Um dos arquétipos mais significativos na experiência humana é o do herói. O desafio do herói simboliza o desenvolvimento humano e é evocado sempre que se faz necessária a auto-superação, o crescimento, ou seja, a ampliação da consciência. O processo de individuação é, portanto, uma jornada heróica, assim como cada desafio que a vida apresenta ao indivíduo. Assim, como o herói, a pessoa pode, dependendo da atitude consciente diante da aventura, fracassar ou vencer.
Von Franz (1988, p. 100) explicou como o arquétipo do herói pode ser constelado, ou seja, carregado de energia psíquica: “Uma situação de necessidade exterior, por exemplo, epidemias ou escassez alimentar, pode ‘carregar’ na psique
coletiva de um grupo a fantasia existente em si, de forma sempre latente, de um Salvador, ou ela pode intensificar fantasias pessimistas relativas ao fim do mundo”.
As tarefas do herói ilustram as tarefas da individuação no sentido de ampliar e desabrochar a personalidade. Whitmont, no trecho abaixo, reuniu as tarefas heróicas do desenvolvimento psíquico:
A busca do herói ou da heroína e o seu encontro com antagonistas mitológicos pode ser resumido, em linguagem psicológica, como o encontro do ego com os elementos formais típicos e sempre recorrentes da psique. Para a pessoa que trabalha com o inconsciente, surgem os problemas da adaptação inicial aos mundos exterior e interior (tipos psicológicos); o grupo coletivo continente (a persona); o conflito com a parte reprimida ou inaceitável da personalidade (a sombra); a necessidade de estabelecer um relacionamento com os elementos contra-sexuais secundários da psique – masculinos (anima) ou femininos (animus); e finalmente, o encontro com o núcleo suprapessoal da personalidade total e do significado de vida da pessoa (o Self). (WHITMONT, 1995, p.122)
Joseph Campbell (2003), um dos maiores estudiosos de mitologia de todos os tempos, identificou uma estrutura temática universal, encontrada em todo e qualquer mito produzido pela humanidade. Segundo Campbell:
Seja o herói ridículo ou sublime, grego ou bárbaro, gentio ou judeu, sua jornada sofre poucas variações no plano essencial [...] Caso um ou outro dos elementos básicos do padrão arquetípico seja omitido de um conto de fadas, uma lenda, um ritual ou um mito particulares, é provável que esteja, de uma ou de outra maneira, implícito – e a própria omissão pode dizer muito sobre a história e a patologia do exemplo, como o veremos (2003, p. 42).
Apesar das infinitas roupagens, particularidades de cada história, há um mesmo roteiro a ser seguido pelo herói, resumido nas seguintes etapas: separação, iniciação e retorno. Assim, o primeiro estágio, separação ou partida, é composto por um ou mais dos seguintes elementos: chamado para a aventura, recusa do chamado, auxílio
sobrenatural, passagem pelo primeiro limiar e o ventre da baleia. No segundo estágio, a iniciação, pode ocorrer o caminho das provas, encontro com a Deusa, mulher como tentação, sintonia com o pai, apoteose e a bênção última. No último e terceiro estágio, o retorno, o herói deve vivenciar um ou mais dos acontecimentos: recusa do retorno, fuga mágica, passagem pelo limiar do retorno, senhor dos dois mundos e liberdade para viver.
Os estágios descritos por Campbell referem-se, no plano simbólico, às tarefas empreendidas pelo ego para se diferenciar do inconsciente (partida), elaborar a sombra (derrotar os monstros), integrar a/o anima/animus (encontro com a/o deusa/deus),
reconstruir a persona (adequação dos papéis), posicionar-se de forma diferente frente às figuras parentais (mãe/pai), encontrar o sublime (diálogo com o Self), dividir o elixir
(conhecimento acumulado) para, dessa forma, ter mais liberdade de viver a partir da personalidade integral.
Segundo Campbell (2003, p. 27):
[...] a primeira tarefa do herói consiste em retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas regiões causais da psique, onde residem efetivamente as dificuldades, para torná-las claras, erradicá-las em favor de si mesmo (isto é, combater os demônios infantis de sua cultura local) e penetrar no domínio da experiência da assimilação direta, sem distorções, daquilo que C. G. Jung denominou “imagens arquetípicas”
Com a entrada no novo mundo, seja ele interno ou externo, há o confronto inevitável com o que Campbell denominou de “demônios infantis de sua cultura local”. Essa imagem derrama luz sobre a elaboração da experiência de expatriação de forma simbólica, quase literal. Osland (2000) pesquisou executivos expatriados americanos e constatou que suas experiências são bem representadas pelo mito campbelliano: “A metáfora do mito da jornada do herói ajuda os expatriados a olhar além da jornada física para a jornada transformacional interna que eles compartilham com outros expatriados no mítico ‘caminho do herói’” (OSLAND, 2000, p. 237).
De uma forma diferente e particular, a esposa acompanhante também vivencia a jornada do herói que bem ilustra a superação de seus maiores desafios. Quando se trata da heroína, Campbell (2003, p. 119) afirmou sobre o encontro com a contraparte sexual: “[...] é ela quem, por suas qualidades, sua beleza, ou desejo ardente, se mostra apropriada para tornar-se consorte de um imortal”. Nesse trecho Campbell, concebe a heroína ainda como parte passiva, dentro da jornada de outro herói. Sobre essa disposição do herói, unilateral e masculina, utilizada como modelo de desenvolvimento para ambos os gêneros, objeto de muitas críticas, Lima (2002) sintetiza: “questionam até que ponto o paradigma heróico é apropriado para descrever a trajetória especificamente feminina e indagam se tomá-lo como parâmetro universal não seria um viés patriarcal indisfarçado” (LIMA, 2002, p. 189).
Levando em consideração os protestos da generalização do herói masculino, bem como a riqueza simbólica do ciclo heróico campbelliano, muito útil enquanto modelo metafórico que ilustra o desenvolvimento da consciência, o ciclo de Campbell será utilizado de forma genérica para que seja incluída a experiência da heroína, esclarecendo as especificidades dos desafios do ego feminino.
A primeira diferença que se sobressai entre os gêneros é a relação com a contraparte sexual inconsciente: no caso do homem, é a anima e, no caso da mulher, o animus. Segundo Jung ([1921]1991, par. 759): “A alma parece possuir todas aquelas qualidades humanas comuns que faltam à atitude consciente. Mulher muito feminina tem alma masculina; homem muito masculino tem alma feminina”.
Uma releitura, portanto, faz-se necessária no estágio do encontro com a Deusa, que, no caso, da heroína se dividirá em duas partes. No que se refere ao encontro com a contraparte, a heroína se depara com uma figura masculina com a qual se une, representando o desenvolvimento das características masculinas em si: força, determinação, intelecto e sabedoria. O segundo desafio é o encontro do ego feminino com a Deusa, ou seja, a re-ligação com a natureza feminina. Essa perspectiva foi amplamente explorada por Maureen Murdock (1990), que desenvolveu a jornada da heroína com ênfase nas particularidades do ego heróico feminino, baseada no ciclo campbelliano.
A síntese da jornada da heroína de Murdock (1990) é apresentada a seguir: a) Separação do feminino, vivido como uma rejeição abrupta à passividade e
submissão.
b) Realização da jornada heróica exterior, na qual ocorre uma identificação com o masculino: busca de independência, poder e sucesso.
c) Despertar para a necessidade de conexão com o feminino, permeado por intensas crises e processo de interiorização.
d) Cura da cisão mãe/filha, quando ocorre o reencontro com o feminino profundo, validando os valores femininos, bem como uma integração com o masculino e habilidades adquiridas na realização da jornada exterior.
Na expatriação, de acordo com Korenblum (2003), o homem é o empreendedor que se ocupa da conquista para fora de casa e a mulher empreende esforços para dentro da família, da casa e da intimidade. A expatriação pode ser, portanto, um convite à interiorização da mulher e oportunidade para o contato com o feminino. No entanto, resta averiguar em quais situações o encontro se dá com o feminino passivo e em quais com o feminino profundo, bem como a integração do animus, mediante desenvolvimento das habilidades masculinas da personalidade da mulher. Para a consecução deste objetivo, é necessário compreender as projeções envolvidas no processo, ou seja, como a mulher enxerga seu marido e como acha que ele a enxerga, com qual parcelada psique , portanto, cada um fica encarregado na dinâmica familiar.
A análise de todas as etapas da jornada do herói de Campbell, comentadas do ponto de vista da esposa expatriada em comparação com o marido, executivo, encontra- se em anexo. Trata-se de material importante que trará subsídios para a análise, no entanto, um pouco extenso para permanecer no corpo do texto.
Por meio da compreensão dos conceitos de individuação, inconsciente (pessoal, cultural e coletivo), persona, projeção, complexo cultural e processo de simbólico, foi possível encontrar parâmetros para pensar a experiência de expatriação, do ponto de vista da transformação psíquica. Os arquétipos da criança divina e do herói auxiliam na formação de imagens que ilustram e guiam essa transformação.
O próximo capítulo segue explorando, de outra perspectiva, o processo de desenvolvimento das habilidades resilientes nesse mesmo contexto intercultural.