganho econômico para as empresas, para os territórios e para as comunidades envolvidas. Ao variar o ponto de vista de cada um desses setores, a noção de ganho e perda motivados pelo turismo também se altera. A começar pela Organização Mundial do Turismo (OMT) que compreende a importância do turismo no desenvolvimento social e formação de riqueza para a população envolvida, os impactos positivos do turismo decorrem de sua capacidade de atrair fluxos financeiros em gastos e aplicações, fluxos disponíveis fora do ambiente local – só dessa forma faz sentido falar em competitividade turística. Nessa lógica economicista da OMT, o turismo age como setor exportador de divisas de um país/região para outro, principalmente auxiliados pela variação cambial favorável (COOPER, 2007, p.170).
Considerando o ano de 2002, os principais países emissores de turistas e gastos totais, no mundo, foram Estados Unidos (US$ 58 bilhões), Alemanha (US$ 53,2 bilhões), Reino Unido (US$ 40,4 bilhões) e Japão (US$ 26,7 bilhões). Esse volume representa cerca de 40% do total e po tado pelo tu is o pa a o esto do u do nesse ano, demonstrando a capacidade dos países desenvolvidos em flexionar a economia do turismo conforme sua conjuntura (COOPER, 2007, p.173).
Nesse mesmo sentido, essa exportação também se dá de forma muito seletiva, pois 33,43% de toda a receita turística em 2002 (US$ 474,3 bilhões) foram
destinados aos Estados Unidos (14,04%), Espanha (7,08%), França (6,81%) e Itália (5,5%). Esses números (despesa-receita) revelam que embora o turismo-turista possua enorme capacidade de deslocamentos, a economia do turismo é fortemente concentrada em uma faixa Europa-EUA, variando entorno de 45% a 50% na última década em quatro ou cinco países desse eixo. Isso, por outro lado, não quer dizer que a economia nacional desses países dependa igualmente do turismo, muito pelo contrário. Ao analisar as contas do PIB nacional e do PIB turístico desses países, Cooper demonstra que – para o ano de 2001 – a Espanha dependia de 18% das atividades turísticas, enquanto o Reino Unido dependia apenas de 4,2% de receitas turística (COOPER, 2007, p.175). Esse fato decorre não apenas dos atrativos, destinos ou produtos turísticos, mas sim da diversidade de opções econômicas que cada país dispõe, relacionada a sua história e formação social específica.
Em resumo, as atividades que compõem o turismo respondem por aproximadamente 10% do consumo de bens e serviços mundiais, os gastos governamentais em propaganda e promoção do turismo representaram (em 2006) quase 4% do total de gasto público, além de impacto considerável (cerca de 6,5%) das exportações em bens, objetos, artesanato comprados por turistas. A partir desses dados Joan Buades assevera que,
El turismo se ha convertido en la primera indústria legal del capitalismo global. Los impactos indirectos (como la construcción) son mucho mayores que los directos, pero el empleo que genera es de baja calidad y mal pagado. Su potencial de sinergia con sectores líderes de la economía criminal es incomparable. Es una indústria joven y con grandes perspectivas de crecimiento y expansión, por encima de la propia economía internacional. Ahora bien, por sua naturaleza, su fragilidad es extrema ante los retos que plantean la explosión demográfica y las migraciones, una economía mundial orientada a la especulación y la degradación ambiental galopante. Finalmente, la gografia del turismo refleja la fractura norte-sur que separa ricos y pobres en el planeta. (BUADES, 2006, p.19)
Os impactos dessa economia do turismo sobre o território podem ser o se vados pelo vi s positivo de ag egação de valo a out os p odutos ão- tu ísti os , fo ação de u a ão de o a disponível e transformação do meio ambiente. Entretanto, isso só irá ocorrer se o destino turístico puder absorver todo o gasto gerado, isto é, a variar o grau de adaptação da economia local às necessidades
apresentadas pelo setor. Uma praia do litoral do Ceará ou do Rio Grande do Norte pode ser um forte indutor de fluxo turístico, mas não necessariamente a apropriação desse gasto estará localizada no destino. Isso vai depender das redes sociais e econômicas suficientemente capazes de capturar as frações desagregadas desse gasto. Nesse sentido, as ferramentas de transferência de renda e circulação internacional de valores monetários são fundamentais para o funcionamento dos serviços turísticos, em escala global. Mas essas transferências devem ser observadas não pelo viés da modernização econômica, mas sim pela perspectiva crítica do desenvolvimento geográfico desigual, tal como proposto por Harvey (2004).
O turismo no mundo contemporâneo exarceba as novas dinâmicas relacionadas com a compressão do espaço-tempo por meio dos fluxos financeiros e práticas sociais dominantes. A intensidade das transações monetárias, simultâneas, e da informação agregada espalham-se em rede, criando pontas de interseção no espaço vivido, concreto. Essas pontas alimentam e retiram dos espaços parte da riqueza gerada pelo sistema, mas sem se comprometer com metas de desenvolvimento. Metas estas defendidas pelos governos e entidades internacionais nos discursos de fomento ao turismo como elemento de integração entre os países ricos e pobres (BIB, OMT). As ramificações do sistema de acumulação global – pelo turismo e pelas finanças – articulam territórios em uma relação de dominação (não política ou militar) convergindo as práticas sociais para alimentar uma lógica de valorização dos espaços (destinos, na linguagem do turismo) para vender a natureza, a cultura, a paisagem e a própria imaterialidade envolvida na reprodução social. Segmentar o mercado é especificar cada destino para cada demanda agregada, em um contínuo de expansão da fronteira do turismo, pressionado pelo modelo de ciclo de vida a la Butler.
Mas esse é o panorama geral. As ramificações do mercado turístico no cenário internacional envolvem uma cadeia de agentes e setores intermediários específicos. As operadoras, as agências de viagem, o parque hoteleiro, marketing e publicidade, transportes e casas de câmbio, são alguns desses componentes. Parte dessa cadeia é apropriada primeiramente pelos mecanismos de emissão (no próprio país de origem) na forma de pacotes, passagens aéreas, reserva de hotéis, etc. Outra parte – a que
interessa aos espaços turísticos – é diretamente gasta nos atrativos e equipamentos instalados, sendo que fração dessa renda obtida é enviada novamente às filiais (no caso de redes hoteleiras) e praças financeiras (no caso de financiamentos internacionais). A parcela que efetivamente fica no local é de difícil mensuração devido aos vazamentos no sistema, ou como argumenta A. Mathieson e G. Wall:
Altos vazamentos têm contribuído para uma decepcionante performance da indústria do turismo e para sua falência em eliminar grande dificuldade na balança de pagamentos. Eles, certamente, não se restringem a indústria do turismo, mas são comuns a muitas formas de modernização em países em desenvolvimento. No entanto, a existência de altos vazamentos pode significar que o turismo, em sua forma presente, está fazendo menos do que pode para reduzir os problemas relativos à balança de pagamentos no mundo em desenvolvimento (Mathieson; Wall, 1982 apud FALCÃO, 1999, p.67).
O grau de informatização e uso intensivo de tecnologia de comunicação – nos anos de 1990 em diante - agravou ainda mais vez mais esse cenário devido a possibilidade do turista em realizar pagamentos via cartão de crédito, débito ou outras formas de troca, reduzindo o uso do dinheiro (moeda) em sua permanência no local. Cabe as empresas de atuação internacional buscar nos países pobres a diferença de competitividade não apenas pela qualidade, mas basicamente pelo preço de oportunidades:
No âmbito do mercado internacional, onde os produtos turísticos de várias nacionalidades são ofertados e vendidos, a prática desses preços mais baixos por alguns países consolida mecanismos de transferência geográfica de valor, em que parcela do valor produzido num lugar é, pelo menos parcialmente, realizado e contribui para a acumulação em outro lugar (FALCÃO, 1999, p.71).
Aqui é necessária uma transição da economia do turismo para a compreensão dos processos de valorização turística dos espaços e, em consequência, dos mecanismos de acumulação do capital pelo turismo. Em primeiro lugar, na própria citação de Falcão acima, denota-se o peso da teoria econômica ao observar a ênfase nos aspectos da macroeconomia relativos à balança de pagamentos entre países e a transferência monetária entre as praças financeiras. Esse é um modo de observar a economia do turismo ainda relacionada a própria economia nacional, como elemento
i teg a te da adeia p odutiva o se tido da ofe ta de e s e seu o su o. Entretanto, a economia do turismo possui singularidades relacionadas com o consumo dos lugares turísticos, não implicando necessariamente que todos os produtos turísticos sejam bens turísticos, o que cria um gap para se pensar em novos termos de valor turístico como base de compreensão das singularidades.